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segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Os dois lados da historia


Ficar velho é uma merda, mas a alternativa é pior ainda.
É incrível como a opinião da gente vai mudando com a idade. Quando jovens temos certezas absolutas. O certo e o errado têm uma clareza cristalina, que vai se turvando com os anos, junto com o cristalino de nossos olhos (trocadilho besta!). Começamos a entender que todo fato tem versões e, de acordo com o lado, ele é contado de maneiras diferentes. Quando conhecemos uma pessoa de modos delicados e que é nosso amigo, é um sujeito fino; se é nosso inimigo, uma bichona. Cara que pega todas as mulheres: se é amigo, é pegador; inimigo... galinha.
Tem gente que fala que a História é a senhora da verdade; mas já ouvi de muitos entendidos que mesmo ela, por ser escrita pelos vencedores, tem tendências e, logicamente, elas são deturpadas. O importante é não querer conhecê-la de uma única fonte e, se você tiver que tomar atitudes baseado nelas, agir de acordo com sua consciência do momento. Não ter medo de errar, mas não ser precipitado, nem ficar parado pensando na coisa a vida toda. Conheci muitas pessoas que tinham projetos maravilhosos e nunca realizaram nenhum.
Procurar fazer o melhor de si, mas tendo consciência de que o ótimo é o maior inimigo do bom.
Lembrar que a vida é uma estrada e que, por onde você vai passando, vão ficando rastros de flores ou de mato – mas o pior é você não deixar rastro nenhum. Você não volta mais por ela, mas vai deixando marcas para os que vêm por trás.
Por exemplo: eu e Bea sempre tivemos muito em comum, mas algumas divergências: a principal era sobre o castigo de filhos. Os procedimentos eram um pouco diferentes. Quando ela pegava dois trocando tapas, já grudava os gladiadores pelas orelhas e punha ambos de castigo, sem escutar nada. Eu já queria identificar o culpado e punir só este. Nunca dava certo, e eu acabava punindo o menos inventivo e só descobrindo isso depois. Adquiri a sua mania com a célebre frase: "não quero saber, quando um não quer, dois não brigam". Racional é mais fácil; às vezes, incoerente. 2 a 1, adotei a tática. Nas minhas memórias de infância, lembro de uma briga com Tontonio, quando papai apartou e no últimos momento acertei um tapa nele. Separados, um em cada lado da mesa, fiquei gozando dele quando começou a avermelhar a marca de minha mão em seu rosto. Nesse momento ele simulou que eu tinha lhe dado um chute na canela, por baixo da mesa, e papai me executou, porque não acreditou que eu não tinha feito nada. Apanhei e saí sem almoçar.
E o pior foi ficar vendo o sorrisinho sacana, de vitorioso, no rosto do Tontonio. Às vezes uma boa mentira é mais aceita que uma verdade esquisita, e cola mais fácil. É o ruim da lógica – mas não tem nada que seja 100%, e isso é lógico. 

segunda-feira, 30 de julho de 2012

A Senha

Outro dia postei sobre as invenções simples do passado e sobre como quem viveu antes delas é que dá a importância merecida. São coisas simples que não entendemos como foi que demoraram tanto tempo para serem descobertas. A campainha, por exemplo. Antigamente, eram aquelas peças que te ajudavam a bater na porta para não machucar o nó dos dedos, e nas casas com recuo e grades na frente, como a de papai, tinha que ser na palma. A campainha já foi um grande avanço. Logo no seu início, no fim dos anos 50, lembro que, na saída do matinê, ia apertando a de todas as casas e corria. Grande pentelhação. Um dos primeiros interfones instalados em Corumbá foi na casa de meu irmão. Daqueles que você atendia e era um chiado só. Só depois, muito depois, vieram os com câmera de vídeo. Mas fui apresentado a esse comum pelo meu irmão. Todo orgulhoso, apertou a campainha e a empregada perguntou lá de dentro, como treinada:
– Quem é?
Ele olhou sorridente para mim e respondeu:

– José Antônio.
– Quem?
– JOSÉ ANTÔNIO – Já meio chateado e num tom alguns decibéis mais alto.
Quando veio o "QUEIIIM?" de novo, ele já perdeu as estribeiras e falou:
– JOSÉ ANTÔNIO, PORRA.
Aí, acionaram o comando à distância e abriram o portão.
Daí pra frente, qualquer um que apertasse aquele botãozinho e falasse "qualquermerda, PORRA" – a porta se abria. Virou senha.
Mas em uma pequena coisa dá para imaginar como foi a evolução. Hoje uma casa sem porteiro eletrônico é algo impensável. Tá certo que eu reformei as casas de tia Dirce e me esqueci da campainha. Estou procurando um batedor de ferro para instalar lá. Vai ficar por conta de coisas de antigamente. A casa tem mais de cem anos e vai ficar compatível. Vou ver se acho aquele punho fechado de ferro fundido que articulava e batia em outra peça de ferro fixa na porta. Se não achar, vou projetar uma. Vai ficar muito chique. Em vez de DIM DOM, vai ser o antigo TOC TOC. Se quiser ver quem é antes de abrir, olho mágico, que foi outra grande invenção. Vai ficar muito legal e "RETRÔ", que é nome novo para antiga burrice.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

É mole?

Tontonio é o político da família. Acha que cada coisa tem um jeito certo de se fazer e porrada não se inclui em nenhuma delas. Apesar de todo mundo falar que eu sou o racional e ele o emocional da dupla, ele nunca perdeu a linha com quem quer que seja, enquanto eu, mais que um par de vezes, já rolei no chão com marmanjo. Exceção só para o garçom do mister Pizza. Ele tem suas válvulas de escape e de vez em quando elas emperram e o colocam em situações constrangedoras. 
Certa vez, acabado uma reunião nos escritórios de uma das empresas que representávamos, onde ele teve que se conter muito para não mandar todos a merda, os anfitriões foram nos levar até o elevador. Cumprida todas as formalidades de despedida, e ele super contido, entramos no elevador, e assim que a porta de fechou, ele, dando vazão a sua raiva reprimida, deu uma banana para a porta fechada, exatamente no momento em que a mesma reabria e as 5 pessoas participantes da reunião estavam olhando para dentro do elevador. Na mesma hora, apesar do paletó fechado, ele embalou o movimento e cruzou os braços, numa cruzada nunca dantes realizada por qualquer ser humano. Poderia se dizer que foi uma cruzada de manual, onde estaria assim descrito:


1)estique o braço direito e feche a mão;


2)coloque o punho esquerdo com a mão fechada na junção interna do braço com o antebraço direito;


3)articule o braço direito fechando o mesmo sobre o punho esquerdo;


4)continue o movimento com o braço direito dando um laço no braço esquerdo, abrindo as duas mãos. 


Do 1) ao 3) temos a banana e o 4) é o despiste.
Assim que a porta se fechou pela segunda vez, ele encheu a mão com suas bolas e as balançou para a porta, e nesse instante a mesma se abriu novamente. A sorte é que dessa vez o pessoal da reunião estava de costas, pois não sei qual seria o disfarce naquela situação. Voltaram para nós e avisaram que se não apertássemos o botão do elevador ele iria ficar abrindo e fechando a porta sem sair do lugar. Assim que ele começou a descer, o Tontonio mostrando todo seu repertório de mímicas, mandou todos tomar no rabo com aquele sinal característico, onde o dedo "pai de todos" fica esticado e o "fura bolo" e "seu vizinho" encolhidos. 
Não conseguíamos parar de rir da situação em que ele se colocou e, com isso, aliviou toda a tensão acumulada da reunião. É mole?

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Enganos

A lembrança passada foi sobre coincidências, que é aquele fato pouco provável que vem a ocorrer. Entretanto existem outras coisas que, às vezes, nos levam a procurar explicações fora da lógica e acabam ficando completamente fora da realidade.
Eu e Tontonio tínhamos um quarto de solteiro enorme. Tinha uns 6 metros de largura por 12 de comprimento. Talvez 5x10, e o fato da gente ser pequeno fazia ele maior. Como ele esta lá ainda, um dia vou passar uma trena nele para conferir. A minha cama ficava do lado da porta balcão que dava para a varanda e a do meu irmão ficava ao lado da minha, dando para a porta de entrada do quarto. Tinha um corredor interno que comunicava a escada com todas as peças do andar superior, quartos e banheiros. A invenção da suíte foi junto com o controle remoto da televisão. O interruptor de luz ficava junto a porta de entrada do quarto e conseqüentemente mais perto da cama dele. Me lembro que ele deitou por último, mesmo isso tendo acontecido há mais de 50 anos e esqueceu a luz acesa. Depois de deitado falou:

- Você não urinou ainda. Quando for, apaga a luz.

- Boa tentativa. Mas já mijei e você que deixou a luz acesa.

- Você é mais novo, pô! Apaga lá.

- Vai se ferrar. Você que esta mais perto do interruptor.

- Vou dormir com a luz acesa então. Ela incomoda você e não a mim.

- Papai vai ficar puto e vou contar que você que deitou por último e não apagou.

O tom de voz e o palavreado foram ficando mais forte e já estava de filho da puta pra cima, quando a luz apagou sozinha. Foi aquele silêncio total naquela escuridão. Parece que passou o mesmo tempo para cair a ficha que alguém do além, não gostando daquela discussão, resolveu interferir apagando a luz. Como um raio, ou como dois raios, catamos o essencial, colcha e travesseiro, e despencamos para o quarto de mamãe. Se alguém pensar que, eu com 11 anos estava com medo de assombração, quero lembrar que meu irmão é três anos e meio mais velho e saiu na frente.
Dormimos do chão do quarto dela e, antes, brigamos mais um pouco, um xingando o outro baixinho, para não acordar os velhos, e também para diminuir o medo.
Se não comentássemos o acontecido no almoço do dia seguinte, o credito pela apagada da luz ficaria por conta de forças do além, mas papai começou a rir e esclareceu. Ele tinha levantado para ir ao banheiro e do corredor escutou o bate boca e ficou preocupado de largarmos a luz acesa. Como sempre que fazíamos isso ele falava que não era sócio da Ligth, resolveu encerrar o assunto e apagar para a gente. Fez isso do corredor mesmo, achando que tínhamos visto ele e foi para seu quarto. Como vacilamos na corrida, quando chegamos ele já estava deitado e ainda acompanhou os cochichos. Fingiu que estava dormindo, pois se víssemos que ele tinha ouvido a baixaria, teria que nos executar e aquela hora não era oportuna. Aproveitou para nos explicar que as coisas mais lógicas são as últimas em que pensamos, principalmente quando estamos com medo e completou falando:

- Forças do além, só na cabeça de vocês.

Mas foram as forças do além que nos livrou daquela puteada e possível castigo naquela hora da noite.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Mr. Pizza

Meu irmão é um cara super tranqüilo e controlado, mas tem momentos em que ele sai totalmente do sério. É como se ele tivesse um botão que acionado liga o turbo e ele vai de 0 a 100 em 5 segundos. Estávamos os dois em São Paulo quando disseram à ele que o Antonio Fagundes estava a sua cara, no filme "Bossa Nova". Convenceu-me de ir assistir com ele e fomos só nós dois, em um daqueles Cine Marks que tem uma bilheteria para várias salas. Como ele que me convidou fez questão de comprar os ingressos e eu, enquanto isso, fui para as pipocas. Na entrada do cinema a porteira nos barrou, pois a bilheteira deu os ingressos para outra sala onde estava passando "Por Amor". Voltamos rápido a bilheteria e ele falou:
- Você me deu errado, me deu "Por Amor".
Ficou uma frase por demais esquisita e eu brinquei com ele dizendo.
- Pô meu, ela te deu "por amor" e você acha isso errado?
Todos que estavam na fila começaram a dar risadas, pois ele a furou direto para trocar. Ele, que não entendeu o trocadilho repetiu para a bilheteira:
- Eu não quero "Por Amor", quero o Antonio Fagundes.
Aí, como a coisa ficou mais esquisita ainda, até a bilheteira começou a dar risadas e ele foi ficando macho, apesar de dizer que queria o Antonio Fagundes. Quando consegui fazê-lo entender os cacófagos ou coisa que o valha que estava acontecendo ele já estava espumando e só aí começou a dar risadas também.

Em uma outra vez, estávamos no shopping e resolvemos ir a praça da alimentação comer uma pizza. Era num tal de Mr. Pizza, que acho que não existe mais, e pedimos uma grande de mussarela. O balcão era daqueles em dois níveis, onde o lado do cliente era mais alto. Você comprava a ficha no caixa e pedia pros atendentes que ficavam atrás do balcão e que passavam o pedido para os pizzaiolos que iam preparando e dando espetáculo. Rodavam a massa na ponta do dedo e outras acrobacias que ele logo achou por demais sem graça. Quando a nossa ficou pronta, colocaram-na na parte de baixo do balcão e ela ficou ali esquecida, esfriando. Como nós estávamos prestando atenção em tudo, pois a fome era grande, percebemos que aquela era a nossa. Na hora que passou um atendente eu tentei chamá-lo e, apesar do nome, ele não me atendeu. Na segunda passada, quando quis chamá-lo ele nem se dignou a olhar para o meu lado, e isso com a pizza pronta e já esfriando. Aí fiz a besteira e falei para o Tontonio que estava achando que o cara queria me gozar, de propósito me ignorando, pois ele já tinha visto que a nossa pizza estava pronta. Ele só precisava a cortar em fatias, pegar nosso ticket, e nos deixar comer. Tontonio achou que eu estava exagerando e começou com um "psiu" baixinho. Tentou mais uma chamada no mesmo tom e o "PSIU" foi aumentando quando ele percebeu uma risadinha do atendente, que tinha até um certo trejeito. Não dava para dizer, com certeza, que ele era gay, mas como diz meu genro, se faltar um na hora, aquele servia. O Tontonio, já meio emputecido, falou meio alto, algo do tipo:
- O meu, mais um pouco e não vou querer mais essa porcaria fria aí não, hein?
O moreninho olhou para ele e não falou nada, acho até que deu uma jogada de cabeça para trás, daquelas de "pouco me importo" e passou direto.
Foi o suficiente para acionar o turbo. Na próxima passada que ele deu no alcance do braço do Tontonio, ele deu o bote. Não posso dizer que o pegou pelo colarinho, pois a camisa não tinha gola, mas grudou na malha na altura do peito e trouxe o neguinho pra junto dele. Parecia uma onça que, quando cata a presa, a puxa por sob o corpo. Ele de um lado do balcão e o pernóstico do outro, que para não cair já colocou as mãos por sobre a nossa pizza e, com o nariz colado no bicho, ou talvez bicha, babando em tudo que estava no balcão, pelo lado de dentro, falou:
- Seu viadinho, pega essa pizza e enfia no rabo. Chama seu gerente que quero garantir que você vai fazer isso. Quer gozar compra um girico. Isso soltando uma quantidade de perdigotos, que se o nome vem de gotas, nesse caso foi perdinchurrada, pois o bicho babava uma quantidade absurda na cara da bichinha, que de moreninho ficou branquinho. Veio o gerente e não teve coragem de enfrentar a situação e eu já estava vendo chegar os seguranças do shopping e levarem a gente. Ele empurrou o garçom para longe e perguntou pro que ele achou que era o gerente, pois estava com uma roupa diferente, e bordado um Mr. Pizza no bolso:
- O Mr. Pizza, estou aqui há meia hora olhando a minha pizza esfriar e esse porra aí não se dignou a me atender e quando consegui, finalmente, chamar a sua atenção ele enfiou as duas mãos na minha pizza. Tem cabimento?
Deram outra pizza para nós e o Tontonio acompanhou a sua fabricação inteirinha, para garantir que não iam fazer nada de errado nela e a bichinha sumiu dali.
Nunca mais fui no Mr. Pizza. Nem ele.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Meu irmão

Existe pessoas de quem você gosta, outras que você ama e poucas que você ama de paixāo. Mulher, pais, filhos e netos, irmão e irmã são as normais desse último lote, mas meu relacionamento com meu irmão foge da curva completamente. Ele é daqueles amigos que você pode confiar sempre, não tem perigo de te criticar quando faz uma merda e seus conselhos são sempre para te fazer sentir melhor. Desde a época do picolé do seu Erminio, ele sempre foi o meu melhor amigo e fui um cara privilegiado quanto a amigos. Tive o Spadella, Timoteo, Gerson, Ricardo, Choulian e outros que encheriam essas páginas, fora as amigas. Não sei de onde vem essa ligação tão forte, talvez da época em que ele se queimou e achei que ele fosse morrer.

Talvez do dia que o Helio, filho do seu Ermínio bateu em mim e ele foi lá tomar satisfações, levou uma porrada no nariz e voltamos abraçados para casa com ele sangrando pra cacete.

Talvez da época em que me apaixonei pela namorada dele, a Sonia Ruas, e apesar de achar que nunca encontraria outra mulher igual, afinal eu já era um homem experiente com meus 13 anos e sabia que não existia alguém tão linda e simpática quanto ela, por sua causa, renunciei àquele "grande amor".

Talvez do dia em que ele me fez brigar com um cara da sua idade e como sabia que ia apanhar, aplicou o golpe de "para você meu irmão caçula basta", e quem entrou no pau fui eu.

Pode ter outros motivos, mas só um analista bom para saber e assim mesmo após muitas sessões. O que nunca vou me esquecer e acho que ele não sabe disso, foi da noite anterior a sua cirurgia. Ele ia fazer uma ponte mamária com 38 anos e isso há 25 anos, quando cirurgia cardíaca era coisa muito complicada. Estava dormindo com ele, não teve jeito de ficar um só, e eu com Lenir revezávamos a cama de acompanhante e a cadeira do quarto do Einstein. Estava na minha hora de dormir na cama e ele estava acordado conversando com Lenir. Acharam que eu estava dormindo e escutei quando ele falou a ela que confiasse em mim, sempre. Fiquei naquela responsabilidade, mas graças a Deus ela nunca precisou de mim.

Ele está firme e mais forte do que eu. Já passou por alguns pequenos problemas, como da vez que teve que tirar a vesícula. A Lenir estava em São Paulo e ele em Corumbá. Teve que ser operado as pressas e eu que fui de Corumbá para São Paulo com ele. Após a cirurgia, ele fumante inveterado, resolveu fumar no quarto. O enfermeiro quis dar-lhe uma puteada e ele argumentou que tinha operado a vesícula e não o pulmão, que não havia indicação médica para não fumar, como podia fazer cocô, o que não seria permitido se ele tivesse operado das hemorróidas, que poderia cantar o que não seria possível de tivesse operado da garganta. O enfermeiro disse que área de fumantes era no térreo e só para visitantes. Ele resolveu descer para a área de fumantes, empurrando o suporte do soro e com aquele jaleco ridículo que se descuidar fica com a bunda de fora e foi flagrado no elevador pelo mesmo enfermeiro. Quando perguntado aonde ia e respondido corretamente, o cara fez com que ele voltasse ao quarto. Aí ele injuriou de vez, chamou a enfermeira chefe e pediu que fechassem as suas contas, pois ele ia para outro hospital, que aquele era uma merda. A mulher ficou olhando para ele e tentando explicar que quem dava alta era o médico e não o paciente. Foi então que ele ameaçou não pagar as contas. Resolveram colocar outro enfermeiro para tomar conta dele, um meio alegrinho, que deixava ele abrir uma fresta na janela e fumar por ali. Ele sempre me fala que existe os argumentos certos para as pessoas certas.

Tontonio é um cara muito importante na minha vida. Somos sócios em quase tudo, escapou só as mulheres e as escovas de dente. Quando papai resolveu dividir as coisas dele em vida, colocou as três partes dos três filhos em três envelopes e escrito o nome de cada um nos mesmos. Nós já éramos sócios em várias coisas e comprávamos tudo meio a meio. Cada um com seu envelope na mão, sem que ninguém falasse nada, abrimos os dois e misturamos tudo e escrituramos todos do mesmo jeito que vínhamos comprando nossas trainhas, meio a meio. Ele é um cara tremendamente carismático e todos que convivem com ele se apaixonam. Eu já trouxe amigos de longa data para Corumbá e que após três dias aqui, saíram tão ou mais amigo dele do que meu.

É um baita de um irmão e sei que posso contar sempre com ele e em qualquer situação apesar de, às vezes, eu pisar na bola com ele. A sorte é que ele sabe que é, hoje, o único homem, fora meus filhos, que eu posso falar que amo muito.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A compra do Baron

O Tony, Antonio Pompeo Martinez de Carvalho, é um dos maiores conhecedores de aviões pequenos que eu conheço. Além de pecuarista, piloto e corretor de aviões, os quais conhece profundamente, é um cara muito espirituoso. Passamos alguns momentos de muita tensão e outros muitos engraçados, pois tudo acontece com ele por perto. Começamos com negócios e acabamos nos tornando bons amigos. Teve um carnaval que ele passou aqui e o esquenta, quando todos do bloco se reúnem para beber e dançar antes do baile, foi na casa de Mena e Cauto. Como ele era cuiabano e não conhecia ninguém ficava perguntando o tempo todo sobre quem eram as pessoas e fazendo observações engraçadas sobre elas. Teve um momento que estávamos com o Cauto, que tem duas filhas maravilhosas, minhas sobrinhas a Elena e a Diana, e nesse dia estavam fantasiadas de melindrosas e mais maravilhosas ainda, quando o percebi olhando para as duas. Pensei que, como ele não sabia que eram filhas de Cauto, viria besteira pela frente, quando antes que ele fizesse qualquer observação, as duas se aproximaram e nos beijaram, a mim e ao Cauto. Quando se afastaram, ele indagou a nós, apontando com o beiço, quem eram as gostosas. Para deixá-lo chateado, respondi olhando para o Cauto e com ele escutando, que eram suas filhas. Ele não perdeu o rebolado e disse:
- Porra cara, quem diria que você seria um reprodutor desse naipe. Se você fosse touro do meu rebanho eu te castrava na primeira oportunidade e ia fazer uma grande merda, hein?
O Cauto que teve que escutar um puto chamar as filhas de gostosas e depois ser chamado de feio, não conseguiu ficar sem dar risadas.

Na época que estávamos comprando o Baron, ele fez com que eu e o Tontonio fossemos até São Paulo para ver um avião que estava no campo de Marte. Ele iria testá-lo, mas achava que tinha encontrado o avião ideal para nós. Para colocar Tontonio dentro do avião foi um parto. Ele falava que já tinha visto piloto de teste, mas passageiro de teste, nunca. Por fim conseguimos embarcar o bicho, meio tipo bode, empurrando pela bunda, mas foi. Ele entrou atrás e eu e o Tony na frente. As portas do Baron ficam do mesmo lado, diferentes do cessna 206, a de trás que é dupla e a da frente sobre as asas, todas do lado do passageiro, ou seja, direito. Elas têm dois estágios, o primeiro fecha e virando a maçaneta totalmente uma haste incorpora a porta à estrutura do avião. Como as duas são do mesmo lado, é fundamental que estejam bem travadas. Eu, como passageiro, não tinha a menor idéia disso. O Tony embarcou o Tontonio, foi para a poltrona esquerda e eu, por último, para o lugar do co-piloto. Esses aviões são homologados para viajar com só um piloto e a poltrona da frente é de passageiro também. Bati a porta e nem sonhava que tinha que virar a maçaneta e o comandante, apesar de bom, dormiu no ponto. O controle de Marte autorizou a decolagem e assim que ele saiu da pista e comandou o recolher do trem, escutamos o estalo seguido de um assovio. A porta abriu em vôo e nesses casos, você não consegue fechá-la de jeito nenhum. Quando o ar escoa pela carenagem, cria uma região de baixa pressão na área da porta e ela tende a se abrir totalmente, mas quando isso começa a acontecer, muda o perfil aerodinâmico da superfície e a porta passa a ser um obstáculo, e o ar faz com que ela tenda a fechar e com isso ela vai pulsando, como uma bandeira ao vento. Tentamos ainda fechá-la em vôo aloitando para tentar abri-la ao máximo e ver se o vento fazia com que ela fechasse, mas não tinha jeito. Nem chegava a bater. Do Tontonio desesperado atrás, só escutávamos o Filhos da Puta, e isso no meio daquele barulhão todo que o vento fazia. Era mais ou menos como você andar em um carro a 140 km por hora com a cabeça para fora do vidro. Tive que unhar aquela porta para ela parar de vibrar e fazermos todo o tour da pista até pousarmos novamente. Assim que o avião tocou o solo e reduziu a velocidade, o Tony conseguiu bater e travar a porta, deu motor e decolou novamente, isso com o Zé gritando que queria descer, que não comprava mais porra nenhuma e outras baixarias mais.

Fizemos um vôo de quinze minutos e foi amor a primeira vista. O ODU parecia zero bala. Era "a máquina" e quando pousamos, e o Tontonio se aliviou, fomos conversar em como comprar. O Tony quis fazer gracinhas ainda dizendo que a porta fazia parte do teste do avião, para verificar se ele era bom mesmo. No solo que fui verificar como era essa trava e vi que tínhamos escapado por pouco. A porta era como um tirante protendido e fazia parte integrante da estrutura. O avião poderia ter se quebrado ao meio e nada nos salvaria. Ficamos uns 10 anos com aquele bichinho e ele nunca nos deixou na mão. Não foi fácil vende-lo, mas isso fica para a próxima.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Situações

Às vezes você se vê em situações incomuns e se não tiver tempo para pensar e achar uma saída rápido ela pode se complicar. Uma dessas aconteceu em um aniversário na casa de um amigo. Estava momentaneamente sozinho quando apareceu uma senhora fazendo a maior festa para mim, que ela estava impressionada como o tempo não tinha passado para mim, que eu não tinha mudado quase nada e, pedindo desculpas ainda, completou que se tinha alguma mudança foi para melhor. Fiquei simplesmente apavorado, não conseguia me lembrar da dona de jeito nenhum, e fiquei com aquela cara de bunda e com um meio sorriso no rosto, daqueles que você não mostra os dentes e também não fica de todo indiferente. Quando quis falar alguma coisa neutra para ela não perceber que eu nem desconfiava quem era ela, lembrei-me do Emilio Santiago e resolvi alargar um pouco mais o sorriso e continuar quieto. No fim do monólogo, ela se despediu mandando lembranças para Lenir. A porra da dona passou 15 minutos falando como eu estava bem achando que era o Tontonio. Quando contei a ele o acontecido e que ela disse que eu estava mais bonito ele ficou puto.
Numa outra ocasião estávamos em uma roda de umas 5 pessoas no Posto 10. Eu e o Tontonio encostado no Balcão da conveniência e os outros três, acho que eram Cauto, Ruiwaldo e Antonio de Arruda, fechando a roda. O Tontonio começou a conversar com os três e foi fechando a roda e me colocando de fora, dando as costas para mim, isso sem perceber, pois ele é super desligado. Apesar de serem todos super amigos, ficou aquela situação meio constrangedora para todo mundo, pois nenhum dos três queria interrompe-lo e eu, por mais que me esforçasse não conseguia entrar na roda. Cheguei até a pensar em ir embora, mas isso iria chateá-lo demais e eu tinha certeza que era puro desligamento dele, pois seria incapaz de fazer alguma desfeita a quem quer que seja e muito menos a mim. Resolvi fazer uma brincadeira e o abracei por trás e coloquei o queixo em seu ombro. Ele continuou falando e como não percebeu nada eu comecei a espolegar a sua barriga. O pessoal todo já começou a dar risadas Apertava um pouco, fazia uma caricia típica de marido em mulher grávida e... nada. Resolvi encoxá-lo mais um pouco e levei as duas mãos para seu peito uma em cada lado. Ele automaticamente baixava as minhas mãos para a barriga. Já estava começando a achar que ele estava de sacanagem, pois não era possível que não estivesse percebendo, ainda mais com os tres já dando gargalhas da cena. Como ele falava algo engraçado, pensou que riam disso. Então fui desabotoando a sua camisa e coloquei a mão no seu peito por baixo da roupa. Ai ele se tocou e virou assustado perguntando:
-que porra é essa?
Respondi na maior:
-Ficou de costas para mim eu enlouqueço.
Só ai que ele percebeu a brincadeira. Mas ele é assim e já teve vezes de ele sair e deixar a pessoa falando sozinha sem perceber.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O cucunhado

Maria Lucia é minha irmã caçula e era casada com o Pedro, irmão mais velho de Bea. Brincávamos um com o outro que se cunhado já é ruim, imaginem cucúnhado, mas gosto muito dele. Fizemos várias viagens juntos e em todas elas os motivos das grandes risadas eram ele.
Em uma das vezes fomos para Disney, só marmanjos, Tontonio com Lenir, Pedro com Maria Lucia e eu com Bea. Andamos em todos os brinquedos e a conversa era sempre a mesma "a que horas se sentiu mais medo". Montanha russa no escuro, elevador que caía do meio do caminho e outras sensações de "agora foi tudo pro saco de verdade" e na saída o Pedro sempre falava que não tinha sentido medo em momento algum.
Lá pelas tantas apareceu um brinquedo novo. Era uma lancha que se embarcava nela, umas 5 pessoas em cada, e ia navegando rio acima, mas muito acima mesmo. Devia ter uma corrente que ia puxando aquela gôndola e cheio de paisagens que te entretinham no caminho e quando você chegava ao topo, entrava em uma gruta escura em que só via a luz de sua saída e... nessa saída tinha uma catarata. O barco despencava lá de cima e você não via a rampa que estava coberto de água e na chegada ela tinha uma curva que amortecia a velocidade. A queda tinha duas características. A primeira era a cortina de água muito pulverizada que existia antes da curva de amortecimento e que dava a impressão, para quem estava começando a queda, que ali era o nível do rio. A segunda era uma máquina fotográfica igual a essas que tem em radares eletrônicos, que fotografava o barco caindo, no exato momento em que você achava que algo tinha dado errado e você ia mergulhar de ponta naquele rio. Essa máquina ninguém via, só na saída do brinquedo, quando numa tela gigantesca aparecia a foto dos neguinhos se cagando todo de medo. Estávamos, como sempre, conversando sobre o momento de maior medo e perguntamos para o Pedro se desta vez ele tinha sentido, pelo menos, um leve receio. No momento em que ele negou e já começou a explicar que ele sabia que tinha a rampa de amortecimento, apareceu a foto de todos nós naquela tela gigantesca. Toda a Disney começou a rir daquela cara de verdadeiro pavor, de "morri", ou de "adeus mundo cruel", do Pedro. Ele estava com os olhos arregalados, a boca aberta numa tentativa de emitir seu último som e completamente sem cor. Quando estava ali a prova do crime e mostrando que ele era o mais cagão da turma, veio a pérola:
-Eu sabia que tinha essa máquina ali e fiz pose para ela.
Respondemos em coro, como se tivéssemos combinado:
-Pose de cagão, Pedro!? Vai tomar no rabo.
Ele tem outra característica marcante, a sua noção de rumo. Parece que o bicho tem GPS na cabeça, coisa que não existia na época. Analisava o mapa alguns minutos e ia onde você quisesse Enquanto só conseguíamos andar pela Av. US ONE, ele cortava caminho pelas vicinais e quando todo mundo achava que ele estava perdido ele punha todos na porta do nosso destino. Tínhamos um amigo, o Claudio, que morava lá e nos ciceroneava em todos os lugares mas teve que viajar a negócios e, muito preocupado, nos deixou sozinhos. Fez um mapa de Miami e marcou com círculos de diferentes cores todos os lugares. Os azuis eram onde poderíamos ir a qualquer hora do dia, os amarelos, somente durante o dia e os vermelhos eram os totalmente proibidos. No primeiro dia em que ficamos sozinhos, as mulheres resolveram ir a um shopping no centro da cidade e vi que estava na zona amarela. O pôr do sol era as 18 horas e as 17:00 eu já comecei a encher o saco de todo mundo para ir embora. Então me convenceram que "noite" era depois da janta e não após o sol se por. Já saímos do down town se borrando todo, eu no volante e Pedro de navegador. Era uma dessas vans, quase um mini bus, da Ford. Dentro do carro, todo mundo já tranqüilo, ele perguntou para onde tocaríamos e, as mesmas que inventaram o centro da cidade, escolheram um bairro chic, um tal de Banana Republic. Em uma olhada rápida achei que estava na região vermelha e já ia chiar quando o Pedro falou que era nos arredores do vermelho e não dentro. Já começou a dar as instruções para chegar lá e foi incrível, como se ele conhecesse Miami desde gurizinho, e em dois tempos nos colocou aonde elas queriam. Era uma rua toda iluminada, cheio de gente bonita passeando, charretes puxadas por aqueles cavalos bretões enormes, e todos felizes com o tiro na mosca dele, quando não encontramos lugar para parar. Nesse momento ele extrapolou seus conhecimentos de Miami e me mandou entrar numa ruela a esquerda. Assim que fiz isso, parecia que alguém tinha apagado a luz do sol, ou aquela mulher linda que quando tira a roupa você vê que é um traveco e bem dotado. A rua era toda suja com latas de lixo cheias viradas pelas calçadas e cães famintos revirando-as. Num piscar de olhos tínhamos entrado no círculo vermelho. O primeiro grito que escutei foi de Lenir e era algo como "Senta a pua". Carquei o pé no acelerador e virei na primeira à esquerda cantando pneu, faria o contorno na quadra e voltaria para a zona azul. Nisso me aparece um mundo de crioulo de 2 metros de altura e pesando uns 180 kg atravessando a rua e escutando um radio gravador apoiado nos ombros, maior do que ele. O Tontonio assustou grande e já falou que se desse merda o que ele ia fazer com Pedro ia fazer aquele negão parecer um anjo.
O que o Pedro tinha sobrando em noção de rumo faltava em Tontonio. Certa ocasião ficamos na recepção do hotel mais de 15 minutos aguardando por ele. Se perdeu no trajeto quarto - portaria. O Pedro, todas as vezes em que ele se afastava do grupo para ir ao banheiro, perguntava se ele precisava ir junto.
Mas o pior de tudo era a língua. Não tinha jeito de conseguirmos nos comunicar com os gringos. De certa feita, na estrada de Orlando para Miami, paramos em um posto de estrada onde tinha uma lanchonete dessa parecidas com o McDonald e resolvemos almoçar ali. Pelo número escolhemos os lanches e mostrando com dedos para não ter erro. Todo mundo comido e satisfeito, até demais pois os lanches eram enormes, saí o Tontonio com o Pedro para comprar uma goiabadazinha encapada, de sobremesa que eles tinham visto em uma foto. Estávamos da saída da lanchonete quando aparecem os dois com, cada um com uma bandeja na mão com um sanduíche maior que o primeiro. Quando perguntamos que porra era aquela, responderam em coro que era o acompanhamento da merda da goiabadazinha. Pediram pelo numero e se acharam felizes por não terem comprado para todos nós. Comeram a goiabada e jogaram o resto no lixo.
Na saída de Miami, descemos para arrumar um carregador, pois as mulheres tinham comprado metade da America. Na recepção Pedro resolveu gastar seu inglês com o recepcionista e disse:
-du iu ispiqui purtuguise?
O recepcionista respondeu prontamente:
-no, i don’t.
Quando pensei que tinha acabado o diálogo o Pedro vira para ele e diz:
-Entãoô prestê atençãoô. Eu precisoô de un ca-rre-ga-dour de malas.
Enquanto falava isso fazia sinal com as duas mãos, como de estivesse levantando duas malas. Como o porteiro continuava olhando para ele como se ele fosse um ET ele completou:
-anderestudi?
-Noooou, i d'ont speak your lenguage.
Eu acho que ele não repetiu o portuguese, pois ficou em dúvida se aquilo que ele estava escutando era português mesmo. Nisso chega um porto-riquenho, jamaicano ou coisa que o valha e pergunta em espanhol para ele se podia ajudar.
O Pedro na alegria de quem foi salvo pelo gongo fala
-oh, ooouh, yés, yeeeés. Nós queremôs un carregadôr de malas.
-Ok, ok, let's go!
O cara saiu com o Pedro atrás, olhando para mim com uma cara de "Ta vendo", que lembrei do José Alberto. Até hoje tenho dúvidas se o Pedro percebeu que o carregador falava espanhol ou acha ainda que ele entendeu o seu inglês perfeito.
De outra, fomos para o Chile e estávamos em Iquique. Sentamos no bar do hotel para esperar Lenir, que estava atrasada, para variar, quando o garçom chegou perguntando a ele:
-Buenas tarde. Bebem algo?
O Pedro foi o primeiro a se manifestar e disse eu seu espanhol perfeito:
-Si, si, una cueca cuela, por favor.
Quase matou a gente de rir. Mas tinha uma característica que temos que reconhecer, o bicho não ficava inibido e não deixava ninguém falar por ele.
Mandava as roupas para a lavanderia e pedia para trazerem "chiquitito", pedia um café "ratito" e por aí afora. Confundia-se todo e aos chilenos também, mas como ele mesmo dizia, que ia, ia. Companheirão de viagens.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Viagem a Belo Horizonte

Todas às vezes que pego uma estrada eu me lembro daquela viagem. Teve momentos muito bons e outros terríveis, mas todos inesquecíveis. Era julho de 1974, em plena copa do mundo, era uma sexta feira e o Brasil enfrentava a Argentina no dia seguinte. Minha filha estava com alguns meses e Tontonio tinha levado Lenir para São Paulo para tratamento, pois ela tinha perdido o primeiro filho logo que nasceu. Minha irmã caçula Maria Lucia, então com 14 anos, estava em uma excursão com as coleguinhas do colégio e Mena minha cunhada, fazia cursinho em São Paulo e morava comigo. Esse era o panorama do momento. Para nos distrairmos fomos ao Play Center, parque de diversões recém inaugurado, e quando voltamos para casa, por volta da uma da madrugada, na porta de meu quarto tinha um bilhete da Mena, que ficou cuidando da Laura, dizendo para acordá-la que tinha recado importante para nós. Assim o fizemos e ficamos sabendo que mamãe tinha ligado avisando que Maria Lucia tinha empacado em Belo Horizonte com saudades de casa e era para nós irmos pega-lá. Eu tinha um Maveric e resolvemos sair direto. Não estávamos com sono e se deitássemos naquela hora perderíamos o jogo, e Brasil e Argentina em copa do mundo era impensável.
Estava um frio absurdo e o carro com o sistema de aquecimento ou quebrado ou nunca existiu mesmo, deixava a temperatura interna aparente abaixo de zero e me lembro da neblina congelar no para brisa e termos que parar várias vezes para abastecer o reservatório de água. Se ligasse o limpador depois de congelado podia estragar a borracha. Dirigia com uma mão e sentado sobre a outra e ia revezando. No começo até que estava bom e fomos conversando. Quando chegou o sono é que foi tora. Veio para os dois ao mesmo tempo e não tinha onde parar. Eu dirigindo, dormia de olhos abertos e me sentia no Play Center no trompa trompa e queria encontrar alguém para bater de frente e ver a cara do motorista. Quando acordava com o barulho de caminhão cruzando com a gente que via o perigo pelo qual tínhamos passados. Acordava Tontonio e passava o volante para ele. Deitava e dormia profundamente quando sentia o nariz escorrendo e o ranho congelando. Acordava e achava que estava com hipotermia. Esfregava as mãos, limpava o nariz e desmaiava de novo até que o Tontonio parava e pedia para pegar um pouco, pois ele não agüentava mais. Achava que tinha passado horas e eu já estava recuperado e quando olhava o relógio tinha passado 20, 30 minutos. Pegamos um guarda rodoviário no acostamento e pensamos em entregar o carro para ele dirigir. O puto não tinha carteira. Devia ser o único guarda rodoviário sem carteira do país. Perguntamos se ele não sabia dirigir sem carteira mesmo e desistimos com a resposta de "esse tipo de carro não e eu sou guarda rodoviário, como vou dirigir sem carteira" . Pensei em perguntar que tipo de carro ele sabia mas desisti. Devia ter perguntado pois ia servir para espantar o sono. Com ele conversando com Tontonio consegui dormir mais cumprido e quando peguei fui até BH.
Fomos direto para o hotel, ia começar o jogo, ligamos para Maria Lucia dizendo que já estávamos lá e mentimos que íamos dormir um pouco. A mentira virou verdade e desmaiamos enquanto o Brasil ganhava da Argentina em plena copa do mundo. Acordamos já na hora da janta e resolvemos levar Maria Lucia para comer conosco. No fim foi todo pessoal que cuidou dela depois que a excursão continuou a viagem. Gente muito fina e nos levaram para conhecer a ladeira do amendoim, onde os carros subiam sozinhos. Eu já era engenheiro e conhecia a lei de Newton, e percebi que era ilusão de ótica mas Tontonio começou a acreditar no que nossos anfitriões estavam falando. Você parava o carro e ele ia subindo e diziam que eram forças magnéticas, igual a um imã gigantesco que puxava o carro para cima. Começou uma discussão e o Tontonio começou a me chamar de sabichão, que eu não acreditava nos fatos, estava ali o carro subindo, estava ali o cara explicando do imã e eu cabeça dura discutindo, pior que São Tomé, pois esse bastava ver para crer e eu nem isso. Fui ficando nervoso até que mandei os elementos femininos se afastarem e irem para o carro. Ficou o Tontonio, o mineiro mentiroso e eu. Por sorte eu estava com muita vontade de urinar e assim o fiz. Quando a urina começou a subir eu perguntei a ele se o efeito do imã também atuava em urinas o que o deixou sem resposta. O Tontonio ainda me criticou dizendo que era falta de educação não acreditar nas mentiras do anfitrião e isso na frente dele. Na viagem discutimos para definir o que foi pior, urinar na frente do homem, desmenti-lo ou chamá-lo de mentiroso. No dia seguinte voltamos os três para São Paulo. Acho que foi a única vez que viajamos juntos e sozinhos. O Maveric tinha aquele banco inteiriço na frente e viemos todos neles. A caçulinha no meio de nós dois. Bem dormidos viemos tranqüilos e pensando que se o sono apertasse entregaríamos o carro para ela que já dirigia super bem, apesar de mulher.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Os burricos da Apae

Já falei que meu irmão não entende e não gosta de fazenda. Vê a coiseira toda como um negócio e não adianta dar uma de Luis Guilherme Lacerda com ele, que vive falando que "trabalhamos em um ambiente maravilhoso, andando a cavalo por esse pantanal onde pessoas pagam para isso, respirando esse ar que mais puro não existe, convivendo com esses animais silvestres lindos e maravilhosos, e ainda querer ganhar dinheiro com tudo isso já é demais". Há muito tempo atrás, antes de eu saber o quanto ele entendia de pecuária, fomos a um leilão no sindicato rural de Corumbá. Enquanto eu participava ativamente do leilão de gado de corte ele ficou batendo papo com todo mundo e só olhava quando o leiloeiro falava "...e a compradora foi a fazenda Angico". Olhava e sorria para mim. Quando acabou a primeira parte e começou o leilão de eqüinos, resolvi dar uma esticada de pernas e o deixei sozinho na mesa. Fui até a porta do tatersal de modo a ver os animais mas sem poder participar dos lances. O primeiro lote foi uma doação que fizeram para a APAE e era de um casal de burricos. Igual aquele que Jesus entrou em Jerusalém. Não tem coisa mais feia e encardida que esse bicho. São muito pequenos com umas orelhas desproporcionais, que nem os coelhos, uma cabeça muito grande para o tamanho do corpo, e o principal, não serve para absolutamente nada em uma fazenda de gado de corte, a não ser dar raiva para capataz pois não tem cerca que ele não vare. Existe para produzir a mula ou o burro, cruzando ele com a égua, e isso é foda, literalmente. Primeiro pelo tamanho, você tem que cavar um buraco para ele ter altura e alcançar a égua. Depois ele é masoquista e você tem que surrá-lo para cobrir a bicha que está num buraco e esperando aquela coisa horrível trepar nela. A conclusão é que não tem bicho mais inútil. Fiquei olhando achando até meio sacanagem alguém fazer uma doação desse tipo. Se dessem pra mim um trem daqueles eu agradeceria e não aceitaria nem que fossem acompanhados de um troco. Me admirei quando alguém aceitou abrir o leilão pelo valor proposto pelo leiloeiro e o desenrolar foi mais ou menos assim:


- Duzentos, duzentos, duzentos, quero mais vinte, mais vinte, vamos lá pessoal, é para a APAE, só mais vinte...


E a coisa ficou por bem uns 3 minutos naqueles mais vinte que não vinha, Ai passou para mais dez, mais dez, só mais dez, que também não veio. Finalmente ele bateu o martelo e falou:


- A APAE agradece a colaboração e a compradora foi a Fazenda Angico.
 Olhei pro leiloeiro com a expressão de "eu não comprei essas merdas", quando ele apontou, com os olhos, para o meu irmão. Fui até a mesa e ele me falou:


- Você saiu e se não fosse eu íamos perder de comprar esses pôneis para as crianças. E comprei barato.


- Pônei Zé? (eu o chamo de Zé quando estamos brigando). Burrico!


- Porra meu, você comprou um monte de gado e fiquei quieto. Eu compro dois pôneis e você me chama de burro?
 Não Zé, burrico foi o que você comprou. Não são pôneis. O último cara que montou nisso foi Jesus. 


Aí demos risadas. O trem deu ódio para gente até o dia que conseguimos passá-los para a frente. Trocamos o casal mais uma cria que nasceu na fazenda por uma vaca leiteira e a vaca valia os 200. Papai já dizia que eu tinha muita sorte pois nasci empelicado e de tóba pra lua e isso vivia se comprovando, até no meu dia a dia.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Quase quase

Quando comecei a fazer o meu mestrado cheguei a ficar meio aficionado por cálculos. Em qualquer lugar que ficasse parado eu começava a analisar a estrutura. Às vezes nem via a missa passar. Ficava olhando as abóbodas e vendo como as forças eram distribuídas até o solo e calculando mentalmente o quanto aquilo estaria superdimensionado pelas restrições da época da construção. À medida que as estruturas foram ficando mais leve devido ao aumento da resistência dos materiais, a precisão de cálculo, ao concreto armado e depois protendido, os esforços dinâmicos passaram a ter importância, que antes pela rigidez das estruturas podiam ser ignorados, mas que com as estruturas mais esbeltas faziam surgir oscilações que muitas vezes entravam em ressonância e acabavam caindo.

Estava nessa época de estudos de Análises Dinâmicas com o professor Paulo Rizzi, que também era meu orientador, quando meu irmão Tontonio foi a Taubaté passar alguns dias comigo, incumbido de comprar um novo carro para papai. Depois de muito testar optamos por um opala 2,5 litros, 4 portas, café com leite, da GM, muito bonito. Depois de colocar toda documentação em ordem pegamos a estrada para Corumbá, na realidade até Campo Grande, e de lá pra cá embarcado no trem da noroeste. Optamos por pagar mais caro e colocá-lo em vagão fechado, era mais seguro, pois existiam uns vândalos, é já tinha isso desde aquela época, que gostavam de atirar pedra no trem e poderia amassar o carro novinho. Bea com as crianças estavam já em Corumbá, de modo que saímos só os dois e logo após o término do meu expediente. A idéia era ir dormir em São Paulo, mas quando estávamos chegando resolvemos esticar e dormir mais para frente e diminuir a perna do dia seguinte.

Como o papo estava bom fomos noite adentro até que no clarear do dia começou a formar um temporal. Começou a chover muito duro e não deu tempo de acharmos um posto para parar e começaram a cair granizos. Nós, com o carro zerinho do velho, começamos a ficar desesperados em pipocar toda a pintura quando tivemos a idéia de parar debaixo da primeira ponte que aparecesse. Quando apareceu percebemos que a idéia genial tinha sido compartilhada por todos, mesmo os que estavam com carros velhos e tivemos que continuar até o primeiro posto. Entramos nele e ficamos de baixo da cobertura. Verificamos a pintura e, como por milagre, estava intacta. Aproveitamos para dormir um pouco dentro do próprio carro. Enquanto não vinha o sono eu comecei a estudar a estrutura da cobertura metálica que nos abrigava. Eram dois pilares centrais com um vão de mais de 15 metros e com um balanço de 10 metros de cada lado e também nas extremidades. Era uma coisa monstruosa, dando uma área total de 20 metros de largura por 35 de comprimento. Comecei a perceber que a mesma estava oscilando e que a amplitude ia aumentando e quando cessava o vento, ela parava. Comecei achar que era o efeito do sono, não podia estar vendo aquilo, mas resolvi comentar com o Tontonio, e pedi para ele observar também. Ele já me puteou e disse:
- Você quer me gozar, né? Esta merda esta aqui há vários anos e você acha que vai cair na minha cabeça exatamente agora? Pare com esse pessimismo senão não vou conseguir dormir e vamos bater o carro e morrer os dois.
Ia retrucar que isso é que era pessimismo mais achei o argumento dele convincente. Acabei por dormir com o balanço da estrutura, e como balançava! Acordamos já com sol a pino e vimos que já passava das 8 da manhã. Resolvemos ir tomar café no próprio posto depois de confirmarmos que o carro estava realmente em ordem. Saímos conversando de outras coisas e já tinha esquecido da oscilação da cobertura quando, uns 50 km para frente, passamos por outro posto muito parecido com aquele em que dormimos e já vimos o estrago.
A cobertura tinha caído e sob a mesma devia ter mais de 20 carros. Paramos para ver o que tinha acontecido quando um caminhoneiro nos falou que o teto veio abaixo na hora do temporal. O Tontonio olhou pra mim e meio que começou a chorar, ele é muito chorão, não sei se de alegria ou de ver como aquele carrinho estava dando sorte e escapando de cada uma por tão pouco e falou:
- Porra meu, podia ter sido o outro em que nós estávamos e você não vai acreditar, mas eu sonhei que você falou que ele ia cair na nossa cabeça.
Assumi o volante e não deixei ele dirigir mais o resto da viagem.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

O lobista

Antes de contar essa história tenho que falar da relação existente entre meu Irmão e sócio na empresa de agropecuária e a fazenda. Apesar dele ter sido o motivo de nossa entrada nesse ramo de negócio, ele não entende e não gosta de nada relacionado ao campo. Vive me dizendo que, da fazenda, ele gosta do bife e a melhor hora é quando da tchau pra turma e entra no avião para vir embora.
A primeira fazenda que compramos foi em 1985 e ele, com 38 anos, por causa do stress colocou uma ponte mamaria. O médico nosso achou de recomendar que comprássemos uma chácara para ele se distrair, respirar ar puro e pintar cercas. Ele gostou da idéia e compramos o Rancho Alegre. Tinha uma casinha de madeira e fica num planalto a beira da divisa com o pantanal. A primeira vez que levei-o lá para aprovar a compra da fazenda já fez a primeira exigência, que em casa de madeira ele não dormia de jeito nenhum. Construímos uma de alvenaria, dois quartos com varanda na frente, cozinha americana conjugada com a sala, coisa chique mesmo. Compramos umas vacas leiteiras para ajudar nas despesas da fazenda e levei-o novamente para visitar e marcar de ir passar o fim de semana lá. Quando falei em dormir lá ele se arrepiou todo. Sem ar condicionado e luz elétrica, nem que a vaca tussa. Puxei energia da fazenda vizinha e colocamos o ar condicionado. Quando estava tudo pronto o convidei para dar uma volta de carro, e não falei nada.
Queria fazer surpresa mostrando a fazenda pronta, com energia, ar condicionado, a leitearia funcionando as mil maravilhas tirando uns 200 litros de leite por dia e já auto-suficiente. Quando tomamos o rumo ele já começou a reclamar que não estava vestido adequadamente para ir à fazenda, realmente estava de camisa polo, calça jeans e tênis branco. Chegando lá, fomos direto para a leitearia. Fui andando e pisando nas bostas secas das vacas com ele desviando de todas, quando percebeu que eu pisava nas mesmas e nada acontecia resolveu fazer igual e a primeira que pegou foi uma frescal que abraçou seu tênis branco que era daquele que tinha tecido furadinho junto com o couro. Já aborreceu grande. Esse é seu handcup com fazendas. Literalmente não entende de bosta nenhuma. Esclarecido essa parte, voltemos à história principal.
Era final do século, dezembro de 1999 e eu preocupado com o bug do milênio quando o meu irmão me liga dizendo que ele estava com um baita pepino na mão. Quando perguntei se era com o bug ele respondeu:
- Quem tem bugue é você. E não vai falar que eu não avisei para você não comprar essa porcaria. Falei para você que carro novo brasileiro já é difícil ser bom, imagine esses rebuilts de bugue.
Nem consegui explicar que o bug a que me referia era o do milênio quando ele já completou dizendo que tínhamos que acompanhar o vice presidente de uma companhia que representávamos, pois o mesmo estava procurando uma fazenda no pantanal para o seu chefe passar as férias.
A função dele era verificar as condições de conforto, segurança e comunicação pois o tipo não podia ficar isolado mais que 24 horas. Quando ele me falou isso eu já vi que era fria mesmo e que não tínhamos lugar que atendia a essas condições. Aí ele me falou que tínhamos que acompanhar o tipo para que ele visse pessoalmente isso e não pensasse que estávamos com má vontade, e por incrível que pareça se propôs a ir junto. Vi, por aí, que o assunto era sério mesmo.
Na data marcada ele, Zé Mauro e eu estávamos no aeroporto, com nosso avião já abastecido, esperando o vice presidente desembarcar do avião da Tam e embarcar imediatamente no nosso com destino a Santa Anatália.
Ele tinha um único dia para essa missão. Fretamos mais um avião para levar os demais membros da comitiva e, na conversa do aeroporto, já imaginei o que seria a nossa aventura. O tipo já perguntou se íamos de jato e o porque de dois aviões. Quando falei que era um monomotor e que a pista era de grama, quase que ele encerrou ali a visita. Quando apresentaram o Zé Mauro com sua camisa fora das calças e seu chapéu de palha, como nosso piloto, o homem ficou branquinho. O Zé Mauro que não tem papas na língua já me solta um:
- Empresta uma bota sua para ele pois com esse sapato de bispo ele não vai longe.
Quando olhei pro pé do homem, torcendo para ele não ter escutado a observação do Zé, vi aqueles sapatos de sola de couro com uns penduricalhos no lugar do cadarço, brilhando que dava para pentear cabelo no reflexo dele. Aí fui prestar atenção no resto da roupa. Calça de barra, camisa de mangas compridas, gola fechada e engomada, cinto combinando com o sapato, pronto para ir a uma ópera, mas nunca para o pantanal. Tive que me segurar para não rir do "sapato de bispo" do Zé.
Chegamos em Santa Anatalia e estava o Cauto com uma toyota bandeirantes nos esperando. Mostramos as instalações para o chefe, destaque para os banheiros com umas pererecas, e saímos para um passeio pelos campos. Por via das dúvidas levamos revólveres para pegar um porco, se aparecesse algum no nosso caminho. Para impressionar o Tontonio fez questão de colocar um nas mãos do vice, pois ele estava querendo fazer o seu lobby. Saímos, com eu e Tontonio escoltando o vice na carroceria da toyota. Um de cada lado do artista. A fazenda estava linda, aqueles campos verdes e com vários animais, veados campeiros, capivaras, quatis e muitos outros, com o Tontonio mostrando e eu falando os nomes dos animais. Lá pelas tantas passa uma ema correndo na frente do carro e o diálogo foi surrealista:
- Zé Antonio, que ave é essa? , pergunta o Vice.
- Peru, responde o Zé. Quando escutei isso quase desci da toyota andando.
- Peru, Tadeu?
Não podia desmenti-lo e respondi:
- Passou muito rápido, mas me pareceu uma ema.
- Tem Peru selvagem aqui?
Antes que pudesse falar a verdade e dizer que nunca tinha visto um na minha vida, o Tontonio respondeu:
- Pra dar com o pau.
A sorte, para encerrar esse assunto, foi o aparecimento de um pé de cabaça, que o Zé mandou o Cauto parar para fazer um tiro ao alvo. A cabaça devia ter uns 20 cm de diâmetro e estava a uns 40 metros. O Tontonio mandou o vice atirar. O homem deu seis tiros e passaram muito longe. Aí me mandaram atirar. Foi um só, bem no centro e explodiu a cabaça, o que deixou o vice tremendamente impressionado. Ele nunca tinha visto um tiro assim. Nem eu. Puta cagada.
Nem preciso dizer que a fazenda não foi aprovada porque não cumpria nenhum dos itens obrigatórios, apesar de ter todos os outros convenientes, e que o meu irmão conseguiu fazer o lobbyzinho dele deixando todo mundo contente com o seu empenho.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Não recomende


Astréia é a sogra de meu irmão, é mãe de Lenir, minha cunhada. Não sei precisar a data, mas a uns 36 anos atrás, o Luis Alberto, cunhado dele, ia ficar noivo de uma paulista, a Malu. Ela vinha a Corumbá conhecer a família. Como o Tontonio falava muito palavrão, a D. Astréia caiu na besteira de recomendá-lo, dizendo que era uma moça muito bem criada, católica e que não estava acostumada com as palavras de baixo calão que ele vivia usando, e pedia que ele fizesse o favor de não falar nenhum palavrão na frente dela. Segundo o Tontonio, que me relatou o fato, ele já ficou emputecido na hora e só não mandou a sogra tomar no... porque estaria, indiretamente, dando razão a ela.
Marcaram um jantar no melhor restaurante da cidade para o dia da chegada da cunhada. O Tontonio que foi pega-los no seu carro. Ele e o cunhado na frente, a sogra, a concunhada e a Lenir atrás. Passearam pela cidade e até a chegada ao restaurante ele estava quieto e todo mundo incomodado, pois ele não abriu a boca nem para o costumeiro "muito prazer" quando foi apresentado. Quando pararam no restaurante, ele desceu, colocou o seu banco para a frente para as mulheres saírem, colocou o corpo dentro do carro e falou sua primeira frase:
-Vamos lá putada.
30 anos depois, estávamos no aeroporto esperando uma arquiteta que viria do Rio para projetar o posto 10. Ele queria fazer o posto mais lindo da cidade e se propôs a não poupar esforços ou dinheiro para fazer isso. Enquanto aguardávamos a dona ele começou a fazer suposições de como ela seria: Carioca, 35 anos, bonitona, antipática, fui ficando preocupado e caí na besteira de recomendar que ele não tomasse muita liberdade com ela pois poderia ser mal interpretado. Vi na hora que ele não gostou e achei melhor não consertar pois, normalmente as minhas emendas são piores que meus sonetos.
Recepcionamos a arquiteta que veio com sua projetista e fomos direto para o terreno onde seria construído o posto. Passamos a tarde toda trabalhando e a noite fomos levar as duas para jantar. Ele tinha acertado em quase tudo, com exceção que a dona era muito simpática. Ele foi na sua BMW nova, abriu a porta da frente para ela entrar e me colocou atrás com a projetista. Estava um perfeito gentleman. Era dezembro e estava um calor de matar. O ar condicionado do carro no máximo e o calor, fora do carro, violento. Quando abria a porta, a impressão era que você saía da geladeira e entrava no forno. Estava tudo bastante formal quando a arquiteta, sem querer, apoiou seu cotovelo no botão do vidro e o abriu. Na hora ele olhou assustado para ela e perguntou:
- Você peidou?
A mulher primeiro assustou demais com a pergunta e depois começou a rir e não parava mais. Depois disso eu nunca mais recomendei nada a ele. O bicho é louco.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Guerra de Mamona

Tia Dirce é irmã de papai, minha madrinha e tia preferida. Ela sempre foi muito ligada à Mamãe e acompanhou toda sua gravidez que foi super complicada, e quando nasci fui batizado por ela e pelo médico que fez o parto, o Dr. Eneas. Nasci coberto pela membrana que segura o liquido amniótico e a bunda primeiro. Papai sempre falava que eu era um cara de sorte porque tinha nascido empelicado e de cú pra lua. Assim que fiquei sabendo a origem do provérbio: "nasceu de fiófó pra lua".
Eu vivia na casa dela. Primeiro porque ela tinha um monte de filhos e o Dirceu era da minha idade, depois porque ela era super tranqüila e deixava a gente fazer de tudo. Esse costume começou cedo pois como vovô Marinho morou muito tempo com ela, o programa de papai era ir visitá-lo toda a noite com a família. Tio Vicente, marido dela, criava passarinhos e tinha um quintal super gostoso, cheio de arvores pra gente subir e um tanque de 2x3 onde tomávamos banho. A principal brincadeira era a guerra de mamonas. A arma era o estilingue, que na época chamávamos de funda, e a pelota era mamona verde. Além de não machucar muito deixava a impressão. Virava e mexia, o nego levava um pelotaço na testa, ficava aquele vermelhão sujo de verde, e ainda tentava negar com um "não acertou" ridículo, quase chorando de dor. Dividíamos a turma em duas, os bandidos e a polícia. Era um esconde-esconde misturado com pegador. O polícia tinha que achar o bandido e acertar o tiro, e tomar cuidado para não ser morto antes. Quem levasse um pelotaço de mamona ficava fora da brincadeira que acabava quando a polícia matasse todos os bandidos ou vice versa.
Numa dessas eu estava de bandido e resolvi me esconder dentro do tanque. Devia ter visto algum filme que o cara fazia isso. Peguei um talo de mamoeiro, afundei e fiquei respirando por aquele tubinho. 
O Zé Antônio, meu irmão, era um dos policias e resolveu sentar na beira do tanque para poder procurar melhor e com o estilingue carregado e já pronto para disparar em qualquer coisa que se movesse. Aí que vi a burrice que tinha feito. Até sair do tanque, armar o estilingue e disparar a queima roupa, eu seria atingido primeiro com certeza. Resolvi improvisar usando do elemento surpresa. Levantei do tanque gritando e com o talo do mamoeiro finquei nas suas costas gritando que era minha faca. Quando meu olhar cruzou com o dele que vi o susto que ele tinha levado. Estava branquinho pois ele nunca esperava isso e não conseguia falar. Quando ele se recuperou do susto eu apanhei de verdade, ele era mais velho e mais forte e acabou a brincadeira.
Ele nunca gostou de perder.

terça-feira, 27 de julho de 2010

O Enxurrio


Já me falaram que as coisas mais complicadas, muitas vezes tem soluções muito simples, e nós não vemos, ou pela gravidade do problema ou porque somos burros mesmo. Eu era sócio e o auditor de uma empresa, quando resolvemos encerrá-la. Além de meu irmão tinha mais dois sócios dos quais ficamos muito amigos, e eles tinham muita confiança na gente. Mas encerramento de empresa é uma coisa muito séria e que não pode ter erros ou se corre o risco deles serem mal interpretado. Como eu era piloto e também já tinha sido calculista e esses também não podem errar, não estava preocupado com o trabalho que eu tinha feito e sim com a data da apresentação. Não me lembro dos motivos mas já tinha adiado essa apresentação por duas vezes. A reunião foi remarcada, pela terceira vez, e combinado de nos encontrarmos em Foz do Iguaçu, pois um dos sócios, queria conhecer as cataratas e a usina de Itaipu. Tudo pronto e dois dias antes pego a maior disenteria da minha vida. Não podia nem espirrar porque qualquer pressão era aliviada pelo suspiro inferior. Coisa braba mesmo. Entrei em desespero pois se adiasse mais uma vez ia ficar parecendo que eu não queria prestar contas, ou que havia algo errado e eu estava querendo tempo para consertar.

Iríamos de carro, sairia daqui de Corumbá, com meu irmão e a minha prima Laís que trabalha com a gente, e tocaria para Foz. Chegaríamos no horário marcado, já considerando todas as paradas em todos os banheiros da estrada. Tinha só um problema a resolver. Não uso papel higiênico há mais de 30 anos, primeiro porque acho a coisa mais sem higiene que existe, uma vez que não limpa, esparrama, e depois tenho uma amiga chamada hemorróidas que não me abandona jamais. Não tinha outro jeito, tinha que levar um bidê comigo. Aí que veio a idéia, simples e por isso, genial. Comprei uma bomba costal que era usado em pulverização de lavouras. Você coloca nas costas, como uma mochila, e tem uma alavanca de um lado que você bomba e faz pressão dentro do reservatório, e do outro sai uma mangueirinha, com um bico onde você regula o jato. Tinha que ser zero bala, não poderia correr o risco de socar herbicida ou pesticida no rabo. Podia ser das pequenas, e as menores eram de 5 litros, volume mais que suficiente para uma higienização mais que perfeita. O Zé até deu a idéia de colocar pétalas de rosa dentro para perfumar o meu, pelo que foi mandado tomar no dele, devidamente.

Tudo certo, pegamos o carro, tomei um remédio para tentar segurar, e deitamos cabelo. Na primeira hora já começou aquele roc roc e nada de posto. Em último caso seria no acostamento. Como por encanto passou tudo. Fiquei contente e achei que era o remédio que estava começando a fazer efeito e ao mesmo tempo lembrei que tinha que abastecer a bomba, pois tinha pensado em posto, não previ a possibilidade do acostamento. Lá pelas tantas apareceu um posto bom e, por incrível que pareça, o Zé ou Laís que quiseram parar. Era um BR bonito, limpinho, parecia que estávamos no Posto 10. Como quando um vai, vão todos, desci para fazer um pipi, mas tranqüilo. No meio do mesmo aconteceu a besteira, fui dar um punzinho e me caguei todo. Só senti aquela coisa quente e já gritei pro Zé:

- Traga a bomba costal que apareceu intrusos no meu peido.

O besta, ao invés de ir disfarçadamente, saiu desesperado do banheiro, foi ao carro pegou a bomba e voltou correndo. Umas 10 pessoas que estavam olhando se assustaram sem entender qual podia ser o tamanho dessa barata para colocar um homem daquele tamanho para correr e o que tinha naquela bomba de tão poderoso. Nem precisou da bomba pois tive que tomar banho e trocar de roupa. Não escapou nem a meia. Aí aprendi e punzinho nunca mais. Fui mais 5 vezes e a bomba funcionou que é um espetáculo. Ótimo para viagens, recomendo a todos, independente de estar ou não com enxurrio.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Mexeu, morreu

Devia ser por volta de 1971. Eu estudava em São Paulo e o Tontonio já estava em Corumbá. Tinha largado o curso de engenharia e veio para trabalhar com Papai. Tínhamos um primo, Edson, filho de tio Feres irmão de mamãe, que morava em casa. Os dois trabalhavam no Marinho com papai, e o Edson ficava na minha cama quando eu estava em São Paulo estudando.
Certa noite papai acordou os dois. Tinham telefonado avisando que tinha entrado gente na firma. Naquela época não tinha o 193 para ligar e muito menos policia para ir verificar. Devia ser por volta das duas da manhã e eles num sono profundo, demoraram para acordar com papai já ficando nervoso. Por fim se aprontaram e papai quando viu os dois quase caiu duro. O Edson com um revólver na cintura e um cinturão de balas cruzado no ombro. O Tontonio com uma espingarda numa mão e um facão na outra. Era o próprio exército de Branca Leone. Chegando no Marinho, no início foi aquele cagaço só. Um atrás do outro tremendo e pronto para atirar em qualquer coisa que se mexesse, mas a medida que não foram encontrando nada, nem sinal de alguém ter entrado, foram relaxando. Já estavam querendo ir embora e papai mandando, olhe em tal lugar, veja no depósito de pneu. O Tontonio que se dirigiu para esse último. Os pneus eram armazenados deitados e em pilhas de 10. Ele já de saco cheio e achando que não tinha ninguém, chegou na porta, ascendeu a luz, apontou a espingarda e gritou:
- Hei você aí! Já estou te vendo. Saia de mãos levantadas ou vai sentir o calor do meu estanho.
Acho que ele tinha visto isso em algum filme.
De repente, não mais que de repente, dois negões enormes saem de dentro dos pneus, de mãos para cima. O Tontonio, quando viu os dois, quase se borrou todo e começou a gritar:
- Vou atirar, mexeu morreu. Edson, Papai, estão aqui, são dois. Socorro!
Ele conta que os ladrões ficaram olhando um pra cara do outro sem entender nada. A coragem dos três era tanta que levaram os ladrões para a delegacia de a pé, ou seja, os ladrões andando ao lado do carro e os dois na janela com as armas apontadas para eles, com papai dirigindo.
Imaginem esse acontecido hoje. Iam todos presos. Os bandidos por roubo e os artistas por porte ilegal de armas. Tempos bons aqueles.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Tontônio

Tontônio, meu irmão, é um cara engraçado mesmo quando não esta fazendo graça. Tem umas manias e variam com a época. Teve aquela de "voar é pra passarinho" que nos proporcionou lances engraçadíssimos. Quando não tinha jeito ele embarcava. Levava sempre um vidrinho de plástico com água benta. Entrava no avião e até chegar ao seu lugar ia aspergindo aquela água por todos. O pessoal achava até meio simpático, uns pensando que se tratava de um sacerdote. Já tinha acontecido de eu estar por trás e ver pessoas que sentindo a água e vendo de onde vinha, tocá-la e fazer o sinal da cruz. Numa dessas viagens, o bicho estava com um baita resfriado e entrou, como sempre, fazendo sua benção. Quando chegou em seu lugar que percebeu que tinha jogado sorine no povo. Em vez de disfarçar, meteu-o no nariz entupido e deu duas borrifadas, e quando olhou para trás que percebeu a merda. Só deu tempo de passar um pouco de sorine na mão e se benzer também, deixando todo mundo sem entender que porra tinha sido aquilo.
Um outro lance digno de nota foi quando ele recebeu uma foto da Luiza Brunet. Escala 1:1, de costas, completamente sem roupa, de pé sobre um salto alto e com o rosto virado olhando para trás. Era uma foto por demais sensual. Se ela é boa ainda hoje, imaginem a 25 anos atrás. Ele e papai tinham um escritório só, de uns 4x4 onde tinha uma geladeira e na sua lateral pregaram a foto da Luiza. Não tinha quem não entrasse na sala e não observasse aquele monumento de mulher. Certo dia, com a sala cheia de vendedores, mais papai e eu, ele resolveu fazer graça e abraçou a Luiza Brunet. Neste exato momento entra minha cunhada, a Lenir, e o flagra encoxando a geladeira. Quando ela entrou foi um silêncio geral, quando ele, ainda abraçado a geladeira, falou:
- Ô meu, ninguém vai me ajudar a carregar essa porra.
Na mesma hora todos se levantaram e mudaram a geladeira de posição. Nunca vi presença de espírito igual.
E as palavras que ele inventa e fala com a maior naturalidade. Estávamos viajando com nosso Baron, de Corumbá para o Rio. Lá pelas tantas, ofereci uma bolachinha de água e sal para ele que me olhou fazendo uma cara como se estivesse lhe oferecendo merda pura. Quando perguntei o porque da reação ele respondeu que "aquilo" era muito ENTALANTE.
Igual a essas eu perdi as contas.

terça-feira, 8 de junho de 2010

O Carnaval

Eu não queria deixar ela ir de jeito nenhum, mas ela já tinha convencido a mãe. Maria Mercedes, filha do meu irmão e ainda por cima mais nova, ia e ainda prometeram que ficariam brincando perto da mesa onde nós pudéssemos acompanhar. Laurinha tinha uns 13 anos e ia no primeiro baile de carnaval. Estava começando novas fases, boa para ela, não tanto para mim. Eu era um pai muito, zeloso para os amigos, ciumento para os críticos. Carnaval era festa de adulto e ela estava ficando, mas não era. Enfim, em assuntos de Laura, Beá sempre teve a última palavra. No baile ela se comportou muito bem, os outros que nem tanto.
Estava na mesa, tomando meu wiskinho e vendo o baile, Tontônio, meu irmão, do meu lado, Beá mais um bando inteiro pulando em volta da mesa e Laura no salão. Essa era a situação, quando chegou o Marcão, pelo nome já deu pra ver o tamanho da criança, dizendo:
- Tio, tem um cara lá no salão passando a mão na bunda de todas as meninas.
O todas incluía minha filha e do Tontônio!
Nessa hora, Beá percebeu que tinha alguma coisa errada e encostou na hora que eu perguntei a ele:
- E aí tio, o que você fez?
- Falei pra ele que ia chamar o senhor se ele não parasse.
- Como você ta aqui, devo concluir que...
- Pior tio, ele falou pra chamar que ele ia passar a mão na sua bunda também.
Olhei pra Beá com aquela cara de “ta vendo” do Zé Alberto, meu primo, que um dia vou contar a história aqui, e fui levar a minha bunda pra ver o que acontecia. O porre passou na hora pois a adrenalina foi a mil, e no caminho fui imaginando o tamanho do monstro que eu ia enfrentar, pois o garoto que foi me chamar era bem maior do que eu. Quando fui chegando no salão, com o Marcão Lacerda na frente, já vi Laura e as coleguinhas discutindo com um rapazinho frinfrim de tudo, e já ia perguntar pra ele quem era o atrevido, quando o frinfrim empurrou todo mundo que estava do lado dele e ficou em posição de briga.
Olhei pro Marcão e com a cabeça perguntei se era aquilo a ameaça. Tudo isso muito rápido. O Marcão apontou pro filé de borboleta que já veio chegando brabo pro meu lado. Devia ser um rapazinho de 20 anos e 20 quilos também, num puaço só. Mas não ia dar chance pro azar. Pulei em cima dele e no abraço, coloquei o meu queixo em seu peito e dobrei a minha coluna para frente e a dele para trás. Ele caiu e eu por cima. Os braços dele estavam presos, minha mão esquerda segurava um, a direita outro e uma terceira mão, que me assustou mais que ao guri, com o dedo em riste batia no seu rosto e eu escutava um voz dizendo:
- Vou te matar guri, bunda de nossa filha ninguém passa a mão. Olhei pro lado, e meu irmão que estava com o joelho no peito do menino enquanto esfregava o dedo na cara dele babando de raiva.
Levantei, juntei o moleque em baixo do braço, dando uma chave de pescoço nele e fui arrastando a figura até a diretoria. No caminho é que ele apanhou, pois todos por quem passávamos davam-lhe um chute. O presidente do clube nos recolheu na diretoria e já o colocou para fora.
Voltei pro baile, vi Beá preocupada e contei a história exatamente como ela foi:
- Um cara de 2 m de altura mexeu com Laurinha e eu dei cabo dele.
Foi assim o primeiro baile de carnaval de Laurinha, mas os problemas estavam apenas começando. Vai ter “O carnaval II”.