quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Seu Moacyr

A segunda fazenda que compramos foi Campo Salma (Salma de minha avó materna que me recriou dos 14 aos 22 anos). No século retrasado ela tinha pertencido a uns espanhóis e toda a família havia sido assassinada. Em cima dessa verdade, como sempre, criou-se a lenda. Diziam que havia um tesouro fabuloso em pedras preciosas escondido e esse tinha sido o motivo do assassinato de todos. Em volta da casa, uma tapera velha, haviam muitas escavações e falava-se que não era feita por ninguém deste mundo. Como era na beira do asfalto, solo bom, bem drenada e, principalmente porque eu não conhecia a história da assombração, comprei a fazenda.
Tinha 200ha de mata e formei com gente de fora. Depois de pronta procurei um capataz para cuidar dela. Tínhamos uma leiteria em Rancho Alegre, que ficava a 10km da cidade, mas como era pequena, só ficava as vacas em lactação. As vacas vazias e a recria seriam feitas em Campo Salma. Aí começaram a aparecer os problemas, ninguém queria ficar lá, até que apareceu o Seu Moacyr. Na entrevista, eu em dúvida se já perguntava da assombração para ele, se tinha que espanar que fosse logo, mas também não querendo propagar o mito, perguntei com quem ele iria.
- Só Deus, seu Tadeu. Só trabalho sozinho.
- E não tem medo de nada, seu Moacyr?
- Num conheci essa palavra, nem deste mundo nem do outro.
Fiquei sem entender se era força de expressão ou se ele já sabia da "coisa", mas no momento, eu precisando levar o gado para lá pois o pasto já estava passando, era tudo que precisava saber.
- Negócio fechado Seu Moacyr. Quando o senhor pode ir para lá?
- Agorinha se o senhor quiser. Minhas trainhas é pouco e está prontinha. Minha mala é um saco, meu cadeado é um nó.
Respondi que tinha que passar pelo departamento pessoal, fazer o registro, assinar carteira de trabalho, fazer exame médico admissional e que isso demorava uns dois dias. Ele respondeu:
- Comigo vai demorar mais. Vou ter que tirar carteira de identidade, carteira de trabalho e tudo isso que o senhor falou. Num tenho nada disso não senhor. - Era orelha de tudo também.
Resolvi fazer um contratinho e levá-lo para a fazenda e com o tempo ir regularizando a situação dele. Redigi, eu mesmo na hora, colocando os deveres e obrigações primeiro e os direitos em seguida, e lugar para nós dois assinarmos. Emiti em duas vias e passei uma para ele e comecei a ler. No final eu assinei minha via e ele ficou esperando.
- Alguma coisa errada seu Moacyr? Quer acrescentar algo?
- Não não, ta tudo em ordem. Estou esperando a almofadinha.
Foi meu primeiro capataz analfabeto. A assinatura era o dedão dele e a almofadinha era o estojo do carimbo. Campo Salma, começamos mal, pensei.
Mas o velho era porreta. Cuidava bem das vacas e em pouco tempo conhecia todas pelo nome. Uma vez aconteceu de uma cobra matar uma vaca e quando cheguei ele estava tão aborrecido com o fato, de um tanto, que até eu o consolei, que era assim mesmo e fazia parte do negócio. Pedi só que ele tomasse nota do número do brinco, quando ele me respondeu:
- Senhor Tadeu, de número eu só conheço o ó.
Quis corrigir que o número é o zero e não o Ó, mas não ia deixá-lo chateado em descobrir que ele não conhecia número nenhum. Mas ele mesmo arrumou a solução. Todas as vacas eram numeradas e ele tiraria a orelha junto com o brinco. O brinco para eu ver o número e a orelha para comprovar que a vaca estava morta. Estava indo tudo bem e ninguém falava dos fantasmas, até que um dia a Beá resolveu perguntar para ele se tinha visto ou ouvido alguma coisa estranha na fazenda. Para sua surpresa ele disse:
- Olha dona, tem fantasma e fazem uma bagunça que a senhora não imagina. Toda noite é uma lavação de prato e fazem uma barulheira que não me deixam dormir. Isso vai até eu gritar duro com eles, só aí que param.
Com fantasma e tudo a fazenda ia muito bem. O gado era bem cuidado, o pasto bem manejado até que resolvi contratar um tratorista para desmanchar umas leras. Ia ele e a mulher como cozinheira, pois seu Moacyr estava se alimentando só de carne seca e farinha. O Ponciano era um excelente tratorista, já a mulher... era uma merda. Certo dia seu Moacyr me chamou e disse:
- Dotor, se o senhor não mandar essa mulher embora eu vou dar com o machado na cabeça dela. Outro dia ela estava batendo no marido e fui apartar. Se eu não corro duro, ela me esfaqueia. Agora eu pergunto pro senhor se eu estou na idade de correr de mulher.
Aí resolvi perguntar dos fantasmas, pois já estava começando a acreditar que existia alguma coisa sobrenatural e com mais gente poderia comprovar, no que ele respondeu:
- Pro senhor ver como é uma peste essa dona, até os fantasmas ela pôs pra fora.
Mandei a mulher do Ponciano embora e ele foi junto. Coloquei um empreiteiro antigo meu lá, o Vivaldo, e por incrível que pareça, ele também escutava o fantasma de noite. Acho que ficavam de papo de assombração e a noite, todo mundo já com medo, viam coisas que não existiam. A prova dos nove foi o Carmindo, tratorista antigo meu e cara instruído. Esse ficou vários meses lá e nunca viu nada. Os fantasmas não deviam gostar dele também, segundo seu Moacyr.
Seu Moacyr ficou uns 5 anos comigo, até que um dia ele apareceu com uma hérnia inguinal. Encaminhei ele, meio na marra, ao Dr. Domingos que já o mandou com a guia de internação para a cirurgia. Não tinha outro jeito e era de urgência, pois se estrangulasse ia complicar tudo. Seu Moacyr pediu as contas e dispensa do aviso prévio. Disse que não operava de jeito nenhum e tomou seu rumo.
A última notícia que tive dele foi há uns 10 anos atrás, que estava conduzindo cavalos por esse pantanal. Tenho quase certeza de que ele ainda está vivo e convivendo com sua hérnia. Tive vários outros capatazes em Campo Salma e nunca mais apareceu qualquer coisa estranha por lá. Acho que os fantasmas foram juntos com meu amigo, seu Moacyr.

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