quinta-feira, 30 de junho de 2011

Tomas, o Corajoso



Essa me aconteceu hoje. Estava trabalhando na ema quando chegou o enfermeiro do asilo para aplicar umas injeções no povo lá. Era vacina contra a gripe. Coincidentemente estávamos o Cauto, que é o cara que mais tem medo de agulha que eu conheço, eu e o Carlão, quando este último me contou do escândalo que o Cauto tinha feito na saúde pública quando foram tomar vacina juntos. O enfermeiro queria aplicar e o Cauto não parava com o braço pois queria que chamassem Mena para ficar junto dele e isso sem se importar com aquele mundaréu de gente vendo aquele baita homem com medo de uma agulhinha. O enfermeiro pedia que ele ficasse quieto e ele falava:
-Não, pera aí, não aplique ainda que eu quero conversar.
Como a fila era grande o cara queria aplicar e acompanhava o balanço do braço dele que não parava, e o medroso já estava para desmaiar. Conseguiu ficar nessa enrolação até a chegada da Mena.
O Beto já conhecia a história e contou para Tomas e Belinha na hora de levá-los para tomar a vacina e dizendo que isso era muito feio. Que nem doía nada e que queria ver se eles iam ser corajosos. Estavam nesse papo quando o Tomas pediu para ser o primeiro. Iria mostrar a todos que já era homem e corajoso, pelo menos mais do que o tio Cauto. Já a Isabela não se manifestava e ficou com aquela cara de desconfiada. Na hora H o Beto, para espanto do Cauto, falou que Tomas queria ser o primeiro. Foi deitando ele na perna e baixando suas calças, tudo sob o olhar atento de todos, principalmente do Cauto, que não acreditava no que estava vendo. Quando o enfermeiro chegou por trás o gurizinho pulou do colo do pai e falou:
- Pera aí que eu tenho que relaxar.
Beto juntou ele de novo, e ele achou que o pai não tinha escutado e começou a gritar que queria relaxar. Ficaram todos quietos esperando e segurando o riso. Uns 30 segundos depois o Beto o pegou novamente e ele veio com novo argumento que queria conversar com o enfermeiro e ver o tamanho da agulha. Nessa hora o Cauto se manifestou.
- Esse é do meu time, gosta de uma conversinha antes para relaxar.
No fim a coisa foi meio na marra mesmo. A Isabela que já estava com medo, quando viu o piseiro que o Tomás estava fazendo já começou a chorar antes da hora. Foi um panzeiro do peru, e só o Cauto que os achou super corajosos, pois em nenhum momento nem ameaçaram desmaiar. Também com essa referência, covarde para ele e só se o cara se cagar todo. Como dizia papai, tudo é relativo.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Isabela

Isabela é a minha primeira netinha e a número 8 na ordem geral. Muito esperta e vive me aprontando cada uma que tenho medo de passar por mentiroso, ou no mínimo avo coruja quando conto as suas histórias. Ela é enlouquecida com esses joguinhos de celular e parece que já nasceu conhecendo todos, tal a intimidade com que manipula esse aparelhinho. Chegava em casa e ia direto pro meu colo dizendo:
- Vovô, empresta xeu xelular?
Teve um dia que resolvi não emprestar e respondi:
- Isabela, você só sabe falar isso?
- Como assim, vovô? Eu sei falar tudo.
- Então, você chega aqui, nem me da um beijo, não fala nada carinhoso para mim e já quer meu celular.
Enquanto eu falava ela prestava muita atenção, me olhando com aquelas duas bolitas parecendo umas jabuticabas maduras.
- Mas o que é para falar, vovô?
- Então, você tem que falar bom dia vovozinho. Tudo bem? Você está tão bonito hoje. E ai pede o meu celular, que vou ficar tão contente que vou te dar.
Desse dia em diante o comprimento é sempre o mesmo e sem pular uma letra, mas num ritmo muito engraçado. Ela corre para mim e fala sem respirar: "bomdiavovô.Vocetamuitobonitohoje. Mimprestaxeuxelular?"
Sempre me levava o aparelhinho até o dia em que, na fuçação, me apagou um programa. Resolvi colocar senha para que me lembrasse de avisar a ela, todas às vezes, que não podia mexer no que não conhecia para não apagar nada. Ela me pedia o telefone, daquele jeitinho cumprido, eu digitava a senha e entregava a ela. Na terceira vez, ela me falou:
- Deixa que eu destravo. Isso com três para quatro anos e sem saber ler nada ainda. Decorou a seqüência que eu batia os números.
Numa outra ocasião, ela sentada na mesa ao meu lado, me flagrou limpando a boca na toalha. Vira para mim e fala:
- Não pode limpar a boca na toalha. Para isso tem guardanapos. Minha mãe não gosta.
- Estou na minha casa. Sua mãe não apita aqui. - Falei isso para provocá-la.
Ela não perdeu o rebolado e falou:
- Minha avó também não gosta.
Joguei a toalha.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Lua de mel parte 2

Como já tinha escrito na parte 1, estávamos viajando há quase um mês e percorrido 4.000 km. Adoramos Montevidéu e de lá seguimos para a Argentina. Fomos até o porto de Colônia, quase no extremo oeste do Uruguai, e atravessamos o mar del plata, em um navio que se chamava baleeiro e pegava mais de 100 carros. Desembarcamos em Buenos Aires e fomos procurar um hotel. Aliás, toda a nossa viagem, a única reserva que fizemos de hotel foi no Toribas, em Campos do Jordão. O resto foi escolhido na hora, no guia quatro rodas, que era melhor que o Google, pois não tinha perigo de ficar fora do ar e tinha tudo, desde preço, nível do hotel, endereço, telefone para reservas, e o que você pensar mais. Não sei se existe isso ainda, pois com o tal do GPS, ninguém vai consultar mapas para viajar, mas era realmente uma coisa extremamente útil para viajantes sem rumo, como nós. Velhos tempos.
Em Buenos Aires, tivemos a primeira grande surpresa da viagem. Os argentinos eram simpáticos com a gente. Já existia Pelé, mas não tinha Maradona. Chego até a pensar que essa aversão mútua foi provocada por ele. Não me lembro de detestar argentinos naquela época. Não sei quando peguei essa mania, pois na lua de mel eles foram todos muito simpáticos, mas sei que na guerra das Malvinas eu já não gostava deles. Saímos de Buenos Aires e fomos subindo para o norte, passando por Santa Fé, Resistência, onde pernoitamos e Formosa. Nosso destino era Assunção, Paraguai.
O interessante é que para chegarmos a Assunção tínhamos que atravessar o Rio Paraguai e não existia ponte. Entramos em uma balsa que transportava um carro por vez e era tocada por um motorzinho de popa dos mais porcarias que existe. Se pifasse aquela merda nós voltaríamos rodando para o Mar del Plata. Mas tudo deu certo e chegamos a Assunção. Já estávamos com pouco dinheiro e depois de ver o preço do Hotel Guarani, o melhor do Paraguai, nos hospedamos no Estrela, diária 1/5 do preço e muito simpático. Era na região central e 40 anos depois eu o visitei e continuava do mesmo jeitinho da nossa lua de mel. Programamos um dia somente em Assunção para visitarmos uma aldeia de índios. Encontramos um guia que nos levou até lá. Era um sarro, pois tudo era cobrado. Fotografia de indiozinho, 2,00 cruzeiro, cacique 5,00, mulher do cacique sem cobra, 10, com cobra, 15 e mostrando os peitos 20. Não agüentei e paguei a cacica com tudo que tinha direito: cobra e os peitões de fora, juntei a Índia mais com medo do cacique do que da cobra e Bea imortalizou-nos com uma foto que não consigo mais achar.
Quando voltamos para o carro, a primeira merda da viagem toda, um ônibus tinha acertado o paralama dele o que nos obrigou a ficar mais três dias em Assunção, enquanto uma oficina consertava meu opala. O mesmo que era amarelo saiu com o paralama traseiro laranja, mas não podíamos esperar mais. Já estávamos a dois dias no hotel jogando cartas e queríamos conhecer as cataratas de Iguaçu.
A segunda merda foi um causada por um mal entendido entre Bea e eu. Quando saímos de Porto Alegre, que foi a última cidade brasileira, perguntei a Bea se existia banco Bradesco em Foz do Iguaçu. Antigamente não existia esse dinheiro de plástico - cartões de credito, e toda a viagem era paga no cheque ou em moeda. Posto de gasolina e cidade fora do Brasil, só no cacau. Como não existia ar condicionado em carro também, a conversa foi feita de janela aberta e com a interferência de todo o ruído externo. Ela respondeu:
-Num tem.
Eu, burro segundo ela, entendi:
-Um, tem.
Como não precisava mais do que um, fomos regulando os gastos para a bufunfa chegar até Foz do Iguaçu e como era bom de cálculos e gastamos a folga no concerto do paralama do carro mais o excesso de dias em Assunção, chegamos zeradinhos. Falei que iríamos direto para o Banco e depois para o Hotel e isso para que ela consultasse o 4 Rodas para pegar o endereço, quando ela, se assustando, falou que não tinha Bradesco na cidade e ela tinha me avisado disso. Entramos em pânico, e fomos para o hotel e no check in já perguntamos se eles aceitavam cheques e só nos hospedamos quando encontramos um que confiasse na gente. Era no meio de estrada e no caminho entre a cidade e as cataratas, novinho em folha, e acho que nós o inauguramos. Não me lembro mais do nome, 30 anos depois eu voltei em Foz e ele estava acabado, tornara-se uma espelunca de quinta categoria. Nem pudemos aproveitar Foz e o único programa foi ir ao hotel das Cataratas e vê-las de lá. Pagamos o hotel e com a autorização do dono pegamos um troco para abastecer o carro e chegar a Londrina com os bancos abertos ainda.


Foi então que aconteceu o segundo azar. Passamos por um posto rodoviário e o mesmo viu que o nosso seguro obrigatório estava vencido e não poderíamos continuar a viagem daquele jeito. Não tínhamos dinheiro nem para a propina, muito menos para pagar o seguro. Nos mandaram em uma casa de cambio para trocarmos o cheque e lá fomos extorquidos. O FDP só aceitava cheques na venda de dólares e não na compra. Demos um cheque de uns 200,00 em dinheiro de hoje, compramos os dólares e vendemos a eles mesmo por 150,00. Era a diferença de cambio. Como estávamos ferrados mesmo, não teve jeito. Com esse dinheiro pagamos o seguro e voltamos para a estrada. Nessas horas já não conseguiríamos chegar a Londrina com o Bradesco aberto e jantamos no caminho, pinhões, uns coquinhos cozidos e enjoativos no último. Mas era lua de mel e tudo era festa. Nem brigamos muito para discutir quem era o responsável por aquela merda toda.
Em Londrina tudo se regularizou e de lá seguimos para Campo Grande, completando 10.000 km rodados, e fora a batida do ônibus no paralama, o carro não deu o menor problema. Era um puta carro. Deixamos ele com tio Jamil e fomos de trem para Corumbá. Foi quando conheci a fazenda Santa Anatalia. Fomos com Pedrinho, meu sogro, para lá e passamos mais uma semana. Quando voltamos para São Paulo para procurar emprego, eram meados de junho e completamos dois meses e uma semana de lua de mel. Também foi a última vez que fiquei tanto tempo sem trabalhar na minha vida. Depois disso, quase 40 anos, não me lembro de nenhumas férias com mais de 15 dias. Tenho muitas saudades dessa moleza toda, pois hoje em dia não é fácil.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Carlitos

Carlitos foi empregado do Marinho na época que existia a tal da estabilidade do emprego e que depois foi substituído pelo fundo de garantia de tempo de serviço, o conhecido FGTS. O empregado, à medida que ia permanecendo no emprego, ia adquirindo um direito a uma indenização quando fosse demitido, que crescia com o tempo de uma maneira geométrica e não linear. O que acontecia é que a partir dos 10 anos ele se tornava seu sócio, pois não tinha dinheiro que pagava a indenização para demiti-lo e ele atingia a tal da estabilidade. O que acontecia nas grandes empresas é da mesma demitir o empregado antes dele atingir essa estabilidade e depois, se fosse o caso, recontratá-lo para começar a contagem do tempo novamente, uma vez que o mesmo não era cumulativo.

Não era a política de vovô Marinho e nem a de seus filhos e sucessores na empresa. Tinham um monte de empregados com essa estabilidade e todos trabalhando muito bem obrigado, como o velho Juvenal que morreu empregado e sua mulher continuou recebendo como se ele estivesse vivo até morrer também, Daniel, Vinino, Anacleto e muitos outros. Foi assim que, o governo, percebendo que não era esse o procedimento da maioria das empresas, resolveu criar o fundo de garantia e que funciona até hoje. Como todos sabem, mensalmente a empresa deposita 8% do valor do salário do empregado numa conta dele e quando ele for demitido sem justa causa, levanta esse dinheiro, e a empresa tem que pagar ainda mais 40% do valor acumulado. Com isso a empresa passou a ter um encargo linear e acabaram-se as demissões e a estabilidade por tempo de serviço.

Mas houve uma época de transição, onde o empregado podia optar entre ter estabilidade ou entrar para o fundo. Todos fizeram um acordo com a empresa e através de um prêmio pelo tempo de serviço tornaram-se optantes do FGTS, quase todos, mas mesmo entre os filhos legítimos tem uma ovelha negra. O Carlito não quis perder a estabilidade dele por preço nenhum. Seu plano maligno já estava traçado e começou um dos combates mais longos da vida de seu Alberto Marinho. Ele fazia questão de fazer tudo errado, para que, em um momento de descompensação de algum dos sócios, fosse demitido e ele mamar numa bolada, como ficaram sabendo que ele falava. Ele passou a ser subordinado de papai, depois de um probleminha com um dos irmãos, quando quase perdeu a cabeça e fez o que ele queria. Como papai era mais tranqüilo ele partiu para uma terceira opção que era fazer o Carlitos pedir as contas. Teve um dia, lá pelos anos de 1970, que eu de férias em Corumbá, encontro o Carlitos, na rua Delamare com uma telha eternit de 2,4 m na cabeça. Cheguei no Marinho e perguntei a papai o que era aquilo e ele me explicou que a Brigada Mista, que ficava a 5 quadras do marinho tinha comprado 300 telhas daquelas e o Carlito estava fazendo a entrega. Eram 10 viagens por dia e em 30 dias úteis ele terminava. Falei pra papai que aquilo não era humano o que o deixou muito puto comigo. Como ia ficar as férias todas aqui, ele transferiu o Carlitos para o Posto que o Tontonio tomava conta e onde eu passava a maior parte do meu tempo. Me falou isso e completou que eu ia aprender não só sobre ser humano, como também sobre "O" ser humano.

No segundo ou terceiro dia da nossa discussão, eu estava no posto e falando sobre o Carlitos com o Tontonio, quando ele, com o queixo, me apontou uma camionete. Na carroçaria estava o dito cujo abastecendo um tambor de 200 litros de óleo diesel. Depois de uns 30 minutos, como ele não terminava, o Zé gritou para ele:
- E ai Carlitos, enche esse negócio ainda hoje?
Ele, de cima da camionete, gritou:
- Não sei não, seu Zé. Tudo que eu jogo aqui sai por aquele outro buraquinho ali.
Quando corremos para lá, vimos aquele rio de óleo diesel escorrendo da camionete. A porra do tambor estava furado e o filho da puta do Carlito não avisou ninguém e jogou um monte de óleo diesel fora. Estava começando o meu aprendizado sobre o quanto o ser humano pode ser desumano. Mandamos ele de volta para papai, com o meu sincero pedido de desculpas.

Mais tarde, alguns anos depois, eu consegui fazer um acerto com o Carlitos, não por dó dele, mas de papai, que morreu sem saber que a última sacanagem quem fez foi o Carlitos. No acerto incluía uma entrega de 200 telhas de 4 mm de 2,44 m. Ele falsificou o documento e o alterou para 2000 telhas de 6 mm. Tudo que eu tinha negociado foi por água abaixo e ele saiu com o valor que ele queria. Grande F da P, como dizia papai.

Apesar de tudo, ainda consegui aprender alguma coisa com ele, ou melhor, através dele.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Nota de esclarecimento

Eu já contei aqui os motivos que me levaram a escrever essas memórias em "A origem", que foi a história número 35. A de hoje é a 229 e a estou usando para fazer um esclarecimento. Tudo que está aqui escrito não é a "expressão mais pura da verdade", como gostava de dizer o meu saudoso amigo Ubirajara Sebastião de Castro, pois a mesma, ainda segundo ele, só existe em termos jurídicos e nunca filosóficos. O que esta escrito aqui são os registros feitos pela minha memória e ela, algumas vezes, pode me trair, pois os relatos são conforme os meus entendimentos e lembranças, e podem já estar deturpadas pelo tempo.

Tem coisas que parecem que eu vi e às vezes, após um trabalho investigativo, concluo que isso não era possível, pois o fato simplesmente ocorreu antes de eu ter nascido. A conclusão é que o ouvi tantas vezes que a memória auditiva se confundiu com a visual, agora plagiando o meu amigo, médico, filósofo e escritor, Alaer Garcia. Com isso quero dizer que se houve alguma história com algum personagem e ele lembra que aconteceu de uma forma diferente, quero que ele veja isso como a minha verdade, uma vez que são as MINHAS lembranças. Não me chateio de virem me falar que não foi exatamente como eu escrevi, e às vezes, até reconheço que errei em algum ponto, mas não vou ficar fazendo erratas aqui. Meus filhos, que são personagens principais desse blog, sempre me corrigem. A vez do peixe do médico eles falam que:
- O peixe morreu no ralo, nós nunca nos esqueceríamos de voltar eles para o aquário como você escreveu.
- Fomos diminuir a água da pia onde eles estavam, e não num saco plástico, outra errata sua, para facilitar a captura, quando o King num sei das quantas resolveu se suicidar e entupiu o buraco. Ele ficou com água só no corpo e a cabeça, entalada no ralo, no seco e morreu afogado. Peixe morrer afogado!!! Pode mudar algumas passagens, mas não muda o contexto. Fizeram merda.

Agora tem coisas que acontecem que complementam as lembranças e, em alguns casos vale a pena fazer o conserto. Já tinha escrito aqui sobre um pintor, amigo de papai e do qual eu não me lembrava mais do nome. Foi a história número 11 e resolvi rebatizá-lo de Dom Rafael. Papai ainda era vivo e vi que ele também já não se lembrava mais o nome do homem. Eu perguntava de era Dom Rafael e ele confirmava. Passado uns dias eu mudava para Dom Pablo e ele confirmava também e acabou que o nome do homem foi para o esquecimento.
Lembrava que tinha um prefixo e achava que era Dom e o nome era bem espanhol. Mas as coisas acontecem e vem de onde você menos espera. Depois de fazer um negócio com meu primo Ivan, ele me presenteou com uma das coisas mais bonitas que recebi nos últimos tempos. Eram dois quadros de vovô Marinho e vovó Emilia, feito em grafite e em uma moldura de madeira e prata. Estavam lá imortalizados os meus avós e num desenho muito bem feito.
Passei uma meia hora sentado em uma cadeira admirando aqueles retratos quando resolvi me aproximar e tentar ler a assinatura do autor e a data da execução do trabalho e fiquei ainda mais contente com aquele presente. Estava lá imortalizado também o nome do homem que eu tinha me esquecido e achado que, com a morte de papai, nunca mais descobriria. Os quadros foram pintados em 1954 e ao lado da data estava a assinatura do artista. La Torre. Tinha um prefixo e era bem espanhol mas estava atirando longe. Assim que a reforma da casa onde vovô morou estiver pronta, vou chamar o Ivan para ele ver onde ficou o quadro e tomar um bom vinho português com ele.

Agora, para efeito de registro, eu teria que fazer uma errata. Tinha que ser uma tabela, numa coluna iria o título da história e na outra as correções, daquele tipo, "historia tal", onde esta "Não sei o que", leia-se "Sei o que", o nome de "fulano de tal" é "sicrano de tal". Para evitar isso, que vai ser um pé no saco, pediria aos protagonistas das histórias, que nos comentários desse blog fizessem as correções. Não vou ficar chateado, pois não vou considerar como um desmentido publico e sim como uma ajuda com as histórias e para minha memória física. Agora, fora isso, vou declarar:
OU CORRIGAM-ME DESSA FORMA OU CALEM-SE PARA SEMPRE. (foda escrever, nesse iPhone, tudo em letra maiúscula. Não vai mudar, hein Laurinha!.)

quinta-feira, 9 de junho de 2011

O crime

Arnaldo é casado com minha prima, a Rosa Maria e tem quatro filhos. O primeiro, o Arnaldinho, nasceu quando eu ainda era solteiro e tinha todas aquelas dúvidas se um dia poderia ter um filho. Visitava os dois e curtia o Dinho. Me lembro de um brinquedo que ele tinha, um palhaço de madeira que quando você puxava uma cordinha os olhos reviravam e ele balançada os braços e as pernas e o Dinho dava risadas. Pois bem, passaram mais de 20 anos, talvez 25, quando recebo um telefonema da Rosa para acudir o Arnaldinho na fazenda. Ele já formado em Zootecnia cuidava de sua parte da fazenda Cocaes e eu arrendava um outro quinhão, então éramos, além de primos e amigos, vizinhos e portanto o cara ideal para se recorrer nessas situações. Por telefone, ela me contou o ocorrido, e na hora percebi que o acontecido era carga demais para a bateria de qualquer um, ainda mais para um jovem em início de carreira.


Ele havia chegado na fazenda de surpresa e encontrado a coisa meio bagunçada. A cozinheira tinha se cortado e seu marido, que era o capataz, estava sumido. O Arnaldinho começou a investigação. Pensou primeiro em um acidente no campo, o nego saiu sozinho para ver alguma cerca, sentiu mal e pronto, pensamento logo descartado, pois a traia de arreio dele estava ali, então sair montado ele não saiu. A arma estava pendurada no armador de rede e ninguém saía sem o "berro" na cintura. Pediu que o praieiro e mais um peãozinho saíssem em sua procura por volta da sede que podia estar enfartado e passando mal ali por perto, e... nada. Assuntou com a mulher dele e com o praieiro que também cuidava da roça se não tinha passado nenhuma condução e... nada. Pensou-se até em abdução, mas nem movimento estranho no céu alguém viu. O mistério do desaparecimento do homem foi aumentando até que o cachorrinho do capataz, daqueles bem comum, marca vira lata, e com aqueles nomes de cachorro mesmo, tipo Rex, esclareceu tudo. Começou a cavar ao lado da cozinha, assim bem pertinho mesmo, a uns 10 metros e o Arnaldinho estranhou que o mesmo chorava. De repente do buraco surge uma mão. Depois do puta susto e de superar o medo, chamou o praieiro, mesmo assim meio se borrando e meio desesperado, foram cavando e lá estava ele. Na outra ponta da mão o capataz, mortinho da silva. O menino endoidou, ligou para a mãe que ligou para o pai que ligou para mim. O guri estava na fazenda com um cadáver e uma mulher sangrando e não sabia o que fazer. Tranqüilizei-os e falei para eles, que mandaria o Zé Mauro lá, que não tinha pessoa melhor para resolver essas situações.

Quando falei com o Zé, e perguntei se ele queria que eu fosse junto, ele já respondeu que preferia "gastar" o lugar com a polícia. Recomendei que ele tomasse cuidado para não ferrar com nosso avião, pois teria que carregar defunto em estado de decomposição e mulher sangrando. Ficamos no aguardo do retorno da expedição. Isso tudo foi por volta das 11 horas da manha e às 5 da tarde o Zé Mauro entrou no escritório. Bea toda curiosa e afobada foi recebê-lo na porta e perguntando:
- E ai Zé, estamos todos muito preocupados, o que aconteceu por lá?
O Zé, com aquele jeitinho meio caipira dele respondeu:
- Vocês podem ficar tranqüilos que o morto foi enterrado lá mesmo, o que matou ta preso e a mulher já ta medicada. Ta tudo certo.

Falou isso e ameaçou de ir embora. Segundo os ouvintes foi só para escutar o pedido para contar os detalhes, que não poderiam ser mais escabrosos. A cozinheira era amante do praieiro e tramaram juntos, de matar o marido, que era o capataz. O praieiro foi o executor e a mulher, arrependida, tentou se suicidar cortando os pulsos. Isso tudo descoberto lá na fazenda, com o corpo desenterrado e num cheiro insuportável, e com a policia, não vendo como enterrá-lo lá pois não tinha caixão, e querendo trazê-lo de avião, no nosso avião, para Corumbá. Aí entrou a experiência do Zé Mauro e seus conhecimentos indígenas. Como o capataz era meio abugrado o Zé convenceu os policiais a enterrá-lo de acordo com suas tradições ou seja numa rede. Fizeram uma vala mais funda, fora do alcance do cachorro detetive, e largaram o corpo lá mesmo. Bea escutando e sabendo das minhas preocupações já se tranqüilizou quanto ao transporte do corpo em decomposição, mas ainda tinha a mulher de pulso cortado e perguntou ao Zé se não tinha sujado o avião de sangue. Ele garantiu que estava tudo em ordem, pois tinha estancado o sangue da cúmplice e para garantir, ensacou a mão dela, tudo muito simples, segundo ele. Se fosse "aquele" meu amigo ele diria, "Não é fácil", mas o Zé tem o dom da descomplicação. Grande Zé Mauro.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

O início dos tempos

Sempre me pego pensando em quais fatos mais antigos eu tenho na memória. Fico sem saber o que eu realmente vi e o que se firmou por fotos ou narrativas de terceiros. Da casa que tínhamos na Mello Alves, em São Paulo, tenho uma lembrança muito nítida, mas não sei qual foi a última vez que estive lá e ninguém consegue me precisar essa data. Da babá, a última de que me lembro, contratada com o fim específico de cuidar de mim, foi a Rosinha. Lembro-me dela cantando Luar do Sertão para me fazer dormir e só isso não define a minha idade. Mas me lembro também dela me levando para tomar banho de macaquinho, quando eu subia nas suas costas, me agarrava no seu pescoço e fazia-a galopar pela escada do sobrado acima. Calculando o peso dela, era muito magrinha, e a velocidade que eu conseguia imprimir, dá para concluir que eu não podia pesar mais do que 10 kg. Como eu era muito magrinho também, calculo de 4 para 5 anos. Aí entro numa contradição, pois eu tinha uma serraria nos fundos de casa, e fazia cadeiras e mesas de caixote de frutas, com ela me ajudando, lógico. Não era tão inteligente assim para fazer isso com essa idade, e volto para a estaca zero.

Com papai, me lembro dele estacionado em frente da igreja matriz, esperando a missa acabar e pegar Mamãe. Eu ficava de pé no banco e com as mãos em seus ombros, enquanto ele lia jornal. Acho que não descíamos na igreja juntos com ela, pois eu ficava correndo e azucrinando a missa, mas essa conclusão já é minha atual. Lembro até de escutar a voz de mamãe cantando na missa e sobressaindo sobre as demais e papai identificando ela para mim. Como ficava de pé no banco, calculo de 4 a 5 anos, de novo. É incrível como isso me deixa nervoso. Não sei quando a minha vida começou realmente, com todos os registros em minha memória. Sinto como se me faltassem esses anos iniciais. É como você comprar um bolo com uma mordida desconhecida. Se eu pudesse achar que isso aconteceria, começaria esse blog mais cedo. A primeira história seria, "Comecei sentindo um tapa na bunda, que só parou quando chorei. Que merda será que já fiz".

Já na escola Domingos Sávio, me lembro do dia em que fui à aula com o meu primeiro relógio, novinho, sem saber ver as horas. O Roberto Costa Marques, que era bem mais velho, me vendo com o relógio perguntou as horas. Lembro da minha resposta, mostrando o relógio para ele falei: "Não sou seu empregado. Quer saber? Olhe aí que eu deixo.” Devia ter 5 para 6 anos para não saber olhar horas e ter esse tipo de resposta.

De outra época, mamãe foi com papai para São Paulo e ficamos, eu e o Tontonio, sozinhos em casa e para cuidar da gente ficou a minha prima Elisa. Ela era bem mais velha que a gente. Me lembro que ficava sozinho com ela enquanto Tontonio ia para a escola. Não via a hora dele chegar pois ela me dava medo o tempo todo. Ela só conseguia fazer eu ficar quieto ameaçando de chamar o Joãozinho do Saco pra me levar. Era um sujeito mal encarado que andava catando coisas na rua e carregava tudo em um saco nas costas. Ela me falava que estava cheio de crianças desobedientes e que se eu não a obedecesse ia chamar o Joãozinho para mim. Vivia atemorizado ou aterrorizado. Apesar da judiação, isso serviu para me ligar mais ainda ao meu irmão, que passou a ser meu salvador e quebrava o maior pau com ela toda vez que eu reclamava para ele. Talvez essa seja uma das lembranças mais antigas e não tão boa assim. Não posso dizer que tenho da Elisa a mesma saudade que da Rosinha, essa sim eu gostaria muito de reencontrar, mais não tenho a menor idéia de seu paradeiro e nem sei se está viva. Sei que tinha uma irmã gêmea que se chamava Tereza e um irmão que vendia picolé na rua e se chamava João. Se alguém achar a Rosinha para mim será bem gratificado. Prometo.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Mecânica Pesada

Entrei na Mecânica Pesada em agosto de 1974. Tinha 24 anos recém completos, um ano e meio de casado e uma filha de 6 meses. Hoje tenho certeza de que foi a melhor época da minha vida. Fiquei 10 anos e 4 meses e saí para trabalhar na empresa de meu pai e que se chamava Marinho e Cia Ltda. Mesmo assim eu passei uns 5 anos ainda dizendo que ia para a Mecânica Pesada quando saía para o serviço. Quando abri a minha construtora, a Marinho Engenharia, quis chamá-la de Marinho Engenharia e Projetos, só para a abreviação ser MEP também, que era como tratávamos carinhosamente a Mecânica Pesada. Entrei como engenheiro de cálculos e saí como chefe de departamento de Engenharia e Métodos. Participei da construção das maiores usinas hidroelétricas desse país, projetando seus equipamentos hidrodinâmicos. Foram, que eu me lembro, Itaipu, Paulo Affonso VI, Porto Primavera, Sobradinho, São Simão, Taquarucu, Rosana, Três Irmãos, Pedra do Cavalo, Emborcação e mais um lote de porte menor. Os clientes eram poucos, a CESP, CHESF, Itaipu Binacional, Furnas, CEMIG, CELG e mais alguma que devo estar esquecendo. Era um monte de equipamentos que estavam em várias partes da usina, como na tomada d'agua, casa de força, tubo de sucção ou vertedouro e ainda as eclusas, para permitir a navegação. Às vezes tinham até três usinas em projeto e com uma quantidade enorme de equipamentos. Era uma loucura. A Engenharia tinha umas quarenta pessoas entre calculistas, projetistas e desenhistas. Cada equipamento tinha um engenheiro responsável pela execução e aprovação do projeto. Lembro-me de todos eles e de suas características principais.

O Antonio Benedito Pereira, era o mais tranqüilo e um trator para trabalhar. Ideal para coisas de curto prazo. João Scherer, meu vizinho, muito detalhista. Bom para coisas complicadas. Luis Fernando, projetista de primeira e formou-se em engenharia depois. As coisas apertavam e ele ia para a prancheta (aquela mesa em que se desenhava antigamente, antes dos computadores). Tinha ainda o Rubinho e o Laércio Ferreira, que estavam começando quando eu já estava de saída, mas bons engenheiros e amigos.. Na área de cálculos tinha a d.Virgínia, esposa do Choulian, meu chefe, o Flavio Luis Ferreira, que eu levei para lá, pois era meu colega de classe na engenharia civil, a Michelle, filha do Karmazim, meu amigo francês, o Marco Antonio, que se formou e começou conosco, o Luis Antonio Bovo que foi meu aluno na faculdade de Taubaté e como foi o melhor da classe, levei-o para a MEP também e outros que a memória já está me pegando. Não posso esquecer do meu primeiro estagiário e subalterno direto, o Antonio Carlos Tonini, que depois se transformou em um grande calculista. Ele foi contratado na época do cálculo das pontes de 450 toneladas de Paulo Affonso IV. Eram as maiores do mundo. A primeira fase era o projeto do caminho de rolamento, o trilho fixo no concreto, que tinha que ser passado para o cliente com muita antecedência, pois interferia na parte civil, na construção da casa de força. Troquei as bolas e ao invés de uma medida que tinha 150 mm entrou nos cálculos como 150 cm. O erro foi visto a tempo, mas me deixou totalmente inseguro com o tamanho da merda que daria se ele tivesse passado. Convenci o Choulian de contratar um estagiário que verificaria todas as contas e então veio o Tonini. O cálculo de um equipamento tinha aproximadamente umas 500 folhas e devia ser feito de modo que o cliente pudesse analisá-lo e aprová-lo. Então, além de bem feito tinha que ser didático. O Tonini tinha que entender e corrigir as contas. Nunca vi ninguém aprender tanto e em tão pouco tempo, como nessa posição.

Com o cálculo era feito um ante projeto e este ia para a mesa do projetista, que tinha que desenhar aquilo tudo, verificando as interferências e detalhando cada peça que ia ser fabricada. Ali tínhamos verdadeiras feras e que conheciam tudo de projetos. O Romeu Gamberini, o Juan Garzon, Joaquim português, Nivaldo e vários outros. Não era a toa que a MEP era tida como a melhor empresa do ramo neste país.

As coisas foram muito bem até que começou a crise política. Colocaram o Delfim Neto para distribuir melhor a renda do país e ele começou pelos assalariados, tirando dos que tinham um pouco e passando para os que não tinham nada. Era o tal do achatamento salarial. Quem ganhava mais do que o equivalente a 5000 dólares, tinha um reajuste salarial de 80% do valor da inflação. Os que estavam de 4000 a 5000 o reajuste era de 85%, e assim ia até o salário mínimo que era de 130%, ou seja, aumentava dos miseráveis tirando dos pobres e remediados. Em pouquíssimo tempo fui passando de bem de vida, para remediado e rapidinho não tinha mais como pagar as prestações da minha casa na CEF. Foi a maior sacanagem que fizeram com a classe média assalariada desse país. Foi então que o útil uniu-se ao, não só agradável, mas necessário. Começamos a nos preparar para voltar para nossa Corumbá, encerrando uma fase importante da minha vida, a de engenheiro Mecânico. Tinha novos desafios pela frente.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Aparelhinho assoprador

Era o aniversario de minha neta Lara e estava na roda dos homens. Corumbá é assim, quando se reúne numa festa, existe um aparte geral, os homens ficam numa roda e as mulheres em outra. É o único lugar que conheço onde isso acontece. Até para dar volta de carro, se você pega um outro casal, vai os homens na frente e as esposas atrás. Mas estávamos falando da enchente do pantanal, quando começou uma discussão de qual seria a velocidade do rio Paraguai. Todo mundo chutava um valor e cada um vinha com uma história para provar que estava certo. Sabiam o tempo que a água demorava para ir de um lugar a outro mas não tinham a distância, ou tinham o tempo de um barco de subida e o de descida e a distância entre dois pontos mas nos enrolávamos nos cálculos. Lá pelas tantas um tio da minha nora, meu amigo Armardo Lacerda, garantiu que ele sabia, pois já tinha "MEDIDO" a velocidade do rio e o medido saiu na entonação de letras garrafais mesmo. E explicou como. Estava na sua lancha São Pedro quando o motor pifou. Sabia que com mais uma partida ele funcionaria por alguns segundos antes de pifar definitivamente. Conhecia aquela lancha, companheira de muitas viagens, há anos e sabia desse seu último suspiro. Esperou o momento oportuno, deu partida na bicha, e socou o pau para cima de um camalote gigantesco que vinha rodando, encalhando sua lancha ali e veio com ele rio abaixo. Não entendi de porque de colocá-la em cima do camalote, mas o assunto era outro. Como não tinha mais o que fazer, veio fazendo contas. Media a distância entre dois pontos, cronometrava o tempo e ai, "todo mundo sabe, velocidade é espaço dividido pelo tempo". Fez as contas e garantiu que a velocidade era superior a 6 km por hora. Eu, que não tinha me manifestado ainda, puxei o meu iPhone e dei uma goolgada. Entrei com "velocidade do rio Paraguai" e consegui descobrir que um dos rios mais rápidos que existem é o Paraná e na região das corredeiras ele atinge a "incrível" velocidade de 1m por segundo, ou seja, 3,6 km por hora, um pouco mais da metade da velocidade que o companheiro achava que corria o Rio Paraguai, um dos rios mais mansos do país, que de Corumbá até o mar tem menos de 100 metros de declive. Mostrei a ele o resultado e terminamos a discussão.

Uns 10 dias depois, coincidentemente, estava a mesma turma reunida no Mac Tom para jantar e ver o show da Rita Lee, quando começamos a discutir a idade dela. O Carlão falava que ela tinha quase 70 e eu que não chegava nos 65, e isso tudo com o Armando só ouvindo. Lá pelas tantas, com o Carlão fazendo as explicações do porque ele sabia que ela era muito mais velha do que ele, eu puxei meu iPhone e resolvi dar uma goolgada. Na hora que o Armando me viu digitando no telefone, ele vira para o Carlão e fala:
- Pode parar de discutir que ele tem um aparelhinho que assopra tudo para ele.
Foi uma risada só. Nem precisava ter perdido tempo, pois durante o show a Rita Lee revelou sua idade. Era de 1947 e tinha 64 anos, conforme o aparelhinho tinha me assoprado.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Tremembé

Era julho de 1974 e estávamos em Corumbá de férias. Éramos só Bea, Laura e eu. Lembro-me da viagem de São Paulo para Corumbá, o carro era um Maverick azul, com Tontonio e Lenir juntos. Fralda descartável era artigo de luxo e só utilizado nessas ocasiões. Não tínhamos essa consciência de hoje, de não poluir o meio ambiente, e Laura com 5 meses era trocada a cada duas horas e as fraldas usadas, lançadas ao vento. Nas férias aconteceu algo fora do nosso controle e que mudou totalmente a nossa vida. Apareceu uma epidemia de meningite em São Paulo. Por telefone, consultamos Jamal sobre a possibilidade de voltar com a Laura para lá quando ele nos aconselhou que esperássemos mais 30 dias. Foi a gota d'água. Juntou com meu descontentamento com a Bardella e a vontade de fazer engenharia civil para um dia voltar a Corumbá, para resolvermos mudar para o interior de São Paulo onde tivesse uma escola com curso noturno. Pensamos em São Jose dos Campos primeiro, mas a Mecânica Pesada, concorrente da Bardella era em Taubaté, e lá tinha a UNITAU, uma universidade com as características que estava procurando. Uma semana antes de terminar as férias, voltamos para São Paulo com objetivo de mudar de lá e de emprego. Sem ter visto anúncio procurando por engenheiro e sem conhecer ninguém, na cara e coragem, fui ao escritório comercial da empresa em São Paulo. Aí que minha estrela brilhou. Estava na recepção, conversando com a secretária e explicando a minha situação, quando o Diretor comercial, Artur Teixeira, ouviu tudo e me pediu que fosse a Taubaté para uma entrevista com o gerente do Depto de engenharia, o eng. Ivan Chu. Ele mesmo ligou para lá e escutei-o falando do fato de eu ser da Bardella. Conseguiu marcar a entrevista para o dia seguinte.


Um mês depois, cumprido o aviso prévio de 30 dias na Bardella, estava mudando para Taubaté. A cidade estava passando por um boom de progresso. Não conseguia arrumar uma casa para alugar, compatível com o meu salário e as nossas necessidades. Fomos nos afastando do centro e acabei saindo da cidade e chegando em Tremembé, a 7 km de Taubaté. A cidade devia ter uns 5.000 habitantes e as quadras eram muito pequenas, deviam ter uns 30 por 30 m. A primeira casa que alugamos, tinha uma barbearia no meu jardim. O proprietário fez a casa recuada e posteriormente se arrependeu do espaço perdido com esse recuo e resolveu aproveitá-lo construindo mais um cômodo que alugou para um barbeiro. A segunda, na mesma rua, era um sobrado sem garagens, que quando parava meu Ford corcel, duas portas, na frente dele, os para lamas dianteiro e traseiro invadiam os vizinhos.


A cidade era muito católica e tinha uma festa de comemoração de sua padroeira. Era uma coisa muito chique e ia gente do vale do Paraíba todo. Dois dias antes da festa as ruas eram interditadas para eles revestirem toda a pista com palhas de arroz coloridas e com desenhos de Nossa Senhora. Foi nessa ocasião que tudo aconteceu. Cheguei em casa e não pude estacionar o carro. Não entendi o que estava fazendo aquela montanha de terra em cima da calçada, esqueci de falar que ela devia ter uns 80 centímetros de largura, e ocupava meia rua, que era mais larga, devia ter uns 5 metros. Era mão única, pois dois carros não passavam por ela. Os que colocavam carro para dormir na rua tinham que defasar um do outro para não interromper o tráfego.


Cheguei perguntando a Bea o que aquela coisa estava fazendo na frente de casa e como ela deixou descarregarem aquela merda toda ali, quando a vi toda nervosa e vieram as explicações. A terra era nossa. No jardim de frente da casa, ele devia ter uns três metros de comprimento por uns 80 centímetros de largura, apareceu um buraco. Ela fez um prospecção do solo, enfiou ali um cabo de vassoura, e concluiu que era uma cratera e poderia colocar em risco a estrutura da casa. Fez uma cotação no mercado e concluiu que se comprasse de uma vez um caminhão de terra ficaria mais barato que em saquinhos, isso há três dias da festa e já com as guias das ruas todas pintadas de branco.


Já tinha recebido a visita do prefeito em pessoa, avisando que se não removêssemos aquela terra antes da chuva que estava se formando e que ia espalhar aquela merda pela cidade toda, ele enlouqueceria. Quando perguntei o quanto daquilo ela achava que entraria na cratera que ela tinha descoberto no jardim, ela me falou que aquilo já era a sobra. Dois carrinhos de mão encheram o buraco. Tive que pagar o dobro para removerem a terra ainda naquela noite. A festa foi um sucesso, já o susto, principalmente o de Bea, não foi fácil. Lembro-me dessa época com muitas saudades.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Lua de mel-parte I

Recebi meu canudo de Engenheiro Mecânico em março de 1973 e me casei em abril do mesmo ano, ou seja, um mês depois. Como tinha recebido uma boa quantia de presentes em dinheiro, do meu sogro e de Dr. Vinagre, que era padrinho de batismo de Beá, não estava muito preocupado com a parte financeira e fomos para nossa lua de mel.


Eu com 22 anos e ela com 18. Era uma época muito diferente da de hoje. Em 07 de abril às 10hs da noite, dei um beijo de despedida na minha esposa a menos de 24 horas e fui para casa dormir. A lua de mel só começava no dia seguinte e minha primeira noite de casado eu dormi com o Gerson. É mole?
Pegamos o avião no dia 8 de abril às 10 horas da manhã, um turbo hélice samurai e fomos para São Paulo. Meu primo Chico estava no aeroporto nos esperando, já com meu carro, um opala 72, duas portas, 4 cilindros, amarelo com duas faixas pretas no capô, revisado e pronto para início de nossa viagem de lua de mel. Passamos no nosso apartamento novinho em folha para verificar se os móveis tinham chegado em ordem e seguimos para Campos do Jordão, uma cidade serrana e escolhida para passarmos a primeira noite. Tinha a fama de ter uma estrada muito bonita e um clima maravilhoso, ideal para a noite de núpcias, pois não queríamos passá-la em São Paulo onde iríamos morar. O único acesso que tinha era por São José dos Campos. Alguns anos depois, meu sogro falaria uma de suas verdades engraçadas: "Cuidado quando te falam que a estrada é bonita e o clima é gostoso, pois normalmente é uma pirambeira só e um frio do cacete". Sábias palavras, não deu outra.
Chegamos no hotel Toribas e tivemos que apresentar os documentos de recém casados. Os hotéis mais finos não permitiam que casais de namorados dormissem no mesmo quarto. Foi a primeira vez que nos chamaram de senhor e senhora Marinho. Chegamos à suíte nupcial e o carregador de malas nos perguntou se queríamos beber algo. Quando perguntei a ninfa amada se queria uma champanhe ela me respondeu:
- Depois daquelas curvas da estrada, quero um sonrisal.
Pedi dois ao garçom, não ia tomar champanhe sozinho, e já fiquei preocupado com a nossa primeira noite. Mas foi tudo bem. O hotel era maravilhoso, a comida espetacular e a mulher, a minha. Estava recém formado, recém casado e com a vida toda pela frente. Programamos de conhecer o Sul do país e depois de passar três dias em Campos do Jordão para acalmar os ânimos, seguimos para Curitiba. Ficamos no hotel Ouro Verde e na entrada já houve nossa primeira divergência. Quando perguntei ao recepcionista se tinha ar condicionado e ele confirmou, Bea perguntou se tinha aquecedor. Ele ficou sem entender o que queríamos. Eu com um calor do cacete e ela com frio. Fomos para o quarto e como a viagem foi cansativa, enquanto ela tomava banho resolvi descansar um pouco. Fui acordado pelo telefone da portaria. Como já deviam ser umas 11 horas da noite, o recepcionista ligou dizendo que o quarto de baixo estava reclamando do barulho que estávamos fazendo. Dei-lhe uma puteada dizendo que ele nos acordou com aquele telefone, que já estávamos dormindo e que devia ser no quarto ao lado a bagunça. Pela minha voz de sono ele acreditou e se desculpou. Assim que desliguei o telefone, gritei para Bea, que estava tomando banho e pelo jeito a água não estava naquela temperatura de pelar porco que ela gosta, que parasse de pular no chuveiro que o cara do quarto de baixo já tinha reclamado para a portaria. Baseado em Curitiba conhecemos Vila Velha e o Porto de Paranaguá. Neste último fomos de trem e a descida e a subida da serra eram feitas com o mesmo fixado em uma corrente com freio e tração externas de tão íngreme que era o trecho. Conhecemos um casal que estava fazendo a sua segunda lua de mel, comemorando suas bodas de ouro. Ficamos companheiros de viagem e eram muito finos. Nunca vou me esquecer de um dos conselhos do velho: que o matrimonio é um cesto onde você vai colhendo rosas e colocando. Sustentados por duas alças, cada um tem que cuidar da sua e chamar a atenção do outro quando ele estiver baixando ou levantando demais. Disse ainda que não nos invejava pelo fato de estarmos começando e ele terminando, pois tudo que ele já tinha passado só deixava ele saudoso mas nunca triste e não gostaria de correr o risco de não ter esses momentos na lembrança em uma segunda chance . Muito legal os dois velhos e hoje vejo como eram verdadeiras as suas palavras.
Agora escrevendo essas lembranças, perguntei a Bea se ela se lembrava do casal e para minha surpresa ela respondeu:
- Os Veigas.
Ela que sempre teve uma memória pior que a minha, felizmente guardou o sobrenome dos dois.
De Curitiba fomos para Camboriu, e no caminho passamos por Blumenau e Joinville para fazer uma comprinhas de roupas de frio que eram muito baratas. Ficamos num hotel redondo e como era fora de temporada, éramos praticamente, os únicos hóspedes. Passeávamos a noite na praia e era uma segurança total. Não tinha bandidos, trombadinhas e outras pragas mais, abundantes nos dias de hoje. De lá seguimos para Florianópolis. Um dos lugares marcantes da viagem foi um restaurante nas margens da lagoa da Conceição. Serviam uns camarões gigantes e pescados na hora. Você os comprava vivos dos pescadores e os restaurantes preparavam na sua frente. Delicioso e muito barato. Saímos empanturrados e passando mal.
De Florianópolis fizemos uma das pernas mais longas e fomos até Porto Alegre fazendo uma única parada no caminho, em Torres, para almoçarmos. Passamos a noite na capital gaúcha e um único dia lá, pois resolvemos voltar pelo Uruguai e Argentina e conhecer as cataratas de Foz do Iguaçu. Já estávamos viajando há mais de 20 dias e percorridos 4.000 km. Seguimos para Montevidéu e fizemos em um único tiro também. Nessa viagem, uma das poucas que foi noite adentro, quase que terminamos a nossa excursão e, quem sabe, a nova vida de casados, mais cedo. Era uma estrada de pista simples e ia cruzar com um ônibus que estava piscando o farol colocando alto e baixo, me ofuscando. Achei que estava reclamando do meu farol e coloquei ele em alto e baixo também para que ele verificasse que estava com a baixa. Quando estava a uns 50 metros para cruzarmos que percebi que ele estava parado e nesse momento ele baixou as luzes e ficou só no farolete. Nesse momento eu dei luz alta e vi que ele estava parado em uma ponte e o espaço que sobrava para eu passar era igual à largura do carro e nada mais. Não dava para frear mais. Só tive tempo de fazer a pontaria e falar para Bea se segurar, pois na velocidade que íamos, qualquer triscada ou no ônibus ou no guarda corpo da ponte ia tudo pro saco. Passei quase raspando dos dois lados sem usar a tabela. Passado o perigo, perguntei a ela se tinha ficado assustada. Disse que não, que sabia que eu conseguiria. Fiquei contente de ver que tinha arrumado uma mulher corajosa para companheira. Alguns minutos depois, um desses pássaros que dormem no acostamento voou e bateu no pára-brisas, do lado dela. Ela levou um susto tão grande que as pernas tremeram por uma meia hora e de um tanto que cheguei a pensar que as rodas estavam desbalanceadas. Não era tão corajosa assim.
Fomos direto para o Hotel Flórida na plazza SAN Rafael, um dos mais bonitos do Uruguai na época. No dia seguinte, arrumamos um guia, o Juan, um velhinho, assim eu me lembro dele, mas vejo hoje que não devia ter mais do que uns 50 anos, e fomos conhecer a capital uruguaia. Foi onde dei o primeiro porre de vinho em Bea. Como o frio dela não passava, encheu a cara de vinho. Tomamos todas e fomos dormir. Ela começou a passar mal e eu, com toda minha experiência com bêbados, coloquei-a em baixo do chuveiro em uma noite que a temperatura devia estar por volta dos 10 graus. Ficou boa na hora. Adoramos Montevidéu, mas tínhamos um trecho muito grande pela frente e no dia seguinte, com Bea ainda ressaqueada, seguimos para Buenos Aires. "Bamos a los Argentinos".


quinta-feira, 19 de maio de 2011

O Cagão

Quando escrevi sobre o Tio Julio, deixei de falar de uma de suas características mais marcantes. Poderíamos dizer, para não ferir suscetibilidades, que a coragem não estava na lista de suas qualidades. Era bondoso, inteligente, pai zeloso, esposo amoroso, mas era um cagão de primeira.
Lembro-me de uma vez que ele teve que embarcar no vôo de Corumbá para Campo Grande. Eu, começando a estudar engenharia, resolvi explicar para ele e Tontonio, fomos juntos embarcar o Tio Julio, os princípios que levam o avião a voar. Não podia imaginar que isso provocaria a sua reação. Não entraria nas entranhas daquele monstro mais pesado que o ar e que só voava porque tinha um motor, com uma porrada de peçinhas empurrando aquilo tudo. Ficamos eu e o Tontonio falando sobre a segurança da aviação. Falei sobre a fábrica das turbinas, a Rolls Royce, e sobre como eram produzidas as "peçinhas", com o cuidado e perfeição de todas as fases, da escolha do material até os testes de qualidades. Que tinha o melhor controle de qualidade do mundo e blá, blá, blá, blá, blá, blá... Não sei se convencido ou de saco cheio de tanta explicação, catou sua maletinha e foi para o avião. Ficamos vendo ele embarcar e o Tontonio me puteando dizendo que eu com essa mania de engenharia quase ferrei com a viagem do tio. Estava contra argumentando que se fiz a caca também a consertei, pois fui eu que o convenci, com a mesma engenharia, de embarcar, quando tudo aconteceu. Quando ele ia subir as escadinhas, parou, olhou para as turbinas, deu meia volta e retornou para o saguão.
Quando perguntamos meio em coro:
- Que porra é essa tio?
Ele vira para mim é fala:
- É pratenei
- Queeee? - Continuou o coro.
- A turbina, não é Rolls Royce. É uma tal de pratinei
Quando conseguimos entender, eu falei:
- Pratt & Whitney, tio Julio. Tão boa quanto a Rolls Royce.
Mas já era tarde e o embarque há estava encerrado e eu tive que agüentar o Tontonio. Não tinha mais argumentos com aquele cagão que devia ter embarcado, ali do meu lado.
Muitos anos depois, mais de vinte, ele já casado e com filhos crescidos, sentiu uma pontada no peito e a tia Eliney, preocupada, quis levá-lo ao médico. Depois de muita insistência, ela conseguiu convencê-lo, mas ele colocou condições. Depois fiquei sabendo que ele tinha condições para tudo. Avião, por exemplo, ele voava, mas as turbinas tinham que ser Rolls Royce, e só eu e Tontonio sabíamos o porquê. Ele vivia criando situações engraçadas perguntando para as companhias aéreas a identificação das mesmas, num país que 99% das pessoas entram num avião sem saber nem qual a companhia que o opera. Mas voltemos à visita ao médico. A condição era que a tia Eliney poderia acompanhá-lo, mas não abriria a boca na consulta. Ele quem falaria tudo. Com tudo combinado, foram para o Dr Yasbik, acho que esse era o nome do médico. Na hora da consulta ele já olhou feio para a tia na resposta ao "bom dia" do médico e resolveu se apresentar antes da consulta e a conversa, depois que o médico o examinou, foi mais ou menos assim:
- Doutor, antes do senhor falar qualquer coisa, EUUU quero lhe explicar uma coisa primeiro. Sou um cara muito tranqüilo e acho que Deus nos manda tudo na medida certa. Quero que o senhor fale a verdade, nada mais que a verdade para mim, sem nenhuma reserva, pois se tem uma coisa que todos reconhecem em mim é a minha coragem de enfrentar todas as adversidades da vida.
Falou tão bonito que o médico, sem olhar para tia Eliney que tentava fazer sinais para ele, acreditou e disse:
- Muito bem seu Julio, então vou falar sem rodeios. Acho que o senhor está com uma obstrução significativa em uma das coronárias principais. Já pedi uma cadeira de rodas e vamos internar o senhor para mais exames, e se necessário, para fazer uma ponte safena, que é coisa muito simples nos dias de hoje.
Falou isso e ficou olhando para o tio Julio. Como ele não respondia nada falou novamente:
- Entendeu seu Julio?
Como não veio resposta o médico começou a reparar que ele estava com os olhos fixos no infinito e não os piscava.
- Seu Julio, está me escutando?
Ele não ouvia nada, estava em estado de choque. Saiu da sala, foi para o cateterismo, confirmou o entupimento, e tia Eliney que teve que autorizar a sua internação. Ele continuava em estado de choque. Quando perguntavam ao médico o que poderia ser aquilo, ele só respondia:
- Resolvemos o mais urgente e depois encaminhamos para outro especialista, que isso é uma defesa do organismo.
Ele fez a cirurgia e saiu da anestesia junto com o estado de choque dele. Teve uma amnésia parcial e não se lembra de nada que ocorreu entre o diagnóstico e o retorno da anestesia.
Sempre lhe falei que ele foi o maior cagão que conheci na vida.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Hyster

Era 1970, ano do tri. Estava indo para o terceiro ano de engenharia mecânica e tinha um monte de colegas já trabalhando. Sai atrás de um estágio e papai conseguiu, com tio Pires, arrumar uma entrevista na Hyster do Brasil. É uma multinacional que fabrica equipamentos de transporte e levantamentos sobre pneus e os principais são os guindastes e as empilhadeiras. Mais devido à amizade de tio Pires com o pessoal da revendedora desses equipamentos, a Leon, do que a minha capacidade, consegui o estágio na indústria. A fábrica ficava em Santo Amaro e o traje de trabalho era o paletó e gravata. Sentia-me muito importante com esses trajes de executivo. Meu estágio foi dividido em três partes de igual período e de três meses de duração cada. O primeiro foi na área de produção onde trabalhei com um italiano muito engraçado, o Felipo Zupponi. Aprendi muito com ele, mas a maior parte do tempo era brincando e falando de mulheres. Não me esqueci que ele vivia contando seus sonhos de ganhar na loteria, contratar três loiras peitudas para fazer massagens em suas costas usando os próprios e, em seguida, ia comprar um monte de gatinhos recém nascidos, daqueles sem unhas ainda, sentar pelado em uma cadeira sem fundos, colocar suas bolas no buraco e deixar os gatinhos brincando com elas. Lembrando disso agora, tantos anos depois, chego a conclusão de que o italiano era tarado mesmo.
A segunda fase foi com o Ariovaldo Batista, na engenharia. Então trabalhei já como gente grande. Fiz meu primeiro cálculo e me lembro que era um acessório para a empilhadeira poder carregar tapetes. A empilhadeira é um trator de rodas pequenas e maciças e que em sua frente tem um elevador acionado ou por correntes ou por um cilindro hidráulico. Normalmente tem um garfo de dois dentes que entram por baixo dos palets, elevam e transportam as mercadorias que estão sobre os mesmos. Nesse caso o tapete estava enrolado formando um tubo de até 8 metros de comprimento e esses garfos não tinham como pega-lo diretamente. Fiquei uns dois dias pensando quando tive a idéia. Substituiria o garfo por um tubo de 8 metros de comprimento que entraria pelo furo do tapete enrolado e daria apoio para ele todo. Transportados até o local de armazenagem e colocado na posição final, daria ré no veiculo deixando a peça já na posição certa. Feito os cálculos e o desenho esquemático, passei para o projetista detalhar o mesmo para aprovação do Ariovaldo. Quando ele me chamou para que eu certificasse que estava feito conforme o projeto e vi aquele negócio cumprido, resolvi brincar e falei que estava parecendo meu pixito. Ele não conhecia o termo, mas pelo formato imaginou o que seria. Como achou o nome muito engraçado, resolveu batizar a peça de Pixito do Tadeu e assim ficou. Achavam o nome engraçado e a coisa foi pegando, até que pixito para eles virou aquele sistema de carregar tapetes. Eu não me agüentava quando alguém falava que o Pixito estava bonito, que tinha ficado muito ajeitada. Só eu e o Davi que sabiamos o real significado daquele nome. Acho que até hoje tem muito pixito carregando tapetes por esse Brasil.
A terceira fase foi na área de controle de qualidade com o Fred Winkler. Queria continuar na engenharia, mas não deixaram. Eu tinha que cumprir o roteiro. No começo o Fred não me deu muita atenção, pois estava envolvido com um problema que tomava todo seu tempo. Passava-me serviços que eu percebia ser para que eu não o atrapalhasse. O primeiro foi calcular o comprimento do cabo do acelerador de um guindaste. Estava com aquele monte de desenho e tendo que achar o comprimento de um negócio em três dimensões. Já estava para ficar louco quando fui acompanhar as montagem de uma dessas máquinas e comentei com o chefe da montagem, um tal de Durval, do meu problema. Ele deu risadas, pegou um arame maleável e colocou o mesmo, do acelerador até a borboleta do carburador, que acelerava o motor. Cortou o arame no tamanho certinho e depois o endireitou. Entregou-me aquilo e falou para eu passar a trena e ali estava a resposta do meu problema. Quando passei o resultado para o chefe ele ficou todo contente e me passou o problema que o preocupava. Não deu tempo, ou não tive coragem, de dizer que a idéia foi do Durval, pelo menos naquele momento. As empilhadeiras usavam um motor chevrolet 4 cilindros, 2500 cilindradas, igualzinho a do meu opala, um vermelho Saturno, 4 portas, e que se chamava Tontonio. Depois de testada e vendidas um número razoável de unidades, receberam uma reclamação que o cárter tinha estourado. Não deram muita bola, trocaram o cárter e colocaram como possível causa mal uso do equipamento. Essas empilhadeiras andam dentro dos depósitos e devia ter batido em alguma trava de porta, daquelas que ficam chumbadas no concreto do piso. Quando chegou a segunda reclamação e muito em seguida a terceira, acenderam todos os alarmes e foi junto com a minha entrada na área do controle para o estágio. A engenharia alegava que o problema não era dela, pois o motor equipava um número de carros muito superior a de empilhadeiras e a GM não tinha nenhum relato sobre cárter estourado. Estávamos pesquisando o que tinha de diferente entre a operação da empilhadeira e do opala e tudo era a favor da empilhadeira. Foi então que aconteceu a feliz coincidência. Fui dar partida cedo no meu carro e ele demorou a pegar e quando o fez deu um POW, um só no motor e ele funcionou. Na hora do almoço já tive mais dificuldades de dar a partida e resolvi levá-lo para a oficina. Era um mecânico que já tinha trabalhado na GM, numa linha de montagem e numa autorizada e agora tinha sua própria pequena oficina na Lins de Vasconcelos. Falei do problema e ele falou que era regulagem do carburador e que se eu esperasse, ele faria na hora. Tirou o filtro de ar que ficava sobre o mesmo e começou a mexer no giclet do carro. O filtro tinha um cano que ia para o cárter para permitir que o mesmo respirasse e na entrada desse caninho de mais ou menos uma polegada tinha uma telinha, na realidade eram duas telas espaçadas de uns 3 milímetros, curvas e fixadas no mesmo suporte. Como ele retirou aquilo, eu a peguei e fiquei olhando aquela peça achando por demais esquisita e falei:
- Que porra é essa Ronaldo (esse era o nome dele)?
Sua resposta foi surpreendente e para mim veio do além:
- É chamada de anel corta chama. Isso serve para quando der uma explosão que nem aconteceu no seu carburador a chama não passar por esse cano e ir para o cárter que esta cheio de vapor de óleo e é altamente inflamável. E o interessante que ele tem que ser montado com a parte côncava para o lado do cárter, se não ele explode.
Quase dei um beijo nele. No dia seguinte cedo, fui direto para a linha de montagem e encontrei com o Durval. Fomos até a empilhadeira que ele estava montando e pedi que ele abrisse o filtro do carburador. Fui direto para o respiradouro do cárter e lá estava a telinha com a parte côncava virada para o lado errado. Contei da oficina do meu carro para o Durval e ele branqueou na hora. Era o responsável por aquele erro monumental. Pediu-me que o deixasse falar com o Fred, pois senão poderia de se ferrar. Apesar da vontade que eu estava de aparecer para meu chefe, aquele era um pai de família e a menos de dois dias tinha me ajudado e sem eu pedir. Concordei que não falaria nada a ninguém e ele ficou com a culpa de ter feito a merda e os méritos de tê-la descoberto.

No final do estágio, fui agradecer aos que me ajudaram e fiquei feliz de ver que todos me convidaram para voltar como engenheiro, mas a despedida do Durval foi a mais emocionante. Ele devia ser um senhor de uns 50 anos já e quando fui a sua sala dizendo que era meu último dia, ele me abraçou e disse que quando tivesse o meu próprio negócio era para chamá-lo, pois queria trabalhar para mim. Aquele reconhecimento me deixou mais feliz que qualquer mérito que poderia ter pela solução do cárter estourado. A Hyster foi meu primeiro emprego e como a primeira namorada, tem um lugar especial em minhas recordações. Já se foram 41 anos e ainda me lembro das feições de todos eles, principalmente do Durval. Foi uma das vezes que a razão venceu a emoção, como gosta de dizer o filósofo Alaer Garcia. Mas não foi fácil.

sábado, 14 de maio de 2011

Rafael e seu amigo Joao Vitor

Estávamos na fazenda, Laura com o Zé Carlos, os filhos Rafael e Thiago na época meus únicos netos, e se mais gente já não me lembro. Thiago era de colo e Rafael com 3 anos ficava o dia todo comigo pois não tinha ninguém de sua idade para ele brincar. Ficávamos na areia da praia da casa brincando e quando tinha que fazer algum serviço ele ia comigo. Então descobrimos que na fazenda Santa Catarina tinha uma criança da sua idade, neto de seu Assis, nosso amigo e vizinho.
O programa foi fazer uma visita a ele, para o Rafael passar a tarde com o amiguinho. No começo ele não queria ir e tive que contar uma história comprida, que era um garotinho que morava no mato, não tinha televisão e nunca viu um carrinho daqueles dele, e que ficaria muito feliz de ter um companheiro da mesma idade para brincar. Com isso ele se entusiasmou e foi com todos os seus carrinhos.
Aqui temos que fazer um parêntese para falar de Rafael e o ciúme que tinha de seus carrinhos. Em São Paulo ele tinha monte e não deixava o Thiago mexer em nenhum. Em uma ocasião, eu brincando de garagem com ele, e estacionando todos em ordem, o Thiago começou a chorar que queria participar também e ele não deixava, argumentando que o irmão não sabia brincar e queria comer os carrinhos. Quando pedi a ele que desse, pelo menos um para o irmão, ele olhou todos, pegou um Fiat amarelo já sem portas e o entregou dizendo: " Ta bom, ta bom, toma Thiago, baba nesse".
Já na fazenda ele devia ter só uns três ou quatro, desses de plásticos maiores e próprios para brincar na areia. Pegou todos, colocou numa caixa e fomos para a fazenda do vizinho. No começo foi aquela sem graceira de ficar grudado na perna da gente, mas com o tempo foram se soltando e em dois tempos estavam transportando areia de um lugar para o outro. O João Vitor, esse era o nome do gurizinho de seu Assis, ficou encantado com os brinquedos e passaram a tarde toda brincando. Tinha uns dois caminhões basculantes, um de carroceria trucado, uma pá carregadeira e não lembro mais o que. O João Vitor tinha um feito de uma lata de azeite e cheio de areia que nivelava as ruas para facilitar o tráfego dos outros. Dava gosto de ver duas crianças de origens tão diferentes se entendendo tão bem. Um super urbano e outro criado na fazenda desde que nasceu.

No final do dia, quando nos preparamos para voltar para Piratininga, o Rafael deu a primeira refugada, não queria ir. Depois de prometer que voltaria um dia, ele começou a arrumar seus carrinhos. A Laura perguntou a ele se não queria dar um de seus carrinhos ao João Vitor. Ele abriu o maior sorriso e começou a escolher. Aí aconteceu o fato que tornou o motivo desta história. Ele pegou o mais bonito e mais novo de todos e estendeu ao seu novo amigo. Este ficou sem ação, pois não esperava que ele desse aquele do qual mais gostava. A mãe do menino, percebendo que era o mais novo, não quis aceitar e pediu que ele desse um outro mais velho e com o eixo dianteiro já meio torto. Aí a Laurinha interferiu e falou que se ele quem tinha escolhido era para deixar. Os dois com aquele brilho nos olhos acabaram me emocionando. Um tendo o prazer de doar e o outro de receber.
Desde aquela época eu já sabia que esse meu neto ia ser um grande sujeito e até agora ele não me decepcionou, nem uma única vez.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Relatividade

Papai gostava de falar que o tempo era inexorável, e o que você fazia estava relacionado com a velocidade com que ele passava, mas passava sempre. Meia hora podia ser uma eternidade ou um átimo (ele também gostava dessa palavra) de tempo, dependendo se você estava numa cadeira de dentista com aquele motorzinho te torturando ou comendo um bom bacalhau acompanhado com um vinho português. Era a filosofia dele e de repente extrapolava para a matemática e ai vinha dizendo que essa devia ser a tal da Teoria da Relatividade do Xará dele, o tal do Alberto Einstein.

Hoje vejo que tudo é relativo, não só o tempo. Outro dia me pegaram para assinar uma rifa para o asilo São Jose, daquelas que você escolhe um nome e ganha aquele que acertou o escondido na folha. Em uma rápida olhada vi que tinha 20 linhas e dez colunas. As chances para uma única escolha era de 1 para 200. Demais. Assinei para ajudar o asilo e porque era a Lucy que estava passando a lista, o braço direito de Mamãe, presidente da entidade, e nunca conferi. 1:200 era demais. Não passou mais de um mês e minha nora grávida foi para um exame mais detalhado, pois o ultra-som acusou que o feto poderia ter problemas e as chances eram de 1:186. Ai o bicho pegou e o 1:186 virou uma coisa quase certa. Ninguém dormia mais e quando olhava as outras estatísticas via a coisa mais preta ainda. 1:186 passou a ser a "quase certeza absoluta", como dizia o meu veterinário mor, Dr. Marcio Ribeiro da Silva. Graças a Deus deu tudo certo e os riscos foram afastados.

A possibilidade existe de acordo com os números e eles são frios, nós é que não somos. Quando fui operar minha vesícula, há algumas semanas atrás, não queria saber de estatística nenhuma, pois o risco era baixo para quem me mostrava os números e altíssimo para quem estava com o fiofó na reta... eu! Não consigo entrar em um Air Bus e não comparar os números com os do Boing. Vou sempre "cortando agulha" quando viajo no primeiro.

Mas nunca gostei de estatística como parte da matemática. Acho que é uma maneira de corrigir a nossa ignorância. Se você tivesse todos os parâmetros para análise, a resposta seria exata. A chutação dos mesmos é que justificam as probabilidades e nossa sorte é que agora, as análises estão cada vez mais detalhadas e precisas e conseqüentemente os resultados mais exatos. Antes, numa gravidez, você tinha chances de 50% de ter um filho homem e 50% mulher. Agora já estão desenvolvendo estudos e descobrindo que o sexo da criança não é aleatório, mas depende de um monte de fatores, tipo, tempo decorrido entre a ultima menstruação e o bem bom, temperatura corporal da mulher, tesão do casal e um monte de coisas mais, já descobertas e outras a descobrir ainda e na hora em que definirem todas as variáveis que interferem nisso, vai acontecer de você medir isso tudo e em vez de ir direto para cama, primeiro introduzir isso tudo no computador e só depois falar para a companheira "e ai vamos fazer uma guriazinha" é que vai começar os preparativos para a outra introdução. Só espero que não mudem o método da concepção, pois isso é bom demais, principalmente o treinamento.

Mas não sei se com toda essa técnica a vida não vai ter mais tantas surpresas e perder um pouco de seu colorido. As coisas estão indo muito rápido e vou estar aqui para ver isso. Se Deus quiser.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Minha vesícula

10 de marco de 2011.

Vão tirar minha visícula. Não tem coisa mais simples..., nos outros. Em mim vão tirar um pedaço e que está comigo há mais de sessenta anos. Já arrancaram a ponta de meu dedo e agora, minha visícula. A vida está me depenando, e me sinto como esses carros velhos que você vai tirando as peças, mas ele continua andando. Os cabelos brancos são como a pintura queimada, as rugas são como riscos na lataria. Não vou mentir... Estou com o cú na mão. O Rafael, meu neto mais velho, vai fazer 11 anos no dia 24 de março, e vou fazer a cirurgia no dia 18 para poder comparecer a sua festa, só eu, a minha visícula já não irá. Ontem à tarde ele me telefonou. Queria saber do que eu iria operar e quando eu falei, ele perguntou de lá:

- Mas onde fica essa "testícula"?

Tive que soletrar três vezes, pois não poderia correr o risco de se espalhar em sua escola, que o avô era capão. Beá esta me gozando direto. Olha para mim e quando faço sinal que estou "cortando agulha" de fiofó tão trancado de medo, ela dá risadas. É a minha visícula e não a dela que está na mira, além do que eu nunca vi mulher mais corajosa para ser operada do que a minha. Já teve cirurgia que ela marcava pensando que ia ser bom, pois aproveitaria para fazer umas comprinhas no Iguatemi. Não sei se era a coragem ou a vontade de comprar que falava mais alto. Eu já sou cagão e detesto shopping. A única motivação é o aniversario do Rafa, mas já fui aos outros 10 sem precisar tirar nada.

19 de março

Estou sem vesícula, operei ontem às 17 h. Tudo correu bem, inclusive aprendi que se escreve com "e". Sai da sala cirúrgica com o vídeo da minha laparoscopia. Parece um desenho animado de uma luta entre a bolha assassina e um super herói de mãos de aço. É impressionante como o cara aperta aquele saquinho e não estoura tudo. O super herói foi o Dr. Milton Scalabrini e o seu fiel escudeiro, o Dr Luis Carlos Ishikawa, que me colocou para dormir. O difícil está sendo o pós cirúrgico. Tudo tranqüilo inicialmente, urinei nas primeiras horas, mas o número 2 que não vai de jeito nenhum. Primeiro que não tem matéria prima. Já fiquei 12 horas em jejum para operar e mais doze de pós cirúrgico. Tem 24 horas que não entra nada, vai sair o que? A coisa só piora quando vejo que não me darão alta enquanto o intestino não funcionar. É algo como "Só você sai, o coco fica", mas a merda é que a própria quer ir comigo para casa. Não tem jeito, não sai nem com reza braba e eu estou com medo de estourar os pontos de tanto espremer a barriga. A hemorróida velha, já nem ligo pra ela, o objetivo é expulsar esse bolinho que esta se formando, mas sem nenhum sucesso até agora, a não ser a tóba que esta ficando uma flor. Vida cruel.

20 de março - 1h da madrugada.

Primeiro achei que era sonho, pois escutava o alarme de incêndio do hospital e sabia que era para evacuar o mesmo. Era perseguição comigo. Se não consigo evacuar nem meu intestino, imagine o Albert Einstein inteiro. Quando acordei por inteiro, vi que o alarme de incêndio estava gritando duro, e a minha acompanhante não acordava de jeito nenhum. Resolvi ir para o corredor ver o que estava acontecendo e encontro a acompanhante do quarto ao lado. O marido tinha feito uma cirurgia de quadril. Ficamos conversando até que ela quis saber quem eu estava acompanhando, preocupada com o caso de se precisar sair correndo. Disse que eu era o operado e a minha esposa não tinha acordado com o alarme. Para ela não achar que estava com uma acompanhante incompetente, expliquei que ela é seletiva para acordar. Ao meu menor gemido ela levanta, agora alarme de incêndio... Acho que ela não acreditou muito. Mas era alarme falso. Aproveitei que estava acordado e fui para o vaso dar mais uma espremida e... nada. Nem gases. Estou ficando nervoso, pois sinto que o troço vai virar um trôço e vai ser um parto... Pelo rabo. Quando mais você se preocupa pior fica. Voltei a dormir com a esperança de um novo dia e de conseguir expulsar tudo numa boa.

20 de março - 5:45 hs.

Isso que é o ruim desses hospitais. Acordam você no meio da noite e não te deixam dormir de madrugada. Exame de glicemia, medição de pressão e vão mexendo com você até perder o sono. Não podem esperar o cristão acordar para fazer isso tudo. Então veio a pergunta trágica:

-Evacuou?

-Não, foi alarme falso, tanto o do incêndio como da minha barriga. Nadinha de nada até agora. A impressão que tenho é que quando vir vou continuar aqui para restaurar a tóba. O enfermeiro deu risadas.

9h

O cirurgião passou às 9 h e me deu alta, mas só posso sair com a alta do clínico, o Dr. Antonio Carlos ou sua assistente, a Dra. Lindalva. Minha dúvida é se ela vai deixar eu ir embora com essa merda toda. Já vai para três dias. Tenho a impressão que o estômago está funcionando bem, pois vivo com fome, agora o problema é de intestino preguiçoso. Isso para mim é o supra sumo da preguiça, não querer fazer merda nenhuma.

21 de março - 0h

Mas a Lindalva experiente me liberou. Falou que ali eu não conseguiria fazer nada. Receitou um tal de Nujol e me mandou para casa. Descobri o porquê do nome assim que tomei a primeira dose. O negocio é um nojo. Um óleo grosso tipo SAE W 40 para motor velho. Era um lubrificante pro negócio escorregar. Duas colheres de sopa às 18h e mais duas ao deitar às 22h. Errei na dose, era uma e uma. A meia noite entrei em trabalho de parto e começaram as dilatações. Agora sei como é dar a luz. Teve uma amiga de meu filho Beto, que, ela grávida, ele brincou com ela dizendo que era fácil parir um filho. Ela respondeu que sim, que era mais ou menos como cagar um coco. Comprovei a teoria e me arrependi de não ter tomado o vidro todo do nujol. Mas passei por essa. Agora é esperar o retorno ao médico, retirar os pontos, e bola para frente. A cirurgia foi tranqüila, já o côco, não foi fácil.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Porto Sao Pedro

A grande dificuldade que os paiaguenses enfrentam é a logística de transporte. Não é fácil você escoar sua produção, mesmo que ela ande sozinha, como é o caso do gado. Estão acabando os condutores que formam as comitivas e que com seis ou sete homens, incluindo o cozinheiro, leva uma boiada de 1000 a 1200 cabeças. Eles vão por 25 a 30 dias por esse nosso pantanal, dormindo muitas vezes ao tempo. Levam os mantimentos em bruacas no lombo de burros e o cozinheiro sai junto com o gado, mas como está escoteiro, anda mais rápido e chega antes no ponto do almoço ou do pouso e prepara a bóia da turma que vem conduzindo o gado atrás. Quando a comitiva é boa, os bichos nem sentem e já aconteceu de até engordarem no caminho, mas isso está acabando. Temos que usar o rio Paraguai para transportar o gado e aí o problema é outro. Não temos portos apropriados para embarcar o gado e os boieiros são feitos nas coxas, nem água para o gado beber tem e isso com você navegando em água doce e num dos maiores rios do Brasil, o Paraguai. Com todas essas dificuldades, e ainda assim o nosso município tem o maior rebanho do Brasil, com mais de três milhões de cabeças.

Agora estão reformando o Porto São Pedro do Armando Lacerda. Participei da execução do projeto e acredito ser um grande avanço para contornar esse grave problema. Precisamos de vários portos e todos tem uma dificuldade em comum que é a diferença de nível máximo e mínimo do rio em que deve se dar o embarque. Nesse caso a dificuldade foi contornada fazendo um corte na margem do rio e fazendo uma canaleta de concreto de 1,20 de largura. O fundo da canaleta esta numa inclinação confortável para o gado descer e subir, no embarque e desembarque, e as paredes de altura variável, são mais íngremes e acompanham a inclinação do terreno. Tem uma prancha cuja cabeceira corre por cima dessas paredes e sua outra extremidade vai por dentro da canaleta e apoiada no fundo. O gado entra nessa canaleta até chegar próximo a balsa, quando sobe na prancha móvel e daí para a prancha da balsa. Existem paredes móveis feitas de canos galvanizados e madeira completando o corredor até a balsa e que vão sendo montadas à medida que o nível do rio abaixa. A construção está sendo feita por três homens de coragem: o Sergio, chefe da equipe e que parece um badboy e é um trabalhador incompatível com sua gordura, que só é tratado por gordinho, o Sebastião, que de tão bruto vive se machucando, e que acabou de cair dentro de uma caixa de gordura, e o Julio, que é o único que "guenta" as ordens do gordinho sem reclamar, muito. Estão se tornando os construtores do pantanal. Eram totalmente urbanos, mas já aprenderam a viver nesse mato, dormindo em rede, comendo carne de sol e não se importando com os mosquitos. Temos também um engenheiro experiente e que apesar de ser construtor de shoppings no Rio de Janeiro, encarou esse desafio no rio Paraguai, o dr. Carlos Larica.

O projeto foi desenvolvido de modo a mexer o mínimo com o meio ambiente e se conseguiu até diminuir a área antropizada do Porto antigo. Foi usado concreto armado ao invés de palanques em todas as colunas do mangueiro e cordoalhas ao invés de tábuas, minimizando o uso de madeira. Apesar de todas as dificuldades de transporte desses materiais, a pedra para o concreto teve que ser toda ensacada, e conseqüentemente um custo mais alto, o beneficio é compensador, tanto quanto ao tempo de duração do mangueiro quanto ao impacto ambiental, que neste caso foi, sem dúvida nenhuma, positivo. O Armando está de parabéns e espero que outros empreendedores como ele façam o mesmo melhorando nossas condições de transporte e ajudando a construção desse nosso pantanal.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Palavras e "PALAVRAS"

Papai foi um estudioso das palavras. Gostava de conversar sobre as mesmas e observar que o significado e a pronuncia de muitas delas tinham em uma correspondência biunívoca, ou seja, uma feita para a outra. Ele tinha vários exemplos e me lembro de alguns: Terremoto, você ao falar já se treme todo. Escarro, acabou de falar a palavra, pode cuspir. Assopra, faz um vento louco enquanto você fala. Rapadura, nunca poderia ser uma coisa mole, mas eu questionava essa, por causa do dura.

Outras que ele gostava de estudar eram as parecidas, mas de significados quase que opostos. Gostava de falar que tirando o n da teNsão, acaba o problema e o relaxamento é automático, lógico que após o ato. Trocando o lugar do R e o que era peRfeito passa a ser a coisa mais difícil de alguém achar ali.

Quando ele descobriu que Boing era sobrenome de um dos fundadores da empresa,William E. Boeing e não do jato devido ao barulho que ele produzia, ficou encantado. Esse cara não poderia trabalhar com outra coisa, tinha que ser com jato. O nome dele é o barulho de um jato passando.

E as palavras que são proveniente do barulho que produz, como o Bem-Te-Vi. Então ele exagerava e falava que "estrondo" e "assovio" também eram, e dava risadas para ninguém pensar que ele era besta. E quando ele separava as palavras para saber a sua origem. Vira e mexe saía besteira, como "Felicidade", que ele concluía que era comprimento de aniversário e a síntese de feliz idade, felizidade e, por fim, felicidade. E vai discutir com ele. E então eu gozava que vagabunda era uma bunda mal definida, pois uma coisa vaga, era uma coisa incerta e bunda...

Agora, sem ele, vira e mexe eu me flagro analisando as palavras também e toda vez que encontro alguma engraçada, lembro-me dele. Hoje, 15 de março de 2011, completam quatro anos que ele se foi e com ele as brincadeiras com as palavras. Vou fazer um dicionário de todas que lembrar e colocar aqui para não caírem no esquecimento.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Nicolau Jorge Netto


Não lembro quando conheci o Nicolau Jorge Neto, talvez no arquidiocesano, no segundo ou terceiro científico, há 45 anos. Lembro-me bem de quando estudamos juntos para o vestibular no Anglo Latino. Era ele e o Olavo os meus companheiros de passar a noite sobre os livros. Entramos juntos na faculdade e então nos tornamos grandes amigos. Dividíamos a condução e cada dia era com o carro de um que íamos à escola. A Mauá ficava em São Caetano e era quase uma viagem a ida até lá. Passávamos o dia todo na faculdade e almoçávamos ou no restaurante da escola ou num barzinho perto que se chamava "O Rancho". Éramos eu, ele, a Zuzu e o Roberto. Era a turma da faculdade e acabamos ficando bons amigos. Perdi totalmente o contato com todos eles, mas me lembro muito bem do Nicolau, era um cara excepcional. Nunca reclamava de nada, tudo estava bom e se algo errado acontecia, ou a culpa era dele ou tinha motivos "superiores" que justificava o ocorrido.


Um dos lances que não esqueci nunca, foi quando ele ganhou um presente do pai, não sei se era um relógio ou uma caneta, mas daquelas coisas chiques no último. Vivia se gabando e explicando que foi presente por ter entrado na faculdade. Ele era o número 7094 na escola, onde o 7 era o número da turma e o 094 a classificação no vestibular. Não sei como, mas um dia sumiu sua caneta (relógio). Como todos conheciam a história, foi uma busca digna de FBI. Loteamos as áreas com um responsável por cada lugar, fizemos ele recompor todos os passos do dia para se lembrar quando foi a última vez que ele tinha visto o objeto, e já íamos para mais de hora procurando, a Zuzu já querendo chorar, quando ele falou:


- Pessoal, não tem jeito. Agradeço a todos, mas isso tinha endereço certo.


Quando achamos que ele ia culpar alguém e dizer que roubaram ele completou:


- Quem achou deve estar precisando muito mais do que eu e fará um melhor uso. Não vou deixar meu pai saber até me formar, vou conseguir economizar e comprar outro igualzinho.


Na hora não demos muita bola para aquilo, mas algum tempo depois fomos raciocinar sobre sua atitude. Empenho para recuperar; motivação para fazer os companheiros ajudarem na busca, resignação para aceitar o que não tinha jeito, consolação pensando em outro mais necessitado e novo objetivo, comprar outra igual para não chatear o pai. O cara era "o cara".


Teve um feriado de semana santa em que ele me convidou para passar com a família dele. Nós dois morávamos longe de São Paulo, mas Martinópolis em comparação com Corumbá era "bem ali". Foi uma das semanas mais agradáveis de meu tempo de escola. Estudávamos muito e merecíamos umas férias, mas aquela semana suplantou todas as minhas expectativas. A cidade era pequena, uns 30.000 habitantes e ele conhecia quase todos, principalmente as mulheres e, sem exceção, as solteiras. A casa era construída em um terreno e no lote ao lado, ficava a piscina e a churrasqueira. Nessa semana que passei lá, nesse lugar teve a maior concentração de mulher bonita por metro quadrado. Todas da cidade iam para lá e se revezavam. Saia um grupo entrava outro. A mãe dele, super simpática, infelizmente esqueci seu nome, só me lembro que começava com Z, quando ia levar suco para a gente ligava do telefone da casa para o da piscina avisando que ela estava chegando. Não queria ter surpresas e tão pouco surpreender-nos. Hoje eu não tenho duvidas que esses dias estão na relação dos melhores da minha vida de solteiro.


Quando fomos para o terceiro ano nos separamos, ele foi para a engenharia elétrica e eu para a Mecânica. Brincávamos muito dizendo que iríamos fazer uma sociedade depois de formados. Iríamos criar "cavalos vapor" para pastar em "campos magnéticos". Muitos anos depois, eu escutei isso como piada e ninguém acredita que nós que a inventamos. Também, não existe patente de piadas.


Mas terminado o curso, ele voltou para Martinopolis e fui reencontrá-lo 25 anos depois, aqui em Corumbá. Ele era um alto executivo da Cesp. Depois disso não fiquei mais sabendo do Nicolau, mas agora, depois dessas lembranças, bateu saudades e vou procurá-lo. Se eu achar, faço um novo Post.