
A segunda fase foi com o Ariovaldo Batista, na engenharia. Então trabalhei já como gente grande. Fiz meu primeiro cálculo e me lembro que era um acessório para a empilhadeira poder carregar tapetes. A empilhadeira é um trator de rodas pequenas e maciças e que em sua frente tem um elevador acionado ou por correntes ou por um cilindro hidráulico. Normalmente tem um garfo de dois dentes que entram por baixo dos palets, elevam e transportam as mercadorias que estão sobre os mesmos. Nesse caso o tapete estava enrolado formando um tubo de até 8 metros de comprimento e esses garfos não tinham como pega-lo diretamente. Fiquei uns dois dias pensando quando tive a idéia. Substituiria o garfo por um tubo de 8 metros de comprimento que entraria pelo furo do tapete enrolado e daria apoio para ele todo. Transportados até o local de armazenagem e colocado na posição final, daria ré no veiculo deixando a peça já na posição certa. Feito os cálculos e o desenho esquemático, passei para o projetista detalhar o mesmo para aprovação do Ariovaldo. Quando ele me chamou para que eu certificasse que estava feito conforme o projeto e vi aquele negócio cumprido, resolvi brincar e falei que estava parecendo meu pixito. Ele não conhecia o termo, mas pelo formato imaginou o que seria. Como achou o nome muito engraçado, resolveu batizar a peça de Pixito do Tadeu e assim ficou. Achavam o nome engraçado e a coisa foi pegando, até que pixito para eles virou aquele sistema de carregar tapetes. Eu não me agüentava quando alguém falava que o Pixito estava bonito, que tinha ficado muito ajeitada. Só eu e o Davi que sabiamos o real significado daquele nome. Acho que até hoje tem muito pixito carregando tapetes por esse Brasil.
A terceira fase foi na área de controle de qualidade com o Fred Winkler. Queria continuar na engenharia, mas não deixaram. Eu tinha que cumprir o roteiro. No começo o Fred não me deu muita atenção, pois estava envolvido com um problema que tomava todo seu tempo. Passava-me serviços que eu percebia ser para que eu não o atrapalhasse. O primeiro foi calcular o comprimento do cabo do acelerador de um guindaste. Estava com aquele monte de desenho e tendo que achar o comprimento de um negócio em três dimensões. Já estava para ficar louco quando fui acompanhar as montagem de uma dessas máquinas e comentei com o chefe da montagem, um tal de Durval, do meu problema. Ele deu risadas, pegou um arame maleável e colocou o mesmo, do acelerador até a borboleta do carburador, que acelerava o motor. Cortou o arame no tamanho certinho e depois o endireitou. Entregou-me aquilo e falou para eu passar a trena e ali estava a resposta do meu problema. Quando passei o resultado para o chefe ele ficou todo contente e me passou o problema que o preocupava. Não deu tempo, ou não tive coragem, de dizer que a idéia foi do Durval, pelo menos naquele momento. As empilhadeiras usavam um motor chevrolet 4 cilindros, 2500 cilindradas, igualzinho a do meu opala, um vermelho Saturno, 4 portas, e que se chamava Tontonio. Depois de testada e vendidas um número razoável de unidades, receberam uma reclamação que o cárter tinha estourado. Não deram muita bola, trocaram o cárter e colocaram como possível causa mal uso do equipamento. Essas empilhadeiras andam dentro dos depósitos e devia ter batido em alguma trava de porta, daquelas que ficam chumbadas no concreto do piso. Quando chegou a segunda reclamação e muito em seguida a terceira, acenderam todos os alarmes e foi junto com a minha entrada na área do controle para o estágio. A engenharia alegava que o problema não era dela, pois o motor equipava um número de carros muito superior a de empilhadeiras e a GM não tinha nenhum relato sobre cárter estourado. Estávamos pesquisando o que tinha de diferente entre a operação da empilhadeira e do opala e tudo era a favor da empilhadeira. Foi então que aconteceu a feliz coincidência. Fui dar partida cedo no meu carro e ele demorou a pegar e quando o fez deu um POW, um só no motor e ele funcionou. Na hora do almoço já tive mais dificuldades de dar a partida e resolvi levá-lo para a oficina. Era um mecânico que já tinha trabalhado na GM, numa linha de montagem e numa autorizada e agora tinha sua própria pequena oficina na Lins de Vasconcelos. Falei do problema e ele falou que era regulagem do carburador e que se eu esperasse, ele faria na hora. Tirou o filtro de ar que ficava sobre o mesmo e começou a mexer no giclet do carro. O filtro tinha um cano que ia para o cárter para permitir que o mesmo respirasse e na entrada desse caninho de mais ou menos uma polegada tinha uma telinha, na realidade eram duas telas espaçadas de uns 3 milímetros, curvas e fixadas no mesmo suporte. Como ele retirou aquilo, eu a peguei e fiquei olhando aquela peça achando por demais esquisita e falei:
- Que porra é essa Ronaldo (esse era o nome dele)?
Sua resposta foi surpreendente e para mim veio do além:
- É chamada de anel corta chama. Isso serve para quando der uma explosão que nem aconteceu no seu carburador a chama não passar por esse cano e ir para o cárter que esta cheio de vapor de óleo e é altamente inflamável. E o interessante que ele tem que ser montado com a parte côncava para o lado do cárter, se não ele explode.
Quase dei um beijo nele. No dia seguinte cedo, fui direto para a linha de montagem e encontrei com o Durval. Fomos até a empilhadeira que ele estava montando e pedi que ele abrisse o filtro do carburador. Fui direto para o respiradouro do cárter e lá estava a telinha com a parte côncava virada para o lado errado. Contei da oficina do meu carro para o Durval e ele branqueou na hora. Era o responsável por aquele erro monumental. Pediu-me que o deixasse falar com o Fred, pois senão poderia de se ferrar. Apesar da vontade que eu estava de aparecer para meu chefe, aquele era um pai de família e a menos de dois dias tinha me ajudado e sem eu pedir. Concordei que não falaria nada a ninguém e ele ficou com a culpa de ter feito a merda e os méritos de tê-la descoberto.
No final do estágio, fui agradecer aos que me ajudaram e fiquei feliz de ver que todos me convidaram para voltar como engenheiro, mas a despedida do Durval foi a mais emocionante. Ele devia ser um senhor de uns 50 anos já e quando fui a sua sala dizendo que era meu último dia, ele me abraçou e disse que quando tivesse o meu próprio negócio era para chamá-lo, pois queria trabalhar para mim. Aquele reconhecimento me deixou mais feliz que qualquer mérito que poderia ter pela solução do cárter estourado. A Hyster foi meu primeiro emprego e como a primeira namorada, tem um lugar especial em minhas recordações. Já se foram 41 anos e ainda me lembro das feições de todos eles, principalmente do Durval. Foi uma das vezes que a razão venceu a emoção, como gosta de dizer o filósofo Alaer Garcia. Mas não foi fácil.
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