segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Meu dedo

Até os filhos voltarem formados para Corumbá, dois em agronomia e um em veterinária, eu acompanhava todo o trabalho de gado de todas as fazendas, ou seja, não passava nenhuma cabeça no brete sem eu estar junto para anotar. Até aquele momento, nunca tinha tido nenhum acidente mais sério, nem comigo nem com qualquer peão que estava participando. Com a chegada do primeiro, Beto, as coisas foram sendo divididas, até que em 2005 já não entrei nas programações, mas quando chegou o dia de encerrar os trabalhos, o Daniel me convidou a acompanhar. Era em Santa Gertrudes e iam desternerar uma bezerrada que segundo ele era espetacular. Pegamos o avião bem cedinho e uma hora depois estávamos tomando café na fazenda, com o gado já no mangueiro nos esperando. Às 7:30 começamos o trabalho. Quem fez isso por muito tempo não consegue ficar só olhando e

resolvi ajudar.
Ficava no meio do corredor do brete e quando algum bezerro caía eu o ajudava a levantar. O brete, que é um corredor de madeira, tem umas travessas que travam uma parede na outra e são altas o suficiente para o boi passar por baixo. Quem trabalha fica fora desse corredor, lógico, e em cima de uma passarela que vai por toda extensão do corredor.
Lá pelas tantas, cai um bezerro bem na minha frente. Abaixei para levantá-lo pelo rabo e apoiei a mão nessa travessa. Nesse momento, uma novilha que estava por trás do caído resolve passar por cima do mesmo e pula sobre ele. Ia bater sua cabeça contra a minha que estava abaixado. Quando vi que a bicha veio, tive que levantar muito rápido e usei a trava para apoiar a mão. Consegui livrar o corpo mas o animal bateu com a cabeça nessa trava. Ela não machucou porque meu dedo amorteceu a porrada, senão teria quebrado a cabeça da coitadinha. A primeira impressão é que tinha colocado o dedo em uma tomada de 220v, pois senti um puta choque. Quando olhei para minha mão, aí foi como se tivesse colocado o saco em uma tomada de 440v. A ponta do dedo indicador tinha sido arrancado com osso e tudo. Não tinha caído no chão porque uma pelinha o segurava no resto do dedo. O osso tinha quebrado bem na última falange e estava a amostra. Por alguns segundos, nada além do choque físico e emocional. Quando consegui falar foi:
- Pessoal, perdi meu dedo.
Aí veio o sangue e a dor, muito sangue e muita dor. Daniel ficou branco e não sabia pra onde correr. Parecia aqueles filmes que as coisas passam em câmara lenta e os sons somem. Quem se mexeu primeiro foi o Everaldo, que os amigos chamam de Negão, e é o nosso eletricista. Tirou sua camisa, pegou o meu dedo pendurado, colocou no lugar como se fosse daquele dedais antigos de costura e enrolou a camisa nele. Alguém correu na frente e quando chegamos na sede, que fica a uns 100 m do mangueiro, o Zé Mauro já estava com o avião funcionando. Para estancar o sangramento, usei o relógio que tinha pulseira de couro para garrotear o pulso e com isso ia controlando o sangramento. Apertava muito a pulseira e quando a unha do dedão começava a roxear afrouxava a mesma. O intervalo era de uns 15 minutos. Assim que o celular deu sinal avisei Beá para preparar médico e hospital que estava chegando com um corte nas mãos. Tentaram costurar a ponta do dedo mas com dois dias a infecção tomou conta e fui para São Paulo. Fiquei uma semana no Einstein tomando antibiótico na veia para combater a infecção e definir qual parte do dedo seria amputada. Após esse prazo a ponta que tinha sido cortada mumificou, ficou pretinha, a coisa mais esquisita. Com isso o médico, Dr. Falopa, definiu que perderia a metade da primeira falange, mas teria que fazer um enxerto. Queria costurar meu dedo, ou na palma da minha mão ou na barriga. Não concordei com nenhuma das duas soluções e acabaram por retirar carne do cutelo da mesma mão e implantar no dedo. Em um espaço muito pequeno, tomei 80 pontos. Parecia o dedo do Frankstein, ou o que sobrou dele.
Mas como tudo na vida tem uma parte boa, tive a maior demonstração de amor da minha vida. O Rafael, meu neto, devia estar com uns 4 para 5 anos e Laura pediu que não deixasse ele ver meu dedo para não ficar impressionado. Estava dormindo no sofá e quando acordei vi que o curativo, que nada mais era que um dedo de luva para tampar o mesmo, tinha caído e o Rafael estava olhando todo assustado para ele. Quando o vi falei:
- Vovô machucou o dedo. Mas não tem problema. Vai nascer outro.
- Ta doendo? - ele perguntou.
Ele ficou olhando aquele dedo cotoco cheio de ponto com o enxerto meio de outra cor. Laura tinha razão, era mesmo horrível.
Foi quando percebi que a cara dele era de dó, não de medo ou de nojo. Como toda vez que ele dava uma batida e chorava de dor eu beijava onde tinha batido e falava que passava a dor com o beijo, falei para ver sua reação, estendendo o dedo em sua direção:
- Dá um beijo nele que passa.
Ele não vacilou nem um segundo e se não sou rápido ele tascava o beijo na minha ferida. Quis gozar com ele e acabei chorando de emoção e ele ficou sem entender, pois se eu estava chorando de dor porque não deixava ele dar o beijo para passar.
Fiquei bom, sem a ponta do dedo, e a única falta que ele me faz é para abotoar a camisa. No começo todos me gozavam com as piadinhas típicas, de que tinha perdido 10% do meu apetite sexual e outras besteiras mais. As melhores foram quando Beto perguntou a que horas íamos para a fazenda e quando apontei os dois dedos para falar duas horas o maledeto gritou:
- Não pode ser as duas, uma e meia é muito cedo.

No aeroporto de Paris, com Mena, Cauto e Beá, ninguém falando nada de francês, pedimos 4 cafés e indiquei o quatro com a mão escondendo o dedão. Quando vi que o garçom olhou para o dedo cotoco repeti:
- 3 longos e um curto.
Apesar de falar em português ele entendeu e saiu dando risadas. Os netos são os que mais se divertem. Tenho que mostrar a todos os amigos e o que mais gostam são das fotos que parecem montagem.

-Que vão os anéis desde que fiquem os dedos.
Quando dei a notícia a ele, brinquei que dessa vez eu salvei o anel, já o dedo... foi pro saco. Apesar da brincadeira ele chorou.
Coisas da Vida.

Um comentário:

  1. Rosa Maria Marinho Correa De Barros3 de agosto de 2010 às 00:59

    Arnaldo disse q/ 80 pontos é mto. Vc devia ter deixado o médico fazer o retalho da palma da mão. Teria ficado ótimo e c/ menos pontos. Bjos

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