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segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Pro Matre Paulista.


Estava esperando o Guilherme para irmos tomar café, quando comecei a prestar atenção naquele prédio. Quantos anos já tinham se passado desde que entrei ali, ou melhor, desde quando ouvi falar dele pela primeira vez. Como sou de 1950, deve ter sido por volta de 1960, quando papai me contava sobre o parto de mamãe no meu nascimento. O Dr. Enéas, para se gabar, falava que podiam ficar tranquilos, pois ele tinha estagiado na Pro Matre Paulista. Nunca poderia ter imaginado como a Pro Matre faria parte de minha vida de uma maneira tão significativa. Uns 15 anos depois, fui acompanhar Bea no nascimento de nossa primeira filha, Laura, e aí conheci a maternidade pessoalmente. Depois, mesmo morando em Taubaté, voltamos para os partos de Beto e dos gêmeos Daniel e Guilherme. Quase quarenta atrás.
Daniel está aí firme e forte até hoje, graças a Deus e à Pro Matre, não tenho dúvidas. O pepino que teve no seu nascimento, se não fossem os recursos que havia lá... babau. Aí se passaram muitos anos, uns vinte e cinco, e veio o primeiro neto, filho de Laura – a Laura, que nasceu lá, e ali voltou para parir. Recomeçou a terceira fase. O trauma com Daniel e Guilherme foi tão grande que todos os netos, com exceção do apressadinho do Antônio Pedro, desembarcaram naquele Porto. Apesar de toda a dificuldade de transporte, já que só a Laura mora em São Paulo, as noras tinham que despencar de Corumbá – mas valeu a pena. Sabíamos que, numa encrenca, estaríamos no lugar certo para sairmos dela. Mas graças a Deus, até agora, treze netos e doze partos depois, tudo correu às mil maravilhas. O último, ou melhor, os três últimos, já vieram de lote. Passamos o ano novo dentro da maternidade tomando champanhe. Guilherme e Beto quase fecharam as portas para serem atendidos. O Miguel nasceu no dia 29 de dezembro e João e Gabriel, gêmeos, no dia 1 de janeiro de 2012.
E como meu sábio pai falava que a história sempre se repete, os gêmeos, como o pai e o tio, foram para a UTI. Graças a Deus, estávamos na Pro Matre novamente. Não vou negar, fiquei preocupado, me veio à lembrança o passado de quase trinta e seis anos atrás; mas correu tudo super bem. A Paty, que estava internada lá, não conseguiria ir para a antessala de parto, acompanhar o da Ana – mas deu tanta sorte que ela  teve alta no dia do nascimento dos gêmeos, saiu por uma porta como paciente com alta e entrou pela mesma como visitante. Acompanhamos a chegada dos dois com Miguel na sala de espera. Foram três boludos de uma única vez.
Parece que a fabricação de netos parou por aí, não sei não... mas como estamos muito bem de saúde, tanto eu como a Pro Matre, talvez nos reencontremos no desembarque da próxima geração. Quem sabe!

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Férias em Piratininga

Fui de férias para fazenda Piratininga. Saímos todos e a Ema ficou nas mãos de Tadeu, meu sobrinho. Diretor, gerentes administrativo e de produção, tudo passeando.
Fomos em 12 adultos, 11 crianças, 3 babás e um cachorro. Não é fácil. Como diz Zé Mauro, os putinhos revezavam e quando a metade estava dormindo, a outra bagunçava e não deixavam a gente em paz em nenhum momento. Porrada saía a toda hora. As meninas, em minoria, se defendiam com mordidas. No embarque da primeira turma, foram no 206: Benjamim, Thiago, Leo, Bea, Laura e Alice, a cachorra. Meio tranqüilo. Já na segunda viagem, o Daniel foi fazer o despacho junto com o Marcelinho. Eram de adultos: Paty, Bia sua amiga de Piracicaba, Ana e Raquel, esposa do Marcelinho, e uma criançada louca. Tomas, Felipe, Bernardo da Raquel e o Leo da Bia. Começou uma correria em volta do avião e o Marcelinho já soltou:
- Isso é pior que mexer com vaca parida e aqueles bezerrinhos correndo para tudo quanto é lado.
Fui na terceira viagem, com Daniel e Livia, uma das babás, Lara e Antonio Pedro. Teve a turma do barco, Beto, Guilherme, Celso, Paulo, Rafael e duas babás. A casa parecia a república que os esalqueanos moravam em Piracicaba. Apesar da bagunça, tudo muito gostoso. Uma turma boa e bem disposta. Na mesa, nas refeições, você podia escolher qual conversa acompanhar, pois tinha no mínimo três acontecendo ao mesmo tempo.
O programa era tomar banho de vazante, comer muito, beber mais ainda e sair a tarde para ver os bichos. Daniel que é um fotógrafo de primeira, não perdia nada. Tudo registrado. No último dia saímos para o último passeio da temporada. De mulher, só a Bea, Thiago e Rafael, de crianças, eu na boleia, o Pepe na frente comigo. Atrás o Beto, Daniel e Guilherme. Apareceu o porco e ninguém conseguiu tirar uma foto dele. Tive que dirigir e fotografar o bicho ao mesmo tempo, mas consegui.
Agora estou no avião de volta. Vim na primeira viagem. Na hora de embarcar já levei um susto. No manche do avião estava um monte de fita crepe, daquelas transparentes, e já achei que tinha alguma coisa quebrada e fixada com aquele durex. O Zé Mauro viu que eu me assustei e já falou: "Isso é para eu fixar meu chapéu no para brisas quando estou voando com sol de frente”.
Descansado e pronto para continuar no batente. As férias na fazenda é uma função de muitas variáveis para ela ser boa ou não, mais a de maior sensibilidade é a companhia. Filhos, noras e netos são sempre nota 10. As visitas que fazem a diferença e dessa vez tivemos muita sorte. A Ana levou a Raquel, a Turca, com o Bernardinho, seu filho de 1 ano e 5 meses. Ele alegrou a casa junto com os netos. Não podia me ver que já começava a cantar o "é pic, é pic..." e ensinado pelo pai falava " é pica, é pica..." e no final terminava com a saudação de "pretinho, pretinho, pretinho", que é como o pai, quase dessa cor, o chama, apesar dele ser bem loirinho. O casal amigo da Patty, a Bia e o Pepe, nota 10. Topam qualquer parada e ela é muito engraçada. O filho de um ano e 4 meses, esse é meio tarado e tentou violentar minha cachorra. Vou botar o vídeo no youtube e vamos ver se não vou ser processado por pedofilia e ou zoofilia. A Bia, a amiga da Paty e dessas Piracicabanas legítimas, daquelas que árvore pequena é arvinha, e o legal é que ela tem o maior orgulho disso. Suas histórias, que já são muito engraçadas, ficam mais ainda quando contadas com aquele sotaque carregado.
Os netos quando enlotam assim ficam por demais excitados, impossíveis eles já são sozinhos, e toda hora tem mãe executando algum. O programa principal foi ensinar o Thiago, de nove anos, a dirigir. Já faz isso sozinho, numa L 200 mecânica e com o Rafael, já experiente de seus onze anos, dando palpites. Não é fácil, mas ele leva jeito. Começam com 9 e aos 14 já conhecem tudo. Agora estou comprando um Jipe para eles. Vai ficar na fazenda e vai ser só da netaiada. Segundo Laura, o impossível vai se tornar insuportável, mas a graça é testar os limites dos pais.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Filhos!

Devia ser 3hs da madrugada quando escutei aquele conversa sussurrada de Bea com Daniel na porta de meu quarto. Como era época de férias, levei aquele puta susto, pois sabia que devia ser alguma coisa relacionada com filhos e para ele acordar a mãe naquela hora, não devia ser coisa simples. Pulei da cama, já com o coração a 200 bpm e perguntei:

- Quem, quando e qual foi a merda?

A resposta veio na ordem trocada:

- Beto caiu num buraco com seu monza... agora.

Já pensei o pior, e só consegui perguntar de tinha alguém machucado. A resposta foi ininteligível:

- Não machucou ninguém, buraco pequeno.

- E nos acordou porque?

- Estão te chamando lá.

Já estava ficando tranqüilo com o tamanho do buraco quando fiquei nervoso novamente. Me chamando porque? Vesti uma calça por cima do pijama e saí de qualquer jeito. Informado que estavam no posto Faroeste, na saída da cidade e perto do melhor motel da época, o Gaturama, deitei cabelo e fui para o local. Quando estava chegando perto já vi o Beto, nervoso, passando as duas mãos pela cabeça, jogando os cabelos para trás. É o tique nervoso dele até hoje. Não via o carro e estava com um colega do lado. Quando cheguei ele começou a falar coisas ininteligíveis, do tipo "o solo desabou", e já fiquei me perguntando se ele tinha fumado maconha estragada, mas nem cigarro normal ele fumava. Foi então que o colega falou:

- Tio, deixa eu explicar desde o começo.

Só aí vi que o amigo era o Lulu, filho do Zé Mauro nosso piloto, com minha prima Emilinha, guri super ajuizado e que estava mais calmo.

- Não foi nada que o senhor não resolva, por isso que tivemos que chamá-lo. 

Quase que perguntei se o pai dele não servia, tinham que acordar a mim, mas já estava ficando por demais preocupado e curioso com aquela enrolação para encompridar ainda mais aquela conversa. 

- Fala logo Lulu, cadê meu carro?

Esqueci de mencionar que o Beto devia ter uns 16 para 17 anos e não tinha carteira. Já dirigia e bem, desde os treze, e era super cuidadoso. 

- Então, tá ali naquele mato.

Falou e apontou para um terreno vazio onde o capim devia ter uns dois metros de altura.

- Como foi parar ai, que merda aconteceu? Vamos lá ver o carro.

- Não tio, pera aí, deixa eu explicar primeiro, tá tudo bem com o carro. Depois nós vamos lá. Tem umas meninas lá dentro que não querem que o senhor as veja.

- Explica logo, porra!!

- Então, nós estávamos indo para o motel com as meninas, devagarzinho, quando apareceu a polícia.

- Polícia?

- Calma tio. Cruzou com a gente e mandou o Beto encostar. Ele ia fazer isso mas vi que a gente ia se ferrar. Sem carteira, de menor, as meninas também, os pais não sabiam que estavam com a gente, aqui perto desse motel. Não pensei duas vezes e falei " Soca o pé nesse 2.0. Os caras estão de chevette e não vão alcançar a gente. Aí com medo de eles atirarem, ficamos dando voltas na quadra com o chevetinho atrás. Quando assustamos, o monzão que estava atrás do chevette. Aí mandei o Beto diminuir e quando eles viraram a esquina, vimos esse terreno vazio e mandei ele enfiar o carro nesse capinzal alto e apagar as luzes. A estratégia foi perfeita e despistamos a policia.

Percebi até um certo orgulho dele no “sucesso da estratégia”. Pensei “puta que o pariu” meu filho fugindo da policia, mas só consegui dizer:

- Mas e daí, o que deu errado, que estamos aqui às 4 da manha, escutando essa conversa toda.
- Pois é tio, paramos em cima de uma fossa e ela desabou. 

- Caralho! Meu carro está com duas meninas de menor, mortas afogadas na merda?

- Não tio, porra - ele ficou nervoso- só caiu a roda dianteira. Se o carro fosse tração traseira, nós conseguiríamos sair antes dele chegar.

Falou e apontou para um senhor que estava ao lado, com um mundo de porrete na mão, daqueles de amansar louco, e escutando a conversa. Achei que era um curioso e não personagem integrante daquela história mirabolante. 

- E quem é o artista? – perguntei.
- O dono da fossa. Queria quebrar o carro, quando falei que era do senhor. Ele não acreditou e disse que só tiraríamos o carro de lá depois que o senhor chegasse. Por isso que tivemos que telefonar para sua casa, dar sorte do Daniel estar chegando, e atender o telefone. É isso aí tio, tudo se resume em consertar a fossa do homem que ele deixa a gente ir embora. O resto é com o senhor.

Virei para o homem do porrete, me desculpei e perguntei como poderíamos compensá-lo por aquele transtorno todo. Por sorte ele conhecia papai e se lembrava de mim, pois não tinha um documento para provar a ele que eu era o dono do carro. Ele aceitou a minha palavra de que no clarear do dia enviaria um pedreiro para refazer a sua fossa. Fomos para tirar o carro do buraco e usamos do porrete dele para fazer um calço. As duas meninas atrás, bonitinhas por sinal, estavam dormindo e nem de importaram com a minha presença. Escoltei o Beto até a casa de todos e recolutei ele para casa. O máximo que escutei dele foi um:

- Mandei mal, pai, desculpe.

Ele nem podia imaginar a felicidade que eu estava de não ser nenhuma das coisas que me passaram pela cabeça, naquele trajeto de umas 20 quadras, da minha casa até o posto Faroeste. Ser mãe é “padecer no paraíso”, mas ser pai é foda também.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Casa Grande & Senzala.

Piracicaba passou a fazer parte de nossas vidas quando Beto começou a fazer agronomia na ESALQ. É uma faculdade muito ajeitada onde os alunos desenvolvem um amor a escola que beira a um culto. O Esalqueano é igual ao Corintiano ou Flamenguista. Com a entrada do Guilherme, aí até nós começamos a ficar fanáticos. Eles moravam em república com mais 8 ou 10 companheiros e de todos os anos. Isso já era feito para perpetuar a mesma e sempre entrava os bichos do primeiro ano para substituir os formandos que estavam saindo.
As histórias eram inúmeras e uma mais engraçada do que a outra. Teve uma vez que estavam na boate e um desses bad boys tentou tomar a namorada de um deles e não sabia que estavam de lote, brigaram e surraram o cara. No dia seguinte chegam uns três carros na república e descem um monte de marmanjos, cada um mais sarado que o outro, e um deles de cara inchada e pela janela reconheceram a peça. Telefonaram para outra república pedindo reforços pois os caras eram em 8 e eles só dez. Como cada um dos deles valia por dois dos nossos, na boate já precisou se quatro para dar em um, a proporção estava desleal. Responderam que já estavam indo. Para esperar a chegada do reforço, foram tentar enrolar o pessoal para não deixar que eles depredassem a casa. Passaram-se horas e nada do socorro chegar e eles conseguiram contornar a situação, ainda que com certa humilhação, do tipo "num bate na gente não, ontem estava todo mundo meio alegrinho. Desculpe aí vai. Aqui só tem sangue bom, desperdício derramá-los. Esses roxos na cara dele saem logo e a mordida na bochecha nem cortou. Tem um remédio que se chama arnica que é muito bom. Eu tenho aí e vou emprestar para ele." Depois que os caras se mandaram e eles já se sentindo aliviados, humilhados e putos com os companheiros chamados, chegam os mesmos em 8 carros, todos freiando e derrapando em frente da república e descem uns 10 homens de dentro deles. Ninguém acreditava no que estava vendo e passou a raiva na hora. Todos fantasiados de super heróis, homem aranha, batman, super homem, ninja tinham uns três. Os putos se atrasaram para fazer graça.

Só tinha uma empregada, a Nê, abreviação de Nega, para tomar conta daquele bando de homem. Tinha dois olhos e literalmente um na brasa e outro no peixe. Nunca vi nada mais feia e justificaram que tinha que ser assim pois todas as bonitinhas que apareceram foram atropeladas até pedirem contas. Lavava a roupa, limpava a casa e cozinhava, tá certo que lavava mal e uma vez por semana, limpava pior ainda e uma vez por mês e cozinhava pessimamente, mas pelo menos todos os dias. Acontecia do nego sair de casa, pegar uma garoa e começar a espumar. A Nê tinha esquecido de enxaguar a camisa. Tinha uma aranha moradora em cima da geladeira, e o pessoal com uma caneta hidrográfica, escreveu na parede "olha Nê ,tô aqui, cuida d'eu".

Quando o Beto entrou na faculdade, o primeiro lugar que ele foi morar, foi com o Batô, um amigo da Laura, em uma república que era um espetáculo e numa CASA GRANDE, que era a antiga residência dos pais de um dos estudantes e que tinham se mudado de cidade e eram produtores de cana e muito abonados, era um palacete. No ano seguinte, quando o Guilherme entrou na mesma faculdade, o Beto mudou e foram juntos para uma nova república que se chamava SENZALA, e na nossa primeira visita a ela, achamos o nome muito apropriado. Um dia eles vão escrever um livro sobre esses tempos e se chamará "Casa Grande & Senzala", título muito apropriado que eles se apropriarão do mesmo. O Gilberto Freyre não vai ligar. Na primeira visita aos dois juntos que conhecemos a Senzala e a Nê. Beá chorou uns 100 km na volta e de quando em quando murmurava que não tinha criado os filhos para viver "naquilo". Eu tentava consolá-la com um "concordo plenamente, você viu o fogão?, nunca passou bombril nem por perto dele", aí ela replicava, "e o sofá, meu Deus!".
 A casa da república tinha sido uma escola infantil, dessas que o banheiro tem dois vasos juntos. Quando fui usá-lo e vi aquilo, perguntei ao pessoal porque eles não tinham mandado retirar um. Para quem só faz coco de porta trancada e não pode ter ninguém perto, nem do lado de fora, a resposta foi inesperada: 
"E aí tio, quando bater a vontade em dois ao mesmo tempo? E depois a gente troca idéias durante". Parece que a coisa estava tão banalizada que o nego ia cagar e chamava o companheiro para ir junto e aproveitar para continuar o papo. Deviam ser todos uns nariz entupidos. 
Todo ano tinha o churrasco dos pais e nunca perdemos nenhum. Era a ocasião que eles "faxinavam" a casa para não traumatizar muito as mães, mas sem sucesso.
Guilherme no seu segundo ano e na nossa terceira visita, ficava em um quarto junto com um bicho, calouro, e em um beliche. Fui conhecer seu quarto e vi a cama de baixo bem arrumadinha e a de cima uma bagunça só, cheia de roupas de todos os tipos, as sujas, as lavadas pela Nê e sem passar e as mal passadas. Quando perguntei a ele qual era sua cama ele apontou a de baixo. Quando perguntei porque não colocava o bicho para arrumar a dele e tirar aquela roupa toda de cima ele começou a rir e falou:

- E vou enfiar a minha roupa aonde?

Só balbuciei um "como?" e ele completou:

- Pô pai, essa roupa é minha. Ele dorme no chão.

Mandei ele trancar a porta e voltamos para a sala. Na mesma tinha um colchão no chão, e eu não sabia se era um capacho gigante pela sujeira, ou um sofá, ou sei lá o que. O que não se sabe se pergunta, já dizia o Irmão Constantino do Arquidiocesano:
- O que é isso?

- Ué, um colchão.

- Certo, estou vendo, mas com que finalidade?

- Ué, o que se faz em um colchão?

Comecei a ficar irritado com as respostas bestas, e falei:

- Nem desconfio quando ele esta na sala e com uma mesa de centro em cima.

- Pô pai é a cama de um outro bicho. A mesa de centro ele põe nos pés e a perna entra por baixo.

Prometi a mim mesmo, a partir desse momento, a não perguntar mais nada, apesar de achar que nada naquela casa de dois vasos no mesmo banheiro e colchão na sala poderia me surpreender. 
Na saída encontramos um sofá na calçada e Beá que não compartilhou a promessa comigo perguntou o que aquilo estava fazendo na rua e foi o Beto que respondeu:

- Tiramos da sala para acomodar o bicho novo que entrou, o do colchão-carpete, (falou olhando para mim) e como não tinha onde pôr veio parar aqui.

- Mas não podem roubar? 

- Mãe, ele já andou aqui na rua por um mês. Colocamos para os lixeiros levarem ou alguém roubar e ficou aí até recebermos uma notificação da prefeitura. 

- Mas vocês usam essa porcaria?, Bea insistiu.

- Tomamos tereré toda a tarde aí.

- Mas e a chuva, filho?

- Pô mãe, não tomamos tereré na chuva.

Ai quebrei a promessa e falei:

- Mas não molha a merda do sofá?

- Molha, lógico, mas aí a gente forra ele com o colchão do bicho.

Demos um beijo em cada um e pegamos a estrada. Pensei que Bea ia chorar por 200 km, mas no 100 ela já tinha se recuperado.
 Mas não foi fácil.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Visita dos amigos do Beto

Beto fez o terceiro científico no Indac, junto com o cursinho. O Indac é, ou era, não sei se existe ainda, um colégio que não exige muito de seus alunos. Havia alunos que faziam o terceiro ano lá para ter mais tempo para se dedicar ao cursinho e tinha aqueles que faziam os três anos lá, para terem mais tempo para se dedicar a porra nenhuma. Numa de nossas viagens para Santa Anatalia, o Beto levou dois amigos de lá para conhecerem o pantanal. Não lembro os nomes mas um usava brincos e o outro tinha um cabelo que já o apelidamos de poodle. Ambos eram alunos do segundo grupo. Assim que fiquei com mais liberdade com eles, eram muito simpáticos, recomendei ao de brinquinhos que os tirasse, pois os costumes do pessoal que vivia no pantanal eram meio diferentes. Ele deu risadas e achou que eu estava de gozação com ele. Não insisti. Na fazenda foram o centro das atenções um tirava sarro da cara do outro o tempo todo. Temos uns coqueiros no pátio da fazenda que produzem uns frutos deliciosos. Quando ofereceram para o poodle se ele não queria que o praieiro abrisse um para ele, para surpresa de todos, ele respondeu que nunca tinha comido. Questionado que existia todos os subprodutos como leite de coco e coco ralado, ele veio com a pérola que o coco que ele conhecia era diferente. Era redondo e tinha uma casca muito dura. Demos risadas e pedi ao praieiro que descascasse um para ele, o que o deixou muito surpreso ao ver que era "só cabelo". O de brinquinhos, para tirar sarro dele, o pegou pela mão e o levou até o galinheiro e mostrou as galinhas dizendo "isso que faz có có é o frango e é também igual aqueles do supermercado. Isso aí por fora é só cabelos também, que neste caso chamam de penas, pois para ficar daquele jeito que você conhece e vê lá nas gôndolas dos supermercados, tem que arrancar os cabelos e como dói muito o pessoal fica com pena, daí o nome, entendeu?". Eu ia corrigir que frango não é galinha mas ia confundir por demais a cabeça do poodle. Aquela explicação já tinha ampliado enormemente os seus conhecimentos. Mas a noite teríamos o baile e foi ali o grande momento. Lá pelas tantas, com o arrasta pé comendo no centro, duro de gente numa proporção meio desleal, algo assim 100 homens para 20 mulheres, nessas 20 já incluindo a minha que eu não deixava dançar com puto nenhum, aparece o Brinquinho sem os brincos. Quando vi perguntei a ele se os tinha perdido. Ele colocou a mão no bolso e os mostrou para mim dizendo que só os colocaria no final do baile, pois já tinha sido tirado para dançar umas dez vezes e já não agüentava mais dar tábua nos peões. Então expliquei a ele que eles não tinham preconceitos em fazer sexo com gay e isso não depreciava o ativo. A falta de mulher por lá facilitava o aparecimento dos passivos e eram muito bem recebidos. Acharam nos brincos uma forma de você demonstrar suas opções. Isso o deixou todo arrepiado, acho e espero que tenha sido de medo, pois ele tinha tirado os brincos.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O Periquito

Meus filhos são super unidos e isso desde que nasceram. Fico muito contente e orgulhoso com isso. Eu e meu irmão somos assim também, mas teve uma época em que ele não gostava de andar comigo. Ele é 3 anos e pouco mais velho do que eu e em certas idades que essa diferença é muito grande. Apesar de eu ter começado muito cedo em tudo, Elizabeth e Pura com onze anos, tirando "isso", tinha idéias de crianças, enquanto ele com 14 para 15 já era rapazinho. Já os meus filhos tinham todos quase a mesma idade. Os homens então mais ainda. Beto tem 18 meses mais que Daniel e Guilherme, que são gêmeos.
Foram sempre os melhores amigos um do outro. Se tinha disputa era interna, entre eles. Brigavam e se beijavam em seguida. Confirmavam sempre um a mentira do outro. Um contava uma estória cabeluda, daquelas duras de acreditar, como quando o Guilherme pegou a bola na defesa, driblou o time inteiro, deu dois chapéus e quando o goleiro saiu ele só colocou pelo vão das pernas, coisa que nem Pelé fazia, você olhava para o outro e ele repetia tudo igualzinho e completava com um "o senhor precisava ter visto". Às vezes invertia e o mentiroso retribuía a ajuda do outro. Descobri com o tempo que não eram mentiras, mas grandes exageros.
A única vez que vi ódio de um pelo outro foi quando aconteceu a do Periquito. Foi em 1987, Beto com 12 e os gêmeos com 10 anos, encheram o saco do Airton, capataz da fazenda Santa Anatália do avô, para arrumar um periquito para eles. O Airton pegou um bem novinho, nem penas tinha ainda, e o deu a eles. Super recomendado de como e com que deveria ser alimentado. Tinha que fazer um mingau e dar na boca com colherzinha. No começo era a coisa mais horrível aquele bicho. Tinha um corpo pequeno e um cabeção enorme. Parece que todas as aves já nascem com a cabeça que terão adultas e o que cresce e só o resto. Mas depois de alguns dias o bichinho começou a emplumar e já estava até bonitinho. Foi quando tudo aconteceu.
Ia cedo para fazenda e eles quiseram ir comigo. Como nossa casa estava em reforma morávamos na de meus sogros. Quando acordei os três deviam ser 4:30 da manhã e já levantaram correndo pois tinham que fazer a comida do periquito antes de irem. O mesmo ficava numa caixa de sapato e dentro do quarto deles. Desceram e foram para a cozinha fazer o mingau. Na realidade o Beto com o Guilherme pois o Daniel ainda estava meio sonado. Os dois dando a papa pro bichinho e o Daniel, meio dormindo ainda, só olhando. Quando acabaram o café da manhã deixaram ele no chão um pouco para fazer um exercício antes de voltar para a caixa. Como o Daniel não tinha ajudado em nada pediram que ele fosse pegar a caixa para colocar o bichinho e irmos para a fazenda. O gurizinho meio dormindo se levantou, não viu o periquito, e pisou nele. Quebrou seu pescoço e vi na hora que não tinha mais jeito. A cara de ódio e decepção dos dois foram impressionantes e pedi ao Daniel que ele trouxesse água correndo que ele ia ficar bom. Quando ele saiu eu falei a Beto e Guilherme que não tinha mais jeito mas que não poderíamos zangar com Daniel ou ele ficaria traumatizado pelo resto da vida, que agora era a hora de mostrarmos união e o que era realmente importante para a gente. Afinal de contas era só um periquito. Encerrei o discurso e fiquei aguardando.
Quando ele chegou com a água os dois o abraçaram e disseram que tinha sido um acidente e que ele não ficasse chateado que iam arrumar outro. No fim quem acabou quase chorando fui eu. Assimilaram a lição bem até demais, pois um cacetezinho o Daniel bem que merecia.
 Alguns meses depois ganharam um outro, já maiorzinho e emplumado. Esse escapou do Daniel mas não do gato do vizinho. Quando Beá chegou em casa e viu a sala não entendeu o que tinha acontecido. Chacinaram alguém nela. Chamou os dois e foi esclarecida. Pegaram o gato que comeu o periquito de estimação deles e não foi sem querer como com o Daniel. Acho que existia uma raiva reprimida ali, pois abateram o gato a tiros. Com espingarda de chumbinhos de ar comprimido e com mais de cem tiros. Brinca com eles, brinca!

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Outro Puta Sufoco

Bea sempre foi a tranqüila do casal. Enquanto eu fico nervoso por pouca coisa ela não sai do sério por quase nada. Assim que terminei meu curso de engenharia civil nós começamos a construir casas em Taubaté. Fazíamos o projeto juntos, eu calculava e acompanhava a parte técnica da obra e ela fazia todo o controle de compra de material e pagamento de mão de obra. Éramos uma DUPLA. Como trabalhava na Mecânica, a única hora disponível era antes de entrar no serviço, quando eu visitava as obras, nos fins de semana e a noite, após a janta, e não eram todos os dias pois tinha que estudar para meu mestrado no ITA. Era bastante corrido, mas íamos muito bem.

Nosso escritório ficava nos fundos da nossa casa. Devia ser o ano de 1980 e enquanto trabalhávamos em um projeto, as crianças brincavam na sala, que ficava a uns 10 metros do escritório, separado por uma área aberta. Escutamos uma batida seca e o choro de uma das crianças. Já fiquei nervoso e ela, me acalmando, saiu para acudir o chorão. Alguns segundos depois ela me aparece na porta do escritório, pálida como uma cera, pulando nos pés e sacudindo as mãos sem conseguir falar. Na hora vi que o que deixou ela naquele estado tinha que ser muito grave. Saí por cima da mesa e corri para sala. Quando vi a cena achei que ia enfartar. O Beto, que estava com 5 para 6 anos, estava de pé, curvado para frente e de sua cabeça, escorrendo pelo pescoço, saia uma quantidade absurda de sangue. Nessas horas eu tenho procedimentos e começo a ditar ordens e não pensar em nada. Fui para o carro gritando para ela carregar ele pro carro que íamos para o médico. Com isso ela saiu do estado de choque e saímos voando para a clínica do médico de Taubaté. No caminho eu tirei a minha camisa e falei pra ela pressionar o corte e tentar estancar o sangue. Eu nem conseguia olhar para ele nem para ela e me esquecia de trocar as marchas do carro. Andei por cima de calçada e desci de guia de mais de 30 cm de altura, quase destruindo minha caravan.

Quando chegamos à clinica com o gurizinho todo ensangüentado, a enfermeira falou que ia chamar o médico que morava a uma quadra dali. Antes de ela pegar o telefone eu já saí correndo para a casa dele com um menino de bicicleta que foi me mostrar onde era. Eu corria mais que o guri com a bicicleta. Trouxe o medico pela mão correndo pela rua dizendo que meu filho tinha quebrado a cabeça e estava morrendo. Quando ele entrou para a enfermaria para fazer o atendimento não consegui ir junto e me sentei na sala de espera e foi então que percebi meu estado. Como estava sem camisa, percebia claramente o pulsar do coração e parecia que ele ia sair do peito. Não só eu, mas todo o pessoal que estava na sala de espera para se consultar com outros médicos da clinica. Então caiu minha ficha, que estava sem camisa em um lugar público e devia estar parecendo um louco, e estava mesmo. Medi o meu batimento cardíaco e estava acima de 200. Na hora eu pensei que íamos nós dois pro saco. Acho que a recepcionista percebeu meu estado e entrou para chamar o médico. Em 5 minutos ele já apareceu dizendo que tinha sido só um corte e que aquela região sangrava muito mesmo, que estava tudo muito bem e que eu precisava me acalmar. Percebi que ele estava preocupado comigo e portanto poderia estar mentindo quando já apareceu o Betão com a cabeça toda enfaixada e explicando para Bea o que tinha acontecido. Ele estava pulando de uma poltrona para outra quando errou o pulo e caiu de costa batendo a nuca no braço da poltrona que era de madeira.

Hoje não sei dizer o sentimento que tomou conta de mim, mas foi uma mistura de medo do que poderia ter acontecido, com um pouco de alegria de não ter sido nada grave e uma pitada de desconfiança do médico ter se enganado e depois vir um traumatismo craniano seguido por um coma. Isso tudo, mas os peitos de fora devem ter me feito ficar com aquela cara de bundão e só consegui falar:
- Obrigado doutor, vamos ligar para o Jamal?
A vontade de dar um beijo nele só veio com a resposta:
- Pode ficar tranqüilo que não precisa. Você já me conhece e sabe que eu ligo mesmo. Vai embora tranqüilo. Agora vou te dizer uma coisa, não reclame dos pontos terem ficado uma porcaria, pois você me arrastou de casa e não deixou nem eu pegar meus óculos, portanto a culpa será sua.
Hoje uma das coisas que me deixam triste, e esse é o principal motivo deste blog, é que não me lembro mais do nome desse médico mesmo ele tendo sido um cara tão importante na minha vida.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Pane Seco

Já falei no Vestibular I da saída do Beto do Bandeirantes e sua ida para o Indac e como ele entrou, por castigo, na escola de aviação do Campo de Marte. Ele já estava aprovado em todas as provas teóricas e com o exame de saúde para vencer e como eu estava fazendo meu curso de piloto em Corumbá e gostava demais do meu professor, contratei o mesmo para dar uns duplos nele nas férias, pois senti que ele não estava muito confiante para fazer seu primeiro solo.
Voavam todos os dias pelo menos uma hora e o instrutor, o Pochoreu, o elogiou muito dizendo que ele estava pronto. Pedi que ele fizesse mais dez horas antes do solo e fui para São Paulo. Foi quando recebi um telefonema do Daniel mais ou menos assim:
- Oi pai, tudo bem? É o Dani.
- Tudo filho, como estão indo de férias?
- Tudo bem, o Beto que tá um espetáculo, voando bem pra burro. Está comigo aqui dando risada, mas tá tudo bem.
- Ah é, você já voou com ele? O que é que tá tudo bem? Ele já vez seu primeiro vôo solo?
O instrutor não podia levar mais ninguém no avião. Estava esquisita a conversa.
- Não, mas já levou seu primeiro tombo.
Falou rindo e fiquei sem entender e já meio preocupado.
- Passe ele para mim aí filho.
Beá do meu lado viu a minha preocupação e perguntou o que houve. Fiz sinal que nada com a cabeça e beiço e esperei o Beto atender.
- Fala pai, tudo bem por aqui. Pode ficar tranqüilo.
- Porra meu estou ficando nervoso com isso de todo mundo me mandar ficar tranqüilo. Que merda aconteceu por aí? Você ta aonde?
- To aqui no bar com a turma. Caí com o avião, mas sem nenhum arranhão, ou melhor, um pequeno aqui na perna que já passei mercúrio.
Nessa hora Bea já ensofrega perguntando com a cabeça o que havia. Resolvi responder rápido pois queria os detalhes e falei:
- Não foi nada. O Beto que caiu com o avião, mas tá tudo bem, repeti o Daniel, e está me contando os detalhes.
Beá quase desmaiou e eu já não sabia se atendia a ela ou o Beto. Eles com o maior cuidado para nos dar a notícias e eu com a delicadeza de um rinoceronte desgovernado. Aí falei meio brabo:
- Oh meu, tá tudo bem. Você acha que se tivesse algum problema sério eu estaria assim. Eles estão no bar comemorando que não houve nada. Se acalme aí.
Os detalhes eu fiquei sabendo pelo Pochoreu: Estavam em treinamento de toque e arremetida no aeroporto de Corumbá. O piloto tem que pousar, o que é feito com full flap e o motor em marcha lenta. Com o avião ainda correndo na pista, tira todo flap, da potência máxima no motor, dá novamente 10 graus de flap e decola. Faz novo tour e repete a operação. Eles já tinham feito vários desses toques no modelo padrão, ou seja, o avião vem descendo sem motor, com nariz para baixo e numa rampa que, mesmo se o motor parar ele chega na pista e pousa. O Pochoreu resolveu treiná-lo em pouso de pista curta onde o procedimento é diferente. Você pendura o avião no motor, ou seja, vem para pouso com o nariz para cima e regula a rampa pela potência do motor. Beto vinha fazendo tudo certinho quando o motor parou. Nesse tipo de aterrissagem você não chega à pista, pois está muito baixo. O Pochoreu conta que não deu tempo de nada e quando ele assumiu o comando, esses aviões têm comando duplo, o Beto que foi ditando os procedimentos para ele:
- Não é bom tirar os óculos? - Pochoreu jogando os mesmos para trás:
- É
- Não chegamos na estrada? (A estrada que faz Corumbá - Porto Suarez é quase continuação da pista na cabeceira 09).
- Vamos pro mato que as árvores são fininhas nesse cerradinho. Melhor que um caminhão.
Foram e posaram em cima de uma aromita. No momento do pouso o Beto ainda falou:
- Não é para abrir as portas?
O Pochoreu quase sem velocidade e com a sustentação no limite ainda concordou a abriu a dele segundos antes de colocar o chessna 140 em cima da árvore, que devia ter uns 3 metros de altura. Quando foram sair correndo com medo do avião pegar fogo que Beto se riscou ao cair da árvore. Mas ainda conseguiu lembrar o Pochoreu de desligar o magneto.
Foram andando para a estrada quando cruzaram com o carro do corpo de bombeiro e a ambulância. Por mais que sinalizassem, passaram por eles e foram socorrer não sei quem no avião.
O interessante disso tudo é que assim que me tranqüilizei, falei que ele fosse à casa da sua avó Julieta, minha mãe e desse a notícia pessoalmente. Ele foi na hora para lá e chegou brincando com ela, dizendo:
- Vovó, duvido você acreditar onde que eu estava agora.
Mamãe olhou para ele e falou:
-Você caiu com o avião, não foi?
Beto ficou sem entender e só confirmou. Tinham dado a noticia no rádio, mas como não encontraram ninguém no avião, não sabiam os nomes e muito menos o estado dos tripulantes.
Só Mamãe.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Betão






















O praxe, começou com Laura, era sair da maternidade e ficar em São Paulo até o bichinho completar 14 dias. Nessa data era feito a primeira visita ao Dr. Jamal. Ele fazia um exame clínico completo para ver se estava tudo em ordem, sem nenhum defeito de fabricação e dava as instruções que acompanharia a criança até aos 7 anos de idade. As vacinas, as vitaminas e tudo que tomariam. Quando chegamos com Beto lá, no primeiro momento, ele olhou seus pezinhos e falou:
- Que chalana! Vai ser lutador de karate.
Hoje o bichão calça 44 bico largo e dependendo do modelo 45. No decorrer dos exames, ele empurrou a pele do peito pro lado do pescoço, e apareceu uma covinha, como se, ao invés da pele estar solta tivesse um ponto que à fixasse mais profundamente a carne. Quando ele viu aquilo, primeiro brincou:
- Olhem, menino peixe, tem brânquias.
E depois explicou que ele tinha nascido com um defeito congênito e tinha uma fistula branquial, acho que era esse o nome. Perguntado se era problema, ele disse que, provavelmente teria que ser retirada. Com 3 anos iria começar a inflamar e aí teria que operar. Já gelamos. Queríamos saber quem faria a cirurgia e começamos com as perguntas idiotas e recebendo respostas iguais.
- Quem vai operar?
- O cirurgião!
- Mas qual?
- O que for o melhor na época. Mas parem com essas preocupações, que pode até não ser necessária a cirurgia.
- Qual a chance?
- Engenheiro é fogo. Medicina não é matemática. Não tem nada exato.
- Probabilidade não é exato doutor. Qual a chance? - Insisti.
Ai ele foi curto e grosso:
- 1%, chato.
Curto no 1 e grosso no chato.
Gelei. A cirurgia era feita por um especialista em cabeça e pescoço e a gravidade dependia de onde terminava a fístula, que nada mais é que um caninho de bitola muito pequena que dá comunicação do exterior com alguma parte ou órgão interno do corpo. Tem que ser retirada pois é um ponto de entradas de infecções. Sabíamos onde começava mas não sabíamos onde terminava. Com três anos, como previsto, veio a primeira infecção. Parecia que ele tinha um limão embaixo da pele. Levamos ele no Jamal que nos alertou:
- Começaram as infecções. Vamos dar uma chance, se voltar, teremos que nos preparar para a cirurgia, pois não podemos viver sob antibiótico.
Um mês depois veio a segunda. Quando fomos até ele, já nos avisou que o melhor cirurgião, na época, era o Dr. Josias de Andrade Sobrinho. Tínhamos que tratar dessa infecção e levá-lo ao Fleury para fazer um exame um tanto delicado. Introduzia um contraste pela brânquia e fazia a radiografia, para poder definir até onde ia o caninho. Assim fizemos e no dia do exame o gurizinho não parava de jeito nenhum. Estavam já pensando em fazer anestesia geral quando tive a idéia de fazer mais ou menos como papai e propor um jogo a ele. Ficava quieto sem chorar e depois do exame ganhava uma bicicleta de duas rodas. A vontade da bicicleta foi maior que o medo e ele deitou na mesa e ficou quieto. Mas o trem doía muito e por mais que ele quisesse não agüentou e começou a chorar. Aquele choro sentido, de dor realmente, mas deixou fazerem o exame. Terminado tudo, como ele não parava de chorar, ficamos preocupados. Ia infeccionar de novo, rompeu alguma coisa por dentro. Eu naquela preocupação toda, falei a ele:
- Pronto filho, já acabou tudo. Ta doendo em algum lugar?
Ele sem parar de chorar fez que não com a cabeça.
- Então pare de chorar se não ta doendo.
Quando ele disse:
- Mas e aí, você vai dar a bicicleta se eu parar?
Grande negociador, ganhou a mais linda da Sears e no mesmo dia.
A fistula ia pelo pescoço e conseguiram acompanhá-la até por trás da orelha. Aí não sabia se terminava ou era tão fina que o contraste não passava. Marcaram a cirurgia e o Jamal foi com gente no dia.
Quando perguntei se ele entrava na sala, respondeu:
- Nem amarrado. Não posso ver sangue.
A cirurgia correu as mil maravilhas e o médico explicou que retirou toda a fistula por um corte de dois centímetros, onde ela começava e deixou um dreno do comprimento da fistula retirada. Esse dreno tinha que ser retirado aos poucos para a cicatrização ser feita da parte mais profunda para a entrada. De três em três dias íamos ao médico para puxar 1 cm aquele dreno de mais de 15 cm. No primeiro dia o menino jurou que ninguém tocava no dreno. No início pensei em pear ele. Falei ao doutor:
- Eu sento, ponho ele no colo, prendo as pernas dele dando uma tesoura com as minhas pernas e no abraço, imobilizo os dois braços dele.
Ele deu uma risadinha, como se eu tivesse brincando e foi conversar com Beto. Quando viu que nem conseguia se fazer ouvir, achou que a manha era porque eu e Beá estávamos na sala e nos colocou para fora. Ficamos na sala de espera e parecia coisa de desenho animado. Aquela barulheira lá dentro de coisa quebrando e nós super preocupados, com o médico, não com o Beto. Depois desse piseiro todo que demorou uns 10 minutos o médico abre a porta e quase caímos duros para trás. O aro do óculos estava torto e no seu jaleco branco a impressão da sola da bota ortopédica do Betão. Ele se ajeitando falou:
- Viu como ele não chorou. Não foi fácil mas esta tudo como previsto. Volte daqui a três dias para o segundo round.
E assim foi. No final ele ficava quietinho. Já não doía mais, mas ele falava que estava ficando homem. Também não foi fácil.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Gohan

Essa aconteceu esse ano. Guilherme e Beto estavam solteiros pois as piracicabanas tinham ido passar a semana santa com os pais e levaram as crianças. Eles ficaram escoteiros de tudo. Almoçavam e jantavam em casa todos os dias que não estavam na fazenda. No sábado convidei os dois para jantarmos fora. Falei que eles escolheriam o restaurante, mas tinha que ser algum novo, quando o Beto sugeriu um tal de Goham, japonês. Cai na besteira de perguntar o significado do nome e ele veio com a cara mais séria do mundo com a seguinte explicação, e eu e Beá, bestas, prestando a maior atenção.
- É o nome de um esporte japonês, tipo Sumô. Só que é uma corrida de uns sapos. É uma pista em curva e todos ficam em volta e fazem suas apostas e ficam gritando: Go rã, Go rã.
Depois de Guilherme querer agredi-lo pelo trocadilho besta, nos acomodamos em uma mesa, na calçada. Veio para nos atender um garçonzinho, magrinho, afro brasileiro (agora é assim que se fala), bem pernóstico, e com sotaque meio acariocado, sem nunca ter saído de Corumbá, falou:
- Entrem, sejam bem vindos, fiquem à vontade.
A mesa era na calçada, não dava para entrar. O Beto já deu uma virada de olho.
Sentamos e lá veio o carinha com o cardápio perguntando:
- Vão comer?
Beto respondeu:
- Beber também. Cerveja.
Aí o artista falou:
- QuatroS copos?
Prontamente respondido pelo Beto?
- QuatroS!
Fui chamar a atenção dele, que nunca se deve tirar sarro de garçons. Aí ele falou que o quatros estava certo e justificou:
- Se um que é um tem uns, como que quatro não vai ter quatros. Quisemos bater nele, quando chegou o garçom com o cardápio perguntando se estávamos a vontade. Quando o cara trouxe os pratos e falou pela décima vez o "fiquem a vontade", Beto começou a desabotoar a camisa e disse que achava que devíamos ficar só de cuecas pois não agüentava mais o garçom com o "fiquem a vontade" dele. Comi um tal de Sobá, que não gostei, mas não "sobou" também, sou que nem papai, tá pago não pode sobrar, mas a escolha deles, um yaquesoba, foi melhor, mas também não grande coisa, não sobrou também.
Japonês, não mais.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Vestibular

Quando deixamos Taubaté e mudamos para Corumbá sabíamos que, com isso, teríamos que nos separar de nossos filhos mais cedo. Como eu, um dia eles viriam para estudar em São Paulo e isso aconteceu quando o Beto terminou o ginásio e Laura o segundo ano do cientifico. Ficaram Daniel e Guilherme terminando o ginásio em Corumbá. Laura foi para o Mater Dei e o Beto para o Bandeirantes que só aceitava alunos de outra escola no primeiro ano. A casa não ficaria tão vazia, Daniel e Guilherme valiam por 4, cada um, mas estava começando a separação.
Laura era estudiosa e vivia me colocando em fria com os professores. Virava e mexia ela brigava com eles e o argumento era sempre que eu tinha ensinado de outro jeito. O pior é que sempre ela estava certa. Desde cedo ela aprendeu os fundamentos da matemática e física e com isso tinha muita facilidade de aprender coisas novas. O Beto já era de estudar o mínimo, mas como o Bandeirantes fazia uma prova para seleção e ele tinha sido aprovado, ficamos mais ou menos tranqüilos. Era o ano do vestibular da Laura. Ela foi fazer cursinho no Anglo, e quis cursar o 3o. ano no Mater Dei, apesar dos conselhos de pegar um colégio mais fácil e se dedicar ao cursinho, ela quis fazer desse jeito e como teimosia chegou e parou ali, não perdemos tempo discutindo. Terminou o cientifico como uma das melhores da escola e se inscreveu para o vestibular da Poli, Unicamp e Mauá. Não teve jeito de convencê-la de fazer em outros, pois ou ia nessas ou ia pro cursinho de novo. Eu tinha uma experiência muito ruim com o meu vestibular na Poli, quando mesmo estando super preparado, na prova de física troquei os lugares das questões e não passei. Mas teimosia... Durante o cursinho, um dia ela estava super nervosa e para acalmá-la falei:
- Vou fazer uma promessa igual quando sua mãe ficou grávida e eu fiquei sem cortar o cabelo nem fazer a barba até você nascer, e tinha data limite para isso. Agora vou ficar até você entrar e tenho certeza que vai ser na primeira.
Nunca vou me esquecer do dia do provão da Poli. Era uma prova importante pois barrava uma boa parte dos alunos, só quem passava ia para as demais provas especificas de cada matéria. Eu que a levei para fazer a prova e fui buscá-la. Na saída, eu tropeçando na barba e mais nervoso do que ela, sentamos em um banco de uma praça em frente ao local da prova e começamos a conferir as questões. Ela com o gabarito e eu com a prova dela na mão. Eram 72 questões de todas as matérias. Cada questão certa, era uma emoção maior que disputa de pênalti em final de copa do mundo. No final, das 72 ela tinha acertado nada mais nada menos que 69. Nós não nos agüentávamos de alegria, mas ao mesmo tempo ficava a dúvida se a prova não tinha sido muito fácil e todo mundo tinha ido bem. No dia seguinte na primeira página do Estadão estava um desses cabeludinho de óculos na ponta do nariz e cara de louco com a manchete “Gênio acerta 64 questões no provão da Poli”. Aí eu não me agüentei e sai com o jornal na mão perguntando pra todo mundo:
- Qual será o título para quem fez 69?
Não preciso dizer que a Laura entrou na Politécnica de São Paulo, conseguindo passar por onde eu tinha sido barrado à 24 anos atrás. A comemoração da entrada de Laura foi em Corumbá e a alegria foi dupla: vê-la cursando a melhor escola de engenharia do país e me livrar daquela barba monstruosa.
No ano seguinte, foram Daniel e Guilherme também para o Bandeirantes. Aí a casa ficou totalmente vazia. Voltamos ao início, só eu e Beá. Nós trabalhávamos e não podíamos ir sempre a São Paulo. A casa ficou muito triste. Vivíamos esperando as férias e apartando brigas por telefone. De lá Laura me ligava chorando e fazia eu putear as duas pestinhas por telefone, uma hora era porque tinha mexido nas coisas dela, outra porque não deixavam ela estudar quando levava as amigas em cada e a coiseira ia aos trancos e barrancos.
Já o Beto quando faltavam uns dois meses para terminar o 2o. ano, ele chegou em mim e falou:
- Vou ter que trocar de colégio ou vou tomar pau. Quero ir para o Indac, termino o segundo ano, que lá passa todo mundo e ano que vem vou para o Anglo.
Concordei e ele largou o Bandeirantes. Quando chegou as ferias e ele estava se preparando para ir para Corumbá eu dei a noticia à ele:
- Filho, ache alguma coisa útil para você fazer nas ferias, tipo um curso de piloto ou de computação. Férias é para quem trabalhou ou estudou muito e precisa de descanso, o que não foi seu caso. Ele se matriculou na escola de pilotos do Campo de Marte e estudou as férias todas em São Paulo, longe da gente. Só foi a Corumbá para as festas de fim de ano. Foi mais castigo pra gente. Ele voando, de castigo, e eu super apreensivo de não acontecer nada com ele ou não me perdoaria jamais. No ano seguinte foi seu vestibular. Queria fazer Agronomia e também, aprendeu com Laura, queria só a Esalq
Eu muito ressabiado, pois como já dito, Laura estudava pacas, ele o mínimo. Mas ele enfiou a cara no Anglo, foi super bem e entrou na ESALQ. Estávamos indo muito bem. De 4 filhos já tinha dois na Usp. Já estava me convencendo que meus filhos eram feras, apesar da rateada do Beto no segundo ano. Mas aprendeu a voar e a estudar também. Faltavam o Faísca e Fumaça. Vou deixar para o Vestibular II.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Estória pros Netos II

Estou convencido. Já me falaram que tudo que foi bom tem o II.

Duro de Matar, Rocky, O Poderoso Chefão e agora Estória pros Netos. Como já aconteceu, fui convidado de novo a contar uma estória pros coleguinhas de meu neto em sua escola. A bem da verdade o convite para voltar lá, não foi bem pelo sucesso da primeira história, apesar dela ter sido um sucesso, mas pelo fato de ter dois netos, Felipe e Tomás que estudam na mesma escola. O primeiro convite foi do Felipe e agora do Tomás. Pra variar estou em pânico e resolvi escrever a história, essa é quase toda verdadeira.

Esse acontecido foi na fazenda Santa Anatália. Devia ser por volta de 1990. Beto estava com 14 anos e Daniel e Guilherme com 12. Tem um corixo que passa na porta da fazenda, muito lindo e um dos programas era andar de canoa por ele. Nesse dia saíram num batelão, que é uma canoa maior, o tio Gelson, que é casado com uma prima minha, e meus três filhos: o Beto, pai do Tomás, o Guilherme, pai do Felipe e o Daniel. O tio Gelson estava no remo e o Guilherme, pai do Felipinho estava com um revólver na cintura. Ele gostava de andar armado e falava que era para se defender se aparecesse algum bicho. Na canoa ia o tio Gelson, Daniel e Guilherme na popa, que é a parte de trás da canoa e o Beto na proa, que é a parte da frente. Ia tudo bem quando de repente a canoa bateu num jacaré. Bem na cabeça dele. O jacaré ficou desacordado e todos pensaram que ele tinha morrido e resolveram levar ele para a fazenda. Passaram uma corda e puxaram o bichão pra dentro do barco. E seguiram para frente com o jacaré no meio do barco. De um lado o Beto e do outro o resto do pessoal. No começo, todo mundo estava prestando atenção no jacaré mas com o tempo foram se esquecendo dele. De repente, não mais que de repente, o jacaré abriu os olhos e quando viu que estava dentro do barco, começou a andar pro lado que estava o Guilherme, que quando viu aquele bichão com uns dentes enormes, puxou o revólver e ia atirar nele. Nisso o Beto começou a gritar:

- Não atire, você vai furar a canoa, não atire - E gritava muito alto. Nisso o jacaré que estava indo em direção do Guilherme virou pro lado do Beto. Deve ter sido por causa dos gritos. Quando Beto viu que o bicho estava indo pro lado dele, mudou a ordem e começou a gritar: - ATIRA, ATIRA!! E o Guilherme não sabia o que fazer. Quando o jacaré estava em cima dele e já ia morder sua perna ele pulou dentro d'água. Dizem que ele foi tão rápido que quando tocou o pé no fundo do rio, já deu um impulso e pulou de novo pra canoa mas do outro lado do jacaré. Aí que o tio Gelson, com o remo, empurrou o jacaré pra fora da canoa. Quando prestaram atenção no Beto viram que ele estava sequinho. Foi tão rápido o pulo dele na água que nem molhou.

Juro que é verdade. Podem perguntar pro pai do Tomás ou do Felipe que eles vão se lembrar.

terça-feira, 11 de maio de 2010

A origem

Foi nas nossas últimas férias. Estávamos em Paraty, na casa da Laura, com Beá, Guilherme, Ana e filhos. Na realidade, Guilherme & Cia que estavam na casa da Laura. Eu e Beá ficamos em um hotel vizinho. Sempre que me convidam para passar uns dias lá, fazem isso. Enchem a casa de gente e me colocam no hotel. Até que gosto pois a bagunça que fica é coisa de louco. São três crianças de Laura, dois de Guilherme e mais duas da Ju, que é uma das melhores amigas e vizinha da Laura lá em Paraty.

Estávamos na piscina do hotel quando comentei que estava triste pois minha memória estava começando a falhar. Estava esquecendo nomes de amigos de infância, datas e muitas das histórias de meu pai estavam se perdendo. Quando comentei isso a Laura deu a ideia do Blog. No começo questionei que escrever nunca foi o meu forte. Sou matemático e tudo que sei de Português aprendi com a Maria Teresa. Mas não vi alternativa. Pensei: Mesmo que fique uma merda só, estará tudo registrado. Daqui a 10 anos, vou contar uma história, esqueci o nome do protagonista, consulta o blog. Os filhos e já alguns netos estão acompanhando. A Laura é minha editora e o Beto diretor de fotografias. Escrevo no meu Iphone só com o dedão e peguei uma prática que acho que ganho de muita secretária boa com 10 dedos. Tá certo que a Laura reclama pacas que como os til e os cedilhas. Em compensação, não fico parado. Aguardando almoço, em vez de ficar comendo besteira, vai blog. Pessoal vendo novela e ninguém quer conversar, blog de novo. Quando lembro de alguma coisa que me marcou, anoto nas pendências para escrever um dia.

Muitas vezes acontece de alguém ler e dizer que troquei as bolas. Talvez no final, se é que vai ter um, eu escreva uma errata, ou se um dia publicar isso tudo, conserto antes. Por enquanto vai do jeito que está. Papai era escritor e poeta e ganhou medalhas em concursos nacionais. Penso sempre em como ele ficaria feliz de ter um blog dele. Infelizmente a evolução da internet não o alcançou. Muitas vezes ele escrevia e dava para o Raul comentar e quando ele gostava, falava: Alberto, isso não foi você que escreveu. Você é muito burro para escrever um trem tão lindo desse. Ou copiou de alguém ou foi psicografado. Apesar do burro, papai ficava todo garboso. Talvez eu, um dia, psicografe ele. Vou ser o Tadeu Xavier.