quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Paris, Paris.

Fomos com Laura e Ze levar os netos para a Euro Disney. Nos hospedamos no Hotel Hollyday Inn em Notre Dame na Danton 4, no Bairro Saint German. Coração de Paris. Em uma semana, me sentia um parisiense, tá certo que totalmente perdido. Cada vez que tinha que voltar para o hotel, ou achava o Senna primeiro, ou tinha que perguntar como. Quem esta acostumado com Corumbá que é um tabuleiro de xadrez, com todas as ruas paralelas e na direção norte sul ou leste oeste, não vai se encontrar nunca num lugar daqueles, onde vc precisa de bússola, ou melhor ainda, um gps para você andar por lá. Laura tinha um no celular. Mas foi muito legal, principalmente os apuros com a língua e as coincidências.
Já na viagem daqui, na disputa dos lugares no avião, fui na fileira do meio com Rafael de um lado e Thiago do outro. Depois de umas 100 piadas, resolvemos dormir. Eles, porque eu fiquei de travesseiro dos dois. Mas antes, na janta, a aeromoça era uma coreana, estávamos viajando pela Singapura air lines, o inglês dela, mais o meu, adicionado a minha surdez, comi o que ela quis, pois fiquei com medo, de na nossa conversa, ela entender que não queria jantar. No final ela me perguntou se eu queria "iii". Quando disse "i what?", veio o chá e eu queria café. Apesar de ter que agüentar a gozação, dai para frente deixei o Rafael pedir por mim. Ele estava se virando muito melhor com seus ouvidos e seu inglês e eu não queria mais pedir porco e comer frango. Achei um absurdo uma companhia chic dessas, decolando do Brasil, não ter aeromoças que falem ou português ou espanhol. O inglês delas é para quem fez escola em Singapura. Isso serviu para me traumatizar definitivamente e em Paris só falávamos espanhol ou português, e ficamos impressionados com a quantidade de vendedores estudiosos da nossa língua. Preferíamos nos comunicar, com eles falando português e espanhol tudo errado do que nós assassinando o francês ou inglês. O lance engraçado aconteceu quando fui comprar meu barbeador Philips com limpeza automática. Era uma loja especializada da Philips, mas dessas pequenas. Tinha duas pessoas atendendo, um senhor de 50 anos, que devia ser o proprietário e um rapaz de 20. Na primeira pergunta de "Ablas espanhol ou Português", o rapaz, timidamente balançou a cabeça dizendo que sim, no começo, e depois com a mão, tocou pandeiro, indicando o mais ou menos na linguagem universal. Estávamos indo bem, com ele baixando todos os modelos da prateleira. Quando fechamos o negócio ele já estava bem mais solto com a língua, e nitidamente, gostando de mostrar ao seu chefe que conseguia atender a brasileiros e resolveu nos avisar que não poderíamos usar o aparelho ante de carregar a sua bateria por 8 horas. Foi aí que se deu a merda, literalmente. Ele se enrolou com um "chargar", e entendemos logo que ele estava afrancesando o "cargar" do espanhol. Foi quando o dono da loja resolveu mostrar seus profundos conhecimentos da língua espanhola e veio a seu socorro dizendo:

-Fulano, é cagar e não chargar, CAGAR, entendeu?

Virou para nós e socou um Pardon em francês. Não agüentei e disse ao rapaz que ele estava mais próximo da verdade que seu chefe. Realmente o chargar dele não era bom, mas bem melhor que o cagar do chefe. E para explicar o significado do cagar? Ficava meio de cócoras e com a mão fechada dava um soco meio para o lado. Como a coreografia não estava sendo bem entendida, tive que fazer a sonoplastia e descobri que todos fazem o mesmo barulho quando peidam. Entenderam na hora e foi uma risada só e o pardon dessa vez veio por outro motivo.

Igual a essa teve outras, mas com Bea. Fica para a próxima.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Márcio e Ju

Dr. Márcio é medico veterinário, especialista em melhoramento e o melhor na área, que eu conheço. Agora, é fanático. De um tanto que casou com uma médica veterinária também da área, só que de reprodução. Acho que foi a primeira condição que ele impôs para achar a companheira de sua vida. A segunda era que fosse mulher. Brincadeira, pois a Ju é muito linda e muito gente fina. O cara é de muita sorte. Mas estávamos juntos em casa num desses últimos domingos comendo uma picanha Sabor 10, quando e a conversa enveredou sobre eles encomendarem o primeiro filho. Eu, como um especialista no assunto, perguntei se eles sabiam como fazer para que viesse com o sexo desejado. Momentaneamente, tinha me esquecido de quem eram os dois. Meia hora depois de explicações de centrifugação, marcação e separação dos espermatozóides XX dos XY, complementados com estatísticas e probabilidades de dar certo ou não, eficácia dos métodos, média, desvio padrão e o escambau, que eu como engenheiro já não estava entendendo mais nada, disse:
- Pode parar, não tem nada disso não. Nada de inseminação com separação de espermatozóide. É na monta natural mesmo. É na ripa na chulipa. Foi aquele silêncio geral e a atenção foi redobrada.
Você, Márcio, só tem que fazer o seguinte, ficar em jejum por três dias e...
Ele me interrompeu e falou:
- Três dias, você tá com brincadeira.
Já ia elogiar o seu libido quando ele completou:
- Vou morrer de fome.
Aí que eu prestei atenção no meu velho amigo Márcio e percebi que ele devia estar uns 15 kg acima do peso e, depois de muita risada e gozação, completei:
- Jejum sexual Márcio. Três dias sem sexxxo. Pode comer de tudo.
Ele completou;
- Menos a Ju. Entendi.
Depois de muitas risadas, dei a dica a ele. A coisa dá tão certo que eu queria homens e consegui 3 para uma mulher e onze netos para duas netas. Vamos ver o que vai sair dali, mas se ele seguir o protocolo é tiro e queda.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Primeira vez

Eu tenho 10 netos e caminho para mais três simultâneos. Dois de uma barrigada só e outro escoteiro. Tive filhos gêmeos e agora netos. Sou um cara abençoado. Às vezes causo ciúmes falando muito do primeiro, o Rafael, mas é que o primeiro é diferente. Quem não se lembra do primeiro beijo. A Dalvinha, que morena ajeitada nos seus treze anos. Hoje, falando assim posso passar por pedófilo, mas na época era ela o papa anjo, pois eu tinha 11 anos. Primeira transa, Neusa, profissional de sexo, ou prostituta como preferirem. Primeiro banho de mar. Quando vi aquilo tudo de água pensei que nem um matuto aqui da nossa região, só que mais erado, que falou, "mas que baião besta, sô".

Mas voltando aos netos eles gostam demais das piadas que eu conto. Saímos juntos e o tempo todo é "conta uma aí, vô". A que ficou famosa foi com o Rafael. Acho que foi a primeira mais inteligente que ele entendeu. Ele devia estar com uns quatro para cinco anos e as anteriores eram piadas pastelão, daquelas de "pisou no coco", "caiu de bunda" e outras sem graceiras. Essa tinha história e era de português. Ele gostou tanto e começou a contar para todo mundo e o caso se deu na primeira dessas contadas. Estavam as mães, dele, minha e de Beá, mais umas visitas eradas também e o bispo da cidade. Ele sempre gostou de platéias, tanto que hoje é guitarrista em uma banda da escola, e cronner do conjunto.

Começou a piada, com todos achando bonitinho e foi, mais ou menos, assim:

-O Manoel, português né, amigo do Joaquim, (e ele já dava uma pausa para as risadinhas, pois eu já tinha explicado para ele esse negócio de todos os portugueses chamarem Manoel e Joaquim), foi aprender a pular de pára-quedas. Na aula explicaram para ele que ele pulava e o pára-quedas abriria automaticamente (se perdeu um pouco no automaticamente, mas continuou). Ele tinha que contar de um a dez e se não abrisse, ele puxava uma cordinha para abrir o de reserva. Quando chegasse ao solo, teria um jeep esperando ele. Lá foi o português para o seu primeiro salto. (Com a mãozinha ele decolou o avião). Pulou o Manoel. (Pulo coreografado, subiu no sofá e pulou e tinha sonoplastia, o barulho do vento) e contou de 1 a 10 e nada. Puxou a cordinha olhando para a cima e nada ainda. Aí ele olhou para baixo e disse:

- Tá tudo dando errado hoje. Falta só o filho da puta do jeep não estar me esperando.

Até estavam rindo, o bispo timidamente, quando Laura meteu o pé na jaca e falou:

- Papai, tinha que ter o "filho da puta"?

Foi quando todo mundo ficou sabendo que foi o avô que tinha contado a piada para ele. Tora, não?

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Quem é o surdo?

Jose Airton de Almeida trabalha com a gente faz mais de 12 anos. Começou como capataz e já beiradeando os 60 anos. É um cargo que exige duas coisas importantes, experiência e disposição. À medida que a idade vai passando aumenta uma e diminui a outra, até que atinge um ponto que a vontade não controla mais o corpo. Quando o Zé atingiu os 70 anos, foi ganhando peso até que ele não agüentava mais o cavalo e vice versa. Para completar a esposa ficou doente e ele não pode mais continuar na fazenda. Mas tinha ganhado minha confiança e feito um bom trabalho por onde passou. Veio para a cidade e começou a trabalhar na Marinho Engenharia. É o "Faz Tudo" da empresa. Comprador, acompanha os serviços da fabriqueta de pré moldados, resolve todos os problemas das casas de aluguel, etc. Mas esta ficando surdo o que, outro dia, proporcionou una cena muito engraçada. A Gerente da distribuidora de carnes ligou para ele para que providenciasse as ligações de água e luz do nosso novo escritório. Como o bicho tá surdinho começou um diálogo, que para mim que estava escutando só um dos lados, um monólogo, muito engraçado, mais ou menos assim:

-Bom dia, seu Zé, é a Morgana.

-....

-Morgana seu Zé. Tá escutando?

-....

-Tá escutando?

-.....

-SEU ZE, É A MORGANA, TÁ ESCUTANDO?

Resolvi interferir e falei:

- Acho que um de vocês dois está surdo. Ou ele não escuta ou responde e você não escuta. Empresta aqui.

- Oi Zé, é Tadeu. Tudo bom?.

- Tudo. Achei que era o Tadeu.

Desisti e devolvi o telefone para ela que continuou com o ESTÁ ESCUTANDO. Não tinha jeito.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Negão

Já falei dele aqui neste blog. Foi o cara que me socorreu quando perdi a ponta do dedo na fazenda Santa Gertrudes. É o Everaldo Militão, Negao para os mais íntimos, mas só para os muito íntimos mesmo. Era o eletricista da firma e hoje continua fazendo trabalho para nós, mas de forma terceirizada. É um cara por demais espirituoso. As piadas que ele mais gosta de contar são as de negro. Quando faz alguma besteira e você chama atenção dele, a resposta é sempre a mesma: - Mas também, o que você queria? Veja a minha cor.
Uma das suas foi quando estávamos na fazenda Angico reformando um reservatório de água e pintando a parede de neutrol, que é uma tinta preta a base de pixe. Quando quis ajudar ele falou:
- Você vai se sujar que nem eu, com a diferença que em você vai aparecer.
Mas vamos ao acontecido. Todos os anos tem a quermesse da Apae aqui em Corumbá, e já se tornou uma das festas mais bonitas da região, onde a população mostra a sua solidariedade, se diverte e come com a festa. No jardim da cidade são montadas mais de 20 barracas de madeiras cobertas com lona, onde são vendidos todos os tipos de comida, uma mais gostosa que a outra. A Ema era responsável pela montagem das barracas, de um barracão central, onde as pessoas poderiam se sentar para comer e por toda a instalação elétrica e Bea, como coordenadora dessa montagem, levava um lote de pessoas com ela, inclusive o Negão. A prefeitura sempre ajudava com a mão de obra não especializada e mandava um chefe para coordenar esse pessoal, e era um sujeito com uma aparência meio engraçada. Tinha as pernas curtas, ombro estreito, barrigudinho e andava com o pé virado para a fora. Como tinha o nome meio complicado, já pregaram um apelido nele e em pouco tempo ninguém o tratava mais pelo nome, era só de Ganso.Não dava para saber se ele gostava ou não do apelido, pois não falava nada, mas atendia a qualquer chamado pelo mesmo. Ao mesmo tempo, todos os íntimos do Everaldo só o tratavam por Negao, e o Ganso não fazia parte desse grupo. Lá pelas tantas o Ganso vai e fala:
- Negão, venha até aqui.
Como todos escutaram ao chamado do ganso e sabiam o quanto o Negão era gozador, como que combinado, todos pararam de trabalhar e olharam para o Negão. Ele percebendo o clima fala:
- Vem cá, eu te conheço? Você não sabe que esse termo é pejorativo e cabe até um processo por descriminação. Eu tenho nome e você não pode me chamar pela minha cor. Eu achava que era moreninho e você falando isso pode até me traumatizar - falou isso muito sério e parece que quanto mais preto ele ficava mais branco ficava o ganso. O bicho mexia os lábios e não saía som nenhum. Todos rachando o bico e já com dó do ganso, quando o Negao completou, já não agüentando e começando a rir:
- E aí, vai ficar aí parado sem GRASNAR nada.
Só aí que ele percebeu que era gozação, mas depois disso, acho que só por garantia, ele só tratou o Negão de "Seu Everaldo Militão".

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Carta aberta a Bruno Jose Patrussi

A Síndrome de Estocolmo explica meus sentimentos. Para os poucos que não sabem, é quando o seqüestrado se apaixona pelo seu seqüestrador. Fiquei tão ansioso esperando a resposta ao "O Crítico" que desenvolvi a síndrome e acabei gostando do Bruno José Patrussi (não vou usar o termo apaixonar pois posso ser mal interpretado). Quase que de hora em hora eu consultava o blog para ver se ele tinha lido e qual tinha sido a sua resposta. Como o leite sempre ferve quando quem estava prestando a maior atenção se descuida, quem me avisou que chegou seu comentário foi a Bea. Coração acelerado, já pensando em um monte de respostas, conforme a crítica, parei tudo que estava fazendo e fui para o blog. Caí do cavalo. Ele mostrou ser uma pessoa gentil e generosa, diferente de mim, que fiquei ofendido profundamente por ser chamado de chato. Gentil por dizer que concorda com alguns dos meus argumentos do Crítico, coisa que não acreditei muito, e generosa por dizer que tenho razão em achá-lo chato. Felizmente, é uma das coisas que a gente faz errado mas tem tempo de reparar. Queria vir a público, meu público, para dizer que não te acho mais chato não.

Forte abraço, Tadeu.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Meu General

Devia ter 18 anos quando pegamos o trem em Corumbá. Era época do governo militar e o país estava quase em uma guerra civil. Os comunistas querendo dominar o governo assaltando bancos para financiar seu intento e o governo prendendo todos os suspeitos e, até os não muitos. A coisa não estava nada bonita. Eu, com aquela idade, meio comunista e papai, 37 anos mais velho, inteiramente governista. Nós dois viajando sozinhos, aquela era a discussão do momento. Ele ia até São Paulo comigo para me ajudar a levar o carro e voltava de avião. Ele era tarado por viajar de carro e até isso ele fazia. Pegávamos o trem até Campo Grande e de lá seguíamos de fusca para São Paulo. Embarcávamos antes da janta e comíamos no vagão restaurante do trem que era muito bom e fazia um bife a cavalo famoso. Quando fomos para o restaurante o mesmo estava lotado e tinha uma mesa reservada. Papai não percebeu e sentou nela. Quando o garçom pediu que ele saísse, ele se dirigiu a mim, em tom sério e disse:
- Sargento, você esqueceu de reservar a minha mesa?
Como estávamos na conversa que os militares que mandavam no país e na época eu era inteligente e pegava as coisas no ar, respondi:
- Meu General, o erro deve ser da NOB, pois ao pegar as passagens avisei ao chefe da estação que o senhor jantaria aqui e exatamente (consultei meu relógio) às 19:20h.
- Muito bem, sargento. Virando para o garçom ele pediu que chamasse o responsável.
Ao invés disso o garçom puxou a cadeira novamente para ele que já estava de pé e já entregou o cardápio. Sentamos e comemos, não sem um certo receio da mesa estar reservada para um general de verdade.
Acho que foi uma das únicas vezes que vi papai fazer uma coisa duvidosa, se passando por outra pessoa. Lembro ainda da conversa, ele querendo saber as patentes da marinha pois esperava que eu o chamasse de Almirante ou Capitão de Fragata, que nem o Holanda, seu amigo. Ele se achava mais parecido com um do que com um general. Mas com o "sargento" eu me lembrei de exercito e já toquei a patente mais alta que conhecia. E depois deu certo, não deu?

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Cadeia nele

Essa é recente, não tem mais que 15 dias. Eram duas da tarde quando recebi o telefonema de meu mestre de obras. A polícia tinha prendido dois funcionários nossos, um pedreiro e um servente. Estavam na federal e iam em cana. Nem perguntei o motivo da prisão, já imaginando bebidas e brigas e fui para lá. Chegando na delegacia, encontrei o servente em prantos. Era o mesmo que, uma vez trabalhando na fazenda, correu de um lote de vacas achando que elas iam mordê-lo. Até escrevi essa história aqui. Fiquei muito preocupado, pois pelo choro parecia que tinha apanhado. Quando consegui acalmá-lo ele começou a falar coisas desconexas, que a mulher ia largar dele, e na hora achei que ele tinha, no mínimo, fumado maconha estragada. Quando perguntei o motivo da mulher deixá-lo ele respondeu:
- O senhor acha que ela vai acreditar que fui preso porque estava trabalhando. Nunquinha.
Nesse momento a delegada, muito gentil e simpática por sinal, me pediu que entrasse em sua sala que iria me explicar o que estava acontecendo. A obra que eu estava fazendo foi embargada pelo Iphan e eles não haviam respeitado o embargo e me mostrou os documentos assinados pelo meu mestre de obras. Eram dois: uma cópia da notificação para apresentação de documentos, e uma fotografia do documento de embargo. Este ela não tinha copia, pois a mesma estava afixada no muro da obra. Foi aí que tudo se esclareceu. A casa que eu estava reformando estava na área tombada da cidade. Quando fui murar o terreno em frente da construção, o mesmo ia obstruir a visão da casa e pediram apresentação de um projeto para aprovação, através de uma notificação que chegou as minhas mãos e um documento de embargo paralisando simultaneamente a obra, que foi fixado no muro, e sem cópia para meu conhecimento. O mestre de obras achando que se tratava de um único documento, levou o primeiro para mim e nem citou que tinha uma "cópia" pregada no muro, dizendo que a obra estava embargada. Quando li a notificação, ainda reclamei que ele nem sabia ler direito e mandei continuar o serviço. Explicado isso tudo para a delegada, que fez um relato completo da minha versão, me fez dar ciência de que a obra estava embargada e soltou os presos.
O chorão queria entender o que ele tinha feito para ser preso e fiquei muito preocupado. Já pensou se ele estava trabalhando firme na hora que a policia chegou? Não teria desculpa melhor para nunca mais pegar pesado no serviço. Iria falar para todo mundo que, neste país, quem trabalha muito duro, acaba na cadeia e ninguém ia poder desmenti-lo. Por isso que, cada vez mais, concordo com aquele amigo que para tudo fala "NÃO É FÁCIL", mas não está nada fácil mesmo tocar as coisas por aqui.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Viagem a Goiânia

Começamos a mexer com confinamento assim que Guilherme se formou. No início, de forma bastante tímida, arraçoando o gado no próprio pasto, quando este estava seco. Com os bons resultados, fomos incrementando o negócio e hoje temos uma estrutura razoável onde conseguimos dar acabamento em 2000 reses simultaneamente e, dependendo da estação da seca, rodar até 3 lotes por ano, ou seja 6000 reses. As gavetas onde as reses ficam confinadas são alinhadas e em número de 8, e os cochos fazem uma reta de mais de 320 metros de comprimento. A idéia é ir aumentando as linhas passando de duas para cinco.
Com isso recebemos um convite para participar de uma conferência de confinadores em Goiânia, melhor ainda, para a Ema participar de uma mesa redonda onde seriam apresentados vários problemas brasileiros e como estão sendo resolvidos. Depois de alguma discussão e definirmos que o Beto, meu filho mais velho e diretor da Ema, como agrônomo e quem está no dia a dia da empresa seria a pessoa indicada para essa apresentação, nos preparamos para a viagem, que para mim e Guilherme passou a ser passeio e para Beto, meio tortura.
Goiânia tinha outro atrativo para mim, era a terra do Marcelo Pimenta, meu amigo de 30 anos atrás e que eu não via há 25, e que também participaria da conferência. A viagem foi muito proveitosa, mas nem por isso menos cansativa. Nosso vôo de ida saía de Campo Grande às 4h da madrugada, e tínhamos que estar no aeroporto às 3h. Fizemos Corumbá - Campo Grande de carro, e éramos para sair logo após o almoço e dormir cedo, mas o Guilherme foi enrolando e acabamos saindo às 5h da tarde e fomos chegar em Campo Grande às 10h da noite. Até jantar, deitamos as 11:30h e acordamos às 2h. Já estava resolvido que chegando em Goiânia, mataria a abertura da conferência e ficaria dormindo a manhã toda. Chegando ao hotel, morto de sono, veio a notícia de que nosso quarto só seria liberado após o meio dia. Tomamos o café da manhã e fomos para dormir na conferência.
O encontro com o Marcelo foi de cinema. Num saguão lotado de gente, vejo ele se afastando rápido e reconheci o seu andar apressado. Saí atrás e só o alcancei porque ele parou para conversar com um grupo de amigos. Cheguei por trás dele e falei:- Rapaz, te conheci pelas costas.Nos abraçamos e ele já respondeu:- Não fale assim na frente de meus amigos que não sei o que eles podem pensar.Fizemos festa e passamos três dias almoçando, jantando e assistindo palestras juntos. Foi e continua sendo um grande amigo.

No dia da mesa redonda do Beto, não sei se por qual dos motivos, foi o melhor do encontro. O mediador quis reunir três pessoas com grandes problemas e mostrar aos participantes que com trabalho e conhecimento eles podem ser resolvidos. Convidou o diretor da Folha de São Paulo para falar dos problemas na determinação da quantidade de jornais a serem impressos por dia. Quando você começa a se inteirar do problema é que percebe a dimensão dele. Quanto produzir de um produto extremamente perecível, jornal do dia anterior não tem nenhum valor, de tempo de distribuição absurdamente curto e com uma quantidade de pontos de venda absurdamente grande. A segunda convidada foi a diretora de recursos humanos da Natura, que comercializa um produto cuja vida média, do lançamento de um perfume até a sua retirada, é de aproximadamente 6 meses e a quantidade vendida para absorver os custos fixos tem que ser meio grande.E o Beto, diretor da nossa empresa pecuária, operando nesse pantanal com um ciclo de águas que fazem os suportes das pastagens variarem de maneira meio absurda, com uma logística de transporte dificílima e isolado de tudo e de todos. Fiquei muito orgulhoso de ver meu filho falando para una platéia tão seleta e, modéstia a parte, ele se saiu muito bem. Isso foi no segundo dia e nós já recuperados da viagem fomos comemorar o resultado do Beto. Marcelo nos levou ao point de Goiânia, onde tomamos um tipo especial de cerveja, a tal da Devassa, fermentada de trigo ao invés de cevada, e que considero hoje, como a melhor que já tomei na vida. Saímos trançando pernas.

O último dia do encontro foi reservado para visitar um dos maiores confinamentos de Goiânia, onde eles fazem a engorda simultânea de mais de 30.000 reses. Foi muito proveitoso conhecer a logística de transporte, acompanhamento e embarque de tanto gado. Na volta da visita aconteceu um fato engraçado. O Marcelo começou a falar de sua preocupação com a filha que está com 17 anos e ia para a faculdade e ele, por demais ciumento, questionando se conseguiria deixá-la ir morar sozinha em outra cidade. Usei toda a minha psicologia, falando coisas inéditas do tipo, "criamos os filhos para o mundo" (eu devo ter escutado isso umas 100 vezes), mas não consegui acalmá-lo muito, o bicho é por demais ciumento. Na chegada da visita ele quis nos levar em sua casa para conhecermos os filhos e rever sua esposa. Quando me apresentaram a Vitoria, esse era o nome de sua filha, falei na hora para ele:
- É companheiro, agora entendi a sua preocupação. Você tá ferrado.
É uma morena maravilhosa. O filho Gabriel, com 13 anos, é cara do Harry Porter e só fui descobrir isso depois que voltei para Corumbá. Foi uma viagem muito proveitosa, onde aprendemos muito, convivi 3 dias com meus dois filhos e revi um grande amigo. Nota 10.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

D.Julieta

Todo mundo acha que sua mãe é a melhor do mundo, já eu... tenho certeza. D. Julieta, ou Juju, para os muito íntimos, é uma santa, vaidosa, mas santa. No último 21 de setembro, aniversário de Corumbá, eu fiquei encarregado das velhas, como chamamos carinhosamente Julieta e Odilza, minha sogra. Queriam ir a avenida assistir ao desfile das escolas e das forças armadas. O carro é um focus e entrar as duas, as assistentes, cada uma tem a sua e duas cadeiras de rodas, era impossível. A solução foi levar uma cadeira só, e se necessário, fazer baldeação no trecho interrompido para o desfile. Quando cheguei verifiquei que estava tudo fechado e o mais próximo que conseguiria parar do nosso destino, que era a casa da avenida de Mamãe, ficava a três quadras e a baldeação seria muito difícil. Aí que me dei conta que estava com duas presidentes em meu carro, a do asilo São Jose e da APAE, e ambas cadeirantes. Parei no primeiro guarda e falei:

- Me arrume um batedor rápido para eu levar as presidentes para a avenida. Estamos atrasados e elas serão homenageadas. 

Ele coçou a cabeça e ficou sem saber o que fazer. Aumentei a pressão:

- O desfile não vai começar sem elas e você, nessa sua dúvida, está atrasando tudo. Se a organização não te avisou disso é problema deles. Agora se você não vai me deixar entrar, resolva de uma vez para eu ligar ao prefeito e informar seu nome a ele. O que não podemos é ficar um olhando para a cara do outro aqui parados.

Ele acinonou o rádio e pediu uma motocicleta e chegamos em casa com batedores e abrimos o desfile. Muito merecido. Em compensação, ficamos de castigo até acabar tudo, pois tive que recolher o carro na garagem de mamãe e só sair quando liberaram a rua, que foi no fim de tudo. Mas o ponto alto foi quando resolvi fazer uma filmagem das duas. Eu filmando e elas fazendo posse. O personagem principal, ou melhor não grato, foi o travesseiro. Elas achando que seria uma foto e não sabiam aonde esconder o pobre travesseiro, até que mamãe deu jeito. Digno de postagem esse filminho. Se for para o Youtube faz sucesso. Essa mamãe, 90 anos e vaidosa ainda, querendo sair bonita na foto.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

É mole?

Tontonio é o político da família. Acha que cada coisa tem um jeito certo de se fazer e porrada não se inclui em nenhuma delas. Apesar de todo mundo falar que eu sou o racional e ele o emocional da dupla, ele nunca perdeu a linha com quem quer que seja, enquanto eu, mais que um par de vezes, já rolei no chão com marmanjo. Exceção só para o garçom do mister Pizza. Ele tem suas válvulas de escape e de vez em quando elas emperram e o colocam em situações constrangedoras. 
Certa vez, acabado uma reunião nos escritórios de uma das empresas que representávamos, onde ele teve que se conter muito para não mandar todos a merda, os anfitriões foram nos levar até o elevador. Cumprida todas as formalidades de despedida, e ele super contido, entramos no elevador, e assim que a porta de fechou, ele, dando vazão a sua raiva reprimida, deu uma banana para a porta fechada, exatamente no momento em que a mesma reabria e as 5 pessoas participantes da reunião estavam olhando para dentro do elevador. Na mesma hora, apesar do paletó fechado, ele embalou o movimento e cruzou os braços, numa cruzada nunca dantes realizada por qualquer ser humano. Poderia se dizer que foi uma cruzada de manual, onde estaria assim descrito:


1)estique o braço direito e feche a mão;


2)coloque o punho esquerdo com a mão fechada na junção interna do braço com o antebraço direito;


3)articule o braço direito fechando o mesmo sobre o punho esquerdo;


4)continue o movimento com o braço direito dando um laço no braço esquerdo, abrindo as duas mãos. 


Do 1) ao 3) temos a banana e o 4) é o despiste.
Assim que a porta se fechou pela segunda vez, ele encheu a mão com suas bolas e as balançou para a porta, e nesse instante a mesma se abriu novamente. A sorte é que dessa vez o pessoal da reunião estava de costas, pois não sei qual seria o disfarce naquela situação. Voltaram para nós e avisaram que se não apertássemos o botão do elevador ele iria ficar abrindo e fechando a porta sem sair do lugar. Assim que ele começou a descer, o Tontonio mostrando todo seu repertório de mímicas, mandou todos tomar no rabo com aquele sinal característico, onde o dedo "pai de todos" fica esticado e o "fura bolo" e "seu vizinho" encolhidos. 
Não conseguíamos parar de rir da situação em que ele se colocou e, com isso, aliviou toda a tensão acumulada da reunião. É mole?

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Pequenas confusões

Ele era meu melhor amigo e ainda irmão mais velho de minha namorada. Cara boa pinta começou a querer namorar a filha do almirante da marinha baseado aqui em Corumbá, uma morena por demais de bonita.
Quando começou a paquera entre os dois, junto vieram as recomendações dos pais dele, de que se lembrasse que ela era uma moça fina, e que ele se portasse sempre como um cavalheiro, etc, etc.
As coisas iam bem e às vezes saíamos juntos. Além de boa companhia, ele servia de vela. É, vela mesmo, aquela figura que acompanha os namorados, que naquela época não podiam sair sozinhos. Eu tinha o irmão, ou todas as outras 3 irmãs, que aí já era um candelabro mesmo sendo todas muito simpáticas. Mas voltemos a saída com o casal recém emplacado.


Estávamos passeando no meu carro, e escutando a conversa dos dois atrás e não dava para ficar sem dar risadas. Eram muito diferentes. Enquanto ela era super viajada e gostava de filosofia, ele estava começando a cuidar das fazendas dos pais e estava pegando aquele palavreado de peão pantaneiro. Resumindo, ela estava bebendo champanhe e ele pinga, ela comendo foie gras e ele carreteiro, e o mais importante, com muito orgulho e sem a menor chance de achar que tinha vida melhor do que essa. Mas estavam se entrosando, às vezes as diferenças se atraem mais que as semelhanças. O passeio foi engraçado e inesquecível. Lembro dele contar como teve o seu chapéu novinho, de não sei quantos mil cruzeiros, totalmente destruído por seu cavalo:

- Era um alazão, redomão ainda, e quando quis dar uma negada comigo, cheguei a espora por baixo e o chicote por cima. O bicho pulava alto e corcoveava de um tanto que nem dançar tango era tão difícil como acompanhar o lombo daquele bicho endiabrado. Quanto mais ele pulava mais eu chegava a espora e o reio nele. Era a hora de definir quem mandava em quem ali. Foi quando caiu meu chapéu, Panamá novinho, comprado na Bolívia, daqueles de aba larga e engomado, que fica no formato que você quer. Parece que a "porra" (demos uma arrepiada na "porra") do cavalo, vendo que não conseguia me derrubar, resolveu se vingar no chapéu. Tinha recém chovido e estava aquela laminha, e o chapéu ficou embaixo e parecia que ele me falava: “Não tiro você das minhas costas, mas olhe o que faço com seu chapéu.” E pulava só em cima do panamá , que foi de retorcendo todo e de branco não tinha nem o lado de dentro mais.

Todos deram muitas risadas, quando a minha namorada começou a fazer perguntas a sua cunhada, para ver se ele deixava ela falar um pouco. Ela foi de soltando e dizendo que já tinha estado em Paris, a cidade luz, em Londres, a cidade séria, tudo muito britânico, a Holanda, que flores maravilhosas, Alemanha, com sua organização impecável. Nós todos, que nunca tínhamos saído do Brasil na época, ficamos encantados, mas ao mesmo tempo meio sem assunto. Quando alguém falou sobre as dificuldades de comunicação para ver de dava corda a conversa, ela resolveu dar uma esnobada dizendo que falava varias línguas, mas o inglês, francês e espanhol, fluentemente. Foi quando veio a pérola e o cunhado olhou para ela e falou:


- Minha nossa, então você é uma troglodita.


Só paramos de rir quando a deixamos em casa, e o pior, ela era quem mais ria.
Não precisou mais que isso para tornar aquele passeio inesquecível, isso há 40 anos atrás.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Quem aguenta?

Devia ser por volta de 1985. Lembro com certeza do ano, pois eu já estava morando em Corumbá e trabalhava no Marinho, na sala que ficava no escritório do mercado interno, no mesmo prédio de tio Patrão e Ivan. Papai com Tontonio ficavam na exportadora que é na mesma quadra mas na outra extremidade. Todos os dias, nos horários mais tranqüilos, íamos no café São Paulo tomar um cafezinho, antecedido por um copo d'água gelado. Costume da região que é muito quente: uma combinação perfeita para matar a sede. Numa dessas idas minhas para convidar os dois para o cafezinho, não encontrando papai em sua sala, fui procurá-lo pelos depósitos. Ele que separava toda a mercadoria para o despacho. Era o gerente de vendas, vendedor, faturista, chefe de depósito, chefe de almoxarifado e não entregava as chaves de nada disso para ninguém. Andava parecendo São Pedro, com tudo pendurado no cinto. No depósito dos fundos, encontrei ele com o Dorival e mais um cliente, pintando umas lonas. Ele mandava dois carregadores colocarem a lona dobrada no chão, vinha com umas letras daquelas feitas em chapa fina e vazada, montava o nome e com um pincel, pintava o nome da marca no canto da lona. No começo dei até idéia de usar tinta spray para não borrar os cantos, logo aperfeiçoado por ele, para pintura com pistola de ar, que ficaria mais barato. Como vi que ele estava usando o nome de uma lona famosa, perguntei o que ele estava fazendo e começou um diálogo que nunca mais esqueci:
- Uai, não tá vendo? Colocando nome na lona. 

- Mas não deveria vir com o nome já?

- Aí ficaria mais caro. Esse povo é muito esquisito. 15,00 o metro sem nome e 20,00 com nome. Pinto ele por 0,50.
Não lembro dos valores porque já mudou a moeda uns par de vezes mas era dessa ordem.

- Mas papai, isso não é falsificação?

- Como assim? Falsificação se fosse de outro fabricante. É o mesmo.

- Mesmo assim, pai. Às vezes o cara tem duas linhas, uma cara e uma barata e o nome é para poder diferenciar. 

- Filho, aprendi a fazer isso com o turco aí da frente. O vendedor me falou que a porra da lona é a mesma. O comprador é esse boliviano aí, dom Rafael, que esta me ajudando a escrever o nome. Queria que você me dissesse a quem estou enganando? Você acha justo eu pagar mais pela porra de um nome? 

- Pai, ele não vai usar a lona. Ele vai revender. Você esta ajudando ele a tapear outras pessoas. A lona não deve ser igual. Às vezes eles refugam no controle de qualidade e mandam sem nome para não comprometer a marca. São pequenos defeitos. 

- Isso quando a empresa é mais ou menos séria. Quando é séria de verdade, botam outra marca, ou escrevem que é de segunda, ou standart, e a outra de luxo. Mas não é isso não. Eles mudam só a margem de lucro. Procura defeito aí, se encontrar eu paro.

Nem perdi tempo pois não encontraria e mesmo que tivesse, naquele momento ele não ia concordar. 
Fui tomar café sozinho aquele dia e um pouco preocupado. Uns dias depois ele me chamou no depósito, queria mostrar que a idéia da pistola tinha dado certo. 
Pronto, pensei, agora a falsificação vai ser incrementada e com minha participação. Pura que pariu.
Cheguei no depósito e vi o serviço. Tinha que tirar o chapéu e dizer que meu velho era foda mesmo. Estava lá o novo molde da forma, agora já feito completo e não letra por letra e escrito nos tamanhos normais "LOCOMOTIVA"
 e embaixo, na própria chapa, completado "By A.Marinho".
 Ele olhou para mim e falou:

- Satisfeito. Falsificador não assina. Podem falar que é replica, e te garanto que em pouco tempo, essa vai valer mais.

Por incrível que pareça, o turco da frente quis acrescentar o A. Marinho e, por mais incrível ainda, ele não deixou. Sugeriu que escrevesse, "Turco, em frente do A. Marinho", ou seria falsificação. Quem agüenta?

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Enganos

A lembrança passada foi sobre coincidências, que é aquele fato pouco provável que vem a ocorrer. Entretanto existem outras coisas que, às vezes, nos levam a procurar explicações fora da lógica e acabam ficando completamente fora da realidade.
Eu e Tontonio tínhamos um quarto de solteiro enorme. Tinha uns 6 metros de largura por 12 de comprimento. Talvez 5x10, e o fato da gente ser pequeno fazia ele maior. Como ele esta lá ainda, um dia vou passar uma trena nele para conferir. A minha cama ficava do lado da porta balcão que dava para a varanda e a do meu irmão ficava ao lado da minha, dando para a porta de entrada do quarto. Tinha um corredor interno que comunicava a escada com todas as peças do andar superior, quartos e banheiros. A invenção da suíte foi junto com o controle remoto da televisão. O interruptor de luz ficava junto a porta de entrada do quarto e conseqüentemente mais perto da cama dele. Me lembro que ele deitou por último, mesmo isso tendo acontecido há mais de 50 anos e esqueceu a luz acesa. Depois de deitado falou:

- Você não urinou ainda. Quando for, apaga a luz.

- Boa tentativa. Mas já mijei e você que deixou a luz acesa.

- Você é mais novo, pô! Apaga lá.

- Vai se ferrar. Você que esta mais perto do interruptor.

- Vou dormir com a luz acesa então. Ela incomoda você e não a mim.

- Papai vai ficar puto e vou contar que você que deitou por último e não apagou.

O tom de voz e o palavreado foram ficando mais forte e já estava de filho da puta pra cima, quando a luz apagou sozinha. Foi aquele silêncio total naquela escuridão. Parece que passou o mesmo tempo para cair a ficha que alguém do além, não gostando daquela discussão, resolveu interferir apagando a luz. Como um raio, ou como dois raios, catamos o essencial, colcha e travesseiro, e despencamos para o quarto de mamãe. Se alguém pensar que, eu com 11 anos estava com medo de assombração, quero lembrar que meu irmão é três anos e meio mais velho e saiu na frente.
Dormimos do chão do quarto dela e, antes, brigamos mais um pouco, um xingando o outro baixinho, para não acordar os velhos, e também para diminuir o medo.
Se não comentássemos o acontecido no almoço do dia seguinte, o credito pela apagada da luz ficaria por conta de forças do além, mas papai começou a rir e esclareceu. Ele tinha levantado para ir ao banheiro e do corredor escutou o bate boca e ficou preocupado de largarmos a luz acesa. Como sempre que fazíamos isso ele falava que não era sócio da Ligth, resolveu encerrar o assunto e apagar para a gente. Fez isso do corredor mesmo, achando que tínhamos visto ele e foi para seu quarto. Como vacilamos na corrida, quando chegamos ele já estava deitado e ainda acompanhou os cochichos. Fingiu que estava dormindo, pois se víssemos que ele tinha ouvido a baixaria, teria que nos executar e aquela hora não era oportuna. Aproveitou para nos explicar que as coisas mais lógicas são as últimas em que pensamos, principalmente quando estamos com medo e completou falando:

- Forças do além, só na cabeça de vocês.

Mas foram as forças do além que nos livrou daquela puteada e possível castigo naquela hora da noite.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Coincidências

Tem coisas que achamos que são do além, mas no fim são apenas a ocorrência do pouco provável. Tudo pode acontecer e se você coloca o número de tentativas tendendo ao infinito, a probabilidade de acontecer aquela previsão tende a 100%. O que impressiona a gente é um fato raro acontecendo em um momento oportuno e muito cedo.
Eu devia ter uns 11 anos e fui ao cinema assistir ao "Homem sem cabeça", daqueles filmes de terror feitos em 1961. Da para imaginar os "efeitos especiais" da época. Mas resumindo a história, era um cara que foi condenado à morte por decapitação e para não entrar no Paraíso, essa era a lenda, a cabeça foi enterrada separada do corpo. Como ele era inocente a cabeça comandou o corpo, depois de enterrado, para sair de onde estava e ir buscá-la para ficarem juntos, mas antes o corpo resolveu se vingar dos que tinham feito aquilo com ele.
A sessão era das 20h às 22h no cine Tupi. De lá até a minha casa eram duas longas quadras na rua 7 de setembro, que era super arborizada e, por isso, mal iluminada. Fui com amigos que moravam em lados postos. Estava sozinho, eu e o homem sem cabeça. Mas eu já era um homem e fui. Cagando nas calças, mas fui. Cada vento que movimentava um galho e fazia uma sombra se mexer, eu acelerava o passo. Cheguei em casa correndo.
Entrei na sala, onde tinha a escada que levava ao andar superior e estava o meu quarto. Todos dormiam. Ai continuou as coincidências. Fui no interruptor de baixo que acendia a luz da escada e quando o acionei a luz não acendeu. Ele era daqueles de dois botões e ligado em paralelo com outro igual que ficava no topo da escada. Se um dos dois estivessem parado numa posição intermediária o outro vão funcionava. Estava muito escuro e isso fez o medo virar pavor. Já estava achando que era coisa do homem sem cabeça. Fui subindo as escadas e tateando a parede querendo chegar no interruptor de cima e acender a porra daquela luz.
A hora que eu peguei no interruptor, uma outra mão pousou sobre a minha. O que senti na hora é indescritível e até hoje, passados 50 anos, eu me lembro da descarga elétrica que atravessou meu corpo. O cabelo se eriçou todo e o grito foi seguido de um salto para trás, onde tinha uma escada de mármore de 20 degraus, 15, um patamar, uma quebra de 90 graus e mais 5. A sorte é que nessa confusão a luz se acendeu e o vôo até o patamar foi visual e não por instrumentos. No trajeto aéreo deu para escutar a voz da Pura, a boliviana que dormia em casa, gritando “minha Nossa Senhora de Guadalupe”.
Ela tinha escutado o barulho da minha chave e foi se borrando toda ver o que era, achando que era um ladrão. O trajeto dela levou exatamente o mesmo tempo que o meu. Primeira coincidência. Exatamente nesse dia o interruptor de cima ficou numa posição neutra. Segunda coincidência. E eu que era corajoso estava voltando de um filme de terror. Terceira coincidência. Soma isso tudo e o resultado foi um guri todo cagado. Ainda bem que ninguém viu, a Pura deve ter sentido o cheiro mas deve ter achado que era dela.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

O crítico

Pela primeira vez, após contar 267 passagens da minha vida, recebi uma crítica... e mordaz. O cara me chamou de chato. Não concordou com minha opinião sobre armar a população de bem e já baixou o nível, dizendo "já que me considero capaz," julgou por mim e que "ninguém consegue me ler até o fim", julgou por todos os outros. Como não tenho muitos comentários no próprio blog, não posso deixar de responder a este quase único observando que:
1) não foi o primeiro comentário que ele fez;
2) ele acha chato o que eu escrevo e mesmo assim lê e comenta.
Isso é típico dos "muito" chatos e só por isso vou responder, por aqui, a essa crítica.
Já houve uma consulta pública e de nível nacional sobre o desarmamento e vimos o que pensa a esmagadora maioria da população brasileira. Todos devem se julgar "inteligentes que nem eu". Devia ser feito outra, sobre o armamento agora, mas não de forma indiscriminada, e sim após treinamentos e exames, nos moldes da carteira de motorista.
Preocupado em conseguir que ele me leia até o fim, vou ser sucinto e ir direto ao que interessa e que não é a estatística em si mas o resultado final. Não adianta você ter uma porcentagem baixa se a quantidade de ocorrência é alta. O que tentei explicar e parece que não consegui, pelo menos para ele, é que você diminui o número de mortes diminuindo o número de assaltos, mesmo que a porcentagem de mortes por assaltos aumente. Não é tão complicado assim. Para o assaltante a situação ideal e a proposta por ele. Estar preparado para entregar tudo e não reagir a nada. Recebe ameaça, entrega até as calças. Concordo que a vida é mais importante que qualquer bem que você tenha, mas não estou propondo armar ninguém que não seja treinado antes para enfrentar aquela situação, e não para defender unicamente os seus bens, mas também a sua dignidade.
Quem fez o serviço militar, com um ano vai para a reserva, e em caso de guerra é chamado para defender o seu país, colocando a sua vida em risco. No pensamento do meu crítico, deveríamos entregar o país também? Da mesma maneira que somos treinados para defendê-lo, em caso de necessidade, tínhamos que ser treinados a defender o que conseguimos com trabalho honesto e que o governo, apesar de nossos impostos, não nos garante.
Agora quero me dirigir especificamente ao meu crítico. Obrigado por ser um leitor e comentarista assíduo (mais de uma vez) apesar de me achar um chato. Também te achei um. Cordiais saudações.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O Resgate

Era sábado e estávamos em casa almoçando, como de praxe, com os filhos e netos. Era um cozido e estava delicioso. A sobremesa era salada de frutas com creme de leite, e na hora de servi-la que o telefone tocou. Minha nora Paty quem atendeu, atendeu mas não entendeu, e foi o inicio de toda confusão. Passou o fone para Bea que, assim que o colocou no ouvido, levantou da mesa e começou a ficar branca e só falava:
- Calma que não estou entendendo nada.
Na terceira fez que repetiu essa frase, completou.
-Mena, fica calma, estou indo ai.
Foi quando pulamos da mesa, eu e os três filhos.... sem comer a sobremesa e em três carros.
No caminho ela foi me contando o pouco que tinha entendido. O Cauto, seu cunhado marido da Mena, voltando de Santa Gertrudes, tinha caído com o avião. Depois do susto inicial, a um mês atrás tínhamos perdido um amigo em acidente com esses pequenos aviões, começamos tentar a entender o acontecido e só sabíamos que ele se comunicou por rádio com algum avião que estava por perto avisando que estava em pane e faria um pouso de emergência, e depois disso não fez mais contato. Chegamos à casa de Mena e parecia filme de terror, ela não parava de chorar, falava entrecortado de soluços, dizendo que ele caiu na Caieira e estava com o filho Gabriel. Marido e filho, único homem, num acidente de avião. É dose alta para qualquer um.
Conseguimos acalmá-la um pouco dizendo que até agora, o que sabíamos era que ele fizera um pouso de emergência e não que caíra. Era uma situação bem diferente e ele era um piloto experiente. Expliquei ainda que Caieira, que naquele momento já tinha virado uma montanha para ela, era uma merda de um morrinho, muito baixo e único nessa rota e não tinha como ele trombar nele, ainda mais avisando um colega antes. Água com açúcar para todos e vamos acalmar para ver o que fazer. Nisso chega Emílio com a esposa, primo dela, que foi quem recebeu a notícia do piloto. Dividimos a turma, ele iria para o Dac conseguir mais informações, as vezes ele consegue falar por radio do solo, eu falaria com o almirante para conseguir o helicóptero da marinha para uma busca e possível resgate. Como isso era mais demorado, tinha todo um procedimento a cumprir, eu mandaria o Zé Mauro fazer um sobrevôo na Caieira, na rota Corumbá - Santa Gertrudes para tentar achar o BGZ.
Na saída da casa de Mena, sem ela perto, o Emílio me deu o resto da notícia que me preocupou bastante. O ELT do avião tinha sido acionado e seu sinal recebido em Curitiba. A coisa era mais grave. O ELT é um aparelhinho que começa a emitir sinal de socorro após um impacto mais forte na aeronave. Se ele tinha pousado, não foi dos pousos mais bonitos, pensamos. Conseguimos interromper o domingo tranqüilo do almirante e fomos muito bem recebidos. No instante em que ele ligava para a base para providenciar o deslocamento do helicóptero da marinha, recebi um telefonema de Bea. Cauto estava vivo e tinha chamado Mena por telefone e passado as coordenadas onde ele estava e, além disso, só conseguiu falar que acesso era só por barco, que nem helicóptero chegava lá. Não tinha onde pousar. Passamos as coordenadas para o Almirante com a informação do acesso e fomos para meu escritorio consultar o Google Earth e ver onde estava o avião. Plotamos as coordenadas e vimos que estava a 4 km da Caieira e no meio de um brejo cortado por pequenas vazantes. Nenhum lugar seco para pousar um helicóptero. Avisamos o almirante do problema e ele se prontificou de ver um helicóptero da Aeronáutica, desses com guincho e puçá para resgate sem necessidade de pouso. Imaginei Cauto pendurado numa corda e içado para um helicóptero no ar após ter caído com um avião. Não ia ser fácil e ele ia se cagar todo.
Quando íamos para o aeroporto para despachar o Zé Mauro para fazer o primeiro contato visual com o Cauto, Mena teve a idéia de fazer uma mala com alguns artigos de primeiros socorros para eu jogar a ele. Quando fui pegar a mala que vi como ela ainda estava nervosa. A bicha era maior do que a minha quando vou passar 15 dias fora de casa. Para atirar aquilo do ar, só tirando a porta do avião e se por acaso atingisse o Cauto, o sobrevivente da queda não sobreviveria a malada. Tirei o garrafão de água de 5 litros e deixei uma garrafinha de 500ml, deixei uma única maça do lote de 4, um pacote de bolachinha das que eu mais gostava das 18 que estava dentro, e o cobertor. O resto ficou, inclusive uma laterna megalite de 3 kg. Trocamos a mala por uma sacola impermeável e de um tamanho que passasse pela janela basculante do avião. Dividimos a turma. Fui com Guilherme encontrar o Ze Mauro e Beto e Daniel foram para o corpo de bombeiros tentar algo por lá. O Zé Mauro que já estava com o OVX no jeito, quando viu a mala, fez nós irmos juntos.
Uns minutos antes de decolarmos o Almirante nos ligou avisando que estava na hora limite do helicóptero de busca e salvamento sair de Campo Grande e chegar de dia ainda para o resgate. Concordamos que de puçá, ia dar certo e decolamos juntos, nós a 10 minutos do Cauto e a Busca e Salvamento de Campo Grande, a duas horas de vôo. Apesar de termos as coordenadas exata e dois GPS, o do avião e um portátil de mão, demos umas 5 voltas para avistarmos o avião. No banco de trás e tendo acesso as janelas dos dois lados, na quinta passada consegui avistar a ponta da asa do BGZ, sobressaindo do meio de um cambarazeiro. O homem tinha feito um pouso de tuiuiú. O avião estava com uma asa em cima da arvore e a outra tocando a água. Sobre o avião, dando tchau para nós, o comandante Cauto. Estava inteiro e agora só faltava lançar a mala da Mena. Zé Mauro fez o procedimento padrão de afastamento, curva de 360•, e reduzido e flapeado fez um razante sobre o Cauto.
Pela janela da esquerda, eu atrás do piloto, esperei o momento certo, calculei a velocidade do vento, o arrasto que a mala ia ter no ar, velocidade do avião, e fiz o lançamento. A mala descreveu uma parábola invertida e foi caindo, caindo, caindo e eu seguindo aquela mala vermelha com os olhos e me contorcendo todo, como se fosse conseguir mudar a trajetória da bicha. Caiu longe pra cacete. O Zé Mauro ainda comentou que ele tiraria a roupa e peladão pegaria a maleta. O que não sabíamos é que o Cauto já tinha achado água e bolacha do kit de sobrevivência do Zé Mauro. Resolvemos pousar na fazenda Caieiras a 4 km do acidente. De lá poderíamos falar com Corumbá e dar notícias que fizemos contacto visual com Cauto, tranqüilizando o povo. Telefone celular dentro desses pequenos aviões é impossível de se conversar. Você fala, mas não sabe se a pessoa escutou. Chegamos juntos com o primeiro barco do corpo de bombeiros. Tinham a idéia de ir a cavalo e de a pé até o Cauto. Era muita coragem, mas não tinha como fazer isso. Eram 4 km de água e como disse Ze Mauro, vocês podem até chegar lá, mas não vai ter lugar para dormir todos no avião, e agora a noite ninguém vai convencer Cauto de cair nessa água gelada com esse puta frio. Eles responderam: vamos torcer então para o outro barco ter mais sorte.
Foi aí que soubemos que o Daniel, meu filho, com meu primo Gelson tinham saído com outro barco de Corumbá com a idéia de subir o rio Pacú, que pelo mapa satélite parecia chegar mais perto e conseguir resgatar o homem, ou ao menos a mala, pois achava que ela tinha caído no meio de um corixo. A coisa estava meio descoordenada, mas tínhamos uma alternativa para o helicóptero. Os bombeiros quiseram fazer um sobrevôo para ver como estava a chegada desse rio no avião. Ficamos aguardando o Zé Mauro fazer isso com eles, que saiu meio contrariado falando que estávamos procurando jeito de trombar com o helicóptero que já devia estar chegando. Como não tínhamos a confirmação disso e não queria ligar novamente para o Almirante, já tinha perturbado ele por demais, fizemos o segundo sobrevôo. Assim que ele pousou já não tínhamos tempo de mais nada. Faltavam 20 minutos para o por do Sul e tínhamos que ir para casa e aguardar as notícias. Elas chegaram pelo radio do avião e antes de pousarmos em Corumbá, escutamos:
- Controle Corumbá, é o busca Aereo.
- Prossiga - respondeu o controle Corumbá.
- Busca Aereo informa que a operação de resgate foi um sucesso. Estamos com o sobrevivente a bordo e passando muito bem. Cumprindo normas favor providenciar ambulância para recebê-lo.
A aventura do Cauto tinha acabado, e graças a Deus, da melhor forma possível.
Aconselharam-me a fazer uma entrevista com ele e escrever a mesma história vista pelo angulo do piloto. Vou pensar, talvez valha a pena pelo milagre do telefone. É que o homem é duro de falar e vai ser mais difícil tirar essa história dele do que o próprio resgate.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Terceira medida extrema

Rafael tinha dois anos e Guilherme estava para casar. Fui com Bea comprar uns vinhos no pão de açúcar, para a festa de casamento, no carro de Laura. Eu e ela na frente, Rafael e Meire, a melhor babá do mundo, no banco de trás. Estávamos parados no trânsito quando alguém bateu muito duro, com um ferro, na minha janela. Levei aquele baita susto e vi que era um assalto. O vidro estava um dedinho aberto e o ladrão enfiou o seu ali. Foi quando entendi o termo de "está um dedinho aberto". Como vi que ele estava armado, fui abrir o vidro para passar o dinheiro ao puto. Como o carro não era meu e tinha os comandos trocados. Ao invés de abrir, eu fechei e prendi o dedo do filho da puta na janela. Se o farol abrisse naquela hora, poderia até pensar em arrancar e deixá-lo sem dedo, mas não tive essa sorte. Quando vi que ele ficou nervoso, troquei o comando e abri a janela. Ele me pediu primeiro o relógio e quando passei a ele, pediu o dinheiro. Levei a mão no bolso lentamente, como é recomendado nas propagandas do governo, e quando ele viu que era muita grana, devia ser algo em torno de uns mil reais, me devolveu o relógio e ainda agradeceu, dizendo que sou um cara de sorte de ele estar calmo e perceber que o lance do vidro foi involuntário. Passei um mês sonhando em matar todos os ladrões e bandidos das maneiras mais diferentes possíveis. Tiro de 12 no peito para o ver ser lançado 3 metros para trás era a minha preferida.
Tentei tirar porte de arma e não consegui.
Pago todos os meus impostos e ao invés de segurança, a única coisa que recebo do governo é o conselho de passar tudo que o ladrão quiser, bem devagar, e nem pensar em reagir. Sequer consigo o direito de portar uma arma para poder fazer a minha própria segurança. Será que o governo não percebeu que ladrão não paga imposto do que rouba, ou os bestas somos nós que nem deduzimos do nosso a parte roubada. Hoje o assaltado já nem faz mais queixa a policia. Não adianta de nada, é só mais um BO para encher as gavetas. Não conheço ninguém que foi assaltado na rua, deu queixa e teve seus pertences recuperados. Não consigo entender como estamos ficando covardes e sendo ensinados, através da mídia paga pelo governo, que sendo assaltados devemos entregar tudo sem reagir.
Dizem que arma é um perigo. Eu também acho, principalmente se eu estiver do lado do cano e um bandido drogado do lado do cabo. Como o governo não consegue ter um efetivo policial decente para defender seus cidadãos, devia armá-los e de preferência, melhor do que os bandidos. Voltaríamos à época dos faroestes. Porte de arma seria que nem carteira de motorista. Fez um curso mequetrefe tira porte para uma 22, seria a carteira A, que só te permite dirigir carros. Faculdade em porte de arma dá o direito a um 38, seria o equivalente a tipo B. Mestrado a um 44 magnum. Doutoramento daria o direito a uma AR15, que seria os motoristas de carreta. Poderia morrer muita gente inocente, mas não menos do que agora. Ladrão ia pensar duas vezes antes de te abordar e pedir para você passar tudo a ele. Além de correr o risco de assaltar um "mestre", poderia ter um "doutor" por perto. Dizer que população armada é um perigo é balela. Um carro é uma arma muito maior que qualquer revólver. Se quando a indústria automobilística começou e no primeiro acidente com morte aparecesse um "gênio" para proibir o uso de carros por particulares e os enquadrasse como armas, só teríamos transportes coletivos hoje em dia. Riscos corremos todas as horas, quando você vai para uma cirurgia, quando entra em um avião ou mesmo taxi, mas confiamos que a carteira que autoriza médico, piloto e motorista a fazer a sua função é verdadeira. São pessoas treinadas e habilitadas. Será que usar um revólver é mais difícil que um bisturi, ou um automóvel? Eu sou engenheiro e tenho mestrado em calculo estrutural. Isso me permite construir prédios de vários andares, pontes para passar milhares de veículos por dia, barragens para represar milhões de metros cúbicos de água, e se for incompetente em uma dessas funções, posso matar um monte de gente, inundar cidades e até destruir países. Fui eu que calculei os servo-motores que sustentam as comportas da tomada d'água de Itaipu. Deveria poder portar um 44 magnum após fazer os cursos adequados, treinar em usar de maneira e na hora certa, como todo sujeito habilitado. De tempo em tempo teria que renovar sua carteira e fazer um treinamento com simulador e tudo mais. Pode parecer loucura, mas não maior que pensar que o governo faz propaganda gratuita para o bandido, mandando você entregar tudo sem reagir. No nosso pantanal, todos andam armados e tenho certeza que o índice de acidentes com armar de fogo não é diferente de qualquer outro lugar. Usam, sabem usar e a respeitar quem esta usando. Na minha cidade tem dois a três assaltos por dia, enquanto assalto em fazenda é a coisa mais difícil de se ouvir falar. O bicho sabe que será recebido a bala e perseguido até ser pego. A solução está aí, mas o governo achou de entrar numa campanha de desarmamento. Acho que o sindicato dos assaltantes que entraram com uma representação solicitando isso e foram atendidos.
Gostaria de saber das estatísticas, se depois disso o crime, ou mesmo os raros acidentes, amplamente noticiados, com armas de fogo diminuíram. Aposto que não, muito pelo contrário. Agora assaltam em arrastão. Entram 3 putos em um restaurante, fecham as portas e fazem um assalto coletivo, carregado tudo de todos. Enquanto não aprovam alguma medida extrema continuaremos a ser roubados. E a ficar com o rabo entre as pernas, mas isso já aprendemos bem. Viva o faroeste.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Carteirinha de viciado

Não conheço nenhum cara decente e viciado em drogas que, em seus momentos de lucidez, não se arrepende de ter começado. Vive chorando pelos cantos e pedindo apoio e compreensão da família e prometendo que um dia vai sair dessa. Todos, sem exceção, reconhecem que não deveriam ter entrado, mas agora é tarde, mas mesmo com todo esse arrependimento vivem alimentando o tráfico com seu vício. Esses, os bonzinhos, já os demais saem assaltando e até matando para conseguirem um dinheirinho para comprar seu vício.
Depois da doação compulsória, que resolveria dois problemas simultâneos, o da fila para receber órgãos transplantados e o de fazer com que muito bicho ruim servisse a sociedade de alguma forma, o próximo passo seria acabar com o tráfico de drogas. Atacar o mal pela raiz, ou seja, acabar com o mercado consumidor. Se o vício é uma doença, vamos fazer uma carteirinha para o bodado. Seria, literalmente, o louco de carteirinha. O nego que for pego portando drogas e não tiver a carteirinha vai em cana por tráfico. Quem for viciado, tem uma data limite para tirar a sua autorização de porte de drogas. Após essa data, onde todos os viciados estariam devidamente cadastrados, e não se autorizaria a mais ninguém se tornar um viciado. Essa desculpa de ser uma doença seria amplamente divulgada e a partir daquela data do fim da emissão, quem entrasse nessa, seria de forma consciente que estaria cometendo um crime e ponto final. Não tem desculpa que o negócio é bom e o cara se vicia sem querer. Sexo também é bom e nem por isso você pode sair por aí estuprando toda mulher gostosa e provocativa que sai na rua. Com o tempo os consumidores iriam diminuindo, morrendo ou se curando, o governo forneceria drogas de qualidade para os associados de carteirinha, e o comércio seria pouco lucrativo.

Essa idéia mais a da punição pela doação compulsória, onde os traficantes teriam suas córneas retiradas, ceguetas eles teriam mais dificuldades de fazer merda, o problema se extinguiria automaticamente. Talvez tenhamos que instituir a pena de morte para político corrupto evitando que eles monopolizassem o comércio das drogas atrás de uma pseudo legalidade. Estaríamos contra a primeira regra da doação compulsória, mas sabemos que todas as regras tem uma exceção. Nesse caso, seria essa.
Guilhotina para político corrupto.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Hino a Corumbá

Poucos corumbaenses conhecem o Hino de Corumbá inteirinho, e ao lê-lo com calma, senti como se ele tivesse sido escrito para mim e por isso quero ele em minhas memórias.

"Corumbá destes meus sonhos,
e dos meus primeiros dias
ainda sinto o calor
como raio de saudade
dentro do meu coração.

Os teus dias tão risonhos
Tem pra mim tanta alegria
até a lua com fulgor
Parece não ter vontade
de deixar este torrão.

Corumbá, eu quero ter (bis)
Sob o teu seu céu tão brilhante
Feliz viver.

Vejo encantos primorosos
nas tuas verdes colinas
em tuas águas serenas
no teu céu onde o cruzeiro
cintilante sempre está

Em teus prados tão mimosos
marchetados de boninas
em tuas noites amenas
em teu luar tão fagueiro
tens luar tão fagueiro
tens encantos Corumbá!

Corumbá, eu quero ter (bis)
Sob o teu seu céu tão brilhante
Feliz viver.

E quando teus horizontes
A frouxa luz do poente
se matizam de mil cores
de saudade fica presa
nossa alma juvenil.

Rendilhada de altos montes
tendo aos pés àguas silentes
bela terra dos amores
Corumbá, és a princesa
Do ocidente do Brasil!

Corumbá, eu quero ter (bis)
Sob o teu seu céu tão brilhante
Feliz viver."

Foi escrito por Luis Feitosa Rodrigues e só fiquei sabendo disso agora, depois de velho, apesar de tê-lo cantado muito, sempre que embarcava no trem da Noroeste indo ou vindo de São Paulo quando lá estudava.
Muito lindo!

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Doação Compulsória

Doação compulsória pode parecer uma coisa antagônica ou paradoxal, uma vez que doação significa dar de maneira espontânea e compulsória é uma coisa obrigatória, mais não acho termo mais adequado para a lei que gostaria de ver implantada nesse país, talvez na próxima ditadura ou monarquia que é a melhor forma de regime que existe, desde que o ditador seja o cara mais inteligente e honesto da sua comunidade e só aí está o problema. Mas vou deixar a idéia para o caso de alguém assumir e gostar dela. Não acredito que a implantem em regime democrático, pois tem muito bandido legislando e essa lei não os atenderia, muito pelo contrário.
Ela é baseado em dois princípios fundamentais e estão em ordem de importância:
1) Nada é mais importante que a vida humana.
2) Todo ser humano que vive em comunidade deve, de alguma forma, ser útil a ela.
Baseado nesses dois princípios irrefutáveis, eu sou contra a pena de morte, que pode atender ao segundo postulado, para aqueles sujeitos que cometem crimes graves, como os hediondos, mas vai contra o primeiro.
Agora vamos analisar um grande problema brasileiro, que é a fila para transplante de órgãos. Tem gente séria, direita e capacitada, morrendo ou inválidos, deixando de servir a sociedade, postulado 2, pela falta de doadores de órgãos. Se no nosso direito penal fosse incluída uma pena do tipo de doação compulsória, que dependendo do crime, poderia ser uma córnea, um rim, duas córneas, dois rins, um pulmão, pedaço do fígado e por aí afora, esse problema estaria resolvido. Crime muito grave, depena o cara, deixe ele em estado vegetativo e salva um monte de gente de bem. É absurdo termos falta de sangue nos hospitais. Com milhares de presos nesse país, que lesaram a sociedade e presos continuam a explorá-la, pois temos que alimentá-los para não sermos roubados ou assassinados em troca de um bem que trabalhamos para adquirir, como que não tira o sangue desse povo todo e abastece todos os bancos de sangue do país. Quem acha desumano não tem um parente ou amigo que está na fila aguardando por uma doação ou morto em um assalto idiota. Vai haver muita gente contra, vão montar ong's contra isso, então negocia. Redução de pena, do tipo um litro de sangue por um dia a menos na cadeia. Um rim "doado" reduz a pena em um ano. Uma córnea vale dois anos. Só criar a bolsa de órgãos e deixar que a lei da oferta e procura estabeleça os valores. Vamos salvar um monte de vidas e a contrapartida vai ser uns bandidos caolhos e mono rins andando por ai, mas que deram a sua contribuição a sociedade.
Imaginem os crimes políticos, você vota no FdP e ele em vez de se satisfazer com seu salário e defender os interesses da sociedade que o colocou lá, faz o que? Rouba-a. Isso devia ser considerado crime hediondo e devia valer duas córneas e dois rins. Fica fazendo hemodiálise e já aproveita e coloca essa máquina no fórum. Aí quero ver o nego não aparecer nas datas certas para o juiz quando estiver em liberdade provisória. Quando pego, o que já é difícil, o cara só é suspenso temporariamente, normalmente volta a se eleger e continua roubando. Não conseguiram nem aprovar que ladrão não pode se eleger. É o rajá colocando tarados no seu harém para cuidar das suas esposas. É o fim do mundo. Somos uns cornos mesmo. Mas quem sabe, em um futuro próximo, aparece um nego de coragem e introduz a Doação Compulsória. Faço campanha para ele.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Mattos

Outro dia eu encontrei com o Mattos de novo. Já falei dele aqui, da época de vovô. Ele começou a trabalhar na casa Marinho em 1940 e gosta de se lembrar daqueles tempos quando encontra comigo. Apesar de seus 80 e muitos anos tem uma memória fabulosa. Dessa última vez, começou me contando como foi a participação deles na introdução do fogão a gás em Corumbá, daquele modo engraçado dos antigamente:
-Todos os fogões eram a lenha e tinham aquela chaminé que ia pra cima do telhado. Os carroceiros entregavam as lascas já cortadas na medida certinha e o comércio desse produto era muito grande. Assim que saiu o fogão a gás, seu tio Alcides encomendou uns 200 para a fábrica e outro tanto de botijões. Passaram 30 dias e não venderam um sequer. O povo não entendia o porque daquilo, que ia queimar um combustível muito mais caro e ainda com o perigo de explodir tudo. Achavam a invenção mais besta do mundo. Quando viram que iam micar com aquilo tudo, o Alcides teve a idéia. Não se consegue vender uma coisa que não se conhece. Começou a instalar fogões nas casas dos melhores clientes, dando garantia que não explodiam, pois tinha um em casa há muito tempo (o que era mentira) e em 30 dias recolheriam de novo. Quem quisesse pagava o fogão com o botijão, quem não quisesse podia devolver e não pagava nada. Não teve nenhuma devolução sequer e 30 dias depois faltou gás na cidade e as reclamações foram ao contrário, que teriam que acender aquela porcaria de fogão a lenha. Em um ano 90% das residências tinham seu fogão a gás.
Quando ele me contou essa história e eu falei que desconhecia a mesma, ele completou:
- Você não sabe também da Exxom?
Nem esperou eu confirmar a negativa e já emendou:
- Quando eu entrei na firma, eles vendiam gasolina em lata, dessa Exxon que depois virou a Esso. Na realidade era em galão. Não tinha bomba de combustível. O cara chegava à loja e pedia tantos galões. Levava embora e ia abastecer o carro em casa. Era um tempo muito diferente desse nosso. Agora já me falaram que nem bomba vai precisar mais. Vão ligar o carro na tomada. Aqueles eram bons tempos e seu pessoal trabalhava muito e nunca vi portuguesada mais inteligente que aquela. Além de inteligente, eles tinham uma "inteligência".
Pela minha cara de "não entendi" ele completou:
-Tinha a Comissão Mista formada pelo Brasil e Bolívia para construir a estrada de ferro Corumbá - Santa Cruz. Os compradores tinham uma comissão, não porque faziam parte da "Comissão" Mista, mas para tirarem um por fora e a concorrência fez com que elas fossem aumentando. No final o lucro ficava com esses compradores, até que seu pai resolveu infiltrar um espião na empresa. Ele ganhava um salário dos Marinhos para passar os pedidos de compra antecipada. Aí seu pai ia e comprava tudo dos concorrentes. A mercadoria vinha toda de São Paulo e entre a passada do pedido por carta, ou a visita do viajante, e a chegada dela aqui era no mínimo dois meses. Na hora da concorrência só nós tínhamos os produtos e ganhávamos todas. Quando os concorrentes descobriram já tinha acabado a construção da estrada.
Ele contava isso e dava risadas. Agora o Mattos é dono de um restaurante. Fica na Avenida General Rondon quase esquina com a Frei Mariano e prometi que ia hoje lá. Dizem que a comida é muito boa, mas vou mesmo é para conversar com o velho Mattos. Ta certo que é um bom motivo para eu fugir de meu regime de calorias, que esta diminuindo a minha barriga e enchendo o meu saco. Vai ser um jantar nostálgico, mas tenho certeza que agradável e com histórias para originar outro Post. Aguardem!

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Pratos inesquecíveis

Outro dia estava conversando sobre culinária e os pratos considerados inesquecíveis. Aqueles que passam os anos e o paladar fica na sua memória, registrado de uma tal forma, que quando você cruza com um parecido, lembra imediatamente do "original". Vovô Marinho veio de Portugal sozinho, deixando vovó Emilia e sua única filha na época, a tia Ana, para traz. Não tinha dinheiro para a viagem de todos e não sabia o que o esperava por aqui. Preparou o mínimo e mandou o dinheiro para a vinda de vovó e com ela veio a Isaura, sua mão direita e cheia como cozinheira. Lembro-me muito bem dela, já com os cabelos brancos, beirando os 60 anos. Mas inesquecível mesmo era seu bife na chapa. Era daqueles bem fininhos e feitos com a frigideira bem quente. Ficava bem passado e com a superfície meio queimadinha. Parece simples, mas tem 50 anos que como todos os tipos de bife, com todos os tipos de carne, e nenhum se iguala aquele da Isaura. Vai para o pódio.
Estava com 27 para 28 anos e fui para Recife, participar de uma concorrência, e fiquei hospedado num hotel, na praia de Boa Viagem, e acho que era esse o nome do hotel também. No primeiro dia, estava almoçando sozinho e comendo o que o garçom tinha sugerido, "lagosta no abacaxi". O cara pega um abacaxi inteiro, abre no meio, no sentido longitudinal, e cavuca o miolo. Parte do que saiu é cortado em cubos e vai para um molho branco onde tem pedaços de lagosta. Depois de pronto volta aquele creme para dentro do abacaxi. Como o abacaxi e a lagosta tem o mesmo tamanho e na medida certa de uma garfada, cada uma é um suspense, pois você não sabe de pescou uma lagosta ou abacaxi, e os dois por demais saborosos. Viciei no prato e passei três dias almoçando e dois jantando isso. Inesquecível número 2. No ultimo dia da nossa estada, chegou o gerente do comercial da empresa, o Adilson Wanderley, para finalizar os acordos que eu passei fazendo e jantamos juntos. Contei a ele sobre a lagosta e ele, que já conhecia o prato, me sugeriu um outro. Fiquei relutante, pois ao mesmo tempo que já o tinha comido 5 vezes, era a despedida. E se não gostasse da sugestão dele? Para resolver o problema ele se prontificou a comer a lagosta com abacaxi. Qualquer coisa nós trocaríamos. Pedi então a sua sugestão, a "moqueca de Siri Mole". Em quatro dias acrescentei dois pratos inesquecíveis a minha lista. O siri mole é aquele pescado a noite, pois está sem a sua casca dura, ou porque esta trocando ou porque não se formou ainda. Essa parte da explicação eu esqueci, mas a coisa era boa demais. Ficou com 3º lugar.
O bacalhau ao forno de mamãe, receita de vovó Emilia, com batatas, cebolas e tomate. Eu e papai comíamos uma travessa inteira e, apesar de ter muito azeite ainda regávamos mais ainda com aqueles de oliva puro. Fica em quarto porque tem que classificar.
O 5º lugar vai para o "Camarão a Provençal" do "Tomates & Bananas". Você fica exalando alho por três dias e ainda assim vale à pena.
Teve outros que deliciei ao longo da minha vida e de alguns nem consegui saber o nome direito. A avó de meu genro, a Dona Elisa, faz um prato armênio de carne com uma massinha, chamada Mantan, que é de matar. Você, simplesmente, não consegue parar de comer. Fica em 6º.
A "Sopa Leão Veloso" que eu e papai saíamos de Taubaté para comer no Rio de Janeiro, no "Cabaça Grande" era maravilhosa. Tinha todos os frutos do mar e vinha naquelas cumbucas de barro e super quente. A tinta do polvo fazia parte daquele caldo, tornando-o mais feio e gostoso, pois o aspecto não era bonito. Talvez seja injustiça classificá-la em sétimo mas não tem como baixar nenhuma das anteriores.
O 8º e último prato digno de nota vai para a rabada de nossa cozinheira Angela. Vem com batatas e feijão branco, bem molinho e com um caldo grosso. E um rabo que você tem que comer de joelhos, sem trocadilhos e nem segundas intenções, principalmente para os que conhecem a Ângela.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Corumbá

Corumbá esta na fronteira com a Bolívia no oeste do Brasil, na margem direita do rio Paraguai. O pessoal de fora, para tirar sarro da gente, fala que se o freio falhar nós paramos na Bolívia. Os mais abusados já falam que quem mora aqui são os que moravam lá e mandados para a PQP vieram parar aqui. Mas é tudo inveja, não tem lugar melhor que este para se morar. Falavam que aqui era o fim do Brasil e só depois de velho que vim a saber pelo Dr Alaer, que nem é daqui, que estamos na porta de entrada e não na dos fundos. Os emigrantes que saíram da Europa e para cá vieram, devido a dificuldade de subirem a serra do mar, não existia a São Paulo - Santos, desciam de navio até a Argentina, entravam pelo mar del plata, subiam o rio Paraguai e desembarcavam aqui em Corumbá. Alguns ficavam e outros seguiam para frente ou de barco mesmo para Cuiabá, ou pela Estrada de ferro Noroeste do Brasil, para São Paulo. Meus avós, tanto paternos vindo de Portugal, quanto maternos vindos do Líbano, desceram no primeiro Porto brasileiro, o Porto de Corumbá. Corumbá é uma boa cidade de se morar, mas no passado, muitas coisas eram melhores e deixaram saudades.
Sou da época em que as únicas ruas pavimentadas eram a frei Mariano e a Delamare e com paralelepípedos. A Avenida General Rondon, uma das mais importantes, era de chão batido e nela fazíamos buraco para jogar bolitas. Para diminuir a poeira o pessoal molhava a rua. Uma das imagens antigas que tenho na memória é a de tio Vicente, de pijamas e mangueira na mão, fazendo isso na rua 7 de setembro. A primeira tentativa de asfalto foi na rua 15 de novembro. Houve até inauguração e foi uma alegria ver aquela coisa preta, lisinha e que não fazia poeira. Alegria que durou pouco, pois devido à inclinação da rua e a temperatura de mais de 50 graus sob o sol, aquele piche derreteu todo e começou a escoar rua abaixo.
Os cines Santa Cruz, Tupi e o Anache, eram muito bons e nos proporcionaram momentos inesquecíveis. Sou do tempo que beijo na boca de namorada era só no escurinho do cinema. O nosso clube Corumbaense era palco de muitos bailes de férias, onde todos os namorados aproveitavam para dançar abraçadinhos. Era a única hora em que a rígida sociedade Corumbaense admitia que um rapaz pudesse passar os braços pela cintura de uma moça e ficar de rosto colado com ela na frente de todos. Como era bom. Era a hora das “encochadinhas”, dada as escondidas, que delícia. Hoje é tudo diferente, não tem mais o prazer da sedução, do escondido. É ripa na chulipa direto. Beijo na boca escancarada é na cara escancarada da sociedade.
Não tinha crack, cocaína, maconha. Era cigarro, Cuba Libre e para os mais avançados, no carnaval, uma lança perfume. Casa de prostituição, que nós chamávamos de Bordéu ou Zona, tinha que ter uma lâmpada colorida na porta, para não ter perigo de nenhum incauto inocente entrar naquelas casas de "mulheres da vida", olha como eram classificadas, sem saber. O nosso inicio sexual foi com profissionais, que é como tem que ser as coisas bem feitas. Teve muito treinamento antes, mas os finalmentes...

Aids, Hpv e outro monte de doenças sexualmente transmissíveis, não existiam. O máximo que se podia pegar era uma gonorréia, e chegava até a ser uma alegria para o pai acompanhar o filho ao médico para tratar. Era seu atestado de macho. Lembro-me da minha primeira e fui com papai no Dr. Fadah, que chegou falando:

- Examina o menino aí doutor e explica que ele tem que sossegar com esse pinto novo dele e não ficar colocando em qualquer buraco - Mas isso dito com muito orgulho.

Sexo antes do casamento com a namorada, nem pensar. E quem fazia acabava casando na marra, tinha que reparar o mal que fez à moça. Outros para evitar esse constrangimento, depois do acontecido, já marcavam a data, antes que dessem conta. Tem um caso de um amigo que estava na maternidade esperando a esposa dar a luz ao primeiro filho. Ficou na sala de espera com a sogra e rezando os dois, pois a mulher entrou em trabalho de parto depois de 7 meses de casado, e a velha não tinha dúvidas que era prematuro. Quando veio o médico com a notícia que nasceu tudo bem e de que o bebe pesava quase 4 quilos, ao invés dos parabéns, recebeu uma bolsada nas fuças da sogra, por ter comido a merenda antes do recreio. Quem casava muito rápido, como eu, que em seis meses, namorei, noivei e casei, quando nascia o filho todos faziam contas para ver se cumpria os nove meses. A minha Laura nasceu em 9 de fevereiro de 1974 e eu casei em 7 de abril de 73. Não percam tempo, foi na lua de mel. Mas em dezembro já tinha corrido um boato que Bea tinha tido um filho, era homem, e se chamava Tadeu.
Mas tudo isso faz parte de um passado por demais gostoso, se eu pudesse voltaria para lá.
Para ir às matinês de domingo, trocar gibis e ver Flash Gordom, com seus foguetes futuristas.
Para ir a noite à casa de Tia Dirce com meus pais visitar o vovo Marinho e ficar na rua brincando de "cola pau", "ovo na agulha" e "pegador".
Para escutar a sirene do moinho matogrossense tocando a uma hora da tarde, em ponto, comigo dentro do Sinca Chambord de papai e estacionado no mesmo lugar que ele parou na hora do almoço e eu roubei para dar uma volta.
Para ir no seu Ermínio comprar picolé de coco e comer de trás para frente e não dar o meu finzinho, cheio de coco para meu irmão pidão, Tontonio.
Ficar sentado na porta com a família vendo o movimento e conversando com seu Alexandrino e Dona Linota, nossos bons vizinhos. Não tinha essa televisão que a família fica assistindo o dia inteiro e faz com que você saiba o que acontece no mundo todo e ignore o que está acontecendo a sua volta.
Para ver a Alice com suas covinhas.
Tudo são coisas de meu passado e inesquecíveis.
Mas vou parar de lembrar-me dele, pois estou ficando com os olhos marejados de lágrimas e sou da época em que "Homem não chora".
Mas que saudades, meu Deus!