sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O Pedido

Eu nunca fui um cara de me apaixonar fácil mas estive algumas vezes em minha vida. Não vou falar delas pois ainda é muito cedo, talvez um dia. Mas Beá foi sem dúvida a maior, a mais importante, e o mais importante a última paixão da minha vida. Começamos a namorar em 6 de setembro de 1972, vai fazer 38 anos daqui a alguns dias. Noivamos em 03 de novembro do mesmo ano e casamos em 07 de abril de 1973. Do "topo" até o "sim" foram 6 meses. Um outro SIM (Serviço de Inspeção Municipal) que tive que tirar para nossa Distribuidora de Carnes aqui em Corumbá demorou muito mais.
Quando começamos a namorar eu estudava em São Paulo e ela no Rio. Comecei a descer todo sábado para vê-la no Rio e fiquei preocupado que seus pais achassem que eu estava só querendo passar tempo, pois eu tinha essa fama. Como eu não tinha dúvidas de que tinha achado a mulher de minha vida, resolvi comprar as alianças para ficarmos noivos nas férias em Corumbá e já deixar claro que minhas intenções eram sérias. Tudo isso aconteceu em um dos finais de semana em que estávamos em Volta Redonda, na casa da Márcia. Depois de comprado os anéis, não conseguíamos ficar com eles no bolso e resolvemos antecipar o noivado. Ela estava na casa do Roberto Benévolo, primo de Dr. Pedrinho, meu sogro. Se ele era o responsável legal por ela, era a ele que teria que fazer o pedido. Foi quando recebi o maior elogio de toda a minha vida. Quando falei que gostava da Beá e queria sua autorização para ficarmos noivos ele me respondeu:
- Fico muito feliz, só ficaria mais feliz se você estivesse pedindo a mão de minha filha.
A partir desse momento o Roberto e a Julinha, sua esposa, passaram a ser pessoas muito importantes e queridas em nossas vidas. Não lembro de ter conhecido pessoa mais correta e séria do que ele. Mas tinha suas manias e não me esqueço de um leilão no Novo Horizonte, o mesmo que o Paulo Machado contou os morcegos que matou, e quase matou o Chu de rir (aqui). Mas estávamos nos preparando para a noite que teríamos que passar na fazenda onde tinha sido o leilão, e conversando falei ao Chu que deveríamos andar com uma malinha com todos os artigos de primeira necessidade para um caso desses. Ele retrucou que não existia mala que você pudesse ter para cobrir todas as possibilidades e que ninguém tinha isso.
O Roberto estava na minha frente e com uma pasta dessas de couro, daquelas que usávamos na escola na década de 60. Como eu o conhecia falei ao Chu que ia provar que ele estava errado e perguntei ao Roberto como ele iria se virar naquela noite, pois eu o estava achando muito tranqüilo.
Ele deu uma risadinha e bateu de leve na malinha dele e falou que era seu estojo de primeiros socorros para essas situações. Perguntei o que tinha na mala e ele me mostrou:
- um paletó de pijama de flanela;
- uma lanterna megalite;
- uma caixa de fósforos;
- duas velas número 5 (o número ele que me falou);
- escova de dentes e pasta, daquelas que ganhamos em vôos internacionais;
- um pacote de bolachinhas (que ele me ofereceu uma);
- um rolo pela metade, para não ocupar espaço, de papel higiênico.
- e como não poderia faltar em um kit de sobrevivência: um canivete suíço.
Olhei para o Chu e apliquei o "Tá Vendo" do Zé Alberto nele. O interessante e mais triste de tudo foi que no dia que coloquei esta história na lista para ser escrita, o Roberto veio a falecer. Nos deixou para sempre mas com seu nome escrito em nossos corações.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Meu Primeiro Carro

Eu devia ter uns 12 para 13 anos e me lembro bem demais dele. Branco com capota azul, 4 portas, parado no quintal de casa, todo sujo e empoeirado. Os bancos estavam puídos e com as molas aparecendo. O rádio era de válvulas e demorava uns 5 minutos para começar a falar. Estava parado a mais de 5 anos. Era um Ford Consul 1951, motor de quatro cilindros de 1.508cm³ e potência de 47cv.
Resolvi colocar ele para funcionar. Tinha o Armadinho e o Tuim, dois mecânicos, os melhores de Corumbá, que trabalhavam em uma oficina dentro de nossa empresa e que eram da época em que éramos representantes da Ford. A representação acabou mais a oficina continuou lá. Expliquei para eles que não tinha muito dinheiro mas que em compensação não era muito exigente, ou melhor, a única exigência minha era de que papai não ficasse sabendo até o bicho ficar pronto. Queria vê-lo andando, não interessava como. Levaram ele para a oficina rebocado. Só trabalhavam nele quando não tinham o que fazer ou quando eu ficava lá enchendo o saco. Um mês depois, eu indo lá todos os dias, ele ficou pronto. Na primeira partida o carburador estourou e queimou o capô. Se já era feio de pintura, com o preto no meio do capo ficou horrível. Mas andava, capenga mais andava. A bobina estava pifando e não tinha na praça para comprar. Tinha que enrolar um pano úmido nela e andar com uma bisnaga de água. Quando ele começava a falhar, parava, abria o capô e espirava água no pano que a envolvia. Às vezes levava-o para uma verificação e a conversa era mais ou menos assim:
- Tuim, aquele barulho que ele fazia na roda esquerda parou. Veja o que aconteceu.
O Tuim ia ver e falava:
- Ainda bem que você percebeu. Caiu o pino que travava a roda e fazia barulho porque estava com folga. Deixa aí que vou fazer um pino novo.
A grande dificuldade foi convencer papai a deixar eu usar o carro com aquela idade. Mas consegui colocá-lo comigo para dar uma volta e ele ficou com pena ao ver o sacrifício que eu tinha feito para arrumar o carrinho gastando todas as minhas economias e mesadas nele e como já dirigia bem com aquela idade acabou por concordar. Corumbá não tinha movimento nenhum. As ruas eram todas de chão batido. A única rua calçada com paralelepípedos era a frei Mariano. Ia para o colégio e meus amigos não acreditavam que com 12 anos eu já tinha meu carro.
Com 14 eu fui para São Paulo estudar interno. Quando cheguei para as férias de julho, papai foi me pegar na estação com meu Consul e quase caí duro para trás. Para me fazer uma surpresa, já sabendo que estava indo muito bem na escola, mandou reformá-lo inteirinho. Pintura nova, vermelho bombeiro, na época não tinha o vermelho Ferrari, bancos estofados novos, também vermelho, estava a coisa mais chique. O painel, toda lata pintada, também de vermelho. Era um luxo só. O carrinho estava novo. Andava uns 100km todos os dias das férias. Começava a rodar às 8 da manhã e ficava zanzando até altas horas. Todas as conversas importantes eram dentro do carro. Namorar, dentro do carro. Arte, dentro do carro. Foram as melhores férias da minha vida. Quando fiz quinze anos, ganhei um fusquinha 1200 zerinho e encostei o Consul.
Se tivesse a experiência de hoje, ele estaria guardado na minha garagem como uma relíquia, mas com a compra do fusquinha ele foi esquecido e voltou a ficar no pátio de casa até que mandaram jogar fora. Entregaram ele para uma equipe de demonstração que foi a Corumbá, eles enfileiravam vários carros e um cara pulava por cima com outro carro e batia nos que estavam no chão. Destruíram meu primeiro carro sem que eu sentisse absolutamente nada. Só hoje, depois de velho, que me dá uma tremenda tristeza e uma puta saudade daquele carrinho.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Zé Pichibeque

Antigamente toda loja comercial tinha um mural onde o proprietário fixava os cheques sem fundos que ele recebia. Ficava ali exposto para quem quisesse ver a vergonha, e assinada, do sujeito. Era o SPC, pois outros clientes e os funcionários consultavam o quadro.
Eu não sei qual o significado exato da palavra pichibeque, deve ser uma gíria e é pejorativo, pois acho que significa algo sem valor. Ele era o Zé Pichibeque, vivia dando cheques sem fundo por onde passava. Era conhecido de todos do comércio. Eu estava com papai na casa Marinho quando o balconista veio até nós para consultar o cheque. Papai pegou, olhou o valor e foi fazer a rubrica para aprovar o mesmo. Pulei da cadeira na hora e não podia falar alto porque o Zé Pichibeque estava a uns três metros da gente e aguardando. Papai não me deu atenção e quando quis falar mais alto ele foi incisivo num "cala boca menino". Quando o Zé saiu eu falei pra ele:
- Pô pai, você não quis me escutar e pegou um sem fundos aí. Só o senhor que não conhece o Zé Pichibeque.
Ele só me respondeu um "eu sei" e chamou a Diolinda, que pela cara devia chamar Diofeia, e disse:
- Vai ao banco, carimba esse borrachudo aqui e põe no quadro.
Virou pra mim e falou:
-Ficou barato pois agora ele não entra mais aqui e isso por 1Kg de pregos.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Tá Vendo

Zé Alberto é personagem constante das minhas histórias porque ele é um cara muito engraçado. Puro e engraçado. Estava no meu escritório quando ele entra dizendo que tinha o melhor negócio do mundo para mim. Um fazendeiro, vou omitir o nome, tinha uma vacada espetacular e estava vendendo por R$ 80,00 enquanto o preço na praça era R$130,00. Como já conhecia o gado do sujeito falei que ele podia fechar e marcar o aparte. Aí veio o motivo do preço ser tão baixo. Tinha que pagar agora e receber o gado em 90 dias. Falei pro Zé:
- Zé, vou declinar.
- Que porra é essa, voltou a estudar latim?
- Não Zé, declinar nesse caso é abrir mão do negócio. Não faço isso. Aparto, ferro e pago. Não pode ser em ordem trocada, porque neste caso, a ordem dos fatores altera o resultado.
- Você falando latim e agora com os teoremas de matemática, vai perder o melhor negócio de sua vida. Você é muito burro. O cara é gente séria. Você está com medo do que?
- Zé, se o cara fosse sério ele pedia o valor certo das vacas. Se ele fosse sério não precisaria vender com tanta antecipação. Aí tem Zé, é fria e só não vê quem não quer. To fora e não adianta insistir.
Ele voltou ao meu escritório com a história das vacas mais umas 3 vezes e não tinha vez que ele me via e não falava que perdi o melhor negócio da minha vida. Uns 6 meses depois, fomos juntos a um leilão e quando descemos do avião o organizador do leilão foi nos receber. O Zé vira para mim e fala:
- Olha aí quem comprou aquelas vacas. Pergunte a ele como foi. Eu falo pra você que com esse seu jeito você está deixando de fazer ótimos negócios.
Antes que eu pudesse responder, ele já vira pro organizador e fala:
- Diz aí pro Tadeu das vacas. Ele esteve com esse negócio nas mãos.
O cara, para total surpresa do Zé fala:
- Porra meu, já está todo mundo sabendo? Mas quem ia imaginar que esse cara ia fazer isso. Filho da Puta, paguei 200 vacas e até agora só recebi 50.
O Zé Alberto olha pra mim e fala:
- Tá vendo.
E antes que eu pudesse falar qualquer coisa ele já saiu rápido para o leilão.
Até hoje chamo ele de "Tá vendo".

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Não recomende


Astréia é a sogra de meu irmão, é mãe de Lenir, minha cunhada. Não sei precisar a data, mas a uns 36 anos atrás, o Luis Alberto, cunhado dele, ia ficar noivo de uma paulista, a Malu. Ela vinha a Corumbá conhecer a família. Como o Tontonio falava muito palavrão, a D. Astréia caiu na besteira de recomendá-lo, dizendo que era uma moça muito bem criada, católica e que não estava acostumada com as palavras de baixo calão que ele vivia usando, e pedia que ele fizesse o favor de não falar nenhum palavrão na frente dela. Segundo o Tontonio, que me relatou o fato, ele já ficou emputecido na hora e só não mandou a sogra tomar no... porque estaria, indiretamente, dando razão a ela.
Marcaram um jantar no melhor restaurante da cidade para o dia da chegada da cunhada. O Tontonio que foi pega-los no seu carro. Ele e o cunhado na frente, a sogra, a concunhada e a Lenir atrás. Passearam pela cidade e até a chegada ao restaurante ele estava quieto e todo mundo incomodado, pois ele não abriu a boca nem para o costumeiro "muito prazer" quando foi apresentado. Quando pararam no restaurante, ele desceu, colocou o seu banco para a frente para as mulheres saírem, colocou o corpo dentro do carro e falou sua primeira frase:
-Vamos lá putada.
30 anos depois, estávamos no aeroporto esperando uma arquiteta que viria do Rio para projetar o posto 10. Ele queria fazer o posto mais lindo da cidade e se propôs a não poupar esforços ou dinheiro para fazer isso. Enquanto aguardávamos a dona ele começou a fazer suposições de como ela seria: Carioca, 35 anos, bonitona, antipática, fui ficando preocupado e caí na besteira de recomendar que ele não tomasse muita liberdade com ela pois poderia ser mal interpretado. Vi na hora que ele não gostou e achei melhor não consertar pois, normalmente as minhas emendas são piores que meus sonetos.
Recepcionamos a arquiteta que veio com sua projetista e fomos direto para o terreno onde seria construído o posto. Passamos a tarde toda trabalhando e a noite fomos levar as duas para jantar. Ele tinha acertado em quase tudo, com exceção que a dona era muito simpática. Ele foi na sua BMW nova, abriu a porta da frente para ela entrar e me colocou atrás com a projetista. Estava um perfeito gentleman. Era dezembro e estava um calor de matar. O ar condicionado do carro no máximo e o calor, fora do carro, violento. Quando abria a porta, a impressão era que você saía da geladeira e entrava no forno. Estava tudo bastante formal quando a arquiteta, sem querer, apoiou seu cotovelo no botão do vidro e o abriu. Na hora ele olhou assustado para ela e perguntou:
- Você peidou?
A mulher primeiro assustou demais com a pergunta e depois começou a rir e não parava mais. Depois disso eu nunca mais recomendei nada a ele. O bicho é louco.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Guerra de Mamona

Tia Dirce é irmã de papai, minha madrinha e tia preferida. Ela sempre foi muito ligada à Mamãe e acompanhou toda sua gravidez que foi super complicada, e quando nasci fui batizado por ela e pelo médico que fez o parto, o Dr. Eneas. Nasci coberto pela membrana que segura o liquido amniótico e a bunda primeiro. Papai sempre falava que eu era um cara de sorte porque tinha nascido empelicado e de cú pra lua. Assim que fiquei sabendo a origem do provérbio: "nasceu de fiófó pra lua".
Eu vivia na casa dela. Primeiro porque ela tinha um monte de filhos e o Dirceu era da minha idade, depois porque ela era super tranqüila e deixava a gente fazer de tudo. Esse costume começou cedo pois como vovô Marinho morou muito tempo com ela, o programa de papai era ir visitá-lo toda a noite com a família. Tio Vicente, marido dela, criava passarinhos e tinha um quintal super gostoso, cheio de arvores pra gente subir e um tanque de 2x3 onde tomávamos banho. A principal brincadeira era a guerra de mamonas. A arma era o estilingue, que na época chamávamos de funda, e a pelota era mamona verde. Além de não machucar muito deixava a impressão. Virava e mexia, o nego levava um pelotaço na testa, ficava aquele vermelhão sujo de verde, e ainda tentava negar com um "não acertou" ridículo, quase chorando de dor. Dividíamos a turma em duas, os bandidos e a polícia. Era um esconde-esconde misturado com pegador. O polícia tinha que achar o bandido e acertar o tiro, e tomar cuidado para não ser morto antes. Quem levasse um pelotaço de mamona ficava fora da brincadeira que acabava quando a polícia matasse todos os bandidos ou vice versa.
Numa dessas eu estava de bandido e resolvi me esconder dentro do tanque. Devia ter visto algum filme que o cara fazia isso. Peguei um talo de mamoeiro, afundei e fiquei respirando por aquele tubinho. 
O Zé Antônio, meu irmão, era um dos policias e resolveu sentar na beira do tanque para poder procurar melhor e com o estilingue carregado e já pronto para disparar em qualquer coisa que se movesse. Aí que vi a burrice que tinha feito. Até sair do tanque, armar o estilingue e disparar a queima roupa, eu seria atingido primeiro com certeza. Resolvi improvisar usando do elemento surpresa. Levantei do tanque gritando e com o talo do mamoeiro finquei nas suas costas gritando que era minha faca. Quando meu olhar cruzou com o dele que vi o susto que ele tinha levado. Estava branquinho pois ele nunca esperava isso e não conseguia falar. Quando ele se recuperou do susto eu apanhei de verdade, ele era mais velho e mais forte e acabou a brincadeira.
Ele nunca gostou de perder.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Isídio

Isídio está na família há mais de 20 anos. Começou quando abrimos um matadouro e ele carneava as reses. O negócio não durou muito tempo e quando fechamos ele veio trabalhar na minha casa como guarda noturno. Com o tempo ele aprendeu a fazer churrasco e ficamos chiques, passamos a ter um churrasqueiro particular, igual aquele do Lula, e o melhor da cidade. Já como guarda não podemos falar a mesma coisa. Tem duas características que não combinam com a profissão: dorminhoco e medroso. Mas é de toda confiança nossa e gosta muito de todos. Viu meus filhos crescerem e protegeu a todos, se não com sua coragem, com certeza com sua dedicação e carinho.
Isídio, o carinhoso...
Lembro-me do dia que cheguei em casa e fiquei preocupado pois eram umas 7 horas da noite e estava tudo escuro e com uma velas acesas pelo chão na entrada. Antes que pudesse pensar e entender o que estava acontecendo, de repente, não mais que de repente, aparece um vulto todo de preto, com uma capa de cetim, e com o braço segurando a capa e escondendo o rosto. Quando já ia sair correndo, ele tira a capa do rosto, e sorrindo com uns dentes falsos de vampiro, faz um comprimento se curvando a minha frente e me diz:
- Milordi, bem vindo a festa dos vampiros.
Eu já quase todo cagado, reconhecendo a peça, falei:
- Isídio, que porra é essa? Quase me borrei todo de susto.
- Seus filhos Doutor. Parece que tem uma festa aqui, um negócio de Alo in e me fizeram colocar esta capa com esses dentes e me treinaram para receber todo mundo assim. Na verdade eles mandaram eu esconder e pular em cima, mas quando vi que era o senhor fiquei com medo de levar um cacete e engolir esses dentes.
Isídio, o corajoso...
Devia ser uma três horas da manhã quando sou acordado com alguém dando porrada na janela de meu quarto. Acordei num pulo, coração a 200 e escuto a voz dele:
- Seu Tadeu, tem ladrão na sala de dona Beá.
Passo a mão no meu 38 e vou abrir a porta da cozinha para ele entrar. O escritório da fazenda era conjugado com minha casa. Compramos o vizinho e abri uma porta fazendo uma ligação direta. Tinha um hall de iluminação interna de 1,5 x 1,5 metros, onde estavam as janelas do banheiro e da sala de Beá, uma de frente para outra. Ele na frente, que só lembrou de sacar seu revólver depois que viu o meu, entrou agachado no banheiro e ficou embaixo da janela. Falou para mim que por ali dava para ver o movimento na sala de Beá. Fomos levantando juntos e antes que eu pudesse ver alguma coisa ele me puxou para baixo e fez sinal que eram dois. Resolvi levantar sozinho e já colocando o revólver engatilhado pela janela e pronto para disparar. Quando firmo o olhar eu me vejo no reflexo da janela de Beá. Ele levanta quando eu começo a dar tchau para o ladrão, primeiro um e quando ele mete a cabeça, agora dois.
Aí que ele viu que o ladrão era ele mesmo. Era o banheiro que ele usava e a janela ficava acima do vaso e na direita de quem esta urinando. Percebi então que estava tudo mijado para fora e quando ele viu que eu tinha percebido ele falou:
- Fica tranqüilo que vou limpar tudo, mas eu já estava mijando quando vi o reflexo. Não vai pensar que me mijei de medo.
Eu já puto de estar acordado naquela hora, escutando uma observação desta, não agüentei e falei:
- Nem me passou isso pela cabeça, pois você é o cara mais corajoso que já conheci. Vai tomar no cú.
Isídio, o dorminhoco...
Fui dormir preocupado com a hora pois já passava das 11 da noite e tinha que acordar às 5 para ir para a fazenda. Devia ser por volta das 3 da madrugada quando acordei com o telefonema de minha sobrinha Mercedes querendo saber o que estava acontecendo em casa pois estava cheio de polícia na porta. Como não tinha nenhum barulho falei que devia ser no vizinho. Ela insistiu que tinha alguma coisa errada e eu, já de saco cheio, peguei o 38 e fui ver o que estava acontecendo. Quando sai na porta já vi o banzé, tinha dois carros de policia, motocicleta com as luzes de advertência ligadas e uns 8 homens fardados. Voltei e guardei o 38. Eles falavam que alguém tinha pulado o muro e entrado em casa. Procurei o guarda e não achei o Isídio. Já tinha gente achando que os assaltantes podiam tê-lo matado. Comecei a chamar por ele, primeiro em um tom normal e com o tempo, aos berros. Depois de uns 3 minutos gritando ele sai de um quartinho onde guardamos as ferramentas a 2 metros de onde estávamos com a cara mais amassada do mundo. Devia estar no quinto sono, aquele mais profundo. Quando falei que viram alguém entrar em casa ele me fala, na maior cara de pau:
- Não é possível pois eu não vi nem ouvi nada.
Me seguraram para não bater nele. Como a confusão não desenrolava, um dos policiais pediu a autorização para subir no telhado, pois tudo indicava que o cara estava escondido nele. Voltei a pegar o treisoitao. Em dois minutos ele volta com o gatuno. Era ladrão de fiação e já tinha cortado o que alimentava a casa. Só não estávamos todos no escuro porque tenho duas entradas de energia. Com o ladrão ainda algemado esperando o camburão, chega um carro da enersul e restaura a ligação. Em menos de uma hora o ladrão estava preso e o dano sanado. Coisa de europeu, tirando o Isídio, é claro.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Seu Moacyr

A segunda fazenda que compramos foi Campo Salma (Salma de minha avó materna que me recriou dos 14 aos 22 anos). No século retrasado ela tinha pertencido a uns espanhóis e toda a família havia sido assassinada. Em cima dessa verdade, como sempre, criou-se a lenda. Diziam que havia um tesouro fabuloso em pedras preciosas escondido e esse tinha sido o motivo do assassinato de todos. Em volta da casa, uma tapera velha, haviam muitas escavações e falava-se que não era feita por ninguém deste mundo. Como era na beira do asfalto, solo bom, bem drenada e, principalmente porque eu não conhecia a história da assombração, comprei a fazenda.
Tinha 200ha de mata e formei com gente de fora. Depois de pronta procurei um capataz para cuidar dela. Tínhamos uma leiteria em Rancho Alegre, que ficava a 10km da cidade, mas como era pequena, só ficava as vacas em lactação. As vacas vazias e a recria seriam feitas em Campo Salma. Aí começaram a aparecer os problemas, ninguém queria ficar lá, até que apareceu o Seu Moacyr. Na entrevista, eu em dúvida se já perguntava da assombração para ele, se tinha que espanar que fosse logo, mas também não querendo propagar o mito, perguntei com quem ele iria.
- Só Deus, seu Tadeu. Só trabalho sozinho.
- E não tem medo de nada, seu Moacyr?
- Num conheci essa palavra, nem deste mundo nem do outro.
Fiquei sem entender se era força de expressão ou se ele já sabia da "coisa", mas no momento, eu precisando levar o gado para lá pois o pasto já estava passando, era tudo que precisava saber.
- Negócio fechado Seu Moacyr. Quando o senhor pode ir para lá?
- Agorinha se o senhor quiser. Minhas trainhas é pouco e está prontinha. Minha mala é um saco, meu cadeado é um nó.
Respondi que tinha que passar pelo departamento pessoal, fazer o registro, assinar carteira de trabalho, fazer exame médico admissional e que isso demorava uns dois dias. Ele respondeu:
- Comigo vai demorar mais. Vou ter que tirar carteira de identidade, carteira de trabalho e tudo isso que o senhor falou. Num tenho nada disso não senhor. - Era orelha de tudo também.
Resolvi fazer um contratinho e levá-lo para a fazenda e com o tempo ir regularizando a situação dele. Redigi, eu mesmo na hora, colocando os deveres e obrigações primeiro e os direitos em seguida, e lugar para nós dois assinarmos. Emiti em duas vias e passei uma para ele e comecei a ler. No final eu assinei minha via e ele ficou esperando.
- Alguma coisa errada seu Moacyr? Quer acrescentar algo?
- Não não, ta tudo em ordem. Estou esperando a almofadinha.
Foi meu primeiro capataz analfabeto. A assinatura era o dedão dele e a almofadinha era o estojo do carimbo. Campo Salma, começamos mal, pensei.
Mas o velho era porreta. Cuidava bem das vacas e em pouco tempo conhecia todas pelo nome. Uma vez aconteceu de uma cobra matar uma vaca e quando cheguei ele estava tão aborrecido com o fato, de um tanto, que até eu o consolei, que era assim mesmo e fazia parte do negócio. Pedi só que ele tomasse nota do número do brinco, quando ele me respondeu:
- Senhor Tadeu, de número eu só conheço o ó.
Quis corrigir que o número é o zero e não o Ó, mas não ia deixá-lo chateado em descobrir que ele não conhecia número nenhum. Mas ele mesmo arrumou a solução. Todas as vacas eram numeradas e ele tiraria a orelha junto com o brinco. O brinco para eu ver o número e a orelha para comprovar que a vaca estava morta. Estava indo tudo bem e ninguém falava dos fantasmas, até que um dia a Beá resolveu perguntar para ele se tinha visto ou ouvido alguma coisa estranha na fazenda. Para sua surpresa ele disse:
- Olha dona, tem fantasma e fazem uma bagunça que a senhora não imagina. Toda noite é uma lavação de prato e fazem uma barulheira que não me deixam dormir. Isso vai até eu gritar duro com eles, só aí que param.
Com fantasma e tudo a fazenda ia muito bem. O gado era bem cuidado, o pasto bem manejado até que resolvi contratar um tratorista para desmanchar umas leras. Ia ele e a mulher como cozinheira, pois seu Moacyr estava se alimentando só de carne seca e farinha. O Ponciano era um excelente tratorista, já a mulher... era uma merda. Certo dia seu Moacyr me chamou e disse:
- Dotor, se o senhor não mandar essa mulher embora eu vou dar com o machado na cabeça dela. Outro dia ela estava batendo no marido e fui apartar. Se eu não corro duro, ela me esfaqueia. Agora eu pergunto pro senhor se eu estou na idade de correr de mulher.
Aí resolvi perguntar dos fantasmas, pois já estava começando a acreditar que existia alguma coisa sobrenatural e com mais gente poderia comprovar, no que ele respondeu:
- Pro senhor ver como é uma peste essa dona, até os fantasmas ela pôs pra fora.
Mandei a mulher do Ponciano embora e ele foi junto. Coloquei um empreiteiro antigo meu lá, o Vivaldo, e por incrível que pareça, ele também escutava o fantasma de noite. Acho que ficavam de papo de assombração e a noite, todo mundo já com medo, viam coisas que não existiam. A prova dos nove foi o Carmindo, tratorista antigo meu e cara instruído. Esse ficou vários meses lá e nunca viu nada. Os fantasmas não deviam gostar dele também, segundo seu Moacyr.
Seu Moacyr ficou uns 5 anos comigo, até que um dia ele apareceu com uma hérnia inguinal. Encaminhei ele, meio na marra, ao Dr. Domingos que já o mandou com a guia de internação para a cirurgia. Não tinha outro jeito e era de urgência, pois se estrangulasse ia complicar tudo. Seu Moacyr pediu as contas e dispensa do aviso prévio. Disse que não operava de jeito nenhum e tomou seu rumo.
A última notícia que tive dele foi há uns 10 anos atrás, que estava conduzindo cavalos por esse pantanal. Tenho quase certeza de que ele ainda está vivo e convivendo com sua hérnia. Tive vários outros capatazes em Campo Salma e nunca mais apareceu qualquer coisa estranha por lá. Acho que os fantasmas foram juntos com meu amigo, seu Moacyr.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

A Prova de Contabilidade

Papai era contador o que antigamente era chamado de guarda livros. Ele estudou no Rio e se formou como um dos melhores alunos de sua turma. Entretanto, segundo ele, quase não passou no exame final por causa de um dos professores da banca do exame oral. Além da prova escrita tinha também a oral. Eram vários professores e cada um que fazia as argüições e ele respondia com todos os outros escutando. Lá pelas tantas, um dos examinadores dos quais eu não lembro o nome, pede a ele que leia um verso do Raimundo Correa. Ele pigarreia para limpar a garganta, e começar a ler o verso. Coloca toda a empolgação possível, deixando o tom de voz mais grave e começa:
"Vai-se a primeira pomba despertada ...
Vai-se outra mais ... mais outra ... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada ...
E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...
Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;
No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais..."
Colocou a alma naquela declamação. Que prova mais fácil ainda mais para ele que já tinha sido orador. Quando terminou de declamar foi até aplaudido pelos demais membros da banca, achava mesmo que tinha escutado uns gritos de BRAVO, BRAVO, quando o examinador fala:
- Muito bem seu Alberto. Cheguei a ficar arrepiado ao ver tanta emoção na sua oração. Tenho certeza que o Raimundo Correia nunca foi tão bem declamado. Agora me diga o seguinte: O que ele quis transmitir com essa poesia?
Papai disse que nessa hora ele achou que fosse desmaiar. Leu com muita emoção mas sem nenhuma atenção. Não fazia a menor idéia de para onde iam aquelas "pombas despertadas". Resolveu responder a altura e disse:
- Ilustríssimo professor, posso responder a sua pergunta, desde que Vossa Senhoria responda a uma minha, primeiramente. Pode ser?
- Posso seu Alberto, mas devo lembrar que o senhor é que esta sendo examinado. Mas fale o que precisas saber para responder a minha pergunta?
- Preciso saber Excelência, se o senhor já viu alguma vez, em toda a sua vida, uma carta comercial escrita em versos?
Tirou zero, e só passou porque em todas as outras questões, assim como na parte escrita, tirou 10.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Últimos Dias


Já contei no "A Origem" como faço para escrever aqui no blog usando meu celular nos momentos ociosos. Quando alguém ou algum fato me traz recordações passadas que acho interessante, registro em um lugar para escrever no futuro. Uma das que está a muito tempo nessa fila de espera e sempre me falta a coragem para escrever foram os últimos dias de meu pai. Mas como tenho que registrar tudo e essa é a história de número 100, resolvi encará-la. Sei que vai ser penoso mas são fatos muito importantes para meus filhos e netos.
Foi no dia 07 de setembro de 2006, uma quinta feira. Recebi um telefonema do Dorivaldo, motorista de papai, pedindo que eu fosse correndo na exportadora Marinho, que papai tinha caído e parecia ser coisa séria. Corri para lá e quando cheguei ele já estava deitado no sofá das visitas que havia em sua sala. Tinha quebrado a perna na altura da cabeça do fêmur. Não precisava ser médico para fazer esse diagnóstico, o seu pé ficava completamente torcido para fora fazendo uma rotação de joelho impossível. Ele mesmo falava, que não sabia como, mas tinha quebrado a perna. Passava a mão pelos cabelos, como sempre fazia quando estava nervoso, e falava que não sairia dessa, que isso não podia ter acontecido. Ele estava inconsolável e por mais que pensássemos no pior, ainda assim, não conseguiríamos imaginar o que tínhamos pela frente.
Chamamos a ambulância do corpo de bombeiros e o levamos para o hospital. Ligamos para nosso médico, Dr. Antonio Carlos Lopes de São Paulo, e ele nos mandou remove-lo com UTI aérea para lá. Não tinha o que fazer em Corumbá, a solução era cirúrgica e com 93 anos era de alto risco. No avião só podia ir um acompanhante e mamãe não dava conta. Para complicar, não chegava nenhum vôo comercial em Corumbá, todos iam só até Campo Grande. Essa trecho tinha que ser de carro e mamãe só viajava comigo dirigindo. Estava dado o nó. Conseguimos embarcar papai no mesmo dia. Era para eu ir com ele, mas na hora do embarque, meu primo Alaer, vendo o meu estado falou:
- Deixa que eu o acompanho. Sou médico e posso ser mais útil do que você. Santo Alaer. Falei com papai e como Maria Lucia estava em São Paulo, mamãe com Lenir iam no próximo vôo comercial, ele topou. Alaer embarcou com a roupa do corpo. Nunca vou me esquecer disso.
No dia seguinte, pela manhã saí com Lenir e Mamãe para Campo Grande. Embarquei as duas e voltei para Corumbá. Chegando aqui tivemos notícias animadoras. Papai estava em perfeita saúde e pronto para operar. Ia colocar uma cabeça de fêmur nova e ia ficar melhor do que antes. A cirurgia seria no dia seguinte. Estávamos apreensivos mas confiantes. A cirurgia correu as mil maravilhas. Ele passou 24 horas na UTI de praxe e como reclamava muito a falta de Mamãe, mandaram ele pro quarto. Operou no sábado, dia 10, e no dia 12 estava sentado no quarto lendo jornal. Em uma posição que ele não ficava a anos. Minha cunhada Lenir tirou uma foto dele nessa posição e nos enviou para nos acalmar. A noite liguei para ela para ter as últimas notícias e foi aí que começou nosso martírio. Pelo telefone eu conseguia escutar a respiração dele que era um ronco terrível. Ela me falou que não sabia o que tinha acontecido e ele ia para a UTI. Foi entubado e só conseguia respirar dessa maneira. Parece que ele teve um pequeno derrame e a única parte afetada foi a epiglote. Com isso não conseguiam desentubar ele.
Eu e o Tontonio pegamos o primeiro avião e fomos para São Paulo. A situação era crítica. Já tinham tentado tirar o tubo duas vezes, mas tinham que voltar. O pior é que a epiglote parou de funcionar em uma posição intermediária, nem toda fechada, nem aberta. Então qualquer líquido que ele tentava engolir ia para o pulmão. Não falava, não conseguia comer e não respirava se não estivesse entubado, e tudo isso completamente consciente.
Acabou tendo que fazer uma traqueotomia, e daquelas chatas, pois além do furo no pescoço, tinha que ter um tubinho que entrava pelo buraco e entre ele e a traquéia tinha uma câmara de ar para não deixar nada entrar pela boca para o pulmão. Tínhamos que verificar constantemente a pressão dessa boinha pois se estivesse murcha podia passar o líquido e se tivesse com muita pressão podia machucar a traquéia. Ele se alimentava por uma sonda colocada no nariz. Não tinha jeito. A perna estava bem e uma porcaria de uma valvulinha de merda estava ferrando com meu pai. Constantemente tinha que fazer aspirações no pulmão e era uma das coisas que ele menos gostava.
Depois de dois meses internados, a situação se estabilizou nessa posição. Recebeu alta do Einstein e veio para Corumbá de UTI aérea. Primeiro foi para o hospital de Corumbá para se recuperar da viagem. Como a UTI não tinha o aspirador, ele chegou aqui em um estado crítico de novo. Os médicos acharam que ele tinha pego uma pneumonia que tomou os pulmões completamente. Após a primeira limpeza verificaram que era líquido. O médico da UTI aérea bobeou mas com a variação da pressão ele não calibrou a bóia da traqueotomia e entrou líquido no pulmão.
Montamos uma enfermaria em seu quarto. Sua cama foi emprestada pelo hospital de Corumbá. Por coincidência, ou talvez devido a isso, era a mesma comprada para o meu sogro e depois doado ao hospital. O colchão era todo cheio de bolas interligadas entre si aos pares e alternados. Tinha uma bomba que inflava um lote e o outro ficava murcho. Depois de alguns minutos alternava, ou seja, os inflados murchavam e os murchos inflavam. Isso fazia com que os pontos de apoio do corpo mudassem e evitava as escaras. Três vezes por dia ia uma fisioterapeuta, a Sandrinha, muito delicada e dedicada, fazer a aspiração, mas a coisa era realmente terrível. Enfiava um caninho pelo furo da traqueotomia e através de uma bomba de vácuo fazia toda a aspiração do líquido acumulado no pulmão. Nesse momento a sensação que nos dava era de que ele estava afogando, pois junto com o líquido saía todo o ar.
Mas ele era muito valente. Quando estava bem pedia aos enfermeiros que me chamassem para passear de carro. A primeira vez que isso aconteceu levei um puta susto. Estava trabalhando, quando o Jo, um de seus enfermeiros, me pediu que desse uma passada que papai queria alguma coisa que eles não estavam entendendo. Quando cheguei, quase cai duro. O velho estava de bermuda jeans, boné combinando, papete e óculos escuros. Estava a Sandrinha e dois enfermeiros. Foi eu e ele na frente e os três atrás junto com o tubo de oxigênio. Para colocar ele no carro foi a maior dificuldade. Devia ser uma quatro horas da tarde e ficamos passeando, como nos velhos tempos. Quando perguntava se ele queria ir para casa ele balançava a cabeça que não. Passamos no Marinho, onde ele trabalhava, na casa dos irmãos, na casa onde ele tinha nascido. Fizemos um tour completo pela cidade. Voltamos já de noite e aí que percebemos que na entrada do carro tínhamos machucado ele e a camisa estava ensangüentada. Ele fez sinal de que não era nada e que era para escondermos de Mamãe. Esses passeios se repetiram muitas vezes. Bastava ele estar melhor para passearmos e era a minha prioridade. Podia estar fazendo o que fosse, o telefone da turma era para dizer que ele estava pronto, e lá íamos nós.
Com o tempo a sonda nasal começou a machucar e ele teve que se submeter a uma gastrostomia. Fizeram outro buraco, agora na barriga dele e o alimento entrava por ali. Levávamos ele de um lado para outro e ele nem perguntava o que estávamos fazendo. Não sei se por excesso de confiança na gente ou se ele estava começando a se entregar. Ele dependia dos enfermeiros para tudo. Comia pela sonda, não conseguia falar, não saia da cama, só carregado, usava fraldas direto. E quem conheceu papai imaginava o que tudo aquilo significava para ele. Lembro-me um dia em que ele me chamou em seu quarto para eu vê-lo se vestir. Tinha saído do banho e abriu a cômoda onde ficavam suas cuecas. Junto existia dois barbantes com jacarezinhos amarrados nas pontas. Ele pegou a cueca, prendeu os dois jacarés, um de cada lado, e foi soltando o barbante até a cueca chegar no chão. Entrou dentro dela e puxou o barbante subindo a cueca. Isso para não depender de ninguém para de vestir. Quando lembrava disso e via os enfermeiros limpando a sua bunda, me dava uma agonia sem igual. Mas ele era valente e nunca reclamou. Nesse sofrimento ele foi até o fim.
No seu último dia, quando deu 22:00 e fui me despedir de mamãe, ela pediu que eu ficasse com ela. Gelei. As coisas não estavam bem mas já tinha acontecido de sair chorando de casa e no dia seguinte ele amanhecer melhor. Mas Mamãe pedir para eu não ir era a primeira vez. Quando foi 5 horas da manhã do dia 15 de março de 2007 ele nos deixou. Sereno olhando para mim e para ela. Quando o médico, Dr. Luis que passou a noite toda conosco o escutou e falou que o coração estava muito fraquinho eu sabia que ele já tinha ido. Fui falar para Mamãe que precisávamos ser fortes pois ele não demorava muito. Ela me olhou e percebi que ela já sabia também que ele já tinha ido.
Hoje eu sinto muitas saudades dele mas o orgulho que tenho de ser seu filho é muito maior.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A Fria

Essa tenho que contar com muito cuidado. Envolve coisas importantes e delicadas. Foi quase a minha primeira vez. Ela se chamava Elizabeth. Posso citar o nome porque é bastante comum. Devia ser começo dos anos 60 e estava com 10 para 11 anos. É, no interior essas coisas começam mais cedo. Ela era a faxineira lá de casa. Branca, 15 para 16 anos, bonitinha, cinturinha fina, os melões já amadurecidos. Uma vez escutei papai fazendo algum comentário com Mamãe, que esse tipo de empregada devia ser evitado onde tinha rapaz entrando na adolescência com níveis de testosterona muito altos, se referindo ao Tontonio, que estava com 13 para 14 anos. Só que ninguém sabia mas eu estava no páreo também. Começamos a perseguição. Ela limpando o chão, passava e começava com um esbarrãozinho, seguido com umas pegadinhas. Ameaçava de contar para Mamãe e como não contava, eu achava que estava gostando. Fiz a primeira proposta:
- Ajudo a limpar o quarto se deixar eu pegar nos melões.
Negócio fechado, aprendi a passar pano e até enceradeira. A cada dia a coisa ia ficando mais quente. Por cima da roupa, por baixo e por aí ia. O quase grande dia foi quando a convenci de nos escondermos atrás do guarda roupa do meu quarto. Para facilitar a limpeza, minha mãe era psica com limpezas, ele ficava de canto, e como era grande, entre as duas paredes, catetos de um triângulo retângulo, e o guarda roupas de hipotenusa, sobrava uma área muito interessante e escondida. Convenci, depois de uma cantada ensofrega, a Betinha, assim a chamava nessas horas de tensão (o n é para enganar os menores de idade), a ir comigo para lá. Estávamos na maior das alegrias naquele esconderijo, meio desnudos, faltando só as últimas peças de cada um, eu já doidão, querendo subir no guarda roupa, quando aconteceu.
Vi primeiro uma sombra pela entrada do nosso esconderijo e logo em seguida a cabeça. Ela escondida atrás de mim que estava só de cuequinha. Saí do estado de choque com o grito de mamãe:
- Seu moleque, o que vocês estão fazendo aí? Desce e me espera na varanda com seu pai. Elizabeth, sua vagabunda, vista essa roupa e suma da minha frente. Vou contar tudo para sua mãe.
Vesti o mais rápido que podia, não tinha muito também e fui pra varanda. Papai que tinha escutado os gritos de mamãe, perguntou:
- Que aconteceu lá em cima?
- Mamãe zangou de eu estar ajudando a Elizabeth limpar o chão atrás do guarda roupas.
- Hein!! É você e não o José Antonio que esta atropelando a menina. Você já tem idade pra isso rapazinho?
Respondi meio orgulhoso:
- Ia ver, mas Mamãe chegou antes e vai sobrar pra você.
Aí eu comecei a admirar meu pai mais ainda quando ele disse:
- Vai pra casa de sua tia Dirce. Eu seguro a barra por aqui.
- Da Elizabeth também? - Perguntei.
Ele não respondeu mas posso jurar que vi um brilhozinho sacana em seus olhos.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Lampião Aceso

Devia ser fim de 1992 e estava indo ver uma fazenda para comprar. Tinha uma pampa e como já estava atrasado para o encontro com o proprietário vinha correndo um pouco. Existe um posto fiscal do estado, aqueles do ICMS, que fica na saída de Corumbá, na estrada para Campo Grande. Antigamente, quando não havia eletricidade rural, a única luz nesse local era de um lampião e por isso o lugar ficou conhecido como Lampião Aceso e nunca mais perdeu esse nome. Quando reduzi o carro para passar por esse posto, um guarda rodoviário me parou e me abordou pedindo os documentos:
- Documentos, seu e do veiculo, por favor.
- Seu guarda, estamos indo para a fazenda, não vou para Campo Grande.
- Não perguntei pra onde o senhor vai. Quero ver seus documentos.
Falei que não usava documentos para ir à fazenda pois podia perdê-los. Tentei argumentar que Corumbá era uma cidade muito pequena e que todo mundo conhecia todo mundo. O guarda falou que não me conhecia. Foi quando falei com a maior naturalidade:
- Então o senhor não é daqui. Passo neste posto todos os dias de ida e de volta. Pergunte aos fiscais do estado, ali, que eles vão te falar.
- Não sou mesmo. Sou de Campo Grande. E o senhor vai me desculpar mas vou apreender o carro. Já pensou em São Paulo se os guardas tivessem que conhecer todo mundo? Vocês tem que aprender a andar com os documentos.
- Exatamente o que estou falando. Se você fosse daqui ia pedir documentos de poucos pois conheceria todo mundo e não encheria o saco de nego que esta trabalhando.
O Esteferson, esse era o nome do corretor que estava comigo, viu que a coisa não estava caminhando bem e interferiu pedindo ao guarda que o deixasse ir até meu escritório, na cidade, e trouxesse os documentos. O guarda concordou, desde que o carro ficasse. Ia perder, no mínimo, 30 minutos mas não tinha outro jeito. Fiquei aguardando com o guardinha, enquanto o corretor, que pegou uma carona com um caminhoneiro seu amigo, foi pegar os documentos no meu escritório. Estava muito puto e resolvi encher o saco do guarda. Realmente conhecíamos todo mundo que andava naquela estrada com placa de Corumbá e como ele estava parando todo mundo e eu não tinha o que fazer, resolvi acompanhar a diligência. Nesse momento apontou o Zé Bertazzo, gerente da fazenda Ciaco, vizinha da nossa Angico. Quando o guarda foi encostando, eu já falei a ele:
- Esse é Sr. José Bertazzo. Anda até com título de eleitor no bolso e se duvidar, certidão de casamento.
O policia fingiu que não ouviu e o abordou com o mesmo:
- Bom dia. Documentos seu e do veiculo.
Pode parecer mentira mas o Zé tinha aquelas carteiras de plástico onde eles são grudados um no outro, tipo sanfona. Tirou do bolso e quando abriu a carteira, todos os documentos se desdobraram na frente do guarda e ele tirou os solicitados. O guarda olhou, agradeceu e o liberou. Ele olhou pra mim e falou:
- E aí Tadeu, tá precisando de alguma coisa?
Agradeci e ele seguiu viagem. Atrás dele veio encostando o Jam Boabaid, numa D10, ele com um chapelão de caubói é proprietário de uma fazenda na beira do asfalto e antes da minha. Falei pro guarda:
- Esse é que nem eu. Tem medo de perder, você vai ter que deixar ele de castigo junto comigo.
O guarda fez a mesma abordagem:
- Bom dia. Documentos, seu e do veiculo.
O Jam fingiu ou não ouviu mesmo e perguntou o que eu estava fazendo ali, se o carro tinha quebrado. Respondi que não e que estava aguardando o corretor que tinha ido a cidade. O guarda interrompeu nossa conversa, o que deixou o seu Jam meio brabo, e pediu novamente os documentos. O Jam, um senhor de uns 80 anos, todos vividos em Corumbá, olhou pra ele e falou, já engatando uma primeira:
- Passa no meu escritório, toma um cafezinho comigo, e depois te mostro.
Arrancou com o carro, eu me contendo para não rir da cara do guarda, e quando ele olhou para mim, não agüentei e falei:
- Não atire nele que ele revida e é dos bons de mira. Depois te dou o endereço do escritório dele. É facinho chegar lá.
Ficamos uns dois minutos sem nenhuma abordagem e, assim que passou a indignação do guardinha, começamos a falar de fazenda, o pai dele tinha uma chacrinha, quando veio o leiteiro, numa pic-up Willis 66, F75, com motor diesel adaptado no lugar do a gasolina, tudo feito nas coxas, e sem placa. Ele coletava o leite de todos os produtores da beira de estrada e entregava em Corumbá. Nem ele, muito menos o carro que era orelha de tudo, tinham documentos. Quando o guarda foi abordá-lo eu já falei:
- Você vai tirar o ganha pão desse cara. É gente boa mas não tem documento nenhum, e a família é bem grande.
Nem fui acompanhá-lo dessa vez. Fiquei sentado na pampa vendo a cena. Vi o guarda falando e o leiteiro colocar as duas mãos na cabeça. Devia estar chorando. Para minha surpresa ele foi embora com o carro e o guarda veio voltando até mim. Fui falando:
- Errei desta vez. O cara tinha documentos?
- Nenhum. Mas como poderia detê-lo depois que deixei o chapeludo ir embora?
Nisso chegou o Esteferson com o motorista da empresa e entregou os documentos para mim. Quando olhei pro guarda ele fez sinal para eu ir embora e nem quis ver os documentos. O Esteferson ficou sem entender o que eu tinha feito. No caminho é que contei a ele o ocorrido.
Hoje, mais velho, vejo que aquele era um bom guarda. Fazia o que lhe mandavam e procurava seguir a risca. Ruim eram seus chefes que o colocaram nessa fria. Do Japão ouvi falar, mas em Montevidéu eu presenciei a setorização da polícia. Os guardas, tanto de trânsito como os da civil, possuem quadras específicas sobre sua responsabilidade. Andando sozinho em Carrasco, eu era abordado constantemente pelos guardas de lá. Quando saia com o Poconé, que mora lá há 40 anos, isso já não acontecia pois todos o conheciam. Hoje Corumbá cresceu muito, mas continuo andando sem documentos, e às vezes vou até para Campo Grande sem eles. Força do hábito.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Dr Ubirajara

Tem certas passagens da minha vida que tenho que relatar aqui, pois envolvem pessoas que eu não quero esquecer jamais, mesmo que algumas histórias sejam bem tristes. Dr. Ubirajara Sebastião de Castro, Bira para poucos, e tive o prazer de ser um deles, foi o melhor advogado que conheci em minha vida. Além de conhecedor das leis e possuidor de um bom senso fora de série, tinha a maior das qualidades, estava sempre do lado certo. Não tinha perigo de ele fazer alguma coisa que não fosse do estrito interesse de seu cliente e dentro da lei. Todos o respeitavam, desde seus alunos da faculdade passando por seus clientes até juízes. Eu não fazia nada sem o seu aval. Qualquer coisa que fosse comprar, tinha que passar por seu crivo primeiro.
Logo que cheguei de Taubaté, tive um problema com um empregado que pediu as contas e depois entrou na junta dizendo que tinha sido demitido. Queria acordo. O Bira, sem me consultar, propôs um valor bem baixo e fez o acordo com o pilantra. Na hora não pude falar nada mas quando acabou a audiência eu disse a ele:
- Dr. Ubirajara, eu não faço acordos. Pago o que é justo. Se o senhor não estiver de acordo, me avise que vou procurar outro advogado.
Ele me olhou e falou que eu deveria ter falado isso antes pois ele estava seguindo as recomendações do Tio Patrão, mas que tinha sido o último acordo que ele propusera. Uma semana depois me presenteou com um manual resumido e esclarecido da CLT, feito por ele e falou:
- Se você não quer acordos siga esses procedimentos a risca, pois eu não quero perder questão.
Começou ali uma longa relação profissional e de amizade, onde a sinceridade sempre foi colocada em primeiro lugar. Questão trabalhista nós nunca perdemos. Com o passar dos tempos já nem havia mais empregados querendo ir para o pau. Sabiam que não havia chance de ganhar pois tudo era feito exatamente como mandava a lei e o Dr. Bira.
Ele era diabético e não dava a mínima atenção para isso. Começou a perder a visão e uma unha encravada levou a metade do seu pé. A situação de saúde dele era mais do que precária, mas não interferia em nada no seu trabalho. Fumava uns 4 maços de cigarro por dia. Entrava em minha sala e em 10 minutos parecia que estava em Londres e na época do fog. A visão já estava tão ruim que ele não acertava mais o cinzeiro. Mandei comprar um daqueles gigantes, devia ter uns 20 cm de diâmetro, era de vidro e encaixado em estojo de couro, um negocio muito chique, até o dia em que a secretaria resolveu limpar o cinzeiro com ele na sala. Quando voltou já tinha uns 5 cigarros apagados no estojo e este todo esburacado. Quando ele saía, a faxineira já sabia que tinha que entrar no banheiro e limpar tudo. Ele era super educado, levantava a tampa do vaso, ele não conseguia era acertar o mesmo. Vi que a coisa estava feia quando ele começou a urinar no bidê. Querendo ajudar acabei atrapalhando o meu amigo Bira e tenho mais esse remorso na minha vida.
Devia ser 2002, ele com uns 70 anos, fui acompanhá-lo até a porta do escritório, pois com o problema da vista mais o pé pela metade, ele cairia se não o colocassem dentro de seu carro. Quando perguntei como ele dirigia se não enxergava direito ele respondeu:
- Eu vou devagar e os outros que me vêem.
Dei risada achando que era brincadeira, e fiquei aguardando a sua saída. Tem um posto de gasolina em frente ao meu escritório, uns 50 metros para baixo. Pois bem, ele entrou no carro e saiu cruzando a frei Mariano como se não tivesse ninguém na rua. O primeiro carro acelerou e cortou a sua frente e o que vinha por trás, freou e passou lambendo a sua traseira, tudo isso sem que ele visse absolutamente nada, igual a esses desenhos animados. Liguei, na hora, pro meu irmão e contei o ocorrido. Tínhamos que dar um jeito de colocar um motorista para ele ou acabaria morrendo. Com o acordo do Zé, na primeira visita do Bira eu falei para ele:
- Bira, você é um cara inteligente e sabe que não pode mais dirigir. Ou vai morrer ou vai matar um.
- E você quer que eu saia andando com esse pé pela metade nesta merda de cidade sem calçada. Motorista, com o que meus clientes pagam, nem pensar (e falou isso olhando pra mim). Depois eu uso o carro só para vir aqui, ir a OAB, e tomar meu café da manhã no Ponto Certo.
- Então tá resolvido, Bira. Se você tem os horários certos, vou colocar o motorista da empresa para fazer esses serviços para você e o mais importante, não vai lhe custar absolutamente nada. Deixe seu carro na garagem só para emergências e fica com o telefone do motorista. Se precisar fora de hora toque pra ele. Se ele não puder te atender, ele me avisa e eu mando outro, ou vou pessoalmente. E assim ficamos combinados.
A coisa funcionou muito bem por uns 3 meses. O problema foi que o motorista não era dos mais inteligentes. Em um sábado como sempre ele foi pegar o Bira às 8:00 horas e ele não atendeu as buzinadas, nem a campainha. O idiota concluiu que alguém o levou para tomar seu café e não foi no barzinho verificar e não falou para ninguém. No domingo a cena se repete e o raciocínio do animal foi o mesmo. Na segunda feira, um advogado amigo dele, Dr Marcelo Dantas, me liga pedindo notícias dele. Pedi que aguardasse que ia ver com o motorista. Só nesse momento que a anta me falou que já tinha três dias que ele não ia tomar o café, pois a cena do sábado e do domingo havia se repetido na segunda. Com o Marcelo pedimos que os bombeiros estourassem a porta e entrassem na casa do meu amigo. Para azar nosso ele tinha tido um derrame no sábado e ficou três dias sem que ninguém o socorresse e acabou afogando em seu próprio vômito. Ainda estava vivo mas muito mal. Internamos ele na prontomed mas ele veio a falecer 15 dias depois. Perdi o advogado e um grande amigo.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Paulo Afonso IV

Estava em minha sala na Mecânica Pesada, quando fui chamado pelo meu gerente Choulian que estava em uma reunião de diretoria. Fiquei meio apreensivo pois não era uma coisa usual e quando cheguei o assunto eram as Pontes Rolantes de Paulo Affonso IV. Tínhamos que reduzir alguns custos, pois estávamos em segundo lugar. Como o primeiro não tinha preenchido todos os quesitos do edital, ia ser feito um confronto entre os dois primeiros, e a Chesf ia aceitar algumas diferenças na especificação. 
Com isso teríamos oportunidade de baixar os preços. Quando falei que, provavelmente ficaria mais caro se fizéssemos como eles, o diretor propôs cortarmos o que pagaríamos a França para eles mandarem alguém para acompanhar os cálculos e projetos mas para isso precisava da opinião da Engenharia. Ficamos naquela posição de concordar ou confessar nossa burrice. O Choulian falou para mim que "achava" que eu tinha capacidade de fazer sozinho mas que a última palavra seria minha. Como todo rapaz de 25 anos é louco, topei. Ia construir as maiores pontes do mundo e não teria assistência nenhuma do pessoal da matriz e eu me lembrava que eles estavam com medo da responsabilidade, apesar de toda experiência.
O cálculo foi feito da maneira mais detalhada possível. Não tinha um parafusos que não tivesse sido verificado. O cliente era a Chesf, Companhia Hidroelétrica do São Francisco, e o engenheiro responsável pela compra e verificação do equipamento chamava-se Fernando Samico. Acabamos por ficar muito amigos pois éramos da mesma idade e tínhamos esse equipamento como nosso grande desafio. Eu fazia e ele verificava todos os cálculos e projetos e era quem aprovava os mesmos antes do início da fabricação. Isso durou 6 meses quando, com o projeto aprovado, iniciamos a construção. As pontes ficaram prontas e era algo assustador. As vigas, que normalmente tinham 70 cm de altura, em Paulo Affonso tinham 2,80 m. Todos os equipamentos elétricos ficavam dentro delas. Tinha um sistema de pressurização que não deixava poeira entrar dentro e era um grande armário elétrico. Era a coisa mais linda. No dia do teste de carga, iam colocar 650 ton em teste dinâmico e 810 ton em teste estático. Não pude acompanhar, se bem que não fiz muita questão. Nunca tive coragem de entrar na sala de parto para ver meus filhos nascerem e também estava meio acovardado no dia do teste. Mas me lembro do telefonema do Fernando. Estava na minha sala quando a secretária falou:
- Dr. Fernando na linha. Vai atender?
Com o telefone em uma mão, o cú na outra e o coração na boca, falei:
- Passa.
Ele todo eufórico me falou:
- Cara, vivi a maior emoção da minha vida. O pessoal estava todo preocupado e para demonstrar confiança no equipamento eu fui junto com o operador. Estava preocupado com os comandos e quando perguntei pro operador se já tinham liberado os macacos hidráulicos para o carregamento estático, ele mandou eu olhar para baixo. Aí eu vi aquela carga de blocos de concreto de 810 toneladas balançando. Fiquei com os olhos marejados de lágrimas. O teste dinâmico foi um espetáculo também. Todo mundo batia palmas para o equipamento e nessa hora eu lembrei muito de você. Quando desliguei o telefone, senti aquela sensação de sucesso pela primeira vez na vida, além daquele alívio de quase surpresa do: "Não deu merda?".
Depois me acostumei e construímos os equipamentos das maiores hidroelétricas desse país, como Porto Primavera, Nova Avanhandava, Rosana, Taquarucu, São Simão e a maior delas, Itaipu. Foram comportas, pontes rolantes, pórticos em um sem número. Tínhamos uma equipe espetacular, acho que não existiu outra igual nunca mais. Participávamos de concorrências internacionais e ganhávamos até de nossa licenciadora. As pontes de Paulo Affonso VI serviram não só para adquirirmos auto confiança, mas confiança dos demais departamentos da empresa.
Juntos, cálculo e projeto mecânico, onde eu comandava e projeto elétrico onde o chefe era o Eng. William, tudo coordenado pelo nosso gerente, o Eng. Choulian, éramos imbatíveis. Bons tempos!

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Meu dedo

Até os filhos voltarem formados para Corumbá, dois em agronomia e um em veterinária, eu acompanhava todo o trabalho de gado de todas as fazendas, ou seja, não passava nenhuma cabeça no brete sem eu estar junto para anotar. Até aquele momento, nunca tinha tido nenhum acidente mais sério, nem comigo nem com qualquer peão que estava participando. Com a chegada do primeiro, Beto, as coisas foram sendo divididas, até que em 2005 já não entrei nas programações, mas quando chegou o dia de encerrar os trabalhos, o Daniel me convidou a acompanhar. Era em Santa Gertrudes e iam desternerar uma bezerrada que segundo ele era espetacular. Pegamos o avião bem cedinho e uma hora depois estávamos tomando café na fazenda, com o gado já no mangueiro nos esperando. Às 7:30 começamos o trabalho. Quem fez isso por muito tempo não consegue ficar só olhando e

resolvi ajudar.
Ficava no meio do corredor do brete e quando algum bezerro caía eu o ajudava a levantar. O brete, que é um corredor de madeira, tem umas travessas que travam uma parede na outra e são altas o suficiente para o boi passar por baixo. Quem trabalha fica fora desse corredor, lógico, e em cima de uma passarela que vai por toda extensão do corredor.
Lá pelas tantas, cai um bezerro bem na minha frente. Abaixei para levantá-lo pelo rabo e apoiei a mão nessa travessa. Nesse momento, uma novilha que estava por trás do caído resolve passar por cima do mesmo e pula sobre ele. Ia bater sua cabeça contra a minha que estava abaixado. Quando vi que a bicha veio, tive que levantar muito rápido e usei a trava para apoiar a mão. Consegui livrar o corpo mas o animal bateu com a cabeça nessa trava. Ela não machucou porque meu dedo amorteceu a porrada, senão teria quebrado a cabeça da coitadinha. A primeira impressão é que tinha colocado o dedo em uma tomada de 220v, pois senti um puta choque. Quando olhei para minha mão, aí foi como se tivesse colocado o saco em uma tomada de 440v. A ponta do dedo indicador tinha sido arrancado com osso e tudo. Não tinha caído no chão porque uma pelinha o segurava no resto do dedo. O osso tinha quebrado bem na última falange e estava a amostra. Por alguns segundos, nada além do choque físico e emocional. Quando consegui falar foi:
- Pessoal, perdi meu dedo.
Aí veio o sangue e a dor, muito sangue e muita dor. Daniel ficou branco e não sabia pra onde correr. Parecia aqueles filmes que as coisas passam em câmara lenta e os sons somem. Quem se mexeu primeiro foi o Everaldo, que os amigos chamam de Negão, e é o nosso eletricista. Tirou sua camisa, pegou o meu dedo pendurado, colocou no lugar como se fosse daquele dedais antigos de costura e enrolou a camisa nele. Alguém correu na frente e quando chegamos na sede, que fica a uns 100 m do mangueiro, o Zé Mauro já estava com o avião funcionando. Para estancar o sangramento, usei o relógio que tinha pulseira de couro para garrotear o pulso e com isso ia controlando o sangramento. Apertava muito a pulseira e quando a unha do dedão começava a roxear afrouxava a mesma. O intervalo era de uns 15 minutos. Assim que o celular deu sinal avisei Beá para preparar médico e hospital que estava chegando com um corte nas mãos. Tentaram costurar a ponta do dedo mas com dois dias a infecção tomou conta e fui para São Paulo. Fiquei uma semana no Einstein tomando antibiótico na veia para combater a infecção e definir qual parte do dedo seria amputada. Após esse prazo a ponta que tinha sido cortada mumificou, ficou pretinha, a coisa mais esquisita. Com isso o médico, Dr. Falopa, definiu que perderia a metade da primeira falange, mas teria que fazer um enxerto. Queria costurar meu dedo, ou na palma da minha mão ou na barriga. Não concordei com nenhuma das duas soluções e acabaram por retirar carne do cutelo da mesma mão e implantar no dedo. Em um espaço muito pequeno, tomei 80 pontos. Parecia o dedo do Frankstein, ou o que sobrou dele.
Mas como tudo na vida tem uma parte boa, tive a maior demonstração de amor da minha vida. O Rafael, meu neto, devia estar com uns 4 para 5 anos e Laura pediu que não deixasse ele ver meu dedo para não ficar impressionado. Estava dormindo no sofá e quando acordei vi que o curativo, que nada mais era que um dedo de luva para tampar o mesmo, tinha caído e o Rafael estava olhando todo assustado para ele. Quando o vi falei:
- Vovô machucou o dedo. Mas não tem problema. Vai nascer outro.
- Ta doendo? - ele perguntou.
Ele ficou olhando aquele dedo cotoco cheio de ponto com o enxerto meio de outra cor. Laura tinha razão, era mesmo horrível.
Foi quando percebi que a cara dele era de dó, não de medo ou de nojo. Como toda vez que ele dava uma batida e chorava de dor eu beijava onde tinha batido e falava que passava a dor com o beijo, falei para ver sua reação, estendendo o dedo em sua direção:
- Dá um beijo nele que passa.
Ele não vacilou nem um segundo e se não sou rápido ele tascava o beijo na minha ferida. Quis gozar com ele e acabei chorando de emoção e ele ficou sem entender, pois se eu estava chorando de dor porque não deixava ele dar o beijo para passar.
Fiquei bom, sem a ponta do dedo, e a única falta que ele me faz é para abotoar a camisa. No começo todos me gozavam com as piadinhas típicas, de que tinha perdido 10% do meu apetite sexual e outras besteiras mais. As melhores foram quando Beto perguntou a que horas íamos para a fazenda e quando apontei os dois dedos para falar duas horas o maledeto gritou:
- Não pode ser as duas, uma e meia é muito cedo.

No aeroporto de Paris, com Mena, Cauto e Beá, ninguém falando nada de francês, pedimos 4 cafés e indiquei o quatro com a mão escondendo o dedão. Quando vi que o garçom olhou para o dedo cotoco repeti:
- 3 longos e um curto.
Apesar de falar em português ele entendeu e saiu dando risadas. Os netos são os que mais se divertem. Tenho que mostrar a todos os amigos e o que mais gostam são das fotos que parecem montagem.

-Que vão os anéis desde que fiquem os dedos.
Quando dei a notícia a ele, brinquei que dessa vez eu salvei o anel, já o dedo... foi pro saco. Apesar da brincadeira ele chorou.
Coisas da Vida.