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quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Compensação

Tudo na vida tem suas compensações. Acontece uma coisa ruim que te deprime e logo em seguida, às vezes não tão logo, acontece outra da mesma natureza que te alegra. Há uns 10 anos atrás, estava no aeroporto de Foz do Iguaçu, aguardava o Luis Mario fazer nosso plano de vôo para Corumbá, quando escuto uma conversa de um pessoal atrás de mim. Na hora reconheço a voz do Oswaldo Panzarini. Tínhamos trabalhados juntos há 20 anos na mesma empresa, eu na engenharia e ele no departamento comercial da Mecânica Pesada. Tínhamos participado de muitas concorrências juntos durante 10 anos e nos tornado bons amigos, assim eu achava. Levantei-me e me dirigi a ele todo sorridente, feliz com aquela coincidência, e apontando pra ele naquela roda de vários executivos, falei:
- Oswaldo Panzarini, você não mudou nada, nem a voz.
Como ele me olhou com uma total indiferença, eu completei:
- Não está se lembrando de mim? Reconheço a sua voz e você, me olhando, não se lembra? E a pressão? Continua alta? Não é possível que eu esteja enganado. Você não é o Oswaldo?
- Sou, mas não tenho a menor idéia de quem você seja.
- Tadeu Marinho, da Engenharia da Mecânica Pesada! 1974 a 1984 - Falei isso e fiquei aguardando a sua reação, esperando que ele me abraçasse, fizesse algum comentário do tipo que engordei, ou como os cabelos branquearam, e me apresentasse aos outros executivos que estavam com ele. Entretanto ele continuou me olhando impassível e não mostrou a menor reação, nem mesmo de que se lembrava de mim. Fui ficando sem jeito, com todos me olhando como se eu tivesse interrompido uma conversa importante sem motivos. Ele ainda falou:
- Não estou me recordando de você.
Minha salvação foi que, nesse momento, o Luiz Mario chegou e falou:
- Tadeu, nosso plano de vôo esta autorizado. Podemos decolar quando você quiser.
Virei para o pessoal que estava com ele e disse:
- Perdoem-me por ter interrompido a conversa dos senhores, mas fui parceiro desse sujeito ai há uns 15 anos atrás e por 10 anos, e ele não de lembra mais de mim. Vai acontecer igual com vocês. Passem bem.
Fui para meu Baron que estava a uns 20 metros e aparecia em todo seu esplendor pelo blindex da sala de espera. De cima da asa dei uma última olhada e vi aquele bando de homem me olhando com o Oswaldo Panzarini no meio deles. Fiquei muito puto e cheguei a me questionar quantas outras pessoas tinham passado pela minha vida e deixado marcas, sem que eu deixasse a mais leve pegada em suas vidas. Tínhamos o mesmo nível, estávamos em início de carreira, tudo igual. Eu recordava as feições, voz, nome, sobrenome e tudo mais dele, até que o filho da puta tinha pressão alta e o cara absolutamente nada de mim.
Fiquei muito tempo com isso na cabeça até que na semana passada aconteceu diferente. Estava na distribuidora de carne trabalhando quando me avisaram que tinha um Miguel no telefone. Quando perguntei "Que Miguel?" a secretária se enrolou toda e disse que era um sobrenome incompreensível e “irrepetível”. Na hora eu falei:
- Vourakis?
Ela abriu uns olhões e respondeu:
- Acho que é isso mesmo.
Atendi e era o Miguel Vourakis, companheiro de Mecânica pesada, igual ao Oswaldo, do departamento comercial também, igual ao Oswaldo, e que tínhamos feito amizade participando de concorrências pela empresa, igual ao Oswaldo, e isso tudo há 30 anos, 10 anos mais do que o encontro com o Oswaldo. Larguei o que estava fazendo e fui até o hotel me encontrar com ele. Tinha vindo com um grupo de amigos para pescar no pantanal e desde a chegada estava tentando me encontrar, pois queria saber como e o que eu estava fazendo. Ficamos duas horas conversando. Lembramos do Milton Cabral, Adilson Wanderlei, que infelizmente parece que faleceu, Jose Rui, Marcos Samecima, Osny Orseli e toda a turma do comercial. A medida que íamos conversando íamos lembrando de todo pessoal. No final, contei a ele sobre o acontecido há 10 anos e como tinha ficado contente em saber que ele estava bem e que se lembrava de mim, exatamente ao contrário do veado do Oswaldo.
Ele estava se aposentando, tínhamos a mesma idade e ia começar a passear com a esposa. Fiz ele prometer que a primeira viagem ia ser com a família para o pantanal. Ele me fez acreditar novamente que as coisas imprimem igual nas memórias das pessoas e o Oswaldo que era a exceção. Ainda bem.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

O Perito II

Chegamos de Bom Betiro e fiz um relatório completo para a diretoria, com todos os detalhes do porquê, como e quando o acidente aconteceu. A coisa toda era muito simples, mesmo para um engenheiro com só um ano de formado, como eu. O Pórtico ficava montado na crista da barragem e corria sobre trilhos. No final do mesmo, tinha um batente dimensionado para agüentar uma batida em caso do fim de curso falhar. Esse batente era dimensionado considerando a velocidade máxima de translação do pórtico e o tipo de para choques. O segundo fato era que o pórtico tinha quatro garras que o prendia aos trilhos e era acionado manualmente quando não estava em operação, como o freio de mão de um carro. Você teria que acioná-lo para evitar que em uma ventania, apesar de estar com os freios das rodas aplicados, isso era automático, ele saísse deslizando por sobre os trilhos. Na nossa visita pudemos verificar que os trilhos, ninguém sabia porque cargas d'água, estavam engraxados. Apesar do pórtico estar totalmente destruído, pudemos verificar que as garras não estavam na posição de acionadas e, por último, o acidente ocorreu no meio de um temporal. Comprovamos por fotos, que as garras tinham a pintura original de fábrica na região que iria atritar com o trilhos, ou seja, nunca tinham sido usadas. O batente agüentava porrada na velocidade de translação, mas a velocidade que o equipamento atingiu com aquele vento foi bem maior e isso podia ser comprovado, pois no cacete, arrancou os batentes do final da barragem, antes de cair dos 30 metros de altura. Feito o relatório e encaminhado para a diretoria, dei o caso por encerrado. Era o advogado de defesa do réu, o réu e o juiz. Concluí os autos com a prova de que a culpa era do cliente que operou erroneamente o pórtico e já apliquei a pena que era de pagar por outro novo. Mal sabia que a coisa não era tão simples assim e tinha muito caminho a percorrer, e com todo mundo atrás com um porrete na mão.
Assim que o relatório chegou ao cliente veio a resposta que eles estavam contratando um perito INDEPENDENTE para fazer a análise. Já estranhei uma das partes contratar um perito independente.
Cheirou bosta.
Alguns dias depois veio o comunicado para uma reunião em Porto Alegre, onde o perito iria apresentar seu relatório conclusivo e solicitando a presença do pessoal de decisão da Mecânica Pesada. 
Comunicamos ao nosso comercial sobre o que parecia uma armadilha e resolveram levar alguém de nosso departamento jurídico. Fomos, o Dr. Artur Teixeira que era o Diretor Comercial, o advogado da empresa, o chefe de departamento comercial e eu, da engenharia. Como o diretor foi o homem que me encaminhou, há alguns meses atrás para Taubaté, para a entrevista de recrutamento, senti que ele me achou muito novo e inexperiente para aquela empreitada e ficou meio contrariado. Fizemos uma reunião prévia no hotel, já em Porto Alegre, e ele vendo meus argumentos e que eu estava bem informado sobre o assunto se tranqüilizou um pouco e sendo macaco velho na área falou:

- Vamos combinar o seguinte, o Tadeu senta ao meu lado e toda questão técnica só ele quem responde. 

Virou para mim e falou, especificamente:

- Tudo que eu falar diretamente para você, segurando o seu braço, você não considera. Se eu tocar a sua perna por baixo da mesa, aí você leva a sério. Quero que fale tudo que você ache verdade, doa a quem doer. Você vai morder e eu vou assoprar. É cliente bom e não podemos perdê-los, nem por incapacidade técnica, deixando eles acharem que o pórtico caiu por nossa causa, nem cortar relações comerciais por excesso de porrada. Entendidos?

Ao mesmo tempo que me senti super importante, vi que os holofotes estavam se virando para mim, o que não me agradava nem um pouco. Estava preparado para ser coadjuvante e estavam me passando o papel de protagonista. Fui de c_ trancado. 
A entrada na sala de reunião foi apavorante. A mesa tinha lugar para umas 20 pessoas e todos eles, com exceção dos reservados para a gente, ocupados. Tinha um mega gravador no centro da mesa e um projetor de imagens. Começaram as apresentações e além do diretor superintendente da Empresa que era engenheiro mecânico e cujo nome já não me lembro mais, do perito, que lembro muito bem do nome, pois era muito bem definido, mas vou chamá-lo aqui de Dr. Perito, que fez de tudo menos definir alguma coisa e mais um convidado, o Dr. Joaquim Blessman, o maior especialista em vento da época, o restante era tudo advogado. A reunião parecia mais um júri, onde queriam demonstrar por A+B que a culpa pela queda do equipamento foi da Mecânica Pesada.
Na apresentação dos objetivos da reunião, o diretor da Empresa esclareceu que a reunião ia ser gravada para facilitar a feitura da ata. Dito isso passou a palavra para o perito. O mesmo começou dizendo que ia provar, de forma indubitável, que a culpa era da Mecânica Pesada e “não nossa”. O ato falho foi gravado e foi um mal estar geral. Após isso passou um memorial de cálculo de duas folhas. O mesmo começava calculando os esforço produzidos no pórtico pela ação de um vento que atingiu a velocidade de 150 km/h, mostrando que as DUAS garras não foram suficientes para segurar o pórtico e justificou o fato pela pequena área de contato que não poderia gerar um atrito suficiente. Tentei interrompê-lo duas vezes e o Dr. Artur, apertando a minha perna, não me deixou fazê-lo. Terminada a explicação do perito, só faltaram os aplausos dos presentes. Ele me passou o microfone e falou que, “agora você pode usá-lo que não vou te interromper”. Abri minha maleta 007 e tirei os cálculos do pórtico dela. Devia ter umas duzentas folhas e já fui atirando:

- Dr. Perito, se entendi corretamente, o senhor está afirmando que a força de atrito depende da área e como a da garra do pórtico é pequena, o pórtico caiu por causa disso. O senhor poderia me confirmar se entendi corretamente?

Ele, todo pomposo, respondeu com um “Corretamente”.

- Dr. Perito, o senhor vai me desculpar, mas apesar de só ter dois anos de formado, bem menos que o senhor, e nunca ter dado aulas em nenhuma faculdade como o senhor, foi no científico, naqueles livros de Física Básica do FTD, que aprendi que força de atrito não depende da área de contato e sim, exclusivamente, da força normal a superfície de deslizamento e do coeficiente de atrito. Gostaria que o senhor me mostrasse um livro sequer que contenha essa afirmação bárbara sua. 

No “bárbara” o Dr. Artur apertou meu braço. 
Continuei. 

- Depois Dr. Perito, para sua informação as garras do pórtico não estavam acionadas, aliás elas nunca foram usadas, e parece que o senhor na sua “brilhante” peritagem não observou isso. 

No “brilhante” novo aperto no braço do Dr. Artur. Empolguei.

- E mais um último detalhe, Dr. Perito, estou vendo agora que neste seu memorial de cálculo, o senhor considera o pórtico com DUAS garras, enquanto ele tem QUATRO. Mesmo por esses cálculos totalmente errados que o senhor fez, vai verificar que mesmo assim, o mesmo não sairia andando com esse vento anormal. Gostaria que o senhor mudasse o resultado de sua peritagem ou arrumasse um outro motivo para mostrar de forma INDUBITÁVEL, gostei desse termo Dr. Diretor, que a culpa é nossa, e nesse NOSSA, o senhor perito, independente segundo o Dr.Diretor ainda, não entra.
Agora o aperto foi na perna e entendi que os canhões deveriam estar voltados para o perito e não para o diretor.
Acabei de falar e o perito completamente contrariado e sem argumentos, pois o que ele falou estava escrito e gravado, falou do vento, e disse que ele não era ANORMAL e, já pensando que iríamos usar desse argumento, trouxe o Dr. Joaquim Blesmann para falar sobre o assunto. 
O professor assumiu a palavra e era realmente entendido de vento. Pelo diâmetro das arvores arrancadas, concluiu que a velocidade do mesmo ultrapassava os 150 km/ h. Ele entendia de vento, eu das normas que regiam a fabricação de equipamentos de transporte e levantamento e o perito de porra nenhuma. Quando ele acabou a exposição, o perito assumiu a palavra e se dirigindo para mim perguntou se eu sabia qual era a velocidade do vento no dia do acidente, para dizer que era anormal. Eu já estava totalmente emputecido com aquele charlatão e perguntei se ele sabia o que significava a palavra ANORMAL. O Dr. Artur apertou a minha perna mas não senti, e completei:

- Ou o senhor não conhece a palavra do ponto de vista técnico, o que é muito ruim para um engenheiro, ou o senhor não conhece as normas de fabricação do equipamento, o que é pior ainda para um perito. O vento de norma é de 150 km/h e o Dr. Blessman falou em valores superiores a isso. Qualquer coisa acima da NORMA é ANORMAL, Dr. Perito.
Leve aperto no braço. 
Nesse momento o Dr. Artur pediu a palavra. Quando lhe passaram o microfone, ele pediu uma pausa para o café, o desligou e falou:

- Senhores, ninguém aqui nesta sala tem dúvidas do porquê desse pórtico ter caído. Realmente o trabalho de peritagem não foi muito independente, não tem como eu não concordar com a nossa engenharia. Os senhores não tem como provar que o pórtico cairia, mesmo se estivesse com as garras acionadas, e nós fabricamos equipamentos de usinas e eclusas há muitos anos e não temos relatos iguais a esse. Agora, estamos diante de um fato que podemos usar. Tivemos sorte da norma técnica brasileira não cobrir o que aconteceu aqui, precisando ser adaptada para as condições do Rio Grande do Sul e isso pode ser feito a partir deste acontecimento. A Mecânica Pesada está disposta a fazer o mesmo pórtico pelo preço de custo e acrescentar um dispositivo de acionamento automático das garras para evitar um possível esquecimento de acioná-lo no futuro. Parou o pórtico, as garras entrariam automaticamente. 
O que vocês acham dessa solução?

O homem era um gênio. Estava dando uma saída honrosa para o cliente e ainda por cima vendendo um novo equipamento. Todos pareciam satisfeitos, quando o Dr. Perito resolveu se manifestar, dizendo que o justo era dividirmos o prejuízo, uma vez que ninguém teve culpa. Olharam para mim como se só eu pudesse chamar o homem de burro naquele momento. Falei:

- Que parte que o senhor não entendeu que se as garras estivessem aplicadas o equipamento não cairia, mesmo com esse vento anormal? Ou o senhor deseja refazer os cálculos para o resultado ser diferente do primeiro, onde a força resistente de cada garra tem que ser multiplicada por 4 e não por dois? Ou o senhor vai criar uma nova teoria, contrariando outras milenares e comprovando que força de atrito depende da área de contacto?
A medida que eu falava o Dr. Artur apertava meu braço e balançava negativamente a cabeça e até o escutei murmurando “juventude intempestiva”.

O Diretor pediu a palavra, agradeceu a presença do Prof. Joaquim Blessman e do Dr. Perito e dispensou os dois. O Blessman se despediu de mim, já o Dr.Perito nem balançou a cabeça. Não sei porque. Aí os advogados dominaram a cena e resolveram pela construção de outro equipamento, aceitando a idéia do Dr.Artur.
Não me lembro de ter passado momentos tão tensos na minha vida como aqueles. No final da reunião, o Dr. Artur nos levou ao melhor restaurante de Porto Alegre e jantamos lagosta, e o brinde, com Kir Royale, ele fez a mim.
Fiquei muito garboso.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

As Reuniões

Contando sobre o Pórtico de Bom Retiro, na história "O Perito", fui lembrando de um monte de reuniões técnicas que tive na época da Mecânica Pesada, algumas interessantes e outras muito engraçadas. 
Como a história do Pórtico é meio pesada, resolvi fazer uma pausa antes de começar a parte dois.


Eu estava fazendo um curso de memorização e a técnica era de associação. Se você tinha que lembrar de um monte de palavras, o melhor jeito era fazer uma frase com essas palavras. Em reuniões, onde você era apresentado a um lote de gente ao mesmo tempo e tinha que chamar todos pelo nome, era chique você fazer isso sem tomar nota num papel. Eu me aperfeiçoei nisso e a técnica funcionou muito bem, com algumas exceções, como quando chamei um tal de "Casa Grande" de "Castelo". Mas o pior foi numa reunião de Itaipu e a empresa de engenharia tinha uma engenheira que se chamava Belina. Como ela era feia e gorda, não podia associá-la a nada belo e mentalizei uma perua da Ford, que era o modelo van do corcel e tinha esse nome. Lá pelas tantas eu chamei a mulher de engenheira Caravana, que também era uma perua mas da Chevrolet e bem maior. O pessoal que conhecia as regras de associação não conseguiu ficar sem dar risadas.

De uma outra feita, estava em uma reunião com o Casa Grande, é, o mesmo que na primeira chamei de Castelo, ele era o chefe de engenharia da maior concorrente da Mecânica Pesada, uma multinacional portuguesa. Era uma reunião difícil pois fazíamos parte do mesmo consórcio e tínhamos que dividir os equipamentos de uma hidroelétrica. Ele tinha sua lista e eu a minha e não entrávamos em acordo. Lá pelas tantas eu disse a ele:

- Façamos o seguinte, jogamos as nossas listas fora e faremos outras duas em conjunto. Sorteamos o nome e quem ganhar escolhe a lista primeiro.
Ele não entendia e queria usar as nossas duas listas mesmo, e não percebia que tinha um monte de equipamentos que se repetia. Como a coisa estava ficando muito pesada e chegou o café, eu disse:


- Para relaxar, vou contar uma piada muito engraçada que escutei hoje.


Ele, para fazer graça, e como era verdade, me falou com todo o seu sotaque:


- Olha o que vais fazer pois sou português.


Na hora eu não agüentei e emendei outra, falando:


- Não te preocupes, que eu te conto duas vezes. 


Quase deu merda, mas no fim ele concordou que fazendo as listas sem saber quem seria sorteado, seríamos mais imparciais e no fim poderíamos trocar um ou outro equipamento que o parceiro pudesse fazer por um preço menor.


Mas a reunião mais importante para mim, pela época, eu era muito novo e pelo que envolvia, responsabilidade técnica, foi a de Bom Retiro. Essa não foi nada fácil e já estou registrando ela aqui.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

O Perito

Não devia ter mais que alguns meses de Mecânica Pesada, quando veio a notícia. O Pórtico que operava sobre a barragem da eclusa de Bom Retiro, no Rio Grande do Sul, tinha caído. Era um equipamento de mais de 20 toneladas de peso e caíra de 30 metros de altura sobre o vertedouro. Quando peguei o projeto do pórtico para analisar o que tinha acontecido e vi que a carga poderia operar em balanço, achei que a queda tinha sido por esse motivo. Depois informaram que ele caíra devido a um temporal. Como as informações eram desencontradas e a Portobrás, proprietária do equipamento, já estava querendo responsabilizar a Mecânica Pesada pelo acontecido, falando em erro de projeto, me mandaram à Bom Retiro, para analisar o acontecido e apurar tecnicamente as responsabilidades. Como era ainda muito novo, o Gerente da fabrica de Taubaté, Jose Carlos Teixeira, foi comigo para poder fazer uma segunda opinião, eu como projetos e ele como fabricação e dando peso a comissão, pois era o Gerente geral da fabrica.
Tínhamos que ir de avião até Porto Alegre e lá alugaríamos um carro para chegar até a obra. Me lembro que era época de chuva, e nos recomendaram que fossemos em um veiculo traçado pois a estrada era de terra e muito escorregadia. A Hertz, acho que era essa a locadora, tinha escritório dentro do próprio hotel, o Plaza San Rafael. Era um hotel muito chique e só parei nele por causa do nível do Teixeira que era quase um diretor. Era um 5 estrelas e o meu nível na época era de 3, no máximo. O único 4x4 que tinham era a toyota Bandeirantes e como tinha uns 100 km de asfalto e 40 de terra, o Teixeira não quis saber de camionete cabine simples e queria uma Veraneio, que era uma jamanta da chevrolet, de tração traseira e que escorregava até no asfalto. Consegui convencê-lo de mudar para um passat da volkswagem. Pernoitamos no hotel e seguimos no clarear do dia para a obra. Chovia a cântaros. Na saída, ele era bem mais velho do que eu, e acho que meio barbeiro, essa conclusão veio pela escolha da Veraneio, me manda ir dirigindo com o argumento “Você vai, eu volto”. Sentei na boléia rapidamente antes que ele mudasse de idéia. Até o momento, meu medo era de atolar no caminho, e isso não me assustava. Nem imaginava o que nos esperava. Após 100 km de asfalto, a placa indicando a saída para a barragem de Bom Retiro e embaixo uma maior em letras garrafais: NÃO RECOMENDÁVEL TRANSITAR EM DIAS DE CHUVA. O Teixeira foi ao aço e dizia:

- Como "Não transitar", esperar quantos dias? Já parou de chover. E agora? Vamos ficar aqui até secar essa merda? O que você acha?

Antes que eu respondesse ele me mandou experimentar e entramos naquela estradinha. Me convenceu quando falou que se eu estivesse com medo ele assumiria o volante pois tinha um passat e estava acostumado com ele. Depois de uns 5 km, com o carro escorregando mais que quiabo em boca de velha, chegamos a serra. Era uma pirambeira desgraçada, e o pessoal da manutenção da estrada, passava a patrol e ia deslocando a terra para as beiradas da estrada. Aquele montinho represava a água deixando a estrada cheia de poças e mais mole ainda. A única vantagem é que fazia uma espécie de guard rail, e você para despencar naquele precipício tinha que pular aquele montinho. Batemos com a roda nele várias vezes, era suficientemente alto para impedir que caíssemos da estrada. Não dava para andar muito devagar pois tinha muitas subidas que o carro ficaria nela se não embalássemos na descida anterior. Só conseguimos chegar pois na primeira patinada que demos, para surpresa do Teixeira, eu parei o carro e fofei os pneus dianteiros. Se o normal era 30 libras, deixei com umas 18. Perdi meia hora explicando que aquilo era bom para barro pois dava mais pega e tinha que ser feito só nos pneus da tração e para veiculo vazio. A coisa era realmente muito feia pois as laterais da estrada não tinham nenhuma proteção e o nosso destino ficava atrás de uma morraria louca. O Teixeira era muito nervoso e ia sentado no banco de passageiros, sem usar o encosto e batendo palmas o tempo todo. Lembro que a cada derrapada ele falava “Fodeu, Fodeu, Fodeu” e quando eu conseguia reassumir o controle do carro, batia palmas e esfregava as mãos. Apesar da situação eu não conseguia ficar sem dar risadas. Na chegada, quando quis comentar que ele ficou com medo, rebateu na hora:
- Eu sou corajoso pois vi o problema e enfrentei. Você que é um inconseqüente, pois nem viu o perigo.
Como ele era gerente não podia discutir e dizer que ele era cagão mesmo, mas esperei a hora de voltarmos e fui direto para o banco de passageiros, deixando a direção para ele. Queria testar a sua coragem. Ele me olhou e falou:
- Acho melhor você dirigir. És o rei da lama.
Pensei até em fazer um charme dizendo estar cansado, mas não podia brincar com a situação. Aquele doido poderia matar a gente.

A visita foi super proveitosa e em 30 minutos tínhamos levantado e comprovado toda a situação. O Pórtico caiu pois teve uma ventania louca e ele, sem as travas de segurança, que seria o freio de mão de um automóvel, saiu andando, pegou velocidade, e no fim do caminho de rolamento, bateu, arrancou os batentes e caiu da barragem. Tudo muito simples de entender mas muito difícil de explicar, ainda mais para uma empresa pública, que o acidente aconteceu por uma falha de operação deles. Depois da novela de ir até o local para colher dados e fotografar todo o equipamento caído ia começar uma outra bem mais complicada, provar as responsabilidades e achava que ia sobrar para mim também. E sobrou. Continuo na próxima mas já adianto que “não foi fácil”.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Mecânica Pesada

Entrei na Mecânica Pesada em agosto de 1974. Tinha 24 anos recém completos, um ano e meio de casado e uma filha de 6 meses. Hoje tenho certeza de que foi a melhor época da minha vida. Fiquei 10 anos e 4 meses e saí para trabalhar na empresa de meu pai e que se chamava Marinho e Cia Ltda. Mesmo assim eu passei uns 5 anos ainda dizendo que ia para a Mecânica Pesada quando saía para o serviço. Quando abri a minha construtora, a Marinho Engenharia, quis chamá-la de Marinho Engenharia e Projetos, só para a abreviação ser MEP também, que era como tratávamos carinhosamente a Mecânica Pesada. Entrei como engenheiro de cálculos e saí como chefe de departamento de Engenharia e Métodos. Participei da construção das maiores usinas hidroelétricas desse país, projetando seus equipamentos hidrodinâmicos. Foram, que eu me lembro, Itaipu, Paulo Affonso VI, Porto Primavera, Sobradinho, São Simão, Taquarucu, Rosana, Três Irmãos, Pedra do Cavalo, Emborcação e mais um lote de porte menor. Os clientes eram poucos, a CESP, CHESF, Itaipu Binacional, Furnas, CEMIG, CELG e mais alguma que devo estar esquecendo. Era um monte de equipamentos que estavam em várias partes da usina, como na tomada d'agua, casa de força, tubo de sucção ou vertedouro e ainda as eclusas, para permitir a navegação. Às vezes tinham até três usinas em projeto e com uma quantidade enorme de equipamentos. Era uma loucura. A Engenharia tinha umas quarenta pessoas entre calculistas, projetistas e desenhistas. Cada equipamento tinha um engenheiro responsável pela execução e aprovação do projeto. Lembro-me de todos eles e de suas características principais.

O Antonio Benedito Pereira, era o mais tranqüilo e um trator para trabalhar. Ideal para coisas de curto prazo. João Scherer, meu vizinho, muito detalhista. Bom para coisas complicadas. Luis Fernando, projetista de primeira e formou-se em engenharia depois. As coisas apertavam e ele ia para a prancheta (aquela mesa em que se desenhava antigamente, antes dos computadores). Tinha ainda o Rubinho e o Laércio Ferreira, que estavam começando quando eu já estava de saída, mas bons engenheiros e amigos.. Na área de cálculos tinha a d.Virgínia, esposa do Choulian, meu chefe, o Flavio Luis Ferreira, que eu levei para lá, pois era meu colega de classe na engenharia civil, a Michelle, filha do Karmazim, meu amigo francês, o Marco Antonio, que se formou e começou conosco, o Luis Antonio Bovo que foi meu aluno na faculdade de Taubaté e como foi o melhor da classe, levei-o para a MEP também e outros que a memória já está me pegando. Não posso esquecer do meu primeiro estagiário e subalterno direto, o Antonio Carlos Tonini, que depois se transformou em um grande calculista. Ele foi contratado na época do cálculo das pontes de 450 toneladas de Paulo Affonso IV. Eram as maiores do mundo. A primeira fase era o projeto do caminho de rolamento, o trilho fixo no concreto, que tinha que ser passado para o cliente com muita antecedência, pois interferia na parte civil, na construção da casa de força. Troquei as bolas e ao invés de uma medida que tinha 150 mm entrou nos cálculos como 150 cm. O erro foi visto a tempo, mas me deixou totalmente inseguro com o tamanho da merda que daria se ele tivesse passado. Convenci o Choulian de contratar um estagiário que verificaria todas as contas e então veio o Tonini. O cálculo de um equipamento tinha aproximadamente umas 500 folhas e devia ser feito de modo que o cliente pudesse analisá-lo e aprová-lo. Então, além de bem feito tinha que ser didático. O Tonini tinha que entender e corrigir as contas. Nunca vi ninguém aprender tanto e em tão pouco tempo, como nessa posição.

Com o cálculo era feito um ante projeto e este ia para a mesa do projetista, que tinha que desenhar aquilo tudo, verificando as interferências e detalhando cada peça que ia ser fabricada. Ali tínhamos verdadeiras feras e que conheciam tudo de projetos. O Romeu Gamberini, o Juan Garzon, Joaquim português, Nivaldo e vários outros. Não era a toa que a MEP era tida como a melhor empresa do ramo neste país.

As coisas foram muito bem até que começou a crise política. Colocaram o Delfim Neto para distribuir melhor a renda do país e ele começou pelos assalariados, tirando dos que tinham um pouco e passando para os que não tinham nada. Era o tal do achatamento salarial. Quem ganhava mais do que o equivalente a 5000 dólares, tinha um reajuste salarial de 80% do valor da inflação. Os que estavam de 4000 a 5000 o reajuste era de 85%, e assim ia até o salário mínimo que era de 130%, ou seja, aumentava dos miseráveis tirando dos pobres e remediados. Em pouquíssimo tempo fui passando de bem de vida, para remediado e rapidinho não tinha mais como pagar as prestações da minha casa na CEF. Foi a maior sacanagem que fizeram com a classe média assalariada desse país. Foi então que o útil uniu-se ao, não só agradável, mas necessário. Começamos a nos preparar para voltar para nossa Corumbá, encerrando uma fase importante da minha vida, a de engenheiro Mecânico. Tinha novos desafios pela frente.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Tremembé

Era julho de 1974 e estávamos em Corumbá de férias. Éramos só Bea, Laura e eu. Lembro-me da viagem de São Paulo para Corumbá, o carro era um Maverick azul, com Tontonio e Lenir juntos. Fralda descartável era artigo de luxo e só utilizado nessas ocasiões. Não tínhamos essa consciência de hoje, de não poluir o meio ambiente, e Laura com 5 meses era trocada a cada duas horas e as fraldas usadas, lançadas ao vento. Nas férias aconteceu algo fora do nosso controle e que mudou totalmente a nossa vida. Apareceu uma epidemia de meningite em São Paulo. Por telefone, consultamos Jamal sobre a possibilidade de voltar com a Laura para lá quando ele nos aconselhou que esperássemos mais 30 dias. Foi a gota d'água. Juntou com meu descontentamento com a Bardella e a vontade de fazer engenharia civil para um dia voltar a Corumbá, para resolvermos mudar para o interior de São Paulo onde tivesse uma escola com curso noturno. Pensamos em São Jose dos Campos primeiro, mas a Mecânica Pesada, concorrente da Bardella era em Taubaté, e lá tinha a UNITAU, uma universidade com as características que estava procurando. Uma semana antes de terminar as férias, voltamos para São Paulo com objetivo de mudar de lá e de emprego. Sem ter visto anúncio procurando por engenheiro e sem conhecer ninguém, na cara e coragem, fui ao escritório comercial da empresa em São Paulo. Aí que minha estrela brilhou. Estava na recepção, conversando com a secretária e explicando a minha situação, quando o Diretor comercial, Artur Teixeira, ouviu tudo e me pediu que fosse a Taubaté para uma entrevista com o gerente do Depto de engenharia, o eng. Ivan Chu. Ele mesmo ligou para lá e escutei-o falando do fato de eu ser da Bardella. Conseguiu marcar a entrevista para o dia seguinte.


Um mês depois, cumprido o aviso prévio de 30 dias na Bardella, estava mudando para Taubaté. A cidade estava passando por um boom de progresso. Não conseguia arrumar uma casa para alugar, compatível com o meu salário e as nossas necessidades. Fomos nos afastando do centro e acabei saindo da cidade e chegando em Tremembé, a 7 km de Taubaté. A cidade devia ter uns 5.000 habitantes e as quadras eram muito pequenas, deviam ter uns 30 por 30 m. A primeira casa que alugamos, tinha uma barbearia no meu jardim. O proprietário fez a casa recuada e posteriormente se arrependeu do espaço perdido com esse recuo e resolveu aproveitá-lo construindo mais um cômodo que alugou para um barbeiro. A segunda, na mesma rua, era um sobrado sem garagens, que quando parava meu Ford corcel, duas portas, na frente dele, os para lamas dianteiro e traseiro invadiam os vizinhos.


A cidade era muito católica e tinha uma festa de comemoração de sua padroeira. Era uma coisa muito chique e ia gente do vale do Paraíba todo. Dois dias antes da festa as ruas eram interditadas para eles revestirem toda a pista com palhas de arroz coloridas e com desenhos de Nossa Senhora. Foi nessa ocasião que tudo aconteceu. Cheguei em casa e não pude estacionar o carro. Não entendi o que estava fazendo aquela montanha de terra em cima da calçada, esqueci de falar que ela devia ter uns 80 centímetros de largura, e ocupava meia rua, que era mais larga, devia ter uns 5 metros. Era mão única, pois dois carros não passavam por ela. Os que colocavam carro para dormir na rua tinham que defasar um do outro para não interromper o tráfego.


Cheguei perguntando a Bea o que aquela coisa estava fazendo na frente de casa e como ela deixou descarregarem aquela merda toda ali, quando a vi toda nervosa e vieram as explicações. A terra era nossa. No jardim de frente da casa, ele devia ter uns três metros de comprimento por uns 80 centímetros de largura, apareceu um buraco. Ela fez um prospecção do solo, enfiou ali um cabo de vassoura, e concluiu que era uma cratera e poderia colocar em risco a estrutura da casa. Fez uma cotação no mercado e concluiu que se comprasse de uma vez um caminhão de terra ficaria mais barato que em saquinhos, isso há três dias da festa e já com as guias das ruas todas pintadas de branco.


Já tinha recebido a visita do prefeito em pessoa, avisando que se não removêssemos aquela terra antes da chuva que estava se formando e que ia espalhar aquela merda pela cidade toda, ele enlouqueceria. Quando perguntei o quanto daquilo ela achava que entraria na cratera que ela tinha descoberto no jardim, ela me falou que aquilo já era a sobra. Dois carrinhos de mão encheram o buraco. Tive que pagar o dobro para removerem a terra ainda naquela noite. A festa foi um sucesso, já o susto, principalmente o de Bea, não foi fácil. Lembro-me dessa época com muitas saudades.

terça-feira, 29 de março de 2011

A tese

Estava terminando as cadeiras de meu mestrado e completando os créditos necessários. Faltava apresentar a tese. Achei que o pior tinha passado e nem imaginava o que estava por vir. Nesses três anos e meio eu não fiz outra coisa que não trabalhar e estudar. Às vezes ia para a praia nos fins de semana, levava livros e enquanto o pessoal ficava lendo romances eu devorava a teoria da elasticidade. Acho que isso que ajudou a não estourar meu saco tornando-o super elástico. Outras vezes estudava com o Beto na ponta da mesa fazendo desenhos e me mostrando de cinco em cinco minutos. Não foi fácil, mas foi. O tema da tese foi definido junto com o Paulo Rizzi, meu orientador, e baseado no meu trabalho na Mecânica Pesada, optamos por fazer um programa para otimizar pontes rolantes. Resumindo, era um programa que você entrava com todas as características necessárias e desejáveis de uma ponte rolante, que eram os parâmetros do projeto, e o programa fornecia as variáveis que levavam ao equipamento mais econômico. Comecei a desenvolver a tese já no segundo ano do curso. Teria dois anos para fazer os estudos e o programa final. Quando vimos que não ia conseguir terminar, pois a coisa estava ficando por demais complicada, conheci o Marcelo Pimenta.
Ele fazia mestrado e era também orientado do Paulo Rizzi. Fizemos uma dupla e ele me ajudaria no desenvolvimento do programa da minha tese, onde ele era um avião, só comparado com o George Pion, meu amigo francês, e eu no desenvolvimento da sua, que seria uma ponte protendida. Existia muita coisa na época sobre concreto protendido, mas nada sobre estrutura metálica protendida. Terminamos uma semana antes de vencer o prazo para enviar uma cópia aos examinadores da banca. Um mês depois seria a apresentação e eu comecei o treinamento. Tinha uma hora cravada para fazer a apresentação, uma para responder as perguntas da banca e 30 minutos para responder a qualquer dos ouvintes. Depois disso, cada um dos cinco examinadores teria 30 minutos para fazer os comentários, fechando com o Paulo Rizzi. Tinha que ter a aprovação de dois da banca, pois meu orientador já a tinha aprovado. Preparei as transparências, que antigamente era o único meio de você projetar algo em uma tela e comecei a gravar a minha apresentação. Na primeira vez que escutei a mesma, eu me reprovei. Falei 180 "nés", comecei muito detalhista e tive que atropelar tudo no fim e, mesmo assim, estourei o tempo em 30 minutos e as conclusões finais eram uma merda e nada conclusivas. Refiz a mesma por umas dez vezes, até que na última achei perfeito. Escutava aquela coiseira o tempo todo. Estava gravado em uma fita cassete que deve ter de extraviado em uma de nossas mudanças. Já sabia de cor e salteado, e não só eu, mas a Laura que já era meio grandota também. Eu a colocava para escutar, pois tendo uma platéia ajudava a desinibir. O único medo era travar na hora, isso já tinha me acontecido antes, por isso me aconselhavam a tomar um wiski duplo antes. Quando eu falava que a apresentação era as 8 da manha, a resposta era sempre a mesma: "é, com pão e manteiga é tora". Tinha que ser de cara limpa mesmo. O interessante aconteceu na madrugada do dia D. A noite foi péssima e a passei acordando a cada meia hora. Às 5 horas da manha, acordei de vez com o telefone tocando. Era mamãe ligando de Corumbá, onde com a diferença do fuso horário eram 4 da madrugada. Levei aquele susto e já pensei que alguém tinha morrido quando ela me falou que não dormiu a noite preocupada comigo. Não tinha falado da tese para ninguém de lá e não entendia o porquê de sua preocupação quando ela começou a me contar de seu sonho. Disse que eu estava em uma sala cheio de papeis espalhados pelo chão e procurando alguma folha e à medida que não a achava ia ficando super nervoso. Nessa hora apareceu um senhor para ela, barbudo de uns 30 anos e pede que ela me acalme, pois tudo ia dar certo. Quando ela perguntou a ele como ele sabia disso que percebeu tratar-se de Jesus, por isso estava ligando a essa hora. Eu devia saber o significado da mensagem. Contei a ela da tese e ela ficou mais impressionada do que eu. Despedi com ela me prometendo que ia rezar para tudo dar certo e agora super confiante, resolvi me aprontar e ir para São Jose dos Campos. Tinha 40 minutos de viagem ainda e tinha que chegar com alguma antecedência para preparar o auditório. No início, quando vi aquele povo todo me olhando e a banca, como juízes, para falar se perdi quatro anos inteiros de minha vida, fiquei meio travado e me arrependi de não ter tomado o wiski no café da manha, mas com o andar da carruagem e o Marcelo projetando as transparências, a coisa foi fluindo. Tinha o "time" em cada transparência e na troca ele foi me ajudando com o tempo. No final aconteceu uma coisa estranha. Respondi as questões de todos os examinadores com exceção do professor Santiago que não fez nenhuma pergunta. Respondi as duvidas da platéia e me sentei para escutar a banca. O primeiro a se manifestar foi a porra do Santiago e falou algo mais ou menos assim: - Quero cumprimentar o engenheiro pelo excelente trabalho de engenharia, mas para mim, não passa disso, e não uma tese de mestrado. Na hora achei que ia ter um troço e agradeci a meu santo protetor por não ter ido na idéia do wiskinho, ou teria mandado ele tomar no rabo solenemente. Até me passou a imagem pela cabeça: eu interrompendo-o para pedir a palavra, voltar ao palco e falar: - Dr. Phd. Não Sei das Quantas Santiago, gostaria de mandá-lo para "Puta que o Pariu" e no caminho dar uma parada para "Tomar no seu Rabo". Mas não ia ficar bem e resolvi balbuciar o meu famoso "ah é, é". Falou isso em dois minutos e foi de sentar. O Filho da Puta reprovou a minha tese e estava enterrando 4 anos de sacrifício meu e de toda minha família. Eu não sabia que existia uma richazinha dele com o Rizzi e por conta disso eu que estava me ferrando. Quebrando o protocolo, o Rizzi pediu a palavra. Era para ele fechar a apresentação, mas ele inteligentemente resolveu de antecipar. Falou da importância da integração escola - indústria, e que o Brasil precisava de resultados a curto prazo. Que era importante pesquisar coisas práticas e que trouxessem resultados imediatos. Lastimou que o Santiago não concordasse com ele, mas até entendia, que esse era o pensamento de quem só exerceu a nobre missão de ensinar durante a vida toda e nunca fez nada de concreto. No final me agradeceu dizendo que tinha aprendido tanto comigo quanto eu com ele. O Hazim acompanhou o Rizzi e aprovou com todos os méritos, começando com um trabalho prático, bem feito e sem perder o foco teórico, onde a própria norma de fabricação foi colocada em cheque. Nem eu tinha percebido isso. Faltava um e esse era o professor convidado de Uberaba e seu parecer era, talvez, o mais importante da banca. Antes de comentar o meu trabalho ele falou sobre o seu doutoramento em Oxford, que foi sobre a instalação de tensometros em folha de milho. Com isso ele conseguiu medir a sede do milho e definia a quantidade de água a ser irrigada na plantação toda, uma coisa super prática. Falou isso olhando para o Santiago, dizendo que não conseguia ver a fronteira entre a ciência pura e a engenharia, e que essa indefinição é que trazia o progresso das duas. Não comentou mais nada e a aprovou sem nenhuma restrição. Estava salvo, e ainda tinha mais um artista para falar, mas já nem o escutava mais. Só percebi que ele a aprovou sem restrições. Quando achei que estava tudo terminado, o Santiago pediu a palavra novamente. Pensei que ele fosse querer convencer todo mundo que a minha tese era uma merda, quando tive a última surpresa. Ele mudou de idéia e resolveu aprová-la também. Foi unanime e não me cabia nas calças de contentamento. Acho que esse pode ser colocado como um dos dias mais felizes da minha vida, encerrando aos 33 anos a minha vida escolar. Nunca mais sentei em um banco de escola, pelo menos desses que você tem que fazer uma prova no final. Também tenho saudades.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Meu Mestrado

Quando resolvi ir para Taubaté, a idéia era fazer engenharia civil, pois se um dia eu voltasse para Corumbá não teria emprego como engenheiro Mecânico. Além disso, precisava de conhecimentos de concreto, pois todo equipamento mecânico termina por transferir a carga para o solo e isso é, quase sempre, através de uma estrutura de concreto. Existe uma interação entre uma coisa e outra nos pontos de transição. Como queria me especializar em cálculos, precisava também fazer uma pós-graduação em estruturas e resolvi, após terminar a engenharia civil, fazer meu mestrado, no ITA.
Ia tudo muito bem, mas tinham algumas restrições que me deixavam com a corda no pescoço. Eu precisava fazer 30 pontos para o mestrado. Não conseguia cursar mais do que uma cadeira por semestre e cada uma valia 3 pontos. A tese valia 9 pontos e as cadeiras caducavam após 4 anos. Tinha então 3 anos e meio para fazer 7 cadeiras que me dariam 21 pontos e 6 meses para fazer a tese que completariam os 30 pontos, na casca. Qualquer pau em uma cadeira e eu perderia tudo que já tinha feito antes e voltaria a estaca zero, pois começaria a caducar uma após a outra. Era uma coisa que não admitiria erros. Todo aluno tinha que ter um orientador e eu não conhecia ninguém. Para você poder fazer o curso no ITA, a exigência era de ser formado em engenharia e ter um professor que te aceitasse como pupilo e o acompanhasse durante o tempo todo. Qualquer problema com você ele era comunicado e era o co-responsável pela defesa da sua tese.
Fui falar com coordenador do curso de estruturas, prof Wolf Altman. Quando disse que não era graduado pelo ITA, tinha esposa e quatro filhos e um emprego em período integral, ele tentou me desanimar. Que eu fizesse uma pós-graduação nas cadeiras que eu precisasse me aprofundar, ou participasse das aulas como ouvinte e não precisaria fazer provas, mas defender teses nem pensar, que mestrado era uma coisa que necessitava dedicação integral e conhecimento prévio em engenharia, que só ex-alunos do ITA e os melhores da Politécnica tinham, que não era meu caso, e eu não teria tempo para família e nem para trabalho na Mecânica Pesada. Insisti que era uma coisa que eu queria fazer e quando quis argumentar que estava preparado para enfrentar isso tudo, ele fechou a questão, que ele não podia perder tempo, tinha somente dois orientados por ano e que eu desistisse ou procurasse outro. Para mostrar que não desistiria, disse que não conhecia ninguém na escola e não me esqueci de sua resposta:
- Procure pelo Rizzi. Ele aceita qualquer um.
Se ele tivesse me convencido eu mandaria ele tomar no rabo e iria embora, mas como queria fazer aquele mestrado, fiquei quieto. Já era meio frustrado por não ter feito meu curso normal ali. Tomei pau de inglês no vestibular, como se matemática tivesse nacionalidade. Engoli a vontade e fui atrás do Rizzi. Cheguei à porta de sua sala que ficava em um corredor comprido onde deviam ter mais 20 portas iguais e vi a plaquinha na porta "Prof. Phd. Paulo Rizzi" e pensei com meus botões que devia ser outro velhão chato que nem o Altmam, e como a porta estava trancada, fiquei andando por aquele corredor comprido, aguardando. Apareceu um cara uns 5, 6 anos mais velhos do que eu, calça jeans, tênis, camisa com gola canoa e como eu já estava à meia hora aguardando, cheguei nele falando:
- Você sabe a que horas chega essa porra do Paulo Rizzi?
Ele respondeu:
-Acabou de chegar.
Parou na frente da sala e começou a destrancá-la. Pronto, tinha acabado de ferrar com tudo. Merda.
- Oh professor Rizzi, o senhor me perdoe, mas nunca achei que o senhor pudesse ser mais novo do que eu.
Como já disse ele parecia uns 6 mais velhos, com aquele elogio eu tentei corrigir as coisas e acho que consegui pois ele respondeu:
- Tem um cigarro aí?
Contei minha conversa com o Altman, onde trabalhava, o que fazia e como era importante eu fazer meu mestrado ali e se ele poderia ser meu orientador. Ele disse que sim e colocou duas condições. A primeira que eu desistisse no primeiro pau e a segunda de que a minha tese fosse relacionada com meu trabalho na Mecânica Pesada, pois ele já estava de saco cheio de fazer coisas que só serviriam depois que ele morresse. Ele já tinha 2 estruturas de satélite orbital, uma asa de jato supersônico e outras tranqueiras mais. Escolheríamos juntos o assunto da tese e as cadeiras que eu teria que fazer. Começaria com Teoria da Elasticidade, no primeiro semestre, e Analise Matricial de Estruturas no segundo, onde ele seria o professor. Achei que seria o professor das duas cadeiras, mas estava enganado. Da primeira era o Altman. Começaria com a fera e quando quis dar uma reclamada ele falou:
-Combinamos que você sairia no primeiro pau, não foi? Vamos para o tudo ou nada e assim você não perde o seu tempo...
Quando quis argumentar ele completou:
-Nem o meu.
Comecei com o Wolf Altman. Fui à primeira aula com aquela esperança de que ele não se lembrasse mais de mim, mas parece que ele leu meus pensamentos na nossa última conversa e sentiu aquela minha vontade irreprimível de mandá-lo tomar no rabo. No meu bom dia ele respondeu:
-Não disse que o Rizzi aceitaria você?
Se já não tinha muita simpatia por ele, naquele momento, eu já dentro, num agüentei e respondi:
-Ainda bem né, mestre.
Não me lembro de estudar tanto na minha vida. As aulas eram diferentes das de um curso de graduação. O professor dava uma copia Xerox do capítulo do livro para cada um, você lia, estudava e na aula seguinte tirava dúvidas. O livro era a Teoria da Elasticidade, de Stempko Timoshenko, em inglês. Fui na livraria em São Paulo, e descobri que ele já tinha sido traduzido e comprei o mesmo. Não tinha tempo para ficar traduzindo, mas ganhava bem na Mecânica Pesada para comprar o livro. Na primeira dúvida minha ele pediu que outro aluno respondesse, pois era matéria do curso de graduação. Só que ninguém soube responder. Tentei tirar o sorriso de sacana dos lábios, mas não consegui. Contei o ocorrido ao Rizzi e ele me pediu que não perguntasse mais nada ao Altmam, que ele iria tirar as minhas dúvidas..., e o limão virou limonada. Eu era o único aluno do ITA com um Phd particular. No dia da primeira prova eu achei que ia enfartar de tão nervoso e só me tranqüilizei quando terminei a mesma. Tinha feito tudo, conferido todas as questões e sido o primeiro a entregar. Quando recebi o resultado veio um MB de "muito bom", e não sabia onde tinha errado, pois a nota máxima era o L, de louvor. Pedi revisão da prova e ele me chamou para mostrar onde tinha errado. Não tinha, o monitor dele que se enganou não percebendo que as unidades da resposta não eram a mesma do gabarito. Ele não quis alterar a nota e falou que na próxima ele aumentaria um degrau, ou seja, se eu tirasse outro MB ele passaria para L. Ficaria com um crédito. No final do curso eu fui até ele e pedi para ele mudar a primeira nota, pois as outras tinham sido L e eu não tinha usado o crédito. Ele só mudou depois que o Paulo Rizzi falou com ele.
No segundo semestre fiz a Analise Matricial de Estruturas com o Paulo Rizzi. Estudei mais ainda, pois não tinha como justificar qualquer falha com ele. Só L de novo. No terceiro semestre encarei o Altman de novo com Estabilidade Elástica e tida como a matéria mais difícil do curso. No quarto fiz Plasticidade com o Hazim Al Quireshe, um indiano bom pra burro e também aprendi muito com ele. No quinto peguei o Nash Bismark em "Teoria dos elementos finitos" e rachei o bico de tanto estudar. No sexto voltei para o Paulo Rizzi e fiz Otimização Estrutural, que foi a base da minha tese. A ultima matéria foi uma obrigatória, Estudos dos Problemas Brasileiros, e foi a única em que não tirei L em todas as notas, mas também com a quantidade de problemas que este país tem!!!.
No resto faturei em todas. Estava correndo tudo bem, mas não estava fácil, e o pior estava por vir, a tese.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Virginia Kevork Choulian

Dona Virginia faz parte daquele seleto grupo de pessoas que não queremos esquecer jamais, nem eu nem Beá. É a esposa do Choulian e uma das pessoas mais educadas que já conheci. Quando trabalhava na Mecânica Pesada e era o chefe de departamento de Engenharia, ela era a minha calculista número 1. Eu era seu chefe e o marido, o Choulian, era o meu chefe. Era uma situação muito peculiar, com muitos lances engraçados, como todas às vezes que eu queria dar um aumento salarial para ela e ele não autorizava, apesar de saber ser merecido. Era um parto e às vezes até ela falava que não queria. Devia ser ele perturbando. Mas aprendi muito com ela pois quando comecei a calcular equipamentos hidromecânicos, ela foi a minha professora. Quando tinha algum cálculo mais complicado, fazíamos juntos e me lembro, que nessas horas fumávamos demais, eu no Minister e ela no LS, foi a única pessoa que conheci que fumava essa marca, acho que era fabricado sob encomenda.
Ela era engenheira civil, tinha terminado o curso na Bulgária, mas não conseguiu pegar seu diploma. Foi na época que o comunismo tomou conta de seu país e vieram de qualquer jeito para o Brasil. Um dos meus primeiros projetos na área foi de uma comporta e por ocasião da fabricação descobriram que se construíssem como eu tinha projetado, teriam que prender um soldador dentro de cada elemento. Tinha um compartimento estanque e todas as soldas eram internas. Era ainda inexperiente e fui motivo de gozação da fábrica toda. Ela me consolou dizendo que só errava quem fazia e eu tinha que me acostumar a isso pois era novo e ainda faria muitas coisas e, conseqüentemente, várias besteiras. Arrumou o projeto para mim fazendo uma boca de visitas no compartimento estanque e resolveu tudo. Quando fui promovido para chefe, foi uma das pessoas que mais me incentivou.
O casal, além dessa relação de chefia cruzada, era nossos melhores amigos. Éramos estrangeiros de Corumbá, naquela cidade de Taubaté. A dona Angel, mãe do Choulian era uma excelente cozinheira e sempre que fazia alguma coisa especial, nos convidavam para comer com eles. Tinha uma massa folheada inesquecível. Foi em um desses jantares que tive meu controle emocional testado, eu e mais o resto do povo. Tínhamos um amigo em comum, solteiro aos 35 anos e arrumou uma namoradinha nova e a levou para nos apresentar, em um dos jantares da dona Angel. Sua principal característica era a seriedade. Ele era, antes de tudo, um cara sério. Nunca o vi, ou ouvi, dar uma gargalhada. Ele sorria. Era muito simpático, mas sério. A namorada, era compatível com sua seriedade, trintona e séria também, mas tinha uma mania muito engraçada, ela gostava de coçar a orelha dele. Era uma coçadinha carinhosa. Começava com uma esfregadinha no lóbulo, colocando-o entre o polegar e o indicador, assim como se estivesse contando dinheiro, e alternava para a parte de cima, quando com os outros três dedos ela fazia o contorno da parte superior da orelha, aquela onde a cartilagem era durinha. Ia se alternando e não parava. Bebia com uma mão e a outra na orelha do homem. Ele falava meio sem mexer a cabeça para não atrapalhar a coçada. Com o tempo aquilo foi avermelhando e o pessoal começou a perceber e já não podia um olhar para a cara do outro sem querer sorrir. Já tinha gente querendo sugerir que se alternasse as orelhas, pelos menos ficariam as duas da mesma cor. E a preocupação com a necrose? Será que se fosse o dia todo assim, não poderia vir a gangrenar? Com essas idéias passando pela cabeça de todos e àquela vontade de dar risadas sem ter motivos que justificassem pois a conversa era de coisa séria, foi ficando uma coisa acumulada e começaram as idas no banheiro. Acho que o nego ia para rir tudo que podia e voltava de olho inchado e torcendo para que o martírio tivesse acabado, mas chegando na sala via que estava tudo igual e nada havia mudado, nem mesmo o lado da orelha, talvez só a sua cor, mais vermelha.
Até hoje, quando vemos um casal, com um acarinhando a orelha do outro, já lembramos daquele jantar inesquecível e começamos a dar risadas.
Mas éramos una equipe e tanto. Se comparado a seleção brasileira, éramos a de 70.
Bons tempos.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Minha melhor professora de Português

Já falei que a Maria Teresa foi a minha melhor professora de português. Os erros que aparecem neste blog são culpa exclusiva dela e da Laura, minha filha e editora. Aqui na minha região o provérbio que mais gostamos de usar e aquele do "mato a cobra e mostro o pau". Tempos atrás recebi uma carta dela sobre as férias que ela, com alguns amigos, passou aqui no pantanal. Foi uma das coisas mais lindas que já recebi e, sem sua autorização, vou reproduzi-la aqui. Alguns pequenos enganos eu corrigi. O resto é ipsis litteris.

AVENTURAS NO PANTANAL MATOGROSSENSE

Estamos todos ainda em estado de graça com as emoções que tivemos com a nossa viagem ao pantanal em julho. Tudo começou na fazenda S. Bento, que fica na metade do caminho entre Campo Grande e Corumbá*. A sede é linda, toda rodeada de mangueiras. Na entrada, suscitando o deslindamento dos visitantes, há um enorme coqueiro que serve de viveiro para as araras-azuis. No final da tarde, dezenas delas ali se aninham dando-nos a impressão de que a árvore esta carregada de frutos azuis.

Ainda temos na boca o sabor do delicioso caldo de piranhas, daquelas ventrechas de pacu (sabiamente trazidas por Bea, pois se dependesse dos pescadores...). Sem falar no queijo Nicola, da chipa e dos doces da Jaci (única vilã da história, pois fez todo mundo voltar mais pesado). Como esquecer o lindo trajeto entre São Bento e o Pesqueiro com as inúmeras invernadas e seus capões cheios de carandás, ingazeiros, bocaiúvas e pimenteiras, sem contar os majestosos tamburás plenos de flores amarelas a prenunciar a proximidade do Rio Miranda. Parecendo dar boas vindas um casal de araras azuis seguia o nosso carro. Emas, capivaras, quatis, tuiuiús, veados, surgiam aqui e acolá dando-nos uma amostra da riqueza animal que iríamos encontrar.

E o rio Miranda, com suas águas mansas e límpidas, que torna-se ainda mais majestoso ao cruzar o Rio Vermelho. Rio sábio este que escondeu todos os pacús, dourados e pintados e generosamente ofereceu muitas piranhas aos pescadores (quem ia agüentar o Nonô, Chu ou Carlão, se algum deles tivesse pescado um pacú de 10 kg)... E aquela sinfonia de pássaros... E o tuiuiú Carioca, que vive roubando os peixes dos pescadores. E os jacarés tomando sol na beira do rio no final da tarde.

Inesquecível foi o emocionante retorno no fim da noite à procura da batida correta no meio do capinzal colonião. Os nossos anfitriões fizeram questão de nos mostrar um mesmo ponto turístico por quatro vezes (realmente aquela simbra é fantástica e aquele cocho um verdadeiro obelisco no meio da invernada... e aquele prático um autêntico guia turístico).

Fomos em dois aviões de São Bento para Pirarininga, em pleno centro do pantanal. Nossos olhos se regalaram, por quase uma hora, com o pantanal visto de cima, com seus longos corichos, vazantes e fazendas (todas com campo de pouso!). Destaque deve ser dado a um dos pilotos que, quem diria, era Tadeu, contrariando totalmente a teoria dos mineiros segundo a qual "burro velho não pega marcha" (brincadeirinha!!!)

Como esquecer da fazenda Piratininga, em pleno Paiaguas, e a nhecolandia, do outro lado do Rio Taquari, (nome dado em homenagem a um fazendeiro chamado Nheco, por sinal antepassado de Bea, que defendeu o Pantanal do ataque de países vizinhos). Quem podia imaginar de encontrar uma mansão no meio do Pantanal!. E as caçadas fotográficas nas vazantes sob maravilhosos crepúsculos. Um show a parte foi a foto certeira de Tadeu num porco do mato a aproximadamente 500 m de distância e a habilidade de Daniel e Chu em retocar e ampliar a mesma lá na fazenda. As fotos dos jacarés também foram incríveis. Eles ficaram assustados com tantos flashes pipocando sobre eles, o Karmam e o Nonô foram os que mais bateram. As melhores foram aquelas tiradas a menos de um metro de distância.

A fazenda Santa Cristina, com suas inúmeras invernadas e aquele gado nelore, tão dócil e branquinho! Soubemos que Daniel fez toque em milhares de vacas para ver de estavam prenhes ou não, razão pela qual elas até piscavam para ele (as fofocas correm...)

A fazenda Perdizes, última a visitarmos (e também a última aquisição da família!) é simplesmente paradisíaca. No caminho, defrontamos nada menos que um viveiro de pássaros e aves aquáticas (tuiuiús, colhereiros, cabeças secas, aranquans, cardeais, impossível enumerar todos!). Como que conscientes da nossa admiração (e com a ajuda de Tadeu que dirigiu em direção a elas) empreenderam revoadas simplesmente impossíveis de descrever! A sede da fazenda fica num local lindo, mais elevado, rodeada por majestosas figueiras, de frente para um coricho, o qual se pensa tornar navegável na época da cheia e assim unir esta fazenda a Piratininga. As vazantes, serpenteadas por frondosas árvores, recobertas de uma fina camada de capim, mais parecem um campo de golfe. Esta topografia com esta vegetação nos faz lembrar jardins de castelos britânicos, só que, no caso do Pantanal, formados e conservador pela própria natureza.

Mas incrível mesmo foi o reencontro com Tadeu e Bea, que não mediram esforços nem logística (desde lanchas até aviões foram mobilizados) para recepcionar esta turma lá dos confins da divisa de São Paulo com Minas Gerais. Incrível foi presenciar a relação de Bea e Tadeu com o neto Rafael. Incrível foi rever Beto, Daniel , Guilherme, conhecer melhor a Pat, esposa do Beto (só não encontramos a Ana, esposa do Guilherme, mas afinal alguém tinha que trabalhar...) Incrível foi constatar que, apesar do tempo e de toda a mudança de vida da família, todos continuam os mesmos: grandes, excepcionais e queridos amigos!.
FIM DA CARTA

Linda, não? E faz valer toda logística, que nem foi tão grande assim. Quem não conhece a Maria Tereza, recomendo que leia, neste Blog, a história título "Maria Tereza", de 30 de abril de 2010.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Karmazim

Existem pessoas que passam por sua vida e deixam lembranças que não se apagam mais, ou pelo menos você gostaria que isso acontecesse, mas como estou cismado com a minha memória, toda vez que me lembro de alguém que não quero esquecer, coloco seu nome na lista do meu blog. O Karmazim foi um deles. Era um francês muito boa gente e que tinha como principal característica o seu bom humor. Ficávamos horas conversando sem perceber o tempo passar. Ele era uma pessoa com histórias muito interessantes, pois tinha lutado na segunda guerra na Resistência Francesa. Eu o conheci em 1974 quando entrei na Mecânica Pesada e ele foi um dos seus fundadores, junto com o Chu, Chouilan, Pavilak e outros importados diretamente da França, assim que a empresa foi inaugurada aqui no Brasil.

Não me lembro de tê-lo visto aborrecido a não ser no dia do leilão do Novo Horizonte. Na primeira vez que veio a Corumbá, veio junto com a filha Kiki e a Vicky, irmã de D.Virginia, tão ou mais simpática que ela, e um dos programas foi ir a um leilão de gado de corte que ficava no início do pantanal. Na hora de dividirmos o pessoal, pois não cabiam todos em um só carro, ele foi com o Chu em uma pickup pampa e o resto do pessoal comigo. O Karmazim não chegava a ser gordo, estava assim para o "forte", mas perto do Chu que era muito magro podíamos considerá-lo "bem forte". Na saída eu me lembro que ele já mostrou uma pequena preocupação pelo almoço, se não precisava levar alguma coisa para comer no caminho. Tranqüilizamos o "gordinho" explicando que era uma viagem de umas duas horas e o almoço seria no próprio leilão. O Chu, que é louco por pescaria, na saída resolveu pegar seus apetrechos de pesca e nos mandou sair na frente. Eram 8:00 hs da manhã. Chegamos ao leilão às 10 e fomos ver o gado. Andamos por cima de todas as baias, tinha umas passarelas próprias para isso e quando estava chegando a hora do almoço fomos para o tatersal e nos acomodamos, guardando lugar para os dois. Deviam estar chegando. Serviram o almoço, e nada dos homens. Retiraram os pratos e veio a sobremesa. Avisei o organizador que estava com visitas atrasadas e ele me tranquilizou que tinha todo o pessoal dele para almoçar ainda. Eles comeriam junto com os empregados, mas fome não passariam. Começou o leilão e nada ainda. Fiquei na espera, um olho no gado e outro em quem chegava. Lá pelas quatro da tarde, já no fim do leilão, chegam os dois. Quando fui cumprimentá-los o Karmazim, meio bravo de fome, me explicou o motivo do atraso. "Esse Chu é um tarado por pesca. Parou em todas as poças de água da estrada dizendo que ali tinha peixes. Não pegamos nada e perdemos o almoço. Por isso queria trazer algo para comer". A estrada que ia de Corumbá ao leilão foi transformada hoje em estrada parque pois atravessa uns 50 corichos, ou riachos como gostam os paulistas. O Chu respondeu que só queria garantir o almoço, como se alguém fosse fritar os peixes para ele no leilão.

Numa segunda vez, veio com o Chu, que já não trabalhava mais com a gente, para irmos para Piratininga. Chegaram de avião em Campo Grande e de lá para cá em uma van alugada. Era uma turma e muito animada, pois estavam com eles a Maria Tereza com o marido Carlão e a filha Diana, a Michelle, filha do Karmazim com o marido Nônô e a filha Giselle. Fiquei sabendo das discussões da Maria Tereza com sua filha logo na chegada. Na frente do aeroporto tem umas esculturas gigantes de pássaros do pantanal e a Maria Tereza quando viu quis chamar a todos para ver "que linda e bem feita aquelas garças" e fez isso aos gritos. A filha chamou a atenção dela e em sua euforia respondeu:
- Larga de ser chata e deixe eu externar meu contentamento, Diana.
- Pode externar Mamãe, também estou contente e mais ainda de ver sua alegria. A vergonha não é disso, mas de ver que você não diferencia uma garça de um tuiuiú.
É mole?
Quando chegaram, estávamos com tudo preparado, uma garrafa de 5 litros de pinga da minha reserva especial que recebo do pessoal de Piracicaba e que é envelhecida em meu tonel de carvalho que ganhei do sogro do meu filho Guilherme e duas garrafas de wisky Johnny Walker, rótulo azul. Queria agradar aos meus amigos. Passamos uns cinco dias muito agradáveis, secamos a pinga e praticamente só experimentamos o rótulo azul, eles eram profundos conhecedores de cachaça.

Quando eles foram embora o Karmazim me emocionou. Meu filho caçula, o Guilherme, tem uma coleção de facas e ele ficou sabendo disso. No último dia que passamos juntos na fazenda, ele contou uma de suas passagens na segunda guerra. Com um canivete teve que silenciar um alemão para invadirem um depósito de munição. Acabando o relato ele mostrou o canivete usado, a coisa mais linda, cabo de osso, coisa muito fina mesmo e disse que tinha tornado o seu amuleto e o acompanhado a vida toda. Como ele estava velho queria que aquilo continuasse nas mãos de algum amigo, mas que desse valor a esse tipo de arma e que conhecesse sua história. Quando completou que tinha encontrado essa pessoa no meu filho ficamos todos muito emocionados. É a principal peça da coleção do Guilherme e ele, como eu, temos muito orgulho dela. Foi a ultima vez que vi o Karmazim, ele veio a falecer alguns anos depois.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A importância dos burros

Estava indo para o quarto ano de engenharia quando fui chamado na diretoria. O Israel Mordga Rosemberg, diretor da MAUÁ, queria me avisar que eu tinha ganho o prêmio Metal Leve que consistia de um cheque de um salário mínimo e a proposta de fazer um estágio lá por um ano e ganhando outro tanto mensalmente para trabalhar meio período. Não agüentei e perguntei se esse prêmio era para estimular ou desestimular o sujeito. Na época o salário mínimo era algo como 40 dólares por mês. Esta certo que o mesmo era mais valorizado mas era ainda uma porcaria. Ele me explicou que o importante não era o dinheiro mas o ano que passaria em uma indústria de ponta e que iria aprender muito. Vindo de quem veio, Rosemberg, achei que devia ser realmente proveitoso trabalhar lá por um salário que não pagaria o que gastaria a mais de gasolina do meu carro para ir ao emprego. Aceitei a "honraria".
 Mas foi proveitoso. Trabalhei com o melhor metalúrgico do pais, o Doutor Oto Von Baun. Estava no meu estágio quando acompanhei o desenvolvimento de uma nova liga para fazer o pistão de motores de combustão e é usada até hoje. O pistão de um motor tem duas características importantes, tem que ser leve e com uma alta resistência só na região dos anéis. Esse cara foi o inventor de um material que tinha essas características e que se unia ao alumínio de uma maneira continua e se chamava ALFIN, AL de alumínio e FIN de afinidade. Fui designado para trabalhar ao seu lado e era cobra em resistência dos materiais nas não gostava nem de química nem de metalurgia. Quando ele me explicou essa parte, prestei a maior atenção possível, mas estava muito acima da minha capacidade. Quando fomos para o laboratório de testes para verificar a resistência do material já fiquei mais animadinho. Foi aí que tudo aconteceu. Foram feitos vários corpos de prova que consistiam de uma barra redonda de 1 cm de diâmetro. Essa barra era colocada numa máquina de tração e ia sendo esticada até romper e a carga em que isso acontecia era registrada. O homem já tinha rompido um monte dessas barras e não conseguia atingir a carga que ele queria quando resolvi pegar seus cálculos. Vi que ele não gostou muito de um estagiário verificar o que ele estava fazendo. Percebi na hora que ele estava considerando que a barra tinha um centímetro quadrado de área, enquanto a verdade é que ela tinha um cm de diâmetro. Isso dava um resultado vinte por cento menor. Quando cheguei até ele, encontrei-o sentado em sua mesa com um cachimbo na boca do tipo do Sherlock, daqueles que tem uma curva. Como ele não tirava o bicho da boca, a baba corria até aquela curva e pingava. Acho que aquilo mostrava o extremo da concentração que só os gênios conseguem ter. Na minha segunda pigarreada ele de dignou a levantar os olhos para mim por 1 segundo, se levantou e foi até um quadro negro que ocupava toda uma parede de sua sala. Estava cheio de fórmulas químicas. Nas outras paredes eram estantes com seus livros particulares. Fui com ele e como vi que não ia conseguir falar muito, falei tropeçando nas palavras:
- Professor, um centímetro de diâmetro não dá um centímetro de área. O senhor está confundindo força com tensão.
Falei e saí de perto com medo dele babar em mim. Vi que seus olhos brilharam mostrando que tinha caído a ficha. Ele me olhou e falou:

- Você me faz ver a importância dos burros. Uma vez minha mulher chamou um engenheiro elétrico para ver o motivo da nossa televisão não funcionar. Ele desmontou a ampola, trocou válvulas e já queria pedir o projeto da mesma para a fábrica quando eu, que não entendo nada de eletricidade, vi que ela não estava ligada na tomada. 
Não gostei do burro mas não podia ser mal educado com ele mesmo não querendo deixar barato e só respondi:

- De nada. 

Logo em seguida me transferiram para outra área e não vi mais o professor Oto. 
Três anos depois, quando estávamos mudando para Taubaté e não encontrando casas lá, eu e Beá fomos a São José dos Campos e quando entro em um restaurante para almoçar, vejo um casal de velhinhos em uma mesa e reconheço o professor Oto. Ele era professor do ITA e estava sempre por ali. Quando ele me viu e cumprimentou, fui falar com ele sem esperar que ele tivesse me reconhecido e fiquei abestalhado. Ele virou para sua esposa e falou:
- Lembra do estagiário que te contei que me corrigiu no elemento AlFin? Olhe como esse mundo é pequeno. É este rapaz aqui. Você me desculpe mas esqueci seu nome.
Respondi:
-Tadeu professor, e fico contente do senhor ter se lembrado de mim.
Ele completou com um não tinha como esquecer e me deixou muito convencido, principalmente por estar na frente de minha mulher. Menti muito pra ela, acho que cheguei a dizer que se não fosse eu a indústria automobilística estaria engatinhando ainda. Igual ao Fernando Pala e o Dr. Murtinho.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Ivan Chu

Peguei meu Ford Corcel e fui para Taubaté fazer a entrevista com o chefe de departamento de engenharia. Trabalhava na Bardella em São Paulo e queria trocar de empresa e de cidade, mas não de ramo pois gostava de máquinas de transporte e levantamento, que era o que eu fazia na Bardella. Trabalhava na área de engenharia de orçamentos e queria ir para a área de projetos, e de preferência para cálculos, que para mim era o coração da coisera toda. Queríamos, eu e Beá, mudar para o interior e depois de analisar todas as opções concluímos que Taubaté com a Mecânica Pesada era a melhor. Precisava agora convencer meu entrevistador que eu seria a melhor opção para a empresa. Tinha pouca experiência para apresentar pois tinha só um ano de formado, mas eram as cadeiras que mais me dediquei na faculdade e sentia que dominava a matéria. Tinha que dar tudo certo. Quando me apresentei ao chefe do departamento de engenharia, o engenheiro Ivan Marcel Madeleine Chu, eu estava muito nervoso. Ele era filho de pai chinês com mãe francesa, a empresa era uma multinacional francesa e de francês eu só conhecia a Brigite Bardot. Começamos a conversar e vi que ele estava precisando contratar dois calculistas, e um para a área de transporte e levantamentos. A empresa trabalhava também com máquinas hidráulicas, comportas e turbinas, ficando completa no ramo de hidroelétricas, e fabricava ainda equipamentos de siderurgia e motores marítimos, uns monstros de 15.000 cavalos. Ficamos duas horas conversando e o teste foi demorado e quando acabou ele pegou meu telefone e disse que entrava em contato. Dancei, pensei, senti que eles queriam alguém com mais experiência, pois tinham perdido os dois calculistas ao mesmo tempo, o Paulo Coelho e o Pablo Posterla, e na entrevista fiquei sabendo que eram duas feras com mestrado, o primeiro no ITA e o segundo, um argentino, em Stanford, EUA. Não ia ser fácil, mas como estavam sem nenhum e pedi salário de engenheiro com um ano de formado, talvez pegasse a vaga do segundo. Depois de uma semana o Chu me telefonou perguntando quanto tempo eu precisava para começar. Tinha sido contratado, não sabia para que lugar, mas estava dentro. Falei que o aviso prévio era de um mês e gostaria de cumpri-lo e que pediria a demissão no dia seguinte.
Tudo acertado por telefone, no primeiro fim de semana fui conhecer Taubaté com Beá. Fomos nas imobiliárias para procurar uma casa para alugar e aí tivemos a primeira surpresa. Eu ia com um salário de 4.900.000 e a casa mais barata que achamos valia 3.000.000. Íamos passar fome ou recorrer aos nossos papais. Em São Paulo tínhamos casa própria e ganhava exatamente igual. Fomos nos afastando para a periferia procurando algo mais barato e acabamos saindo da cidade e indo parar em Tremembé. Era uma cidadezinha de 5000 habitantes e a 6 km de Taubaté. Não daria para ir almoçar em casa todo dia pois a Mecânica Pesada também ficava fora da cidade mas no sentido oposto e daria uns 10 Km de casa até o serviço, o que não era tão longe também e por 1.500.000 conseguimos uma merda de casa mas que tinha dois quartos e laje. O que aparecia em Taubaté nesse preço eram umas palhoças. Aí que ficamos sabendo que a cidade vivia um momento de hiper crescimento. Não havia casas suficiente para acomodar todos que estavam indo para lá e que todas as indústrias de São Paulo estavam se interiorizando e com uma grande parte escolhendo Taubaté. O Chu trabalhou 6 meses como meu chefe, brigou com o gerente da fábrica e acabou saindo da Mecânica. Para seu lugar foi promovido o Onik Choulian, mas esses seis meses que passei com o Chu foram muito proveitosos e aprendi muito com ele. Depois de alguns anos ele voltou ao grupo e como coordenador de um consórcio que a Mecânica Pesada era a líder e eu o chefe do departamento de engenharia, cargo que era dele quando me contratou. Estávamos com um problema sério pois eu não conseguia aprovar o projeto de um componente importante das comportas de um setor de Porto Primavera. O engenheiro da empresa consultora não entendia muito de protensão, que é uma especialidade da engenharia civil, e queria que eu mudasse uma coisa certa. Não entrávamos em um acordo e aquilo estava ameaçando atrasar o projeto de toda usina. O Chu, como coordenador, estava preocupado e também já sendo responsabilizado por aquilo. Resolveu marcar uma reunião com todos os envolvidos para sair dela com o impasse resolvido e teve uma prévia comigo antes.
- Tadeu, você esta levando este caso para o lado pessoal e vai prejudicar todo o projeto.
- Chu, se for assim, ele também. Você só está me apertando para ceder porque tem mais liberdade comigo. Quem tem que ceder é quem está errado e o cara não entende porta nenhuma de protensão e não quer aprender.
Ele era bom de argumentos e respondeu:
- Quem tem que ceder é quem tem mais a perder com esse atraso e somos nós. Marquei essa reunião e é sua última chance. Se não sair com a solução de lá vou ter que ir a diretoria da MEP e reclamar de você.
Curto e grosso.
Fomos para a reunião composta de um monte de engenheiros, sendo três da Cesp, que era a cliente, três da Themag, que era a empresa contratada para aprovar nosso projeto e a criadora de toda confusão, eu da MEP, criador da confusão na opinião deles e o Chu o coordenador de todos. Armaram um circo para mim e me deram uma aula de protensão com direito a aqueles cavaletes onde o carinha com canetas hidrográficas de várias cores ia demonstrando as teorias dele e deixando tudo registrado. Quando tentei interrompe-lo, me pediram asperamente que o aguardasse terminar e aí eu teria a palavra e todos me escutariam também e julgariam. Me senti réu e advogado de defesa em um julgamento sumário e com o Chu já me olhando feio na primeira tentativa de abortar aquela discussão inútil. Fiquei quieto e pela primeira vez resolvi prestar atenção no que o engenheiro falava para poder detectar onde ele estava errando e tentar mostrar a todos o problema. Memorizei até as folhas onde estavam os erros. Quando ele acabou a exposição estava muito satisfeito e me estendendo a caneta hidrográfica, jocosamente me chamou de doutor. Não nos tratávamos assim. Peguei a caneta dele e fui direto nos pontos errados circundando os mesmos com caneta de outra cor, que eram todos devido a um problema conceitual da engenharia. O colega não conhecia o principio da superposição de efeitos e que forças internas não se transmitem para os apoios. Peguei a caneta e fui colocando as coisas em ordem e quando percebi que ele não estava prestando atenção não me agüentei e falei:
- Fulano (vou poupar seu nome aqui) se você estiver certo com a sua teoria, você abre essa janela aí (estávamos no vigésimo andar) e pule por ela sentado em sua cadeira. Quando for cair, você com seus braços segurando no assento, pressione o mesmo em sua bunda e a força da cadeira no seu rabo vai fazer você subir. Isso que você demonstrou aqui.
Aí ele prestou atenção. Quando olhei para o Chu ele estava com os braços sobre a mesa e a testa apoiada neles, não sei se para não dar risadas, ou de vergonha do "sua bunda".
Quando vi que já tinha extrapolado completei:
- Prove agora praticando.
Acho que aí que caiu a ficha do companheiro e todos concordaram na hora comigo. Na saída o Chu ainda me falou que eu tinha jogado muito alto e arrumado um inimigo pro resto da vida. Como ainda estava meio nervoso falei que essa parte não tinha entrado no acordo e o importante era que tínhamos aprovado a porra do projeto. Mas ele se enganou e acho que comigo foi a única vez na vida. O cara ficou super amigo e nunca mais reprovou nada meu. Quando tinha dúvidas me telefonava e resolvíamos tudo antecipadamente. Acho que esse é o princípio do desfibrilador. Choque que mata e choque que salva.
Mas do Chu tem muitas e fica para a parte 2.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

George Pion

Devia ser por volta de fins 1979, inicio de 1980. Consigo precisar a data pois lembro que estava fazendo meu mestrado e ia começar o quinto semestre. Ia fazer a cadeira de Elementos Finitos com o professor Bismark e nessa história que me lembrei dele e não o citei nos "meus mestres". O Choliuan me falou que estava vindo um francês, especialista em computação e em Elementos Finitos para nos ajudar nos cálculos estruturais. Era o início da informatização do cálculo estrutural. Me formei em 1972 com régua de cálculos e então, 8 anos depois, tínhamos um computador monstruoso a nossa disposição. Minha sala ficava interligada por um cabo telefônico a IBM de São Paulo, onde podíamos rodar todos os nossos programas. Precisávamos de um especialista em programação pois não era como hoje onde os programas são todos umas caixas pretas em que você introduz os dados de um lado e sai o resultado de outro. Você que tinha que parametrizar tudo e desenvolver todo o programa em linguagem fortran, entrar com uma análise matricial monstruosa e depois ficar 10 dias analisando os resultados. Mas era preciso e você conseguia diminuir o peso das estruturas e fazer equipamentos cada vez mais leves e baratos.
Quando me falaram que vinha um francês para ser o nosso analista de sistemas fiquei um pouco preocupado pois a fama era que eles se julgavam os bons e nos consideravam uns índios que não sabiam nada. Outro problema era a língua. Os franceses tinham a fama de considerar sua língua universal e de se recusar a falar qualquer outra. Teríamos um problema sério de comunicação, pois para mim, língua universal era o Português, que vinha do latim. Quando chegou o Pion, o Choulian reuniu toda a equipe da engenharia para apresentá-lo. Ele começou bem falando em um português arrastado e pedindo desculpas por isso. Me simpatizei de imediato com ele e senti que ele estava ali com o propósito de realmente ajudar e era um cientista do cálculo. Quando falei a ele do meu mestrado e que estava começando a fazer a cadeira de Elementos Finitos ele se inscreveu e fez junto comigo como aluno ouvinte, deixando todos impressionados com sua modéstia. Podia estar ensinando e fez questão de começar aprendendo. Ficamos grandes amigos e o somos até hoje.
Desenvolvemos muitos projetos juntos. Ele era realmente uma fera em computação. Fazia programas enormes escrevendo-os direto sem nenhuma diagramação prévia e deixava todos impressionados. Nossas famílias acabaram ficando amigas também. Ele tinha só um filho quando chegou, o Jean Batiste e aprendeu o português aqui no Brasil. Brincava com meus filhos, nós já tínhamos todos, e não conseguia falar Guilherme para o caçula e só o chamava de "outro Daniel", seu irmão gêmeo. Sua segunda filha nasceu aqui no Brasil, a Benedicte, e eu e Beá fomos seus padrinhos de batismos e isso estreitou ainda mais a nossa amizade. Não tinha perigo de fazermos feijoada e não convidá-los para almoçar juntos. Na primeira vez, quando fomos apresentar o prato a eles cheguei a ficar preocupado. Nunca tinha visto ninguém comer tanto. Ele já tinha detonado uns 4 pratos bem cheios quando Beá, por pura brincadeira, ofereceu para servi-lo mais um pouco. Quando ele passou o prato aceitando, não me agüentei e perguntei se não iria fazer mal a ele, pois feijoada era coisa meio pesada. Ele deu risadas e disse que Beá explicou que se comesse com laranjas não teria problemas. Acho que ele ficou por uns três anos aqui no Brasil e então voltou a França.
A Chantal, esse é o nome da minha comadre, teve mais um filho, o Benjamim. Depois disso eles já vieram ao Brasil para conhecer o carnaval de Corumbá e nós já fomos a França duas vezes. Na primeira eles foram até Porto Fino nos pegar e nos levaram a Vorep, onde moram, perto de Grenoble. É um lugar maravilhoso e a casa deles é uma construção de 1700, aquelas com paredes de pedra de 40 cm de largura. Eles me falaram que quando compraram estava em ruínas e reformaram tudo sozinhos, ele e a Chantal. Além de bom de cálculo o homem é pedreiro de mão cheia. Passamos dias inesquecíveis relembrando o passado. Da segunda vez, estávamos em Paris e eles foram nos encontrar lá e passamos dois dias juntos, onde revi o Jean Batiste, que já deu uma neta linda a eles e a Benedicte, minha afilhada, que está uma moça muito bonita. Só não vimos o Benjamim que esta morando na Inglaterra. Jantamos uma noite na casa do irmão da Chantal que já esteve no Brasil com a esposa há 30 anos atrás e foram com o Pion na fazenda Santa Anatalia de meu sogro, sem que pudéssemos acompanhá-los. Fizeram uma projeção de slides nos mostrando o passeio deles na fazenda e ficamos emocionados com o carinho que eles mostraram ao Brasil e para com a gente. Nunca imaginamos que tínhamos proporcionado momentos tão bons e inesquecíveis àquelas pessoas.
O Pion hoje continua trabalhando na mesma empresa e esta montando uma usina na Turquia. Ele já morou na China, na África e conhece esse mundão todo. Tem prometido que virá ao Brasil para irmos ao pantanal juntos e espero que ele seja homem de cumprir com a palavra. Não sei se ele acompanha esse meu blog, mas em caso positivo fica esse desafio semi público. Vamos ver Pion, promessa é divida e você nos fez essa.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Na Contramão

Logo que entrei na Mecânica Pesada em 1974, um dos primeiros casais com quem fizemos amizade foram os Barbi. Eu trabalhava com cálculos, uma das coisas mais exatas da engenharia e ele, engenheiro de produção, com planejamento estratégico, a área menos exata. Talvez por isso nos dávamos tão bem e passávamos os fins de semana reunidos ou na minha casa ou na dele. Demorei para entender a função dele, pois enquanto eu vivia correndo, sendo atropelado pelos prazos, o compromisso dele era adivinhar o que aconteceria com a matriz energética do Brasil daqui a 20 anos. Era super interessante esse trabalho de adivinhação pois ele tinha que considerar muitas variáveis em uma época que não existiam computadores como hoje. Nas poucas vezes em que ele me mostrou seu trabalho vi que aquilo era para poucos. Tantas variáveis a serem consideradas e se chegando a resultados totalmente diferentes para cada caminho adotado. Tinha que se considerar as fabricações de matérias primas básicas, aço, alumínio, produtos acabados, automóveis, desenvolvimento da agricultura para a previsão de maquinas agrícolas e ia numa infinidade de números. O mais importante era isso sendo feito por uma industria particular e não pelo governo. Ele me explicava que os investimentos eram todos para serem amortizados num certo número de anos e aí estava o X da questão. O custo hora da máquina dependia desse X. Ela poderia até ficar obsoleta mas ociosa não, e tinha que sair fora do círculo vicioso que era de não operar porque era cara e era cara porque não operava. Quando se entrava nos detalhes do trabalho dele é que víamos como uma coisa é importante sem ser urgente. Aprendi muito com o Paulo Barbi.
Após os primeiros dois anos de sufoco, quando o dinheiro que era bem curto (a gente percebia a hora que ele estava acabando quando a sobremesa de frutas passava a gelatina) começou a sobrar, eu não sabia como investir. Aí me lembrei que tinha um cara, meu amigo, que não fazia outra coisa que não fosse olhar o futuro e prever o que aconteceria e resolvi buscar seus conselhos. Aprendi uma coisa que nunca mais esqueci e procurei usar a vida toda. A andar na contra mão. Ele me disse:
- Tadeu, futurologia é tora em pequenos casos. É mais fácil você saber como vai ser o próximo século para a industria pesada do que o campeão paulista de futebol desse ano. Mas procure fazer diferente de todo mundo, pois no caso de dinheiro, a massa é burra. Venda quando estão todos comprando, compre quando estão todos vendendo. Poupança deu um ótimo resultado, saia de lá e vá para onde o resultado foi pífio e assim por diante.
Ao longo da minha vida comprovei a tese do Barbi várias vezes. Lembro-me de um aniversario na casa de tio Patrão, quando um amigo falou que era um tremendo pé frio, pois tudo dava errado com ele. A poupança estava dando um bom resultado e ele aplicava todo seu dinheiro nela. Bastava entrar para o negócio cair. Perdia um monte de dinheiro e a moeda estrangeira subindo. Quando resolvia mudar a coisa invertia. Quando falei a ele que o problema era estar andando na mão certa ele disse que eu não tinha entendido nada e nem me deixou explicar a teoria Barbiana. Paciência, deve ter perdido dinheiro até morrer mas ainda sobrou algum para os descendentes continuarem sua teoria e torrarem tudo. Quando comecei a participar de leilões de gado em Corumbá foi a mesma coisa. Todo mundo queria boi e a vaca não valia nada. Comecei a comprar e engordar vacas. O preço de venda da arroba da vaca gorda era 10% menor que a do boi, mas o custo da arroba da vaca magra era 40% menor do que a do boi. Com o passar do tempo o pessoal começou a comprar vacas no leilão e inflacionou o preço. Comecei a comprar bois, aplicação simples da teoria Barbiana.
Com isso eu fico imaginando se aquela conversa há 35 anos atrás, num efeito borboleta, mudou o meu futuro. Gostaria de saber do Paulo Barbi, se está vivo, trabalhando com o que, e se tivesse oportunidade, falar a ele como foi importante aquela aula que ele me deu. Andar na contramão.