segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

"Luizinha do Cacete"

Tem coisas que não dá para entender nem com inteligência, nem com esforço – e não vou ser ateu de dizer que nem com a ajuda de todos os deuses. Fazem leis idiotas, e temos que escolher: ou ser idiota, ou não cumprir a lei. Decisão dificílima. Outro dia, uma hora da tarde, sol a pino com temperatura de mais de 50 graus, em Corumbá frita-se um ovo no capô do carro, só eu na rua e parado em um cruzamento no farol vermelho. Não passava ninguém na minha frente, nem de carro nem a pé. Comecei a me perguntar o que eu estava fazendo ali. Me sujeitando à burrice de alguém que achou que aquele cruzamento merecia um sinaleiro. Lembrei de meu curso de engenharia de tráfego, feito 40 anos atrás. Será que tinham mudado os princípios? Sinaleiro é para interromper o fluxo em um sentido e permitir o escoamento no outro. Moro aqui desde que nasci e nunca teve fluxo contínuo naquele cruzamento, hora nenhuma do dia.
Comecei a filosofar. O que era mais importante? Aquela "luizinha" vermelha na minha frente ou a minha capacidade de raciocínio, junto com o conhecimento das leis e da engenharia de tráfego? Dúvida do caralho. Quem foi o filho da puta que mandou instalar aquele sinaleiro ali? Bicho burro. Bastava uma rotatória, coisa inteligente, que não gasta energia nem para funcionar o farol (que é pouca), nem para fazer funcionar todos os carros que ficam ali parados esperando aquela merda vermelha virar verde sem passar ninguém na frente. Deviam suprimir o vermelho, deixar só o amarelo e verde. Amarelo: olhe bem e vai; verde: dê uma olhada rápida e vai. Estava nesse devaneio, já querendo ser prefeito, só para tirar todos os faróis de Corumbá e colocar rotatórias em todos os cruzamentos, quando a buzinada do cara de trás me deu um puta susto.
A "luizinha" tinha ficado verde. Desisti da candidatura e fui para casa almoçar.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O que interessa é o produto.

Tem gente que é muito inteligente e outras por demais esforçadas. Já vi de tudo neste mundo e posso garantir que o que interessa é o produto. Fico triste quando vejo pessoas muito inteligentes não se esforçarem para achar soluções melhores para seus problemas. São aquelas pessoas que começam a sua vida estudando quase nada e passando na média, e acham isso muito bom. Vão chegar em um lugar muito aquém de onde poderiam se fossem mais esforçadas. Não vejo a menor possibilidade dessas pessoas que deixaram nome por onde passaram não terem dado tudo de si no que fizeram e de terem uma inteligência bem acima da média. Às vezes o esforço até compensa uma falta de genialidade. Estava conversando sobre isso com um amigo que começou como bancário, teve a inteligência de ver que a cidade precisava de uma companhia de seguros personalizada, se dedicou a fundo a isso e se tornou um pequeno empresário de sucesso, e sou cliente dele. Passados alguns anos, talvez muitos, ele novamente percebeu que a cidade precisava de um novo supermercado, abriu um e agora é um grande empresário de sucesso, e sou fornecedor dele. Nessa conversa que tivemos, falei a ele sobre a minha teoria do produto da inteligência pelo esforço, quando ele completou a mesma colocando um terceiro fator nessa multiplicação: a benção de Deus, que os ateus chamam de sorte. Concordei plenamente com ele e aperfeiçoei a minha formula: Sucesso = Esforço x Inteligência x Benção.

Interessante notar que nós podemos desenvolver a inteligência, mas com esforço: estudando, exercitando o cérebro. Já quanto à benção, podemos ajudar o homem ficando atento às oportunidades; mas isso necessita esforço. Agora, o esforço é a única coisa que só depende de nós mesmos. Nada me deixava mais triste do que ver um filho com dificuldades na escola e achando tempo para outras coisas que não estudar. Meu pai sempre falava que não interessa o que você faz, mas procure ser o melhor naquilo que estiver fazendo. Era a teoria do máximo esforço, na linguagem dele. Existem outras que levam ao mesmo ponto, e uma das que mais gosto é aquela: "Faltou inspiração, compense na transpiração". É incrível como as pessoas gostam de se passar por inteligentes. Tive colegas que varavam a noite estudando para uma prova, chegavam na escola com umas puta olheiras e mentiam que estavam na farra. Era a preparação do terreno para o caso de, se fossem mal na prova, passarem por vagabundos, nunca por burros. Não conseguia entender a teoria deles. Não me envergonho de dizer que se o meu produto é bom – e eu acho que é – meus principais fatores são a benção de Deus (apesar de ter sido o último a ser introduzido na minha fórmula), depois o esforço e, por último, a inteligência. Me orgulho dessa ordem. Gostaria que meus netos tivessem, com seus 10, 12 anos, essa visão que tenho com meus 62. Sei que isso é muito difícil, mas fico me esforçando para dar o CLIC e ligar essa ideia neles.

A merda é que o tempo passa muito rápido e, quando assustamos... lá se foram 50 anos.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Decisões rápidas.

Tem decisoes que você tem que tomar sem aquele tempo mínimo de processamento necessário para o cérebro dar o comando. Já lembrei aqui de tio Michel e de como aprendi a lutar boxe com ele: a principal lição que tirei de todos os meses ou anos de treinamento foi que o importante é bater primeiro. Vai haver o confronto; não vacile, bata primeiro. O resto foi só treinar como bater. No primeiro ano de faculdade, comecei a fazer Karate, era a luta da época. A escola era a Brasil Karate Kiokai, ou algo parecido com isso. Achei que meu mestre ia ser um japonês com cara de Bruce Lee, e me decepcionei, num primeiro momento, quando conheci o Milton – cujo apelido era Séverino, um cearense de cabeça chata, mas bom pra burro e que tinha sido campeão de várias competições da época. O bicho andava pelas paredes, era incrível. Nunca mudei de faixa, não levava jeito para a coisa. Começava o treinamento como karateca, e no meio da luta eu estava lutando boxe. Mas valia pelos exercícios e os kátás, em que você harmonizava o corpo com o espirito. Nunca entendi isso direito, mas era o que repetiam até a exaustão. Mas, como no boxe, uma única coisa ficou gravada: quando você resolver fazer uma coisa, vai fundo, não vacile. Quando dava aqueles socos de cutelo para quebrar uma tábua, o mestre falava que a pior coisa era você bater achando que a porra não iria quebrar. Nesse caso, não quebrava mesmo, e toda energia cinética da sua mão, ao invés de ser dissipada na tábua, era absorvida pela sua mão mesmo, e doía pra cacete.
Quando me falaram que não existia nada que um magnum não parava, seja campeão de boxe ou faixa preta de Karatê, comecei a fazer tiro ao alvo para posteriormente tirar porte de arma e portar o magnum. De todo o treinamento, ficou um único ensinamento: não aponte a arma para alguém se você não estiver disposto a atirar. São procedimentos que devem se tornar automáticos, eliminando o tempo de processamento. Sempre conversava sobre isso com Bea, e ela teve a oportunidade, apesar de mulher, de colocar isso em prática. Os filhos estudavam em São Paulo, eu estava na fazenda e ela, só com a cozinheira e sua filha de colo. Quando ela ouviu esta última gritando desesperada, correu para a cozinha; e quando saiu na área de serviço, deparou com a cena. A empregada com a filha no colo longe da porta, e um negão trepado no muro entre ela e as duas. A casa do lado, cujo muro fazia divisa, estava desabitada, e o ladrão, não encontrando nada para roubar, resolveu pular o muro e entrar na nossa casa. Num primeiro momento, para analisar o terreno, ele ficou em cima do muro. Não conhecia dona Bea – que não vacilou, voltou para dentro, pegou meu revólver, um 38, cano de 6 polegadas e voltou para a cozinha.
Chegando lá e encontrando o artista ainda em cima do muro, falou:
– Desce daí, pois vai ser no três.
Como o cara não se mexeu, ela apontou o trêsoitão para o meio dos olhos do ladrão e falou:
– É um... É dois...
O cara não se mexeu, e nisso ela engatilhou a arma. Antes de falar o "é três", o bicho saltou de qualquer jeito de volta para a casa abandonada. Ele tinha certeza que ela ia atirar, e eu também.
Recolheu a empregada com a filha para dentro da casa, trancou a porra da cozinha e deixou o ladrão e a coragem do lado de fora. Estava tão nervosa que não conseguia desengatilhar a arma. Teve que chamar Pedro, seu irmão, para fazer isso e verificar se o cara tinha ido embora. Não só foi, como nunca mais voltou. 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

O navio e a pena


Acho que era falha minha como "explicador", mas em compensação, o argumento dela era o pior possível. Ela só repetia: "mas o PÁDUA não fala isso. O mais pesado cai mais rápido." E eu não sabia que de que catso ela estava falando. Conhecia Newton, Eisntein, Engler, Leibniz e outros, mas nenhum Pádua. Estávamos discutindo quem caía mais rápido – em queda livre e no vácuo –, se um navio ou uma pena. Não conseguia mostrar para Bea, minha noiva de 18 anos de idade, e às vésperas de nos casarmos, que no vácuo não entra a massa dos objetos em queda livre. Quanto mais falava, mais ela me olhava estranho. "Larga um navio e uma pena de cima de um prédio, e os dois chegam juntos ao solo? Que coisa mais idiota!" Ela não prestava atenção ao fato de que a aceleração da gravidade age igual em todos os corpos, e não tendo o ar para segurar a pena e fazer com que ela caia fazendo ema, o espaço percorrido era igual, a velocidade inicial era zero pros dois, e a aceleração, gravidade pros dois, resultaria no mesmo tempo do percurso. A minha "ira" vinha com o argumento: "O Pádua não ensinou assim". Resolvi perguntar quem era a porra do Pádua, e a resposta quase acabou com o noivado:
"Meu professor particular, e está no terceiro ano de engenharia, bom pra caramba."
Eu era engenheiro – recém formado, tá certo, mas já pronto, não em fabricação. Era um dos melhores alunos da minha classe, e ela me falando de Pádua, de uma maneira que eu já estava me sentindo um idiota, pois nunca tinha nem ouvido falar em nenhum cientista, físico ou o que quer que seja com esse nome. O carinha era um professor particular mequetrefe, e ela não escutando eu falar de Isac Newton e outras feras, que agora até já esqueci, para convencê-la daquilo. Finalmente o amor venceu, e acabei a convencendo de que eu sabia mais física do que o Pádua. 
Sempre fui um cara convencido quando se trata de matemática e física, e tomei a minha primeira fubecada com 50 anos ou mais – e o pior, de uma estudante de cursinho. A minha afilhada, Maria Emilia, estava estudando equilíbrio de forças em corpos em movimento, quando começamos uma discussão sobre forças atuantes em um carro numa curva. Baixou o espírito do Pádua em mim, e entrei numa de força centrífuga que não existia, e acabamos por apostar 1 contra 100 que ela estava errada. Como burrice não tem idade, ela estava certa, e eu perdi. Ainda bem que ela não deu uma de Tadeu e tripudiou em cima de mim; só ficou muito feliz com seu carrinho novo, ganho na maior moleza. Na realidade, não: o carro foi ganho com muito estudo, pois ela era uma ótima aluna e acabou entrando na faculdade de psicologia; não gostou, e agora faz arquitetura e é fera na área. Muito melhor do que o Pádua... e que eu também.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Ieda x minhas meias.

Ieda trabalha para mamãe desde que eu me entendo por gente. Acho que entrou criancinha em casa. Lembro-me dela controlando papai, que queria mais uma esfirra e ela negava, deixando-o muito puto. Tinha que ser "muito de casa" para fazer isso. Quando vi que eles acabariam saindo no tapa, acabei trazendo a Ieda para trabalhar em casa. Papai faleceu e mamãe veio morar comigo, e assim reencontrou a Ieda. Ela é muito engraçada e, como é uma senhora bonita, só a trato por Ieda Maria Vargas. Quando lhe contei que esta foi Miss Brasil, e uma das mais bonitas, ela ficou toda faceira com a comparação. É ela quem cuida das nossas roupas, e é a única que mexe nos nossos armários.
Bea resolveu comprar aquelas meias simétricas para mim. Para diferenciar, vem um D bordado em um pé e um E no outro. Na primeira vez que a Ieda guardou as meias, casou D com D e E com E. Chamei-a e expliquei que D era o lado direito e E o esquerdo, e por isso tinha que casar o par diferente, e brinquei: que nem casamento, tem que ser homem com mulher. Mas a confusão aconteceu com a mudança de marca. A Nike vem R e L, e já tive que explicar para ela que era Rigth e Left, direita e esquerda na língua do fabricante das meias. Lembrei das brigas com papai, porque ela saiu resmungando que agora ia ter que estudar "ingrês" para guardar minhas meias. A pérola veio na terceira compra de Bea. Ela me chamou e, como a melhor defesa é o ataque, já veio com os dois pés no peito, falando:
– E agora, como que caso os pés? Não tem D com E, L com R, veio ou tudo errado ou isso é daqueles casamentos de tudo do mesmo sexo.
Olhei pra aquele lote de meias com os pés separados, sem entender; quando ela completou:
– Num tem nenhum R aí. Só L. Compraram errado ou o senhor tem dois pé esquerdo, pois L é o tal do lefete, não?
Quando olhei, percebi que as meias eram das tradicionais, e o L era da marca, LUPO. Pensei comigo, "agora fudeu!".
Ela resolveu insistir que não tinha entendido aquela história direito. Esse negócio de simétrico não ser igual não tinha lógica. E completou:
– Se é diferente, não precisa escrever o lado. Pode olhar no seu sapato se tem escrito lefete ou rigete ou lá o diabo que seja. Se lá não precisa, por que na meia que vai no pé precisa?  
Realmente, tinham acabado meus argumentos. Pedi para a Bea não comprar mais meias simétricas. A Ieda tinha acabado de dar um nó no meu cérebro.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Os dois lados da historia


Ficar velho é uma merda, mas a alternativa é pior ainda.
É incrível como a opinião da gente vai mudando com a idade. Quando jovens temos certezas absolutas. O certo e o errado têm uma clareza cristalina, que vai se turvando com os anos, junto com o cristalino de nossos olhos (trocadilho besta!). Começamos a entender que todo fato tem versões e, de acordo com o lado, ele é contado de maneiras diferentes. Quando conhecemos uma pessoa de modos delicados e que é nosso amigo, é um sujeito fino; se é nosso inimigo, uma bichona. Cara que pega todas as mulheres: se é amigo, é pegador; inimigo... galinha.
Tem gente que fala que a História é a senhora da verdade; mas já ouvi de muitos entendidos que mesmo ela, por ser escrita pelos vencedores, tem tendências e, logicamente, elas são deturpadas. O importante é não querer conhecê-la de uma única fonte e, se você tiver que tomar atitudes baseado nelas, agir de acordo com sua consciência do momento. Não ter medo de errar, mas não ser precipitado, nem ficar parado pensando na coisa a vida toda. Conheci muitas pessoas que tinham projetos maravilhosos e nunca realizaram nenhum.
Procurar fazer o melhor de si, mas tendo consciência de que o ótimo é o maior inimigo do bom.
Lembrar que a vida é uma estrada e que, por onde você vai passando, vão ficando rastros de flores ou de mato – mas o pior é você não deixar rastro nenhum. Você não volta mais por ela, mas vai deixando marcas para os que vêm por trás.
Por exemplo: eu e Bea sempre tivemos muito em comum, mas algumas divergências: a principal era sobre o castigo de filhos. Os procedimentos eram um pouco diferentes. Quando ela pegava dois trocando tapas, já grudava os gladiadores pelas orelhas e punha ambos de castigo, sem escutar nada. Eu já queria identificar o culpado e punir só este. Nunca dava certo, e eu acabava punindo o menos inventivo e só descobrindo isso depois. Adquiri a sua mania com a célebre frase: "não quero saber, quando um não quer, dois não brigam". Racional é mais fácil; às vezes, incoerente. 2 a 1, adotei a tática. Nas minhas memórias de infância, lembro de uma briga com Tontonio, quando papai apartou e no últimos momento acertei um tapa nele. Separados, um em cada lado da mesa, fiquei gozando dele quando começou a avermelhar a marca de minha mão em seu rosto. Nesse momento ele simulou que eu tinha lhe dado um chute na canela, por baixo da mesa, e papai me executou, porque não acreditou que eu não tinha feito nada. Apanhei e saí sem almoçar.
E o pior foi ficar vendo o sorrisinho sacana, de vitorioso, no rosto do Tontonio. Às vezes uma boa mentira é mais aceita que uma verdade esquisita, e cola mais fácil. É o ruim da lógica – mas não tem nada que seja 100%, e isso é lógico. 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Teoria da relatividade.


Aquele dia eu estava com a macaca. Não conseguia achar um erro nas vendas da distribuidora, e tudo me irritava. Qualquer som, por menor quantidade de decibéis que tivesse, me tirava a atenção. A campainha do escritório é daquelas repetitivas: você aperta a bicha uma vez só e ela faz dim-dom duas vezes, e no mesmo tom e altura. Ela tinha acabado de tocar, e eu estava me perguntando porque era assim - se o nego não escutou da primeira, o que adianta tocar igual uma segunda vez? - e já me recriminando, pensando em como uma coisa daquelas já serviu para desviar minha atenção dos débitos e créditos. Quando consegui voltar ao problema... toc toc, batem na minha porta. Escritório de pobre, não tenho destrava automática da porta e ela só abre por dentro, lá parei de novo para abrir a porra da porta. Era a Andreia, nossa chefe administrativa.
Andreia é uma mulher de uns 30 anos, extremamente simpática e bonita, mas está acima do peso, bem acima. Abri já perguntando quem era, e me surpreendi pela resposta:
- É um gordão, que quer falar com o senhor.
Aquilo me assustou, pois gordo não chama outro gordo de gordo e, ressabiado, mandei o cara entrar. Quando ele apontou na antessala, entendi o "gordo" da Andreia. O cara não era gordo... era um monstro. Minha porta, que é de duas folhas e uma está sempre travada, teve de ser toda aberta. O cara era muito grande e gordo, realmente. Devia ter quase dois metros de altura e mais de 180 kg, tranquilamente. Depois de atendê-lo (era um funcionário novo), a Andreia voltou à minha sala, e nessa hora eu já estava desistindo de achar o erro de cálculo. Resolvi relaxar um pouco e falei pra ela:
- Você gosta de anunciar o Rafael (esse era o nome do monstro) para mim, né? Você pode falar que é um gordo.
Ela, muito desembaraçada, respondeu:
- O senhor sempre fala que nada neste mundo é alguma coisa por si só. Tudo é relativo.
Isso me fez lembrar de um acontecido de mais de quinze anos atrás, e contei a ela:
Foi com um casal: ela é Soraya, minha prima, filha de tio Jamil. Acho que o nome é com Y mesmo, igual a Xabanu da Pérsia. O marido, o Gelson, com l mesmo, é um cara muito fino e fiquei muito surpreso quando soube que ele tinha brigado na boate. No primeiro encontro com os dois, fui assuntar para saber o porquê da briga, e rachei de dar risadas com a resposta.
Ele começou:
- Recalque antigo.
Achei que ele tinha usado o substantivo errado.
- Desafeto antigo!
- Não, nem conhecia o cara. Recalque mesmo.
- Como assim, Gelson? Você nem conhecia o cara?
Aí ele me explicou:
- Veja só a minha situação; não do momento, mas de minha vida toda. Sou casado com essa máquina aí, sua prima - apontou para a Soraya que é realmente muito bonita e já ficou toda vaidosa - e vivo vendo uns caras olhando e se insinuando para ela. Normalmente uns grandões, que eu, de salto alto, bateria no peito dos putos. Tenho que fingir que não vejo. Sexta-feira passada, na entrada da boate, ela na frente, linda, e eu atrás. Vem um cara e me fala em alto e bom som, "Gatona". Quando olhei pro cara, eu não acreditei, era a oportunidade da minha vida, o filho da puta era mais baixo do que eu. Aí, não aguentei o desaforo, e enchi ele de porrada. Foi muito para o "Gatona", mas pouco para todas as olhadas que tive que suportar nesta vida. To de alma lavada.
Quando acabei a história, a Andreia não parava de rir. Não aguentei, e aproveitei para completar:
- Agora, aperte seu regime, que daqui a pouco até o Rafael você vai ter que chamar de fortinho, no máximo.
 Achei que ela ia ficar brava... mas riu mais ainda.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O Inesperado 2


Ele, com uma mão, apertava aquela bolinha no braço de uma maneira irritante. Comecei a prestar atenção no fato e verifiquei que era um pequeno cisto, desses do tipo sebáceo, mas com uma saliência para fora da pele, tipo essas verrugas brancas. Na hora me assustei e falei: 
– Beto, tem que ver esse negócio aí no braço. Não pode ficar brincando desse jeito, que pode virar coisa séria. Orra meu, você tem 35 anos e tenho que ficar te cuidando ainda?
Acho que dei uma assustada nele, pois falou com o Dr. Sami, que resolveu operar e retirar a bolinha. Na hora da cirurgia, a bola sumiu.
Uns quinze dias depois, ela reapareceu e começou a crescer. Aí já era uma coisa mais dura. Nova cirurgia, e dessa vez com um corte e remoção de tecido bem maior. Achou o cisto e o removeu, e, para garantia, mandou para Campo Grande para analisar o material. Já não gostei muito, mas ele me disse que era procedimento padrão. Quando veio o resultado, quase nos matou de susto. Um nome complicado, mas que indicava um tumor – e dos ruins. De bom tinha que foi totalmente removido e que, dificilmente, voltaria. Como difícil não é sinônimo de nunca, entramos em pânico. O medo aumentou quando ligamos para o Antonio Carlos Lopes e ele falou para o guri pegar a lâmina e mandar para São Paulo. Para confirmar, perguntamos se era para mandar o guri ou a lâmina, e ele respondeu: "Os dois". O medo virou pavor. Foi uma semana de angústia misturada com expectativa, e aquela sensação de "agora fodeu" que só quem passou por isso consegue entender. Quando eu queria acalmar a Bea, ou vice-versa (e o vice-versa era mais constante), logo lembrava que aquela coisa cresceu muito rápido, de uma hora para outra, e aí vinha o pânico novamente. Num dos telefonemas para o Antonio Carlos, quando registramos o fato de que cresceu muito rápido para ver se ele nos acalmava, só falou que não tinha o que fazer antes do resultado das análises de lâmina, e que ele estava no melhor lugar para enfrentar o que fosse – piorando um pouco o nosso nervosismo. Restava esperar e rezar. Passamos esses sete dias aguardando os resultados do re-exame da lâmina nos laboratórios do Einstein. Era 22 de dezembro e estávamos a três dias do natal, quando Bea recebeu uma mensagem pelo celular do Doutor, que transcrevo abaixo:
"O resultado mostrou lesão benigna. Nem tudo que cresce é malígno.
Parabéns. Feliz festas."
Foi o melhor presente de Natal da minha vida. Só depois que reli a mensagem que percebi a malícia da notícia para Bea, e foi motivo de gozação por período igual ao da preocupação. Passamos por mais essa, e bem, graças a Deus – mas, com certeza, não foi fácil.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O blefe


Sou um cara de sorte até quanto tenho azar. Tinha acabado de receber o primeiro salário de minha vida, como estagiário do terceiro ano de engenharia na Hyster do Brasil, quando fui para a casa de meu amigo Ricardo Ravioli e o encontrei com seu irmão e mais uns colegas, jogando pôquer. Em cinco minutos, me explicaram as regras e entrei no jogo. Estava com a grana e queria dobrar aquilo em pouco tempo. Era bom em estatística, conhecia a teoria das probabilidades como ninguém, analisei as chances de sair duas quadras ou trincas ao mesmo tempo, enquanto me explicavam quem ganhava de quem. Já estava quase não participando daquela barbada, com pena dos adversários. O jogo começou às 20h, horário de Brasília, e às 23h eu não tinha mais um puto no bolso. Não acreditaram em nenhum blefe meu. A revolta era tão grande que eu não conseguia nem decifrar com o quê: se comigo mesmo, se com a merda da matemática e suas teorias, ou se com o veado do Ravioli que me colocou naquela fria. No começo só entrava no jogo quanto tinha pelos menos dois pares e alto, e parece que quando saía para mim vinha a porra de uma trinca para um deles. Quando vinha algo muito bom na minha mão, nao vinha nada na deles e todos corriam. Era como se fosse pôquer aberto, mas só as cinco cartas para eles; e fechado para mim.
Tinha esquecido do componente mais importante nesse jogo: o Blefe.
Com isso, eu nunca mais sentei em uma mesa de cartas na vida, nem nas raras vezes em que entrei num cassino. Fiquei que nem aquelas mulheres que depois de estupradas perdem o tesão. Foi uma vacina super eficiente contra o jogo, que já levou fortunas de um sem-números de conhecidos. Além dessa vantagem financeira, isso me mostrou também que não sou bom com mentiras. Fico vermelho, os lábios tremem, boca seca e não sei mais o quê: mesmo quem não me conhece percebe.
Mas teve uma vez em que fui obrigado a blefar – e grande. Trabalhava em uma empresa e éramos só eu e o construtor de um equipamento, uma vez que o projeto era fornecido pelo cliente. Eu era calculista e por isso não tinha nenhuma participação, até que foram solicitados uns parafusos super resistentes que a fábrica não conseguia fazer. Pediram que eu calculasse qual era o esforço para poderem diminuir a resistência do material do parafuso; e, com o novo calculo na mão, pedir autorização para o cliente. Tive que fazer os cálculos do equipamento inteiro para determinar a força a que eles estavam submetidos, e percebi que tinha algo errado, pois mesmo com a resistência solicitada eles romperiam. Quando informamos isso ao cliente, ao invés de nos agradecer por acharmos um erro nos seus cálculos, ficaram putos, não concordaram com meus cálculos e mandaram nos concentrar em fazer a nossa parte e fabricar a porra dos parafusos com uma característica que nem a NASA conseguiria.
Depois de varias tentativas, mandaram que aumentássemos o diâmetro dos parafusos e o custo do alargamento de todos os furos que já estavam prontos seriam debitados à nossa empresa. Como era furo pra cacete e o equipamento já estava na obra, essa operação custaria alguns milhões de cruzeiros. A reunião para definir o novo cronograma, quem arcaria com os custos e até o lucro cessante que estava entrando nos cálculos, foi marcada quando meu chefe estava de férias, e era eu quem o estava substituindo. Pensei que ia entrar na maior furada da minha vida e fui para a reunião. Na pasta, todos os cálculos mostravam que o deles estava errado; e, comigo, os dois responsáveis pela metalurgia, grandes especialistas, apesar de não terem conseguido atingir as características necessárias para o parafuso.
Fiquei quieto no início da reunião, pois não sabia que atitude tomar – e foi a sorte. O cliente já começou mostrando os custos com que teríamos que arcar para a troca de todos os parafusos por um de diâmetro maior, e já estava definindo que nós éramos os únicos culpados, pois assumimos algo que não conseguimos realizar.
Tentei interromper a explanação do representante do cliente umas dez vezes, e em todas elas respondiam que eu devia esperar ele terminar, e aí poderia falar o que quisesse. Quando ele me cedeu a palavra, retirei o parafuso da mala e falei:
– Mandem testar. Está dentro das suas especificações. Se você deixasse eu começar, não teríamos perdido esse tempo todo discutindo responsabilidades. Mudaram o tratamento térmico do aço e conseguiram atingir os valores especificados. Podemos encerrar por aqui.
Fui me levantando e não sei como estava a minha cara, mas a voz não tremeu nenhuma vez. Quando olhei para os meus companheiros, estavam todos de cabeça baixa, e pareciam petrificados. Meu blefe aumentou quando me voltei para eles e falei:
– Não sejam tímidos, esse feito de vocês vai para a história.
Eu tinha que justificar a cara de bundão dos dois. Deviam ser ruins de pôquer também.
O coração quase parou quando vi a expressão no rosto de todos da reunião. Era uma expressão, assim, de... "Agora fodeu!" Tiveram que reconhecer que eles estavam errados e que teríamos que trocar os parafusos de qualquer jeito, só que agora com todos os custos por conta deles – e, o pior, assumiram que eu estava certo desde a primeira vez. A coisa se inverteu de uma tal maneira que até multa por atraso nos pagamentos nós cobramos. Iam experimentar do próprio veneno.
Lembrei do meu primeiro jogo de pôquer. Sem nenhum jogo na mão e fazendo cara de quem tinha um "royal street flash", mas agora tinham acreditado. Foi o maior blefe da minha vida. Eu tinha o parafuso guardado até pouco tempo, pois tive que levá-lo para não deixar a prova do blefe exposta – igualzinho no pôquer, em que você joga as cartas no monte quando o adversário não paga para vê-las.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

O inesperado


Inesperado é aquilo que acontece de uma maneira diferente da lógica. Você está preparado para uma coisa e vem outra totalmente diferente, dando uns puta sustos na gente. Ao longo dos meus 62 anos, tive vários inesperados na minha vida. São as surpresas, nem todas agradáveis. As mais marcantes, vou deixar registradas aqui.
Teve a vez em que eu estava saindo de casa com o carro e parei em frente ao portão para fechá-lo; é um portão eletrônico, do tipo que abre e fecha deslizando para cima enquanto gira em torno de um eixo horizontal. Ele, aberto, fica em uma posição horizontal e invade a calçada, mas em uma altura que não atrapalha quem passa. Para completar a cena, tinha também um cachorro rottweiler, o Paco, super ensinado, mas brabo pra caramba. Ele não saía sozinho de casa por nada, mesmo se todas as portas estivessem escancaradas, e não mexia com ninguém que passasse na rua, desde que a pessoa não encostasse na grade: pois aí ele ia querer jantar o cara. Quando acionei o controle para fechar o portão, não percebi que uma senhora de idade avançada entrou na área de basculação, e à medida em que o portão foi fechando, foi também recolhendo a velha para dentro de casa, pois senão pegaria em sua cabeça. O cuidado, que sempre recomendei para todos, eu não tive. Na hora gelei, quase me caguei todo, eu e a velha: pois o Paco estava sentado na entrada da garagem e pensei que fosse sair direto na garganta dela. No nervoso, não conseguia inverter a porra do comando e o portão acabou se fechando totalmente. O Paco e a velha ficaram se olhando sem que ninguém fizesse o menor movimento, até que consegui abrir o portão e descer meio correndo para acudir a senhora, agradecendo a todos os santos pelo inesperado fato do Paco ter ficado quieto. 
Esse foi o primeiro. O segundo veio como resposta ao meu pedido de mil desculpas para a velhinha. Ela olhou bem para mim, no fundo dos meus olhos, e quando achei que fosse desmaiar ou se cagar toda, ela me falou:
– Meu filho, você não quer ir para Puta que Pariu, não?
Apesar do choque, a porra da velha me parecia tão fina, o nervoso misturou com o alívio e, querendo ser gentil, respondi, sem perceber a dubiedade da resposta:
– Vou sim, mas queria dar uma carona para a senhora.
Acho que ela não entendeu meu gesto, pois respondeu que era para eu ir sozinho.
Teve a vez que fui com o Tontonio, meu irmão, no seu exame Pré-nupcial. Antigamente tinha isso, antes do cara juntar os trapos com uma mulher, passava por uma revisão igual a dessas que se faz em carro usado antes da compra. Estávamos retornando ao médico com todos os exames feitos, e tínhamos violado os envelopes e visto os exames endereçados ao Dr. Miguel Zuppp. Ele estava super preocupado, pois seu espermograma deu uma contagem baixa e o classificou como sub-fértil pelos padrões de não sei quem. Para acalmá-lo, eu ficava brincando que ele tinha ficado de segunda época no exame de porra, mas passado direto no de merda e de mijo. Ele não achou graça nenhuma, já estava achando que não ia se casar mais, quando o médico falou:
– Fique tranquilo que isso não é nada. Deve ser alguma infecção besta que você tem na próstata e, tratando, fica tudo normal.
O inesperado veio quando ele completou:
– Se você tivesse tido uma urquite, que é a cachumba que desce para os testículos, quando jovem, aí sim, poderíamos ficar bem preocupados.
Foi como um chute no saco, só que no meu – pois quem tinha tido a urquite quando criança tinha sido eu.
As outras saem no volume 2.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Pro Matre Paulista.


Estava esperando o Guilherme para irmos tomar café, quando comecei a prestar atenção naquele prédio. Quantos anos já tinham se passado desde que entrei ali, ou melhor, desde quando ouvi falar dele pela primeira vez. Como sou de 1950, deve ter sido por volta de 1960, quando papai me contava sobre o parto de mamãe no meu nascimento. O Dr. Enéas, para se gabar, falava que podiam ficar tranquilos, pois ele tinha estagiado na Pro Matre Paulista. Nunca poderia ter imaginado como a Pro Matre faria parte de minha vida de uma maneira tão significativa. Uns 15 anos depois, fui acompanhar Bea no nascimento de nossa primeira filha, Laura, e aí conheci a maternidade pessoalmente. Depois, mesmo morando em Taubaté, voltamos para os partos de Beto e dos gêmeos Daniel e Guilherme. Quase quarenta atrás.
Daniel está aí firme e forte até hoje, graças a Deus e à Pro Matre, não tenho dúvidas. O pepino que teve no seu nascimento, se não fossem os recursos que havia lá... babau. Aí se passaram muitos anos, uns vinte e cinco, e veio o primeiro neto, filho de Laura – a Laura, que nasceu lá, e ali voltou para parir. Recomeçou a terceira fase. O trauma com Daniel e Guilherme foi tão grande que todos os netos, com exceção do apressadinho do Antônio Pedro, desembarcaram naquele Porto. Apesar de toda a dificuldade de transporte, já que só a Laura mora em São Paulo, as noras tinham que despencar de Corumbá – mas valeu a pena. Sabíamos que, numa encrenca, estaríamos no lugar certo para sairmos dela. Mas graças a Deus, até agora, treze netos e doze partos depois, tudo correu às mil maravilhas. O último, ou melhor, os três últimos, já vieram de lote. Passamos o ano novo dentro da maternidade tomando champanhe. Guilherme e Beto quase fecharam as portas para serem atendidos. O Miguel nasceu no dia 29 de dezembro e João e Gabriel, gêmeos, no dia 1 de janeiro de 2012.
E como meu sábio pai falava que a história sempre se repete, os gêmeos, como o pai e o tio, foram para a UTI. Graças a Deus, estávamos na Pro Matre novamente. Não vou negar, fiquei preocupado, me veio à lembrança o passado de quase trinta e seis anos atrás; mas correu tudo super bem. A Paty, que estava internada lá, não conseguiria ir para a antessala de parto, acompanhar o da Ana – mas deu tanta sorte que ela  teve alta no dia do nascimento dos gêmeos, saiu por uma porta como paciente com alta e entrou pela mesma como visitante. Acompanhamos a chegada dos dois com Miguel na sala de espera. Foram três boludos de uma única vez.
Parece que a fabricação de netos parou por aí, não sei não... mas como estamos muito bem de saúde, tanto eu como a Pro Matre, talvez nos reencontremos no desembarque da próxima geração. Quem sabe!

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Burrices.


Com o passar dos anos você vai acumulando um repertório de burrices ouvidas; são tantas, que resolvi catalogá-las. Como o interessante é o fato, vou citar somente o cargo da pessoa que a falou, pois isso faz parte do cenário, mas não vou dar nomes aos bois – ou melhor, aos burros. 
Este era, simplesmente, o prefeito de Corumbá algumas décadas atrás e estava em reunião com seu secretariado, quando o de planejamento pediu a palavra e falou:
– Sr. prefeito, para fazermos um planejamento bem feito, temos que começar com um levantamento completo da cidade.
– Como vai fazer levantamento completo? Não precisa ser engenheiro para saber que quando se levanta em algum lugar, tem que se baixar em outro para conseguir a terra. Ou vai trazer tudo de fora?
Conta-se que ninguém riu nem retrucou, pois o homem era brabo e não aceitava que o contradissessem.
Do mesmo sujeito, ainda prefeito, contam que, em uma roda, alguém comentou que quando acabasse o petróleo o mundo ia parar. Ele deu a explicação mais lógica que podia:
– Lógico, todo mundo sabe que a terra gira em torno de um eixo, e esse material imaginário de que ele é feito, sem lubrificação, ingripa... e aí, ba-báu. Para de girar de repente e vai tudo pro saco.
Essa eu presenciei. Houve um incêndio na cidade e não tínhamos corpo de bombeiro. Para completar, era em uma livraria, com material altamente combustível. Incêndio em cidade pequena é que nem enforcamento de antigamente. Não se sabe por quê, mas todo mundo corre para assistir. O mais avançado recurso era o caminhão pipa do serviço de abastecimento de água da cidade. Todos assistindo a dança das chamas e aguardando o salvamento, os mais antigos fazendo uma corrente humana para não deixar as crianças se aproximarem do fogo, quando chegou o caminhão. Do lado do motorista, o próprio presidente da companhia, que desceu já dando ordens. Mandou um ajudante subir no telhado pelo muro, outro ficar no muro no meio do caminho, para passar a mangueira. Quando estava tudo no jeito, a ponta da mangueira uns seis metros acima do nível do tanque, ele foi e abriu a válvula. Como estava muito perto de mim, eu, olhando para cima, para a ponta da mangueira, falei:
– Você esqueceu de ligar a bomba.
Para minha surpresa, ele respondeu:
– Bomba?... que bomba? Não tem bomba nenhuma.
– Pô, meu, como a água vai chegar lá? – Não aguentei e ainda completei: – E o princípio dos vasos comunicantes?
Ele não entendeu muito bem e falou:
– Bom, se não vai sem bomba, vai no balde, porque esses vasos especiais aí a Sanemat não tem, não.
E o homem era engenheiro.
Mas a melhor ficou por conta do finado Gilberto Nazario Rodrigues. Ele trabalhava na fazenda há muitos anos e todo mundo gostava dele. Conhecia tudo de mato e era quem atendia a meninada quando iam passar as férias lá. Ele, com 70 anos, era igual a um garoto de 15, e chamado de Giba por todos. Uns médicos americanos foram conhecer o pantanal, amigos do nosso Antonio Carlos Lopes, e colocamos o Gilberto para acompanhá-los nos passeios a cavalo. Recomendamos que ele fosse só de guia e que não adiantava falar, pois eles não entenderiam nada. Dois dias depois, o Giba chegou para a gente e foi falando "stop" para todo mundo.
Quando perguntei o motivo daquilo, ele, todo garboso, respondeu que já estava conseguindo se comunicar na língua dos gringos. E, se eu não sabia, "stop" era o cumprimento deles. Não tive coragem de falar a verdade, e ele passou muito tempo dando "bom dia" para todo mundo com o "stop" dele. Velho Giba.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Disputa da jumenta


Em 1984, a Marinho Trading estava no auge da exportação para a Bolívia. Éramos representantes de grandes companhias e o Tontonio com papai vendiam pra cacete. Tínhamos dois caminhões Volkswagem de 16 toneladas de carga útil para trazer mercadorias de São Paulo. O movimento era tão bom que papai vendia a carga em trânsito. Nem chegava a descarregar nos nossos depósitos, regateava, ia direto para a fronteira e já entregava na Bolívia. Para isso, tínhamos dois motoristas, o Paulinho e o Paraíba. Os dois eram muito bons, mas não se davam muito bem. O "linho" do primeiro era pelo seu tamanho, 1m50 no máximo; e o apelido "Paraíba", de quem nunca soubemos o nome, era por causa de sua origem. Esse último era apaixonado pelo caminhão azul dele. A cabine parecia uma extensão de sua casa, com cortinas, São Jorge preso no retrovisor, adesivos decorativos no painel e quebra-sol. Não sei se a extensão era de sua casa ou de um bazar de pechincha, de tanto penduricalho que havia. A buzina, ele mandou trocar, e colocou uma de navio. O cara era muito engraçado, de um tanto que, uns cinco anos depois de ter saído da firma, o vimos em um programa humoristico do Silvio Santos.
Era juntado com uma negona que dava dois dele, tanto na altura como na largura, ou seja: no total, ela dava quatro dele, e era mais feia que cão chupando manga. E não se sabe por quê, talvez pelas viagens constantes, ele morria de ciúmes dela, principalmente com o Paulinho.
Numa dessas, Tontonio fazendo as programações de viagem, mandou ele voltar para São Paulo e o Paulinho ficar para ajudar nas entregas locais. Ele ficou meio relutante, pois sempre iam em dupla com o caminhão de um remontado sobre o do outro – mas aceitou na hora. Para voltar dez minutos depois, no maior bate boca com o Paulinho. Com os dois na sala do chefe, começou o diálogo que quase matou a gente de rir: primeiro com o Paraíba, respondendo a pergunta do Tontonio, de "que merda estava acontecendo":
– Paulinho quer que eu viaje para ele ficar sozinho aqui. Ele quer tomar a minha jumenta.
– Que porra de jumenta é essa, Paraíba?
– É a Leocádia, seu Zeantonio, minha mulher.
– Mas jumenta?
– É como chamo ela, carinhosamente.
O Zé resolveu envolver o Paulinho na conversa, e perguntou o que ele fez, que tem que respeitar o companheirismo e isso implica em suas mulheres. Aí a merda aconteceu, quando o Paulinho respondeu:
– Seu Zé, o senhor conhece a Leocádia?
Nem esperou pela negativa e completou:
– Aquilo é uma jumenta mesmo, e nem se eu tivesse achado meu pau no lixo eu colocaria ele ali.
A baixaria aumentou, pois o Paraíba ficou mais injuriado com a explicação de por que não do que ficaria se ele tivesse confirmado suas suspeitas.
Tivemos que chamar reforços para apartar os dois, o que acabou com a saída do Paraíba e a volta dele para sua terra natal. Levou a Jumenta junto.
Muito tempo depois descobrimos que o Paulinho realmente se perdia naquelas carnes e que ela o chamava de "meu burrico", e quem o conhecia sabia que não era pela sua pequena estatura.
Coisas da vida.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Suprimentos


A parte mais complicada da Ema é a de Suprimentos e Logística. Você tem que atender um monte de nego desorganizado, tudo é urgente, e o acesso a algumas fazendas não é fácil. Caminhão, lancha e trator. São dois transbordos e dois dias de viagem. Construção, então, pedra para virar concreto, lá não tem nem para jogar em louco, tem que sair daqui ensacada. Mas tive pessoas muito competentes atuando na área, como Suzana, Rosangela e agora a dupla Vitor-Quidinho. As principais características são honestidade, organização e persistência, que nesse caso é sinônimo de saco grande. Mas teve lances engraçados na área. Com a saída da Suzana, que já estava conosco há mais de dez anos e conhecia tudo e todos, a entrada da Rosangela foi meio traumática – para ela, no início. Ela estava acostumada com trabalho de banco, em que só conversava com nego de meia e sapato. Quando mudou o público para chinelo de dedo, ela estranhou muito. Não tinha um mês de firma, quando entrou em minha sala quase chorando e pedindo as contas. Motivo: seus subordinados não a respeitavam. Depois de muita insistência, pois eu queria as suas contas só com essa explicação, resolveu falar que o Seu Antunes tinha xingado ela. Mais cinco minutos de conversa para saber de que foi xingada, e ela, relutante em dizer aquelas palavras de baixo calão, falou: "de 'filha da puta'".
Na hora, eu disse que quem ia ser demitido era ele, que eu não admitia essa falta de respeito, como é que ele chega para seu chefe, e ainda mais uma senhora, e a chama desse nome, assim na cara!
Aí ela se assustou e disse que não foi na cara, foi por telefone.
– É a mesma coisa, você dá uma ordem para ele e ele fala, não vou fazer, sua filha da puta. Não tem cabimento.
Aí ela me corrigiu dizendo que não foi bem assim. Ela tinha dado uma ordem para ele carregar o caminhão, junto com o Vitor, e o Quidinho, antes de desligar totalmente o telefone, falou para o Vitor: 
– Vamos carregar a porra do caminhão... é, só nós dois... por quê? Por quê?... Porque a filha da puta quer.
Uma observação: Quidinho tinha 60 anos, e o Vitor perde no braço de ferro para um mosquito.
Com a história melhor contada e já conhecendo as peças, expliquei a ela que esse é o linguajar desse povo, e tinha que ser interpretado corretamente. Primeiro, ele não se dirigiu a ela, uma vez que ele achava que ela já tinha desligado a porra (colocada propositadamente na frase) do telefone. Segundo, o "filha da puta" foi para se antecipar ao que o Vitor ia falar, e mostrar a ele que ele já tinha tentado de tudo e o jeito era carregar a porra do caminhão. Ela se tranquilizou, eu acho, e voltou para sua sala. A conversa surtiu efeito e percebi isso quando estava em outra reunião com ela, quando atendeu o seu celular e fiquei escutando o papo. Foi mais ou menos assim:
– Fala, Quidinho.
– ....
– Porra, meu, manda ele se fuder. Nem a pau, só paga depois da entrega. Eu mesma que falei com esse veado. Tem até contrato escrito.
Desligou o telefone e, quando me viu, deu uma risadinha sem graça e falou:
– O senhor tinha razão. É a única linguagem que entendem. Já acostumei. 

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

A coincidência


Para entenderem esta história recente, vou ter que contar alguns detalhes íntimos – mas não sórdidos – de meu concunhado Cauto. Ele é um dos grandes cagões que eu conheço, nível de meu falecido primo Zé Alberto e de meu irmão Tontonio. Para o primeiro, era só dizer que ele estava um pouco (não precisava nem ser muito) pálido, e ele te largava falando sozinho para ir ao médico. Tontonio ficou mais corajoso depois de velho, pois quando mais novo não entrava em um avião de jeito nenhum, dizia que voar era para passarinhos, e teve tempo que nem de carro ou ônibus ele andava. Só de trem – e isso aqui no Brasil, com essa rede ferroviária maravilhosa nossa. O Cauto é desse nível para mais, com a diferença de ser silencioso. É daqueles que sofre calado e só fala quando não tem mais jeito. Tomar injeção sozinho, por exemplo, nem amarrado. Mena tem que ir e segurar na mão dele. Se não tem Mena, qualquer um serve. Já teve Miraci, uma tia, que foi recrutada do balcão da farmácia, onde ela estava fazendo compras, e ele aloitando com o aplicador da injeção. Quando a viu, já chamou para ficar ao seu lado e de mãos dadas. De outra feita, estava com Beto em Campo Grande fazendo os exames anuais para seu brevê, quando chegou a hora da coleta de sangue. Segundo a peça, é pior que injeção pois tem agulha igual, mas é na veia, pior, e, ao invés de injetar, chupa – muito pior. Já tinha deixado passar uns dez na frente e já era o último da fila, quando teve que resolver se encarava ou abandonava a carreira de piloto para não ver aquele ferro entrando em suas carnes. Foi para o sacrifício e, quando saiu da sala de torturas, estava quase aos prantos e Beto teve que ampará-lo e dirigir seu carro direto para o hotel. Esse é o personagem principal de nossa história e, depois do acontecido, a coisa se confirmou: ele é mais rabudo do que cagão. Há menos de um ano, ele me cai com o avião, sozinho, e não sofre nenhum arranhão. Agora, há uma semana, foi para São Paulo acompanhar a esposa para um exame com o Dr.Antônio Carlos Lopes. Já falei dele aqui: melhor cardiologista de São Paulo, quiçá do Brasil e, se duvidar, do mundo. Seu consultório é dentro do Einstein, hospital que dispensa comentários. A consulta estava marcada há mais de dois meses. A coisa lá é de primeiro mundo. Em vez de ficar aguardando numa sala de espera, você já vai fazendo uns exames, uma tal de triagem, feita por enfermeiros, que vão medindo temperatura, pressão, eletrocardiograma etc, e ele acompanhando a Mena. Na hora da pressão, ele pediu para a medidora verificar a sua. Estava cismado. A mulher, sem questionar, bombou o homem, e só falou: "18x10". Saíram dali e foram para a sala da médica assistente para a segunda triagem. Ela examinou a Mena, que falou:
– Cauto está com pressão meio alta, 18x10. Não seria bom aproveitar e fazer um eletro nele?
Ela concordou na hora, e pôs o homem de volta para trás e a filação da consulta da esposa continuou. Fez o eletro, e ele mais quieto que guri cagado. Quando entregaram o exame para a assistente, ela virou para Mena e falou:
-Você está ótima. O Dr já viu seus exames e vou relatar o clínico para ele. Vai querer te ver só para dar boa tarde. Agora, o Cauto, ele vai querer examinar. Fica aí que vou chamá-lo. – Nessa hora, falam as más línguas, o homem branqueou. O Antônio Carlos chegou com o exame na mão, nem olhou para Mena, e foi direto no Cauto. Depois de auscultá-lo, falou: 
– Mena, você está ótima. Agora, o homem aqui só sai depois de uma angioplastia e provavelmente com um stent. Está com uma artéria principal bem entupidinha.
Ele só balbuciou:
– Mas eu só pedi para medirem a minha pressão.
Ainda tentaram adiar a coiseira para uma semana, tinham um casamento e um monte de desculpas. Nenhuma colou. Cinco horas depois, o homem que se cagava todo para tirar um sanguinho, estava com um cateter no coração e tudo filmado em alta definição e, o pior, com ele acompanhando. Foi colocado um stent na artéria principal, como tinha previsto o doutor.
Nisso, em Corumbá, no domingo almoçamos o nosso tradicional churrasco e o pessoal comentando sobre o ocorrido. Um falou que ele era um cara de sorte, caiu com o avião e não aconteceu nada; outro, que ele tem sete vidas, pois descobriu o entupimento dentro do Einstein e no consultório do maior cardiologista, e estava lá só como acompanhante da mulher.
A pérola veio com Gustavo, meu cunhado. No meio dessa conversa toda, ele falou:
– O problema de Cauto é de surdez!
Todo mundo parou de falar e perguntaram quase em coro:
– Surdez? Por quê?
– Jesus tá chamando faz horas, e ele não escuta.
Humor negro do gordo.
Mas a chegada aqui foi com festa. Quando perguntavam para ele o que aconteceu, a resposta começava sempre do mesmo jeito:
– Eu só pedi para medirem a minha pressão.
Mas, realmente, não é fácil.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

93


Esta é a historia 293 e, quando chegou a de número 100, mudei a numeração para A01. A de hoje é, então, a B93. Esse número tem me acompanhado a vida toda. Vira e mexe, ele surge espontaneamente. Começou com a chapa do meu primeiro carro, o Cônsul 6-93, quando eu tinha 12 anos. Estava sucateado na garagem de casa e eu o reformei todo.
Fui para o arquidiocesano interno e toda a roupa tinha que ser numerada, e o número... 93.
No Cursinho Anglo Latino, era da turma 10.000, e o número...10.093.
Entrei na faculdade de engenharia Maua, em 1968, e era da turma 7000, e o número... 7.093. 
Dessa vez em diante, eu adotei o número, e toda vez que pudesse escolher, eu ia nele; mas, às vezes, espontaneamente, ele aparecia na minha vida. Como me apartei da família muito cedo, porque com 14 anos fui estudar sozinho em São Paulo, sempre tive um trauma com papai. Não sei por quê, mas todas as vezes que tocava o telefone de Corumbá, à minha procura, me vinha a ideia de que algo tinha acontecido com ele. 
Quando ele estava com uns 70 anos, apareceu um problema nas suas cordas vocais e, na hora, todo mundo achou que era um câncer – o que, na época, era uma condenação à morte. Nesse momento, me veio o 93 na cabeça e pensei: " ele não vai antes dos 93, de jeito nenhum". Dr. Moisés Amaral cuidou dele e era só um calo que, com 30 dias sem falar um "a", como ele contava, ficou bom. Não vou negar que quando ele fez 93 anos eu fiquei preocupado, quando aquele fato acontecido mais de vinte anos antes me voltou à memória. Ele estava já de bengalas australianas, daquelas que pega pelo pulso, a memória recente já estava dando uma rateada, mas de resto tudo 100%, igual a um guri novo, como ele também gostava de falar. No dia 7 de setembro, ele caiu e fraturou a cabeça do fêmur. Começou o nosso martírio. Foi operado em São Paulo e, num primeiro momento, tudo correu às mil maravilhas. Ele estava se recuperando muito bem quando, inexplicavelmente, teve um pequeno derrame que afetou somente, por incrível que pareça, exatamente a corda vocal, e isso complicou tudo. No dia 15 de março ele faleceu, com 93 anos. Hoje, 08 de junho, ele estaria fazendo 99 anos. Tem festa no céu, tenho certeza.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O Retorno


Fiquei um tempo sem fazer postagens novas. Culpa da minha filha e editora do blog. Com 38 anos, resolveu voltar a estudar. Um dos meus últimos post foi sobre o Antonio Raimundo, o único engenheiro e filósofo que conheço. Parece que isso causou inveja nela, e resolveu fazer psicologia para ser engenheira e psicóloga. Vai ser a única que conheço também. Tem que tomar cuidado para não ficar que nem um conhecido meu que era engenheiro civil e eletricista. Comentavam que como civil era um bom eletricista, e como eletricista, um bom civil – ou seja, não entendia nada de nada.
Mas tem as exceções e espero que ela seja uma delas.
Uns trinta anos atrás, em uma festa na casa de meu irmão, fui apresentado a um grande sujeito, professor Patusco, que dava aulas de matemática e computação na faculdade de Corumbá. Ficamos conversando e vendo que tínhamos muito em comum, pois ele era matemático. Como eu era calculista, começamos a conversa sobre a evolução da computação; quando, para minha surpresa, ele falou que também era músico.
– Mas, professor, o senhor usa os dois lados do cérebro, então. Já me falaram que as ciências exatas estão de um lado, esquerdo ou direito, não sei, e a parte artística de outro; e, normalmente, um se desenvolve mais do que o outro. Você é melhor em qual das duas partes? – perguntei.
Ele me olhou meio de esgueio e falou:
– Vou te confessar. Sou ruim nos dois, mas ninguém sabe.
– Para, professor, não precisa ser modesto comigo. O Zé já me falou que você é um excelente professor de matematica.
– Pois é, mas é uma técnica simples. Basta você falar só de música com os matemáticos e só de matemática com os músicos. Todos te acharão um gênio.
E deu risadas.
Cheguei a acreditar, mas com o tempo conheci melhor o Patusco e ele, realmente, é muito bom nas duas áreas. São aqueles sujeitos fora da curva. Espero que a Laura seja igual. Agora, se ela começar a conversar só de psicologia comigo e de engenharia com a Patty, é porque patuscou de vez. Vamos ver.
Mas para resolver o problema dos sem números de reclamações dizendo que eu não postava mais (depois da segunda eu perdi a conta) contrataram uma editora nova. Me sinto em tremenda desvantagem, pois ao inverso da Laura, essa editora nova me conhece desde que eu era criancinha, e eu nada sei dela. É como aqueles casamentos de antigamente, em que um já tinha visto o outro pelado e o outro não conhecia a pessoa nem de foto. Mas ela já fez uma editagem minha e gostei muito. Estou contente pois uns dois ou três sentiram a minha falta, inclusive o B. J. Patrussi. Vamos nessa.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Luva de pelica.


Tio Michel é da teoria de que o tapa mais doído é o primeiro, o dado de mão fechada, e bem dado. Já Mamãe sempre me falou que o mais eficiente é o dado com luva de pelica.
Hoje vejo que os dois tinham razão, dependendo da situação.
Uns quinze anos atrás, recebi uma planta de uma fazenda vizinha com um bilhete do proprietário propondo a venda da mesma, por um preço meio absurdo. O bilhete era mais ou menos assim:
"Preço de venda: R$ X.XXX,00 o ha. Não vendo por menos, não adianta insistir. Fone para contacto: xxxx-xxxx. EP." 
Bem delicado. Eu só o conhecia de nome e, assim mesmo, por causa de uma ocasião em que seu capataz, por ordem explícita dele, não permitiu que embarcássemos um gado em sua fazenda, que era a primeira com acesso por caminhão, no transporte para o frigorífico. Por motivos óbvios, vou tratá-lo aqui por EP, e sua fazenda por AAA.
Pode parecer que foi retaliação, mas não; por bagunça minha, mesmo, perdi a planta do homem. Ele a tinha deixado na portaria com a Regina, nossa recepcionista, que me entregou num momento em que eu estava preocupado com outra coisa e a coloquei sobre a mesa junto com trocentos outros papéis. Naquele dia, eu estava especialmente desorganizado. Uma semana depois, a Regina entrou na minha sala dizendo que o senhor EP estava na recepção e queria falar comigo. Lembrei da planta e, depois de revirar tudo, o que levou uns cinco minutos, vi que precisava de mais tempo para uma busca profunda. Pedi que ela falasse para ele passar mais tarde, pois no momento eu estava em uma reunião e não podia atendê-lo. Ela me ligou em seguida, dizendo que o homem ficou meio aborrecido e que voltaria à tarde. Baixei o escritório todo e não achei a porra da planta. À tarde, na primeira hora, voltou a Regina na minha sala dizendo que o homem estava lá.
– Putz, fala que eu não cheguei ainda. De repente ele desiste – falei.
– Acho que não, sr. Tadeu. Tentei aplicar o golpe dizendo que ia ver se o senhor já tinha chegado, e ele já meio brabo disse que vai te esperar.
– Dá um tempo então, de repente ele desiste. Não marcamos hora. Fala que eu chego depois das quatro.
Não gosto de fazer isso, mas às vezes não tem jeito. Esqueci do homem. Às quatro em ponto, a Regina entrou na minha sala, dizendo:
– Sr. Tadeu, atende o homem. Ele já tá muito puto. Mais um pouco, ele quebra a recepção.
Vi a gravidade da situação pelo "puto" da Regina. Ela não era de falar palavras como essa na minha frente. No começo, não vou negar, fiquei com um pouco de medo, e depois lembrei de Tio Michel. Se vier com violência, já dou uma porrada na cara e pronto. Minha sala tem uma parede e porta, tudo de blindex, que dão para uma área comum a todas as salas. Você vê a pessoa muito antes dela te ver. Fiquei olhando para a porta da recepção para ver o que me aguardava, quando apareceu o EP. Devia ter uns setenta anos, 1,5 metros de altura e 50 quilos. Filet de borboleta no último. Aí que fiquei mais preocupado ainda. O que fazer se esse cara partisse, ele, para cima de mim? Lembrei de Dona Julieta e da luva de pelica. Ele estava com sua esposa e já entrou na minha sala falando:
– Ou o senhor é moleque ou quer me fazer de um. Pode escolher qual das opções.
Neurastênico no ultimo, a porra do velho.
– Vamos entrar e sentar, sr. EP, e juntos vamos achar uma terceira opção. Não sei o porque desse aborrecimento todo do senhor. Se eu tivesse uma esposa bonita que nem a sua ia ficar contentinho o tempo todo. – Percebi que ela era muito vaidosa, pois às duas da tarde estava vestida e maquiada como se fosse a uma festa. A tática surtiu efeito e ela já puxou a cadeira dizendo:
– Epezinho, senta e se acalma, que você está sendo grosseiro com um gentleman.
Já passei a mão no telefone e pedi três cafés com água, já perguntando se preferiam um suco. Se aceitassem, ia ter que mandar fazer em casa, pois lá era só café e água mesmo. Esperei chegar o café e fui matutando o que falar para aquela fera. Ser sincero e dizer "nem sei onde é sua fazenda pois perdi a porra da planta"... o cara ia me bater. Quando estava nesse pensamento, ele me falou:
– Bom, diz aí o que o senhor resolveu, que não tenho o dia todo. Chega as duas horas que fiquei na sua recepção.
Tocou o gongo. Não tinha mais tempo para pensar.
– Bom, sr. EP, vou te dizer a verdade. O senhor pediu muito barato pelas terras e vai acabar desvalorizando a região toda. Mandei a sua planta para um amigo em Campo Grande, que queria comprar a minha. Não posso dizer o nome dele, mas pedi o dobro do que o senhor me pediu e, em um primeiro momento, ele não se assustou. Agora o senhor tem que ter calma. E tem outro interessado em Andradina. O senhor tem outra planta?
Precisava saber se a que eu tinha perdido era a única.
Para minha sorte, ele falou:
– Lógico que tenho. Você não acha que te mandaria o original.
Se ele fosse um bom observador, teria percebido o meu "UFA!".
Passei a fazenda dele para um corretor, amigo meu de Campo Grande, e uns meses depois ele voltou ao meu escritório, só que desta vez para me agradecer, dizendo que tinha vendido a fazenda graças a mim. Para minha surpresa, ele se desculpou e agradeceu novamente, e desta vez por não ter perdido a calma com sua indelicadeza, mas que ele chegou até a pensar que eu tinha perdido a sua primeira planta.
Só consegui responder:
– De jeito nenhum.
Mamãe também é uma sábia.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

A Brasília verde.


Meu escritório da distribuidora de carnes Sabor 10 está em um prédio construído por Vovô Marinho em 1909. Ele comprou um terreno grande na rua 7 de setembro entre a Delamare e a 13 de junho, no centro da cidade, e construiu três casas, uma que foi a sua residência pela vida toda, e outras duas, para aluguel. Hoje está na parte histórica e tombada da cidade. Ficaram para tia Dirce e, com a ida de Emilinha, sua filha que morava lá, para o Rio, resolveram vender e não queriam que fosse para mãos de estranhos – eu e meu irmão acabamos comprando. Transformei em quatro e já restauramos três delas. As outras duas estão alugadas, uma para a Sandra, fisioterapeuta e que tem uma academia de Pilates, e a outra para a Paty, minha nora, que tem uma empresa de recursos humanos. Ficou um lugar muito legal.
A peculiaridade está na rua que tem o grade muito acentuado. O estacionamento é permitido e na diagonal. Nossa vizinha de frente é uma senhora idosa e tem uma Brasília igual. Não sei pela idade de quem, mas toda vez que vamos estacionar, a preocupação é ficar longe e fora do alcance das duas. Algumas semanas atrás, na hora da minha aula de Pilates, veio a notícia: a velha da Brasília morreu. Ficamos tristes, eu e a Sandra, mas tudo tem o seu lado bom, até na morte. Não corríamos mais o risco de ser abalroados. Já tinha até esquecido do fato, tinha acabado de estacionar meu carro e, na saída dele, percebo alguém vindo devagarinho mas com a rotação no máximo, para estacionar ao meu lado. Quando vi que era a Brasília verde, procurei rapidamente o motorista e lá estava ela, vivinha da silva. Além da rua ter uma caída muito grande para a guia, esta última é muito alta. Do jeito que ela vinha, devagarinho e acelerando, achei que ela queria dar ré e não tinha percebido que a marcha não tinha entrado. Quando ela estava para bater na guia, num ato de puro reflexo, coloquei as duas mãos sobre o capô do carro e forcei para ver se conseguia pará-lo. Assim que encostei a mão, ela deu uma puta freada e já gritou comigo:
– O que o senhor está fazendo? – O carro continuava acelerado.
– Onde a senhora vai? Não tá conseguindo engatar a ré – Consegui responder, com a maior gentileza possível.
– Estacionar aí, ué! Engatar ré para quê? – Já percebi uma certa neurastenia na velha. Barbeira e neurastênica.
– E precisa acelerar desse jeito? A senhora está para bater no meio-fio. Se não bater agora, vai bater na saída.
Nem me agradeceu, parou ali mesmo e foi conferir para ver se eu não estava exagerando. Como estava muito perto mesmo, olhou para mim com um sorriso maroto e, enquanto eu esperava pelas suas desculpas, ela falou:
– Mania que vocês homens têm de achar que toda mulher é barbeira. Tá muito bem estacionado.
Dei um "boa tarde" e quase um "bem-vinda ao mundo dos vivos" e entrei. Esperei alguns segundos e voltei para tirar o meu carro do lado do dela. Estacionei a uns seis metros de distância e com um framboaiam entre eles. Por via das dúvidas.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

A lei e a lógica.


Lógica devia ser uma coisa de lei, obrigatória. Fora isso, de acordo com o grau de distorção, viria a classificação, de contravenção a crime de primeiro grau, ou mesmo hediondo. Proibiram o comércio de drogas e tem lógica. O drogado põe em risco a vida dos outros. Lutaram para proibir o cigarro e o que conseguiram foi sobre o fumante passivo, ou seja, faça o que quiser com a sua saúde, desde que não prejudique a do próximo. Tem lógica.
Já o cinto de segurança, eu não entendo. Como posso prejudicar alguém se eu não estiver usando o meu? Já tinha essa cisma e, para completar, outro dia estava parado no sinaleiro quando encostou um guarda ao meu lado, de motocicleta, e me mandou estacionar. Sacou seu talão de multas e começou a fazer uma. Quando perguntei o motivo, ele respondeu, sem nem me olhar:
– Dirigir sem cinto de segurança.
Não consegui ficar quieto, e falei:
– Mas, companheiro, cadê o seu?
Aí ele resolveu me olhar, e perguntou se eu queria gozar com ele. Tive até vontade de responder que foi ele quem começou, mas sou respeitador da lei e ele, ali, era um representante dela. Mas respondi:
– Claro que não, seu guarda, mas analise a situação em que nós dois nos encontramos. Estou dentro de uma Pajero com Air Bag em tudo quanto é lado, célula de deformação progressiva para absorção de impacto frontal, barra de segurança nas portas para impacto lateral, protetor de cabeça para prevenir choques pela traseira, vidro laminado anti estilhaço e o que mais o senhor pensar que existe para me proteger. Já o senhor está aí em seu magnífico cavalo mecânico, e o único ítem de proteção é esse seu capacete de plástico que, se descuidar, é made em China. Não acha que alguma coisa está errada?
Por incrível que pareça, ele parou de fazer a multa e olhou para dentro do capacete, procurando sua origem. Devia ser chinês mesmo, pois eu não imaginava que seria tão convincente assim. Fiquei pasmo quando ele desistiu da multa e até em dúvida se ele procedeu corretamente. A lei de um lado e a lógica de outro. Complicado, né? Depois disso, acho que deveria ser proibida a propaganda de moto, que nem do cigarro. Quer usar, use, quer se matar em troca de um arzinho fresco na cara, se mate – agora, tem que ser consciente. As propagandas deviam ser do tipo:
"Você sabia que o corpo humano tem 208 ossos, e que numa queda de sua magnífica 125 você pode quebrá-los?"
"Você sabia que sua caixa craniana tem a mesma resistência de um coco maduro da baía, e o seu capacete não vai protegê-lo se bater na quina de um meio-fio, e seu cérebro vai se espalhar pelo asfalto?"
"Você sabia que o número de acidentes fatais com motos é maior do que o com automóveis, mesmo sendo o número deste último dez vezes maior que o do primeiro?"
"Você sabia que, por mais cuidadoso que você seja, você está dando exemplos para seu filho, que vai querer uma moto também e não será tão cauteloso, tendo vinte anos a menos do que você?"
Mas sou coerente, ou lógico: sou contra proibir a venda de motos, uma vez que a pessoa está colocando apenas o que é dela em risco.
Agora, cinto de segurança... apesar de eu usar constantemente, obrigar o sujeito a usar isso, para mim, é violação da liberdade individual.
Já discuti com muita gente entendida e já escutei, como principal argumento, o quanto o governo gasta com acidentes de carros. Se formos por esse lado, deveria ter multa para quem andar sem agasalho em dia de frio. O veado vai pegar uma gripe, vai ficar sem trabalhar, vai ocupar fila no posto de saúde, etc, etc. Para multa do sem cinto, tinha que ter a do sem casaco também. E olha que a gama de coisas que viria junto com essas seria enorme.
É fácil?

segunda-feira, 30 de julho de 2012

A Senha

Outro dia postei sobre as invenções simples do passado e sobre como quem viveu antes delas é que dá a importância merecida. São coisas simples que não entendemos como foi que demoraram tanto tempo para serem descobertas. A campainha, por exemplo. Antigamente, eram aquelas peças que te ajudavam a bater na porta para não machucar o nó dos dedos, e nas casas com recuo e grades na frente, como a de papai, tinha que ser na palma. A campainha já foi um grande avanço. Logo no seu início, no fim dos anos 50, lembro que, na saída do matinê, ia apertando a de todas as casas e corria. Grande pentelhação. Um dos primeiros interfones instalados em Corumbá foi na casa de meu irmão. Daqueles que você atendia e era um chiado só. Só depois, muito depois, vieram os com câmera de vídeo. Mas fui apresentado a esse comum pelo meu irmão. Todo orgulhoso, apertou a campainha e a empregada perguntou lá de dentro, como treinada:
– Quem é?
Ele olhou sorridente para mim e respondeu:

– José Antônio.
– Quem?
– JOSÉ ANTÔNIO – Já meio chateado e num tom alguns decibéis mais alto.
Quando veio o "QUEIIIM?" de novo, ele já perdeu as estribeiras e falou:
– JOSÉ ANTÔNIO, PORRA.
Aí, acionaram o comando à distância e abriram o portão.
Daí pra frente, qualquer um que apertasse aquele botãozinho e falasse "qualquermerda, PORRA" – a porta se abria. Virou senha.
Mas em uma pequena coisa dá para imaginar como foi a evolução. Hoje uma casa sem porteiro eletrônico é algo impensável. Tá certo que eu reformei as casas de tia Dirce e me esqueci da campainha. Estou procurando um batedor de ferro para instalar lá. Vai ficar por conta de coisas de antigamente. A casa tem mais de cem anos e vai ficar compatível. Vou ver se acho aquele punho fechado de ferro fundido que articulava e batia em outra peça de ferro fixa na porta. Se não achar, vou projetar uma. Vai ficar muito chique. Em vez de DIM DOM, vai ser o antigo TOC TOC. Se quiser ver quem é antes de abrir, olho mágico, que foi outra grande invenção. Vai ficar muito legal e "RETRÔ", que é nome novo para antiga burrice.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Mão na Bunda

Não tem coisa pior do que passarem a mão na bunda da garota que está com você, na sua frente. Na primeira vez que isso aconteceu, por volta de 1968, enchi o gajo de porrada, e olha que ele bateu com o chapéu, era namorada e em pleno carnaval.
Na segunda vez, o cara encheu a mão, era minha esposa e eu tive que agradecer – mas explico.
Estávamos em Santa Cruz, Bolívia, acompanhando o Till Sculuter, presidente da Osram, numa visita ao mercado. Já escrevi desta ida na história de 22.08.11 (cara, já vai fazer um ano). Na preparação da expedição, o alemão quis fazer a viagem de trem, e quando informamos que existia dois tipos, a litorina, que era mais tranquila, e o trem da morte (o nome dispensa maiores explicações), o veado pediu para comprar as passagens de ida na litorina e de volta no trem da morte, isso para irem se acostumando.

Como a mulher dele quase morreu na ida, ao ficar 18 horas sem urinar, de lá eles pegaram um avião direto para São Paulo, e nós, Bea, meu primo Ivan, sua esposa Miriam e eu, voltamos no trem da morte. Na saída, foi quando tudo aconteceu. A plataforma de embarque estava tão cheia que não conseguíamos chegar perto do trem. Abrindo caminho de qualquer jeito, carregando as malas na cabeça, conseguimos chegar ao lado do nosso vagão, mas a porta era inacessível. Escalei a janela, como todo mundo, e fui pegando as malas que eles me passavam. Dei a mão para Ivan e o recolhi pela janela. O mesmo com Miriam, mas quando chegou a vez de Bea, a múmia ria tanto que não conseguiu ajudar. O trem começou a andar e o nosso representante, Rafael Rocca, não teve dúvidas: meteu-lhe a mão na bunda e a empurrou para cima. Quando olhei para ele para agradecer, ele me pediu "perdón", dizendo que não achou um jeito mais digno. Fazer o quê, né!

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Nhogonça


Nós temos muitas expressões e palavras regionais, umas vindo do castelhano devido ao fato de estarmos na fronteira com a Bolívia, e outras de difícil definição da sua origem. "Vôte", para algo muito ruim, e "vixe", para algo inacreditável, são de origem espanhola e motivo de muita gozação quando usadas fora daqui. Sempre ouvi e falei que coisa muito antiga era da época do "Nhogonça", sem nem desconfiar do que se tratava. Outro dia encontrei a dona Neta, uma senhora por demais simpática, cliente da nossa Casa de Carne da Delamare, e fui elogiar a sua disposição. Quando, indiscretamente (acho que é uma das minhas características), perguntei a sua idade, ela me falou que passava dos 80. Vi que a falta de precisão era para ocultar parte da verdade. Para ser gentil – e realmente ele é muito conservada – dei o famoso "não acredito!". Ela, muito espirituosa, me declamou uns versos, que fiz questão de tomar nota, e que transcrevo aqui:

O tempo passa depressa
Sem a gente persentí
Quando assusta já tá véio
Sem enxergá, nem ouví

Tropicando a cada passo
Num perigo de caí
Aí chega a veíce
E a gente começa a mentí.

– Muito legal, dona Neta. Não conhecia. Quem é o poeta?

– Nhogonça.

Na hora, percebi que Nhogonça era a abreviação de Senhor Gonçalves, alguém muito velho. Ela não soube me dizer quem era com exatidão, mas falou que era ligado ao pessoal dos Barros. Saí atrás e quem me esclareceu foi o Emilio de Barros. Ele era filho de Nhonho Fancho, apelido de Francisco Leite de Barros e Nhanha Antônia, Ana Antonia de Arruda Leite, que vêm a ser os bisavós do meu sogro, Antonio Pedro de Barros. O interessante é que o Nho Gonça tinha uma irmã, Custodia, e desconfiam que era ela a escritora e usava o apelido do irmão como pseudônimo.
Quem diria que eu descobriria um escritor desconhecido, da época do Nhogonça.
Mas essa foi fácil.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Timóteo Mujica


Uns meses atrás, me despedi de um grande amigo do passado, Luis Timóteo Mujica. Já falei dele aqui neste blog, da época em que eu namorava a sua irmã e ele paquerava a filha do almirante: um post com o título de "PequenasConfusões", em 17/10/11. Com 62 anos, um ataque cardíaco levou meu amigo dos velhos tempos. Mas essa é a vida depois dos 60, temos que ficar com as malas prontas e torcer para que a viagem para o outro lado seja de primeira classe. A dele foi: ataque fulminante, sem sofrimentos demorados. Mas o interessante aconteceu durante o velório, e agora, pouco tempo depois, entendo e acredito no que me falaram outro dia. Um fato que pensava ser do além foi a explicação da sincronicidade do universo. Essa coisa – gosma, como diz a minha filha psicóloga – de que todo mundo está ligado e faz parte de um grande e único movimento. Como um corpo que se desloca, formado de milhões de átomos em constantes movimentos brownianos, mas, no conjunto, se deslocando juntos e na mesma direção resultante. Mas vamos aos fatos. 
Eu devia ter uns 15 anos, estava estudando em São Paulo e nas primeiras férias aqui, fui com o Timóteo para a fazenda Passarinho Preto, de seu pai, na beira do rio Paraguai, e a uns 50 Km de Corumbá. Subíamos de barco e a viagem demorava algumas horas. Era daquelas lanchas de motor de popa e ele ia no motor e eu na proa, pegando vento na cara. Me lembro dele cantando a música "Ádios Muchachos". Ia com um chapelão de palha, barbela apertada para o vento não tomá-lo dele, e cantava bem alto. Estava feliz, pois era seu primeiro trabalho de responsabilidade. Não me lembro de ter escutado essa música novamente, mas ela me marcou, e eu vivia cantarolando o seu refrão. No seu velório, quando me aproximei para me despedir dele, de um bar perto de onde ele estava sendo velado veio, de uma maneira muito clara, a música. Na hora achei que era algo sobrenatural, tal a coincidência. Como não conhecia a letra por inteiro e só o seu refrão, pesquisei e achei; e de tão interessante, resolvi deixá-la registrada aqui.

ADIOS MUCHACHOS

Letra: Cesar Felipe Veldani
Música: Julio César Sanders


Adiós muchachos, compañeros de mi vida,
barra querida de aquellos tiempos.
Me toca a mí hoy emprender la retirada,
debo alejarme de mi buena muchachada.
Adiós muchachos. Ya me voy y me resigno...
Contra el destino nadie la talla...
Se terminaron para mí todas las farras,
mi cuerpo enfermo no resiste más...

Acuden a mi mente
recuerdos de otros tiempos,
de los bellos momentos
que antaño disfrute,
cerquita de mi madre,
santa viejita,
y de mi noviecita
que tanto idolatré.
Se acuerdan que era hermosa,
más bella que una diosa
y que, ebrio yo de amor,
le di mi corazón!
Mas el Señor, celoso
de sus encantos,
hundiéndome en el llanto,
me la llevó.

Es Dios el juez supremo.
No hay quien se le resista.
Ya estoy acostumbrado
su ley a respetar,
pues mi vida deshizo
con sus mandatos
llevándome a mi madre
y a mi novia también.
Dos lágrimas sinceras
derramo en mi partida
por la barra querida
que nunca me olvidó.
Y al darle, mis amigos,
el adiós postrero,
les doy con toda mi alma,
mi bendición.

Foi com esse fundo musical que me despedi do meu velho amigo.
Que Deus o tenha.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Exame de próstata.


O Dr. Domingos Albanese é um dos médicos mais conceituados de Corumbá, e essa aconteceu com ele. Para manter a confidencialidade da relação médico-paciente, ele me contou a história e pediu sigilo quanto ao nome do protagonista. Era um senhor de mais de 80 anos que foi consultar, reclamando que levantava muito à noite para urinar. Ele desconfiou logo da próstata e pediu que o velho tirasse a roupa e deitasse sobre a maca. O mesmo, acompanhado do filho, ficou meio relutante. Pelado ele só ficava na frente da dona dele. Não tinha intimidades com ninguém para ir expondo suas partes pundentes a quem quer que seja. Depois de muita conversa, e de todos saírem da sala, ele se colocou nu sob um lençol, e chamou os dois com um "tô pronto". O Domingos já se preparou para o que estava por vir. Quando começou a colocar a luva e passar vaselina no dedo, o véio deu a primeira refugada, mas só no olhar. Quando ele dobrou a perna e foi para o toque aí a coisa complicou. O véio baixou a perna rápido, e perguntou:
– Doutor, posso saber onde você vai com esse seu dedão engraxado?
– Vou te dar um toque, seu fulano.
Como o velho não parava, e o Dr. não conseguindo, parou e falou:
– Para dar o toque, seu fulano, o senhor tem que parar. Preciso acessar a sua próstata e para isso tenho que enfiar o dedo no seu anus.
Ele injuriou demais e, para segurá-lo na maca, foi um parto. Falou o filho, o médico e, aos poucos, conseguiram acalmar o mijador. Foram para a segunda tentativa e a rebolação para evitar a dedada continuou.
Quando o Domingos falou:
– Mas o senhor não vai parar?
– De jeito nenhum. Você pode até fazer o que nunca fizeram nesses meus 80 anos, de enfiar este seu dedo sujo no meu cu, com essa história de exame. Agora, paradinho, paradinho, não vou ficar jamais.
Foram para o ultra-som. Não iam conseguir fazer o toque. Deu displasia benigna, sem confirmação pela dedada. Como isso já foi há uns dez anos, e o homem continua firme e forte até hoje, conclue-se que o diagnóstico foi bem feito e sem tirarem a virgindade anal do homem.
Já comigo, não teve jeito, nem preliminares. Foi direto e já por duas vezes. A primeira aos 50, um médico da minha idade, que eu nunca tinha visto, e no vapt, vupt – quando assustei já não era mais o mesmo. Passei o dia todo meio jururu, mas satisfeito... com o resultado, pois o exame é mesmo meio humilhante. Já na segunda vez, já estava de brincadeiras, perguntando se não ia rolar uma champanhe primeiro. Quando o médico perguntou se era a minha primeira vez, respondi:
– Não, doutor, já sou puta velha.
Continua joia, graças a Deus.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

É mole?


Tem uma história que escutei de fonte fidedigna e que me fez lembrar da D. Isabel, minha professora de ioga dos anos 80. Ela falava que gostaria de registrar as últimas coisas que ela fosse fazer na vida, e com consciência disso. Enquanto todos falavam que gostariam de, por exemplo, morrer dormindo, ela falava que queria estar consciente de seu último suspiro. Pois bem, este senhor, quando estava nas vésperas de seus 90 anos, os seus amigos mais novos, beirando os 80, resolveram levá-lo para a zona, para ele dar sua última trepada. Ele já vinha se queixando que o esforço era tão grande, as dores nas costas após o coito tão fortes, que o custo beneficio já não estava valendo a pena. Tinha que ter uma última vez, para ficar na lembrança para sempre. Foi tudo muito bem preparado. Avisaram a dona do bordel para preparar a melhor e mais nova "menina" que tivesse. Tinha que ser jovem pois, segundo os sábios companheiros, para revolver velho precisa de bala nova, senão nega; e tinha que ter experiência e persistência pois, completando 90 anos, a empreitada ia ser difícil. No dia D foram para o desembarque na Normandia, que no caso era a Babilônia. O véio – vou omitir seu nome (mas para quem duvidar, pergunte ao Zé Mauro, nosso piloto, que ele confirma a história e se quiser fala até o nome do protagonista, mas assim em público vou declinar) – se preparou todo, banho tomado, perfume francês aprovado por todos e seguiu para sua derradeira. Chegando no prostíbulo, conheceu e se encantou com aquela companheira de sua última viagem pelo mundo do sexo. Após um papinho, foram pros finalmentes e daí em diante a história foi contada por ele e de boca em boca chegou até nós. Os dois na horizontal, ficaram naquela pegação... e quando ele engatilhava a arma, até conseguir subir por cima da menina, a coisa pifava. Ficou nesse chove e não molha por umas três vezes quando a menina resolveu inverter de posição, e falou:
– Seu fulano, fica ocê quietinho, que quando a coisa aí armar, eu vou por cima, que sou mais rápida.
– Tá bom, minha filha, afinal de contas a profissional aqui é você. Vamos experimentar.
E a próxima tentativa foi assim, a mocinha subiu no véio e tentou encaixar. Depois de muita luta, ela já desistindo, falou:
– Seu fulano, não tem jeito. A coisa num vai.
O véio deu uma levantada de cabeça e olhou a coiseira. Quando viu o companheiro dobrado e olhando pra ele, falou:
– Como que não vai, minha filha, se já tá até de vorta?
Continuaram na luta e, por incrível que pareça, quem me contou a história não soube me dizer se ele conseguiu ou não chegar ao fim.
Mas também não interessa, pois só a tentativa já foi inesquecível.
É mole? Bom, nesse caso, foi.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

IATF


Já falei um sem número de vezes do José Mauro neste blog. Mas é que, realmente, ele é um cara muito engraçado e de uma percepção que pouca gente tem. Acho que é uma característica dos pilotos desse nosso pantanal. O cara, para ser bom, tem que ter essa qualidade; pois para voar em um monotor (que, segundo Jô Soares, é um avião que já decola em pane) tem que se estar, a todo minuto, muito atento à sua posição, ao seu alcance em caso de pane, e à melhor alternativa para colocar a aeronave à salvo no solo. E ele já tem mais de 10.000 horas de voo. Mas estávamos comemorando o passar de mais um ano com um churrasco na EMA, com todos os funcionários, quando ele chegou atrasado, no fim da festa. Sentou na minha mesa e ficamos conversando sobre trabalho, para variar. Falamos sobre o resultado do IATF, inseminação artificial em tempo fixo, em que você sincroniza o cio de todas as vacas e insemina de lote. É uma beleza, pois os bezerros nascem todos juntos, facilitando a curação e todo o processo de recria, além de deixar o lote super homogêneo, pois são todos da mesma idade. Mudamos de assunto e falei que estava indo passar o fim de ano em São Paulo e meio dividido, pois não poderia levar mamãe, que não aguenta mais essas viagens. Seria a primeira vez que passaria a entrada de ano apartado dela, mas estava com duas noras parindo juntas em São Paulo, e os filhos estariam lá. Ele não tinha me cumprimentado ainda pelo fato de que eu ia completar treze netos com esse novo lote, quando veio a pérola:
– Com você é assim, heim? Pare tudo junto, vaca, nora. Fizeram IATF também?
Serviu para descontrair.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Filosofo engenheiro


Hoje conheci um cara que me deixou muito animado. Ele é professor dos meus filhos e noras num curso do MBA, o professor Antônio Raimundo dos Santos. O interessante é que ele é formado em filosofia e engenharia – uma mistura bem interessante e muito particular, pois eu achava, antes de conhecê-lo, que era até mesmo antagônica.
Ele conseguiu me convencer que, com o avanço da medicina, se nos mantivermos íntegros física e mentalmente por mais dez anos, vamos chegar aos 100 tranquilamente. E isso com cálculos de engenheiros, extrapolando os avanços da medicina com a engenharia genética, que estão sendo feitos em uma progressão geométrica. Quando perguntei quantos anos a mais, depois que chegasse aos 100, ele confirmou: "o céu é o limite". Achei dúbia a sua resposta, pois o céu poderia significar muitos anos mais ainda, assim como também o fim de tudo, para os bons, né? Confirmou que a vida eterna já não é mais uma utopia. Acreditei tanto que até desengavetei uns projetos pessoais de longo prazo, coisa para começar a dar resultados em uns 30 anos. Almoçamos juntos no sábado, em minha casa, e à noite jantamos no Terraço. Nunca imaginei que eu pudesse gostar de filosofia; ou melhor, de filosofar. Conversamos sobre tudo, ele me dava as explicações lógicas, e quando não conseguia, vinha com as filosóficas. Quando o alertei para o fato, ele me respondeu, com a maior tranquilidade, que ali estava a importância da filosofia – e me deu um exemplo inquestionável, a fé. Como explicar a fé de maneira lógica? Fé existe quando você acredita em uma coisa, e pronto. Qualquer coisa diferente disso deixa de ser fé. Gostei demais do Antonio Raimundo, e acho que a simpatia foi recíproca, pois já recebi um livro de sua autoria e de que estou gostando muito, cujo titulo é "Ética – Caminhos da realização humana". A dedicatória já é para te fazer pensar, e a transcrevo ipsis litteris: "Caro Tadeu. Diz Sto. Agostinho, o maior filosofo medieval / antigo 'Ama, et fac quo vis'".

Usando de meu latim do padre Ernesto e do Google, traduzi para "Ame e faça o que quiseres". Não é à toa que filosofia foi feita para pensadores e sábios. Uma pequena frase resumindo tanta coisa. Seu livro fala de moral, justiça e ética. Muito interessante ver como essas coisas se entrelaçam. Recomendo a leitura a todos, filósofos ou engenheiros. Muito legal.