quinta-feira, 8 de julho de 2010

Os Diferentes Cincos

Já falei que papai era o melhor vendedor que já conheci. Na realidade era o melhor comerciante pois comprava bem também. Ele era bom nas duas pontas. Uma das frases dele que nunca esqueço é que o lucro da compra é certo, enquanto da venda, nem tanto e explicava:
- Se você paga 10 contos em uma coisa que todo mundo esta comprando por 12, já ganhaste 2. Resumindo, pechinche. Não tenha vergonha. Quem não briga na hora da compra não dá valor ao seu dinheiro e consequentemente, ao seu trabalho. Cresci ouvindo isso.
O Baiano, o mesmo do "Pacu duro de comer", presenciou uma cena de papai e vivia contando pra todo mundo, para tirar sarro do velho. Dizia que o Dr. Murtinho, seu oculista, fez uma compra na casa Marinho e quando perguntou o valor à pagar papai falou baixinho:
- Cinquinho.
No mesmo dia foi fazer uma consulta para trocar o óculos e na hora do pagamento quase matou a enfermeira que fez a cobrança. Ele perguntou:
- Quanto?
Ela respondeu:
- Cinco.
Quando ele retrucou em voz alta:
- CINCO MIL CRUZEIROS.
Dizia o Baiano que "se a enfermerinha tivesse bosta pronta tinha se cagado toda de susto". Papai, no começo, falava que era lenda. O Dr. Murtinho confirmava ser verdade, mas como este falava que já tinha jogado bolinhas de gude com o João na Polônia, quando ele ainda era Karol, não dava para levá-lo muito a sério. Completava até dizendo que ele, Murtinho, já sabia que o Karol ia ser papa, pois era de uma bondade incrível. Quando perguntavam como se manifestava essa bondade ele dizia:
- Ele era um incrível jogador de bolitas. A mais de 5 metros e de 100 bicava 99. Acabava o jogo quando ele ganhava as bolitas de todo mundo e ficava com aquele saco cheio. Aí pegava e devolvia todas para os seus antigos donos. Era um santo. Falava isso sem esboçar o mais leve sorriso. Então não dava para levar ele muito a sério pois era por demais brincalhão. E depois nunca fiquei sabendo que ele tinha enfermeira também.
Agora, a bem da verdade, papai já bem velhinho, já contava a história como verdade. Nesse caso, talvez a lenda tenha virado realidade.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

A Urquite

Devia ter onze anos completados recentemente. Estava fazendo uma prova no colégio dos padres quando comecei a sentir alguma coisa estranha nas minhas bolinhas. Sai da prova e fui para casa. No caminho comecei a sentir muita dor e quando levei a mão "lá" quase morri de susto. Uma das bolitas tinha virado uma bola de boliche. Não conseguia mais andar. Tive que rasgar o bolso, era a do lado esquerdo, e com a mão por dentro do bolso fui segurando as pelotas. Cheguei em casa urrando de dor e Mamãe chamou papai que já chegou com o Dr. Lecio. Na hora que ele viu meu saco já diagnosticou:
- Urquite.
- Que diabo é isso? quis saber.
- Cachumba. Você não cuida e a coisa desce.
- E agora? Vou ficar com o saco desse tamanho?
Me tranqüilizaram, tomei injeção pra dar com o pau, quase literalmente, e fiquei bom. Assim pensava. Passados 8 anos, vou com meu irmão ao urologista. Ele ia casar e estava fazendo os exames pré nupciais. Antigamente era assim. Você ia
com certificado de garantia. O espermograma dele deu baixo e o acompanhei ao médico, meio preocupado, mas tentando brincar com ele, dizendo que ia levar pau no exame do dito. Mal sabia o que me esperava. O médico para acalmá-lo falou:
- Fique tranqüilo. Isso deve ser alguma infecçãozinha besta. Você nunca teve urquite, não é, porque aí sim a coisa é seria.
Quase cai duro. Eu tinha tido urquite. O quanto sério seria? Tentei filar a consulta e falei ao médico:
- Eu já tive urquite.
Ninguém falou nada, quando insisti:
- Ei, doutor Zuppo, eu já tive urquite. Sujou pro meu lado?
Ele pegou seu bloco de receitas e já pediu um espermograma para mim também. Na hora eu pensei que era o castigo por gozar, termo impróprio esse, com o Tontonio. Agora eu estava na linha de fogo e o Zuppo já tinha adiantado que com urquite a coisa era séria. Não deu outra. Saiu o resultado: infértil pelos padrões de não sei quem.
Fiquei doido. Tinha namorada. Meu filho já tinha até nome e de repente não vou ter mais filho. Aconteceu o primeiro fato do além. Mamãe, sem que ninguém contasse qualquer coisa para ela, me liga em São Paulo querendo saber com o que eu estava preocupado. Eu, sem entender o porque da pergunta, questionei a mesma, quando ela me respondeu que tinha sonhado comigo e me via preocupado e chorando, quando Jesus apareceu a ela e disse que eu estava chorando à toa, pois achava que não teria filhos e estava enganado, pois teria e vários. Queria bater no Tontonio que me jurava que não tinha dito nada a ela.
Amadureci com a dúvida se teria filhos. Ainda não sabia desse acordo que ela tem com o homem lá em cima, que se manifestou várias vezes ao longo de nossas vidas. Fiz tratamento de tudo quanto é tipo. Com 18 anos tomava doses cavalares de testosterona, hormônio que serve para melhorar desempenho sexual de velho de 70 anos e eu tomando aquilo com 18. Não era mole, nem ficava.
Depois mudei de médico e procurei um especialista na área. Dr Lineo Cordeiro, indicado por um primo e muito amigo que é médico, o Arnaldo. Com as respostas ao tratamento ele me tranqüilizou e falou:
-Tadeu, pode ficar tranqüilo que você respondeu bem a um tratamento. Quando você quiser engravidar alguém é só me procurar e fazemos esse protocolo. Você tem sorte porque sua mulher nem vai precisar tomar anticoncepcional.
Casei com outra, mudei o nome do primeiro filho sem ter certeza se o Dr. Lineo ia dar conta de colocar a bala na minha arma. Fomos para a lua de mel. Quando falei a Beá que não precisava tomar pílulas anticoncepcionais, ela não deu muita bola e tomou assim mesmo. Como a cartela ia acabar numa hora ruim, Dr. João Novis, tio dela, mandou ela emendar galopeira. Continua tomando que a menstruação não vem. Mas veio. Aí paramos tudo, mas tudo mesmo. As pílulas e .... também.
Quando voltou o céu de brigadeiro, no primeiro vôo, ela engravidou. Na lua de mel. Sem protocolo de Dr. Lineo. Mamãe não é fácil.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Daniel, o bebinho

Daniel estava em Viçosa e resolvemos ir visitá-lo. Iríamos eu, Beá, Laura e Guilherme, só que não contamos a ele que os dois estavam indo. Seria surpresa. Chegando lá, ficamos esperando ele sair da faculdade. Os dois ficaram abaixados no carro e eu e Beá que descemos para abraçá-lo. Estava aquela alegria quando chegaram a Laura com o Guilherme. Quando ele viu seu irmão gêmeo, não estavam acostumados a ficarem apartados tanto tempo, ficou numa alegria emocionante. Não parava de abraçá-lo, tanto que a Laura que estava esperando para cumprimentá-lo também começou a ficar incomodada e falava:
- Olha Dani eu aqui. Eu vim também.
Ela já falava de brincadeira pois ele não via mais ninguém. Não eram só gêmeos de corpo, de alma também. Saímos, os dois no carro de Daniel e Laura conosco. Enquanto fomos para o hotel, ele resolveu levar o irmão para ver a namorada, uma mineirinha bonitinha que, além de falar uai, não acreditava que ele tinha um irmão gêmeo.
Ele convenceu Guilherme de entrar na casa da namorada e se fazer passar por ele. Podia abraçar, apertar, não tinha problemas. Queria só ver a cara da namorada quando ele chegasse. O Guilherme, a contra gosto, concordou em participar da brincadeira. Chegou lá, apertou a campainha e a sogra que atendeu. Mandou entrar e sentar que ia chamar a guria. Ela chegou, sentou em seu colo e ele foi ficando incomodado com aquela situação e nada do Daniel entrar. Ela começou a falar um monte de coisa e como ele não entendia nada ficou quieto. Quando ele achou que ela estava ficando desconfiada que não era o Daniel, ela disse:
- Daniel, que foi coce menino? Já ta bebinho?
Nessa hora entra o Daniel e foi aquela farra.
Passamos dois dias com ele e pode-se dizer que fomos até lá exclusivamente para levar o Guilherme. Toda vez que o Daniel, para matar as saudades, abraçava o Guilherme, este muito gozador dizia:
- Para meu, quem não me conhece vai achar que sou bicha.
Era muito legal ver os dois juntos. Todas as meninas de Viçosa queriam ser fotografadas no meio dos dois, e brincavam dizendo:
- Se um Daniel já é bom, imaginem dois.
Foram dias inesquecíveis.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

O dia em que o mundo pegou fogo

Nas casas antigas, o flexível que ligava o ponto de água na torneira do lavatório era de chumbo. Não enferrujavam, eram flexíveis e depois de instalado, se você não mexesse com ele, era eterno. Mas em casa com duas crianças e que a menor era um capeta que vivia subindo na pia, acabavam por trincar.

Isso que aconteceu no banheiro verde lá de casa. Os banheiros eram denominados por cor, pois naquele tempo as casas não tinham suítes. Tinha o cor de rosa, que era de papai e mamãe e o verde que era o nosso. Devia ser por volta de 1957, eu com sete anos e meu irmão Tontônio com 10. Papai chamou o encanador para consertar o vazamento.
O conserto era feito com um recipiente de ferro fundido, onde você colocava álcool e tocava fogo e se chamava espiriteira. Aí aquecia uma peça de aço e passava no chumbo do cano. Derretia o chumbo e fechava o buraco. Tinham umas varetas de chumbo que quando o buraco era grande eram usada para fechar o mesmo. Estava o encanador fazendo esse serviço quando o fogo apagou porque tinha acabado o álcool. Nós estávamos acompanhando de perto o serviço apesar de papai sempre nos falar: "Fique perto de quem come e longe de quem trabalha", mas nesse dia não estávamos cumprindo o provérbio. O encanador pediu a papai, que tinha acabado de chegar, que colocasse álcool na espiriteira e ele não sabia que aquele troço estava quente. Quando o álcool chegou à espiriteira, o fogo subiu pelo jato do álcool e incendiou a garrafa e papai, no susto, jogou-a. Enquanto a garrafa voava foi saindo aquele álcool com o fogo junto e veio na minha perna e no corpo do Tontônio. Me lembro bem de papai correndo atrás dele com um roupão de banho para abafar o fogo, mas ele assustado corria mais duro e o fogo foi se espalhando. Em mim foi só na perna e lembro de ter ficado olhando meio abestalhado ele ir descendo pela minha coxa para a perna. Quando começou arder, levou alguns segundos, ele já estava chegando no joelho e com a mão eu o apaguei. Queimei só a coxa, mas o Tontônio queimou quase 80 % do corpo.

Começou um verdadeiro calvário para ele e um pouco, muito menos, para mim. Após vários dias tomando penicilina e mesmo assim infeccionando tudo, descobriram que a mesma estava vencida. Não tinha outro jeito. Tinha que ser removida toda pele queimada para poder retirar a infecção, pois não tinha como fazer a mesma regredir. Falavam até em risco de morte para o Zé e eu perder a perna. Aí entrou em cena o Dr. Romeu "carrasco" Albaneze. Me colocou em uma mesa, pediu que dois enfermeiros me imobilizassem e com uma gaze fez uma raspagem em minha perna. Contam que ele passava a gaze em minha coxa como se estivesse engraxando sapato e enquanto não saiu todo o pus e ficou em carne viva ele não parou. Aí passou uma pomada amarela e enrolou gaze em tudo e todos os dias tinha que trocar o curativo.
Lembro de falarem que tinha que cicatrizar de dentro para fora senão voltava a infecção. Ia desenrolando aquela gaze e quando chegava na parte que estava colada na pele vinha a dor horrível. Quando queria chorar, lembrava de meu irmão que estava com o corpo quase inteiro daquele jeito e segurava o máximo. No fim não dava conta e abria o berreiro, mas todas às vezes eu ia com o firme propósito de não chorar.

Já o Tontônio ficou todo enfaixado. Parecia uma múmia, inclusive o rosto. O curativo dele demorava horas e era uma coisa que só tia Rosita, casada com tio Alcides, conseguia acompanhar. Era um sofrimento violento. Quando chegava a hora de ir para o hospital, ficávamos em casa para diminuir o risco de pegar infecção, já começávamos a antecipar o que íamos passar e ficávamos apavorados.

Foram dias inesquecíveis. Mas tudo passa. Minha perna e as feridas dele foram cicatrizando, mas ele teve que ir a São Paulo fazer plástica em todo corpo para tirar os quelóides e tentar recuperar a orelha que ficou muito queimada. Mas ficamos bons. Eu, sem nenhuma seqüela, e ele com uma pequena deformação na orelha mas que não trouxe nenhum trauma. Quando solteiro era muito mulherengo, catava todas e se eu descuidasse, até as minhas. Como dizia aquele amigo, "Não era fácil".

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Atira no peão

Estava em uma das nossas caçadas ao porco do mato, por volta de 1980. Estava Cauto no volante, Maria Lúcia (minha irmã), Beá, Mena (minha cunhada) e mais um lote de gente na cabine da Toyota cabine dupla, e na caçamba, os atiradores: Pedro (meu cunhado) e eu, mais um peão de perna curta, não lembro mais o nome dele, que foi para abrir porteiras.

A caçada eu já falei como era, só capado, que eram os porquinhos que os peões pegavam e castravam. Estávamos saindo de uma mata e entrando em um largo quando vimos o lote. Era um capadão com uma porca e vários leitõezinhos. Como estávamos entre o lote e a mata eles correram pro largo, todo o lote. Nunca erramos tanto tiro juntos. Com medo de acertar a porca e os leitõezinhos, carregamos as armas umas três vezes, mas era o dia do capado. Num largão daqueles e não tinha jeito. Até que lá pelas tantas, o Cauto já tinha botado a porcada na roda não deixando eles irem para o mato e já não tínhamos mais balas, e o peão resolveu ajudar e me pula da caçamba e começa a correr atrás dos porquinhos. Aí, além da porca e dos porquinhos, tinha a porra do peão na linha de tiro. O Pedro vira pra mim e fala:
- Cuidado, vai acertar o peão!
Ao que respondi:
- Mas no que você pensa que estou mirando? Acerta esse porra que vamos pagar O mico se ele pegar o capado com as mãos!!

Suspendemos o fogo e ficamos olhando o pernas curtas. Como corria. Pulou sobre um leitãozinho, pegou o bicho, levantou e com ele embaixo do braço foi atrás do outro. Quando estava perto, boleou um e passou uma rasteira no outro, e voltou para a Toyota com os dois leitões em baixo dos braços. Todo mundo aplaudindo e nós com cara de bunda. Dos leitões um era fêmea e soltamos. O machinho, castramos, assinalamos e soltamos também. O capado deve estar vivo até hoje. Bons de tiros como éramos, o bicho deve ter o corpo fechado.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O preço de uma carteira

Esta história será revista por mim antes de sua publicação. Como envolve atos não muito lícitos de minha editora, terei que verificar se a verdade não foi alterada. Estávamos em fevereiro 1992 e minha filha tinha acabado de completar
18 anos. Tinha entrado na faculdade em São Paulo e queria levar seu carro para lá. Já dirigia sozinha desde os 12, 13 anos e agora iria tirar carteira. Já tinha passado na parte teórica e estava tranqüila no exame prático, pois dirigia bem, assim ela achava. Não contava com, segundo ela, aquele examinador.
Na hora de estacionar, ele deixou ela nervosa e derrubou a baliza, 1 ponto negativo. Saiu sem dar sinal, outro ponto. Passou no sinal amarelo, mas não passou na prova. Chegou em casa aos prantos. Não tinha como esperar o outro exame, que seria só dentro de um mês. Quando eu falei que o máximo que eu podia fazer era chorar junto, ela teve a idéia. Tinha um exame em Campo Grande e lá ela passava, pois o problema tinha sido o examinador que tirou ela do sério. Me convenceu de levá-la a Campo Grande. Tinha que ser no dia seguinte pois o exame era no outro. Eu, cheio de coisas para fazer, tive que largar tudo e saímos as 5 da tarde. Foi a primeira besteira. Eram quase 5 horas de viagem. Chegamos e fomos para o Hotel. Aí fiz a segunda besteira e peguei um quarto com duas camas e ficamos juntos. Jantamos e fomos dormir. Eu morto de cansado e ela super ansiosa. Quando por volta da meia noite, eu que estava dormindo profundamente, sou acordado com ela me sacolejando e dizendo que não conseguia dormir pois eu roncava muito alto. Fiquei muito puto nas calças. Que falta de consideração comigo naquela situação. Como era muito tarde, não falei nada, mas demorei para dormir. Cada vez que pensava no que estava fazendo por ela e no que ela tinha feito comigo, perdia mais o sono e quando quis brigar para passar a raiva e acendi a luz, vi que ela dormia profundamente. Deixei para o dia seguinte. A prova era às dez. Ela me acordou às oito. Antes do bom dia já falei:
- Porra meu, que sacanagem você fez com seu pai, que largou tudo e veio te trazer para essa merda de exame!
Ela fez a maior cara de assustada e disse:
- Você realmente estava cansado e não viu a missa metade. Você ronca muito alto. No começo pensei que não podia ser direto, senão Mamãe já tinha te largado. Como não passava, liguei para ela e fiz tudo que ela mandou. Meche no braço, faz ele virar de lado e foi de tentativa em tentativa e nada. Coloquei a cabeça sob o travesseiro, tentei até pegar outro quarto, quando não teve jeito e te acordei.
- Mas não podia ser de outro jeito? Tinha que me sacolejar como se o prédio estivesse em chamas?
- E não tentei? Comecei com paizinho, e a coisa foi aumentando. Não foi de repente assim não.
Com essas explicações eu me acalmei. Tomamos o café da manhã e fomos para o DETRAN. Quando chegamos lá e entregamos todos os documentos no guichê, mandaram a gente aguardar pelo examinador. Quando apareceu o artista ela branqueou:
- Arg! Não acredito. É o mesmo FdaP. Pede para trocarem.
Falou isso com o cara já respondendo:
- Você de novo!! Tinha que esperar os 30 dias para o novo exame.
Aí eu interferi e expliquei a situação, que ela já dirigia há muito tempo, que era boa de volante, tinha entrado na faculdade e que ele fizesse o favor de fazer o exame novamente. Ele concordou, ela assumiu o volante, eu no banco de trás e o examinador ao lado.
Eu não acreditava no que estava acontecendo. Ela fez tudo errado de novo. O carinha só ia marcando. Virava a esquerda numa rua de mão dupla e fazia aquelas curvas de raio grande entrando na contra mão. Vi que não ia ter jeito e íamos perder a viagem toda e não só uma noite de sono. No final da prova o examinador virou pra mim e disse:
- Como o senhor quer que eu aprove uma motorista como essa?
Olhei pra ele e disse:
- Duzentinhos?
Ele respondeu que eu era irresponsável. Argumentei que ela estava nervosa mas que confiava nela plenamente, que ele podia ficar tranqüilo que não estava aprovando alguém que não sabia dirigir e sim não sabia fazer provas. Ele pareceu não se convencer e contra argumentou:
- Trezentos?
- Fechado.
Depois de tanta barbeiragem estava barato, eu estava disposto a ir até quinhentos!

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Gui Arnould

Quando começamos a fazer o orçamento das pontes de Paulo Affonso IV, o Choulian, como Gerente de Engenharia resolveu pedir apoio a Delatre Levivier, uma empresa francesa do mesmo grupo da Mecânica Pesada. Ela enviou um francês ao Brasil para nos ajudar na execução do orçamento das pontes, o Sr. Guy Arnould, projetista de uns 50 anos e muito prático nesses equipamentos, mas que também nunca tinha feito nada desse tamanho, já que essas pontes seriam as maiores do mundo. Iríamos trabalhar juntos por aproximadamente um mês, que era o prazo para apresentação da proposta. Ele não falava uma palavra de português, e eu não falava nem uma em francês. Fizemos o ante projeto e no final do mesmo estávamos nos entendendo, mas houve um lance muito engraçado. Não sei como mas discutíamos muito. Certa vez, não chegando a um acordo, ele me disse:
- “Fait comme vous voulez”.
Não falo francês até hoje mas significava algo como "faça como você quiser e não me encha o saco". Pelo tom de voz dava para ver que era algo meio grosseiro. Como não sabia mandar tomar no rabo em francês, eu fiz do jeito que achava certo. Quando terminei a minha parte, tínhamos dividido os serviços, ele veio, meio brabo, querendo saber porque eu tinha feito daquele jeito. Mandei no meu francês:
- “Vous dit, fait comme vous voulez, je fait comme vous vouli”.
Achei que estava falando, “já que você me falou faça como quiser eu fiz como eu quis”, mas estava totalmente errado e quando olhei, todos que sabiam falar francês estavam morrendo de rir e o Guy me olhando querendo entender em qual língua eu estava falando, uma vez que misturávamos inglês com espanhol, mas nunca francês ou português.
Mas chegamos no fim dentro do prazo e fomos a Salvador apresentar a proposta. Os orçamentos de todos os fabricantes eram dividos em duas partes totalmente separadas. Uma técnica com a descrição do equipamento, sua performance, os desenhos de conjunto e todas as questões levantadas no edital de concorrência. Nessa parte não poderia conter nada de preço. E outra, só de preços, que era aberta depois que todos vissem a parte técnica uns dos outros. Eu estava tão por dentro de cada detalhe que só de assinar todas as páginas das parte técnica dos concorrentes, chegava no fim com uma boa idéia do que cada um tinha proposto e como tinham resolvido os problemas que tínhamos encontrado no decorrer do orçamento.
Quando abrimos os preços, tínhamos ficado em segundo lugar e perdido para uma empresa alemã. Mas eu me lembrava da proposta técnica deles. Fiz um relatório para a diretoria explicando que nossa ponte era mais cara mas necessitava de menos investimentos na parte civil pois a carga era melhor distribuída e outros argumentos mais. No fim o primeiro lugar foi desclassificado e ganhamos a concorrência.
Ia fazer a maior ponte rolante do mundo e fiz um grande amigo na França.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Meu primeiro cálculo

Quando entrei na Mecânica Pesada, em 1974, toda minha experiência como engenheiro, era na área de orçamentos da Bardella, onde trabalhei por um ano. Na Mecânica fui para a área de cálculos, que era o coração e início de todos os projetos. Era meu sonho. O primeiro equipamento que calculei foi um semi-pórtico de 10 toneladas para a própria Mecânica. Estava super ansioso no dia do teste de carga e com medo. Tinha pesadelos sonhando que ia tudo pro chão. Para completar, fizeram o teste sem a presença de ninguém da engenharia e vieram com a noticia que ia cair mesmo. Na hora, quase me caguei todo, mas o Choulian, macaco velho e conhecendo o portador da notícia, respondeu na hora que era alguma burrice que eles estavam fazendo e que ele já estava descendo. Me tranqüilizou e descemos para ver o que estava acontecendo.
O equipamento era para o departamento de manutenção da Mecânica e seu chefe era um japonês fora da curva, só que pra baixo, "burro" era elogio para ele. O semi pórtico é uma mistura de pórtico com ponte, ou seja, de um lado ele tem pernas e o trilho fica no chão e de outro o trilho é elevado e fica apoiado em uma viga de concreto quase no teto do prédio. Ele tem dois conjuntos de acionamento, motores e freios, um para as rodas de cima e outro para as debaixo. Na parada os freio de baixo, por problemas de montagem, não acionavam, só os de cima e o equipamento se torcia e balançava todo o prédio. O Choulian, na primeira freada do equipamento já viu o problema.
Chamou o japonês e disse:
- Quero saber em que você vai fazer manutenção, se o que é seu esta desse jeito. Você é muito ruim. Você só não derrubou tudo porque está muito bem projetado.
Quase dei um beijo nele, pois já estava pensando em mudar de ramo e ir vender bananas na feira. No dia seguinte, sanado o problema do japonês ruim, passei umas duas horas vendo o bichão operando e fiquei muito orgulhoso.
Estava me sentindo o máximo quando chegou o edital de concorrência para fabricar as pontes rolantes da casa de máquina de Paulo Affonso IV, da CHESF. Teriam capacidade de 450 toneladas e seriam as maiores do mundo. Iríamos participar da concorrência e, ganhando, eu, com minha vasta experiência nos cálculos de um pórtico de 10 toneladas, seria o calculista. Estava super ansioso para ganhar. Já tinha esquecido o susto do japa burro.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Só ela

Maria Lucia é a minha irmã caçula, temporona, veio 10 anos depois de mim. Raspa de tacho, como falamos aqui. Perdi o lugar de caçulinha e ainda por cima para uma menina. Não tinha como competir. Quando Mamãe engravidou fez promessa pra tudo quanto é santo para vir uma menina. Fechou a promessa com os caras lá de cima com o nome: Maria, da virgem, e Lucia da aparição em Fátima. Tinha tanta fé que já mandou bordar o ML em todo enxoval, que era todo rosa. Era época de eleição e o Marechal Loti disputava a presidência com o Janio Quadros. Lembro de papai falando:
-O ML agente resolve chamando o menino de Marechal Loti, agora já o cor de rosa....
Mas não deu erro. Dia 22 de maio de 1960 chegou a Maria Lucia. Fomos criados apartados, pois fui para São Paulo quando ela tinha 4 anos. Passávamos as férias juntos. Quando ela tinha 10 anos, ensinei-a a dirigir. É boa de volante, apesar de mulher, devido a isso. Quando começou a ficar mocinha, era muito bonita, começaram aparecer os urubus. Eu era o gavião. Botei muito nego para correr. Certa vez cheguei no clube e dei com o pseudo namoradinho sentado ao lado dela e com a mão no seu ombro. Quando me viu o bicho deu aquela branqueada e colocou a mão no espaldar da cadeira, para disfarçar. Sentei do lado e fiquei olhando esperando pra ver se tinha coragem de voltar a pegar no ombro dela. Não teve, ficou congelado e em estado de choque. Nem respirava. Sabia que eu era brabo, não deixava ela namorar, também tinha 12 anos, e era bom de porrada.
Mas ela era obediente e mamãe não dava mole também. Acompanhava em todos os bailes e quando via qualquer coisa esquisita, ficada de pé para poder ver melhor. Dançar apertado, nem pensar.
Apesar de linda e inteligente, é desligada ao extremo. Na época da Mania, todos casados, ela devia ter uns 30 anos, chega em casa falando de uma cena "ridícula" que aconteceu com ela. Foi visitada por uma mulher que vendia lingerie e que pesava uns 100 kg. A vendedora gordona pegava as peças do mostruário, umas calcinhas de renda, encostava no corpo e se exibia para ela. Com os sultiens a mesma coisa. Cada vez que ela olhava para a mulher, ficava roxa querendo dar risada e reforçava:
- Ela era muito gorda.
Depois de contar essa história para todo mundo no sábado, no domingo fomos almoçar, como sempre, na casa da minha sogra que era a presidente da APAE de Corumbá e nesse dia tinha como convidada a presidente da mesma entidade de uma cidade do interior de São Paulo. A mulher muito simpática tinha uma particularidade: pesava uns 150 kg. Era muiiiito gorda. Sentamos a mesa e Maria Lucia ficou na minha frente e ao lado da gorducha. Papo vai, papo vem, eu escuto ela virar para a mulher, pegar em seu braço e dizer:
-A senhora não imagina o que me aconteceu ontem!
Quando ela falou isso eu gelei. Não é possível que a Lucia vai contar a história da gordinha para a gordona. Pois contou. Com todos os detalhes.
Chutar por baixo não dava porque a mesa tinha aquela travas no meio. Virava o olho, inflávamos as bochechas e ela não percebia e continuava e acrescentando detalhes que tinha passado despercebido nas contadas anteriores e reforçava:
- Mas não pense não que era lingerie de gorda não. Era aquelas para Monique Evans, de regime. E eu vendo aquela balofa encostar aquelas calcinhas micro nela. Já estava vendo a hora que ela ia se oferecer para experimentar para mim.
O silencio na mesa era mortal. Tinha gente que já estava embaixo da mesa. Ninguém conseguia fazer ela perceber, até que ela se levantou para se servir de algo que estava longe. Nesse momento, peguei meu prato encostei nela e disse:
-Você viu o tamanho da mulher que esta escutando a sua história? A protagonista era mais gorda?
Ela olhou pra mulher, virou pra mim, branquinha, fez que não com a cabeça e falou:
- Putz, e agora?
- Acho que foi essa a frase que o piloto do Enola Gay falou quando puxou a alavanca sobre Hiroshima. Agora, minha irmã, fudeu!
E fomos terminar o almoço, Maria Lucia ao lado da gorda, quieta, pálida e sem fome. As duas.
Mas não foi a única dela. Tem outras.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Latinha para Tio Vicente

Eu devia ter uns 14 e Dirceu, meu primo, uns 15 anos. Era aquela idade que os rapazes tem um único pensamento: mulher. Minha namoradinha se chamava Jussara e a dele Lucy. Apesar de sermos apaixonados, elas eram muito bonitinhas, vivíamos galinhando. Chegaram em Corumbá duas irmãs campo-grandenses, Andrea e Rose. Começamos a dar em cima nos intervalos do namoro principal. Deixávamos as namoradas em casa e saíamos atrás das campo-grandenses.
Era complicado pois a cidade era muito pequena e não podíamos dar mole ou ficavam sabendo. Como a coisa estava fácil, marcamos de ir a Campo Grande para vê-las. Tínhamos que ter uma história para as namoradas. Iríamos comprar um caminhão para a empresa. Não teriam argumentos para nos impedir, além do que nos dava um ar de importância. Tão novos e já trabalhando e com tanta responsabilidade. Tudo acertado, iríamos embarcar no trem noturno que saía as 20:00 de Corumbá, passaríamos dois dias em Campo Grande, achávamos que era o tempo necessário para faturar as duas, e voltaríamos. Despedimos das namoradas e até rolou umas lágrimas, mas rebatemos que dois dias passavam muito rápido. Não imaginávamos que seriam os dois dias mais longos de nossas vidas. Jantei e fui pegar o Dirceu, e chegando lá veio a surpresa. A porra do Dirceu, na hora de pegar o dinheiro para a viagem fez uma mal criação para o tio Vicente e ele cancelou a viagem.
E agora meu? Todas as mentiras de comprar caminhão, de sermos adultos resolvermos negócios importantes, e agora titio não deixando o Dirceu ir nos reduziu a dois moleques. Resolvemos nos internar em casa por dois dias e iríamos, para elas, para Campo Grande. Ficamos no quintal de tia Dirce furando lata para tio Vicente plantar ata. Pegávamos a latinha e fazíamos um monte de furinhos no fundo com prego e martelo. A noite do primeiro dia, lembramos que ficamos de ligar para elas de Campo Grande. O interurbano era feito através de telefonista, então pegamos a Emilinha, irmã de Dirceu , para fazer ligação. As duas estariam na casa da Lucy. A Emilinha chamou e falou:
- Alô, interurbano para a senhora Lucy do senhor Dirceu. Posso completar?
Isso com lenço sobre o bocal para não reconhecerem a voz. Com a confirmação, o Dirceu começa com o papo de estar com saudades, mas que amanhã estava voltando, e eu falando para ele dizer que já estávamos embarcando. Porque prolongar mais um dia a agonia. Ele tampando o bocal com a mão me fala:
-Não terminamos de furar as latas.
Quase bati nele.
Quando ele passou o telefone pra eu falar com a Jussara eu dei o segundo fora e perguntei como estava o tempo. Ela respondeu que estava ótimo e queria saber como estava em Campo Grande. Respondi sem pensar:
- Nem imagino.
Branqueei na hora e falei que passamos o dia todo trancado em um escritório e nem saí para ver o tempo, isso gaguejando mais do que qualquer gaguinho de nascença e com o besta do Dirceu me chamando de burro. Saída pela tangente.
No segundo dia de clausura, as meninas passaram em frente da casa de tia Dirce e nós trepados no muro só olhando escondidos para elas, e o Dirceu conclui:
- Isso é pra gente aprender que é melhor um pássaro na mão do que dois voando.
Respondi:
- Podia ter os dois pássaros na mão se seu pai não fosse viado.
No que ele concordou plenamente.
No fim nunca mais vimos a Rose nem a Andrea, e a Jussara e a Luci nunca ficaram sabendo que não fomos a Campo Grande.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Tontônio

Tontônio, meu irmão, é um cara engraçado mesmo quando não esta fazendo graça. Tem umas manias e variam com a época. Teve aquela de "voar é pra passarinho" que nos proporcionou lances engraçadíssimos. Quando não tinha jeito ele embarcava. Levava sempre um vidrinho de plástico com água benta. Entrava no avião e até chegar ao seu lugar ia aspergindo aquela água por todos. O pessoal achava até meio simpático, uns pensando que se tratava de um sacerdote. Já tinha acontecido de eu estar por trás e ver pessoas que sentindo a água e vendo de onde vinha, tocá-la e fazer o sinal da cruz. Numa dessas viagens, o bicho estava com um baita resfriado e entrou, como sempre, fazendo sua benção. Quando chegou em seu lugar que percebeu que tinha jogado sorine no povo. Em vez de disfarçar, meteu-o no nariz entupido e deu duas borrifadas, e quando olhou para trás que percebeu a merda. Só deu tempo de passar um pouco de sorine na mão e se benzer também, deixando todo mundo sem entender que porra tinha sido aquilo.
Um outro lance digno de nota foi quando ele recebeu uma foto da Luiza Brunet. Escala 1:1, de costas, completamente sem roupa, de pé sobre um salto alto e com o rosto virado olhando para trás. Era uma foto por demais sensual. Se ela é boa ainda hoje, imaginem a 25 anos atrás. Ele e papai tinham um escritório só, de uns 4x4 onde tinha uma geladeira e na sua lateral pregaram a foto da Luiza. Não tinha quem não entrasse na sala e não observasse aquele monumento de mulher. Certo dia, com a sala cheia de vendedores, mais papai e eu, ele resolveu fazer graça e abraçou a Luiza Brunet. Neste exato momento entra minha cunhada, a Lenir, e o flagra encoxando a geladeira. Quando ela entrou foi um silêncio geral, quando ele, ainda abraçado a geladeira, falou:
- Ô meu, ninguém vai me ajudar a carregar essa porra.
Na mesma hora todos se levantaram e mudaram a geladeira de posição. Nunca vi presença de espírito igual.
E as palavras que ele inventa e fala com a maior naturalidade. Estávamos viajando com nosso Baron, de Corumbá para o Rio. Lá pelas tantas, ofereci uma bolachinha de água e sal para ele que me olhou fazendo uma cara como se estivesse lhe oferecendo merda pura. Quando perguntei o porque da reação ele respondeu que "aquilo" era muito ENTALANTE.
Igual a essas eu perdi as contas.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Dr Alcides

Dr. Alcides era o presidente de uma grande empresa que nós representávamos. Ele precisava fazer um lobby com dois colegas que queriam conhecer o pantanal e nos pediu que organizássemos um passeio para três casais, pois todos iriam com suas esposas. Além deles, tinha ainda o Zé com Lenir e eu com Beá. Era fevereiro, estava um calor de matar além de estar tudo cheio. Os programas ficaram limitados a andar a cavalo e pescar de barco na vazante da Formosa, onde nunca vi um peixe maior que 2 cm.
No dia do cavalo, a grande preocupação era colocar o Zé em cima do bicho. Arrumamos um toquinho para ele subir e saímos. Os dois outros casais eram, um de holandeses, assumidamente urbano, e o outro, o marido francês tinha uma mulher brasileira metida a amazonas. Quando fomos escolher os cavalos ela disse que queria um bom pois praticava hipismo e estava acostumada. Veio toda vestida a caráter, bota de montaria, aqueles chicotinhos duros, uma blusa soltinha, de seda, mas acho que própria de montar, chapéu com peninha, daqueles tipo boné mas duro, igual ao de jóquei, e por incrível que pareça com barbela. Na hora de subir no cavalo teve que usar o toquinho do Zé. O holandês me pediu que desse um duplo nele, pois nunca tinha montado. Quando expliquei que afrouxando as rédeas e tocando o calcanhar na barriga o cavalo andava ele já executou as ordens e o animal saiu andando devagarzinho. Ele sorrindo, meio animado e meio amedrontado, perguntou onde era o freio. Comecei a rir achando que ele estava brincando quando ele falou:
- Ria depois. Agora me fale como paro "este" merda!
Saímos naquela comitiva enorme e o programa era ir encontrar com os peões num rodeio para eles acompanharem uma curação. Estávamos andando relativamente rápido, quando percebo que o Zé com o Dr. Alcides estavam ficando para trás. Voltei e fui pedir que eles apertassem o passo, quando vejo os dois praticamente parados e os cavalos pastando, com eles em cima de rédea frouxa. Quando falei para eles acelerarem o Zé me fala:
- Porra meu, não deram de comer pro meu cavalo.
Já ia xingá-lo, quando o Alcides completa:
- Nem pro meu.
Não pude falar do jeito que eu queria mas expliquei que tinham que encurtar as rédeas e bater com o calcanhar na barriga que o bicho anda, senão eles comem o dia inteiro pois não tem horários para refeições.
As coisas ainda estavam muito tensas. Eles eram muito formais. Quando chegamos e fomos tomar banho para o jantar, a esposa do holandês chama Beá em um canto e pergunta qual era o traje adequado para o momento. Beá ficou olhando para ela como se fosse uma ET e não sabia o que responder, quando ela achando que não tinha sido clara com o seu português completou:
-Precisa de gravata?
Beá, recuperando a voz disse;
- Aqui nos usamos só roupas velhas, aquelas que usávamos na cidade e com o tempo foram ficando cada vez mais gostosas e mais feias. Meu modelito será bermudas, camiseta e chinelo de dedo. Se a senhora não tiver eu empresto. Fiquem a vontade.
Depois disso todo mundo relaxou e foi um passeio muito divertido. Fizemos bons amigos, principalmente o Holandês, que meses depois foi promovido para a presidência mundial da sua empresa . Fomos convidados por ele para assistir a corrida de formula 1 que aconteceria no Brasil e nessa ocasião tivemos oportunidade de conhecer o Shumi, é, o Michael Schumaker. Estávamos no stand, quando chega o homem de helicóptero. Quando nos viu veio nos abraçar numa informalidade que assustou a todos os presentes. Ficou conosco o tempo todo e só falava que nunca mais ia esquecer o Pantanal e devia isso a gente. Ô Holandês simpático!

terça-feira, 22 de junho de 2010

Alice

Eu já falei que o primeiro amor da minha vida foi minha professora do primário. Vou falar agora da primeira namorada. Acho que não vou apanhar de Beá pois isso foi há não menos de 50 anos atrás. 
Eu tinha uns 7 anos e ela também. Pela idade já deu pra ver que era coisa séria. Ela se chamava Alice e era a coisa mais linda do mundo. Quando sorria tinha umas covinhas que enlouqueciam qualquer homem de 7 anos. Todos os dias, após as aulas, eu a acompanhava até a porta de sua casa carregando os seus cadernos. Ela só tinha um problema: não sabia de meu amor por ela e eu não tinha coragem, nem sabia como falar. Isso se prolongou por dois anos, quando um dia, cheio de coragem, me declarei:
- Gosto de você. Quer me namorar?
Era emoção pura e a resposta veio prontamente
- Claro que não. Não tenho idade, mamãe não deixa e não gosto de você.
Mas nunca fui homem de desistir fácil, nem quando tinha nove anos. Continuei na paquera, até que um dia no cinema, sentei ao seu lado e ficamos de mãos dadas. Para falar a verdade, de dedos dados. Meu dedo mindinho enlaçou o seu dedo mindinho e ficamos assim o filme todo. Namoramos por 6 longos meses, e o máximo que consegui foi ficar de mãos dadas com ela, mas ficou registrada como a minha primeira namorada, aquela que a gente nunca esquece. Muitos anos depois, talvez uns 40, vejo um de meus filhos se engraçando com uma menina muito bonitinha, que me lembrava alguém, mas não conseguia saber a quem. Me informei e para minha surpresa era uma sobrinha dela e, como estávamos em pleno carnaval, contei tudo a ela. Lembrei muito de meu pai que vivia dizendo que tudo se repete. As coisas que acontecem comigo, já aconteceram com ele e vão acontecer com meus filhos. Hoje completo, com meus netos também.
O Rafael, meu neto mais velho, está com 10 anos, sempre que encosta uma menina bonita, ele já fica todo galinho, fazendo pose. Quando vejo isso, Beá que me perdoe, sinto saudades daqueles tempos, da Alice com suas covinhas e de toda nossa inocência.