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quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Compensação

Tudo na vida tem suas compensações. Acontece uma coisa ruim que te deprime e logo em seguida, às vezes não tão logo, acontece outra da mesma natureza que te alegra. Há uns 10 anos atrás, estava no aeroporto de Foz do Iguaçu, aguardava o Luis Mario fazer nosso plano de vôo para Corumbá, quando escuto uma conversa de um pessoal atrás de mim. Na hora reconheço a voz do Oswaldo Panzarini. Tínhamos trabalhados juntos há 20 anos na mesma empresa, eu na engenharia e ele no departamento comercial da Mecânica Pesada. Tínhamos participado de muitas concorrências juntos durante 10 anos e nos tornado bons amigos, assim eu achava. Levantei-me e me dirigi a ele todo sorridente, feliz com aquela coincidência, e apontando pra ele naquela roda de vários executivos, falei:
- Oswaldo Panzarini, você não mudou nada, nem a voz.
Como ele me olhou com uma total indiferença, eu completei:
- Não está se lembrando de mim? Reconheço a sua voz e você, me olhando, não se lembra? E a pressão? Continua alta? Não é possível que eu esteja enganado. Você não é o Oswaldo?
- Sou, mas não tenho a menor idéia de quem você seja.
- Tadeu Marinho, da Engenharia da Mecânica Pesada! 1974 a 1984 - Falei isso e fiquei aguardando a sua reação, esperando que ele me abraçasse, fizesse algum comentário do tipo que engordei, ou como os cabelos branquearam, e me apresentasse aos outros executivos que estavam com ele. Entretanto ele continuou me olhando impassível e não mostrou a menor reação, nem mesmo de que se lembrava de mim. Fui ficando sem jeito, com todos me olhando como se eu tivesse interrompido uma conversa importante sem motivos. Ele ainda falou:
- Não estou me recordando de você.
Minha salvação foi que, nesse momento, o Luiz Mario chegou e falou:
- Tadeu, nosso plano de vôo esta autorizado. Podemos decolar quando você quiser.
Virei para o pessoal que estava com ele e disse:
- Perdoem-me por ter interrompido a conversa dos senhores, mas fui parceiro desse sujeito ai há uns 15 anos atrás e por 10 anos, e ele não de lembra mais de mim. Vai acontecer igual com vocês. Passem bem.
Fui para meu Baron que estava a uns 20 metros e aparecia em todo seu esplendor pelo blindex da sala de espera. De cima da asa dei uma última olhada e vi aquele bando de homem me olhando com o Oswaldo Panzarini no meio deles. Fiquei muito puto e cheguei a me questionar quantas outras pessoas tinham passado pela minha vida e deixado marcas, sem que eu deixasse a mais leve pegada em suas vidas. Tínhamos o mesmo nível, estávamos em início de carreira, tudo igual. Eu recordava as feições, voz, nome, sobrenome e tudo mais dele, até que o filho da puta tinha pressão alta e o cara absolutamente nada de mim.
Fiquei muito tempo com isso na cabeça até que na semana passada aconteceu diferente. Estava na distribuidora de carne trabalhando quando me avisaram que tinha um Miguel no telefone. Quando perguntei "Que Miguel?" a secretária se enrolou toda e disse que era um sobrenome incompreensível e “irrepetível”. Na hora eu falei:
- Vourakis?
Ela abriu uns olhões e respondeu:
- Acho que é isso mesmo.
Atendi e era o Miguel Vourakis, companheiro de Mecânica pesada, igual ao Oswaldo, do departamento comercial também, igual ao Oswaldo, e que tínhamos feito amizade participando de concorrências pela empresa, igual ao Oswaldo, e isso tudo há 30 anos, 10 anos mais do que o encontro com o Oswaldo. Larguei o que estava fazendo e fui até o hotel me encontrar com ele. Tinha vindo com um grupo de amigos para pescar no pantanal e desde a chegada estava tentando me encontrar, pois queria saber como e o que eu estava fazendo. Ficamos duas horas conversando. Lembramos do Milton Cabral, Adilson Wanderlei, que infelizmente parece que faleceu, Jose Rui, Marcos Samecima, Osny Orseli e toda a turma do comercial. A medida que íamos conversando íamos lembrando de todo pessoal. No final, contei a ele sobre o acontecido há 10 anos e como tinha ficado contente em saber que ele estava bem e que se lembrava de mim, exatamente ao contrário do veado do Oswaldo.
Ele estava se aposentando, tínhamos a mesma idade e ia começar a passear com a esposa. Fiz ele prometer que a primeira viagem ia ser com a família para o pantanal. Ele me fez acreditar novamente que as coisas imprimem igual nas memórias das pessoas e o Oswaldo que era a exceção. Ainda bem.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O chato

Tem pessoas que são inesquecíveis e pelos mais diferentes motivos. Os muito engraçados, os muito legais, os muito amigos e os muito chatos. Dessa última categoria teve um que superou a todos e, principalmente, as minhas próprias expectativas. Foi o cara mais chato que já conheci na vida. Trabalhávamos na mesma empresa e ele era o assistente do diretor. Sua função era de olheiro. Vivia sondando todo mundo para contar ao chefe quem fazia o que. Era temido pelos enroladores, que viravam bajuladores, e ignorado por quem trabalhava sério e achava aquela função ridícula. Minha equipe toda fazia parte do último grupo. Para ter a possibilidade de entrar em todas as salas oficialmente, ele era o responsável pelo cumprimento das normas da empresa. Logo na contratação, o empregado recebia o manual das rotinas internas da empresa, onde constavam todos os procedimentos. Ele tinha que fiscalizar quem não estava cumprindo os mesmos, descobrir o porquê, e então, ou denunciar o caboclo ou corrigir as rotinas. Numa dessas correrias, normais em um departamento de engenharia, onde os prazos estavam estourando, pulei uma série de etapas dos procedimentos de compra: Ao invés de fazer um pedido ao setor responsável para marcar uma reunião com o setor técnico do fornecedor, comecei a fazer isso direto e por telefone. Era algo assim, e estava completamente fora das regras. Recebi a sua visita e a conversa foi sobre as rotinas de compra, que tinham que ser alteradas, para permitir, em casos de urgência, que a engenharia fizesse os contatos com os fornecedores e resolvesse as pendências técnicas. Ele não concordou e argumentou que aquilo poderia facilitar possíveis fraudes. Contra argumentei que não via a coisa dessa maneira uma vez que a autorização seria dada para o contato ser feito por uma pessoa de nível hierárquico maior que o do comprador, e conseqüentemente, mais confiável. A discussão parou ali e a coisa ficou mal resolvida.
Tem um detalhe que estava me esquecendo, o assessor tinha um trejeito que, se não era gay, servia numa emergência, na falta de um.
Passado uns dias, estava em uma reunião com todos os meus responsáveis pelos projetos em andamento, quando esse cara me entra na sala interrompendo tudo e me atira seu capacete. O mesmo quica sobre a mesa e quase me atinge e aos berros, me fala:
- Quem o senhor esta pensando que é?
Na hora eu fiquei completamente sem ação, pois não podia imaginar o que despertou tal ira na bichinha. Ele se aproximou de mim e continuou:
- Que parte você não entendeu? Você não esta autorizado a entrar em contato com fornecedor nenhum.
Aí caiu a minha ficha do motivo da raiva dela. Não ia me justificar na frente de meus subordinados. Gentilmente pedi que ele se retirasse da minha sala e que quando eu terminasse a reunião o chamaria para conversarmos. Ele se aproximou mais de mim ainda e falou que não tinha mais conversa nenhuma comigo. A raiva contida começou a me dominar e me levantei. Queria falar, mas o queixo já estava travado e não conseguia emitir nenhum som. O meu pessoal me contou depois, que fiquei pálido como uma cera e acharam que ia enfartar. Lembro que a última frase dele foi perguntando se eu ia ficar ali quieto. A emoção dominou a razão. Coloquei a mão direita no cós de sua calça e fui levando-o de arrasto até a porta. Ele era muito magrinho e cada vez que ele procurava parar eu dava um tranco nele. Abri a porta e o empurrei para fora. Voltei ao meu lugar e quando me sentei vi o seu capacete em cima da mesa. Na hora que o peguei ele abriu a porta novamente e, ainda no puro instinto, o atirei nele. Por incrível que possa parecer, ele o pegou no ar, agradeceu e fechou a porta. O silêncio na sala era tal que poderia escutar o peido de uma mosca. Passado uns 10 segundos alguém começou a rir, discretamente no inicio e depois as gargalhadas. Um deles comentou que ele gostou da coisa, pois saiu com a calça enfiada no rabo.
Não me lembro de, na minha vida, ter saído do sério tanto quanto esse dia. Tem um automático animal no ser humano que assume o controle de suas emoções e isso devia ser estudado pelos psicólogos e servir para diminuir a pena em caso de assassinatos. Se tivesse uma janela antes da porta, eu acho que poderia tê-lo retirado por ela, tal era meu estado de nervo.
Mas passado a raiva, não vou negar que veio uma certa preocupação com o acontecido. Tinha a meu favor que ele me desrespeitou e me agrediu fisicamente atirando o seu capacete. A enfiada de calça no rabo foi uma defesa natural. E o capacete, pelo fato de ele tê-lo pego no ar, foi só uma maneira indelicada de devolvê-lo. Antes de ser chamado na diretoria, fui ao meu gerente e contei o ocorrido.
Para minha surpresa, a bichinha voltou a minha sala, bateu na porta, pediu licença para entrar, pediu desculpas e me convidou para jantar em sua casa. Só me tranqüilizei quando ele falou que podia levar a esposa. Não se tornou meu amigo, pois não era meu tipo de jeito nenhum, mas nunca mais levantou a voz comigo e consertou a norma permitindo que a engenharia pudesse ter contatos preliminares para definir questões técnicas. Precisava mesmo de uma enfiada de calça no rabo.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Mecânica Pesada

Entrei na Mecânica Pesada em agosto de 1974. Tinha 24 anos recém completos, um ano e meio de casado e uma filha de 6 meses. Hoje tenho certeza de que foi a melhor época da minha vida. Fiquei 10 anos e 4 meses e saí para trabalhar na empresa de meu pai e que se chamava Marinho e Cia Ltda. Mesmo assim eu passei uns 5 anos ainda dizendo que ia para a Mecânica Pesada quando saía para o serviço. Quando abri a minha construtora, a Marinho Engenharia, quis chamá-la de Marinho Engenharia e Projetos, só para a abreviação ser MEP também, que era como tratávamos carinhosamente a Mecânica Pesada. Entrei como engenheiro de cálculos e saí como chefe de departamento de Engenharia e Métodos. Participei da construção das maiores usinas hidroelétricas desse país, projetando seus equipamentos hidrodinâmicos. Foram, que eu me lembro, Itaipu, Paulo Affonso VI, Porto Primavera, Sobradinho, São Simão, Taquarucu, Rosana, Três Irmãos, Pedra do Cavalo, Emborcação e mais um lote de porte menor. Os clientes eram poucos, a CESP, CHESF, Itaipu Binacional, Furnas, CEMIG, CELG e mais alguma que devo estar esquecendo. Era um monte de equipamentos que estavam em várias partes da usina, como na tomada d'agua, casa de força, tubo de sucção ou vertedouro e ainda as eclusas, para permitir a navegação. Às vezes tinham até três usinas em projeto e com uma quantidade enorme de equipamentos. Era uma loucura. A Engenharia tinha umas quarenta pessoas entre calculistas, projetistas e desenhistas. Cada equipamento tinha um engenheiro responsável pela execução e aprovação do projeto. Lembro-me de todos eles e de suas características principais.

O Antonio Benedito Pereira, era o mais tranqüilo e um trator para trabalhar. Ideal para coisas de curto prazo. João Scherer, meu vizinho, muito detalhista. Bom para coisas complicadas. Luis Fernando, projetista de primeira e formou-se em engenharia depois. As coisas apertavam e ele ia para a prancheta (aquela mesa em que se desenhava antigamente, antes dos computadores). Tinha ainda o Rubinho e o Laércio Ferreira, que estavam começando quando eu já estava de saída, mas bons engenheiros e amigos.. Na área de cálculos tinha a d.Virgínia, esposa do Choulian, meu chefe, o Flavio Luis Ferreira, que eu levei para lá, pois era meu colega de classe na engenharia civil, a Michelle, filha do Karmazim, meu amigo francês, o Marco Antonio, que se formou e começou conosco, o Luis Antonio Bovo que foi meu aluno na faculdade de Taubaté e como foi o melhor da classe, levei-o para a MEP também e outros que a memória já está me pegando. Não posso esquecer do meu primeiro estagiário e subalterno direto, o Antonio Carlos Tonini, que depois se transformou em um grande calculista. Ele foi contratado na época do cálculo das pontes de 450 toneladas de Paulo Affonso IV. Eram as maiores do mundo. A primeira fase era o projeto do caminho de rolamento, o trilho fixo no concreto, que tinha que ser passado para o cliente com muita antecedência, pois interferia na parte civil, na construção da casa de força. Troquei as bolas e ao invés de uma medida que tinha 150 mm entrou nos cálculos como 150 cm. O erro foi visto a tempo, mas me deixou totalmente inseguro com o tamanho da merda que daria se ele tivesse passado. Convenci o Choulian de contratar um estagiário que verificaria todas as contas e então veio o Tonini. O cálculo de um equipamento tinha aproximadamente umas 500 folhas e devia ser feito de modo que o cliente pudesse analisá-lo e aprová-lo. Então, além de bem feito tinha que ser didático. O Tonini tinha que entender e corrigir as contas. Nunca vi ninguém aprender tanto e em tão pouco tempo, como nessa posição.

Com o cálculo era feito um ante projeto e este ia para a mesa do projetista, que tinha que desenhar aquilo tudo, verificando as interferências e detalhando cada peça que ia ser fabricada. Ali tínhamos verdadeiras feras e que conheciam tudo de projetos. O Romeu Gamberini, o Juan Garzon, Joaquim português, Nivaldo e vários outros. Não era a toa que a MEP era tida como a melhor empresa do ramo neste país.

As coisas foram muito bem até que começou a crise política. Colocaram o Delfim Neto para distribuir melhor a renda do país e ele começou pelos assalariados, tirando dos que tinham um pouco e passando para os que não tinham nada. Era o tal do achatamento salarial. Quem ganhava mais do que o equivalente a 5000 dólares, tinha um reajuste salarial de 80% do valor da inflação. Os que estavam de 4000 a 5000 o reajuste era de 85%, e assim ia até o salário mínimo que era de 130%, ou seja, aumentava dos miseráveis tirando dos pobres e remediados. Em pouquíssimo tempo fui passando de bem de vida, para remediado e rapidinho não tinha mais como pagar as prestações da minha casa na CEF. Foi a maior sacanagem que fizeram com a classe média assalariada desse país. Foi então que o útil uniu-se ao, não só agradável, mas necessário. Começamos a nos preparar para voltar para nossa Corumbá, encerrando uma fase importante da minha vida, a de engenheiro Mecânico. Tinha novos desafios pela frente.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Nova Avanhandava II

Continuando...
Pegamos o carro e fomos para o aeroporto de São José dos Campos. De Taubaté até lá eram 40 km que percorremos em 20 minutos. O Antonio já enjoou no carro e chegou ao aeroporto vomitando. O avião já tinha pousado e o pessoal da CESP estava todo lá. Os Eng. Lino Yasuda, chefe de engenharia, o eng. Aldo da programação e o Eng. Celso Ortiz que tinha acompanhado e aprovado todo o projeto. O clima era muito tenso, pois estávamos todos igualmente envolvidos. Nós tínhamos projetado e fabricado e eles tinham aprovado o projeto e acompanhado toda programação. Como tinha tido tempo para pensar durante viagem e já passado o susto inicial, quando me perguntaram o que eu achava que tinha acontecido, apliquei o mesmo golpe do Choulian e disse que deveria ser, com toda a certeza, alguma besteira do pessoal da montagem e saíram com essa de ter estourado a comporta da tomada d'água. O pessoal já começou a se tranqüilizar e quando o Choulian chegou parecíamos um grupo indo para o campo de futebol ver seu time jogar.

Para entender o que aconteceu na usina é preciso conhecer os princípios de funcionamento de uma hidroelétrica. Você faz uma barragem em um rio e represa a água criando uma diferença de nível e conseqüentemente uma energia potencial. Essa água, através de condutos que são chamados de adutoras, passa pelas turbinas e fazem-na girar transformando a energia potencial em cinética. Acoplado as turbinas estão os geradores que transformam a energia cinética em elétrica. Por problemas de cavitação, que é a existência de bolsas de ar no meio da água, essas turbinas tem que trabalhar afogadas, ou seja, elas ficam abaixo do nível de jusante. Para isolar esses equipamentos na hora de fazer manutenção, você tem uma comporta que fecha a entrada das adutoras, que são as comportas da tomada d'água e uma outra comporta que fica após as turbinas e, quando fechada, permite o esgotamento da água que já passou pelas turbinas e são chamadas de comportas do tubo de sucção.

Chegamos a nova avanhandava às nove horas da manha e, após esperar o Antonio vomitar mais um pouco, acho que desta vez as tripas, fomos direto para o escritório do canteiro de obras. Éramos mais esperados que ambulância com desfibrilador e todos queriam saber como inaugurariam a usina em 30 dias com esse desastre. Choulian tomou a frente e disse que precisava fazer o diagnóstico antes de dar o remédio e isso começava por ver o paciente. Fomos para o alto da barragem ver as comportas da tomada d'água. A barragem servia de estrada ligando as duas margens do rio e chegamos de carro até lá. Tinha um buraco muito fundo naquela imensa estrutura de concreto e a 40 metros abaixo da crista da barragem estava a nossa comporta. Olhando lá de cima o que se via era uma nuvem de água, como um chafariz. Depois de observar o mesmo. Choulian, com todos atrás, olhou para montante do rio e deu risadas. Quando o chefe da usina perguntou o motivo que ele queria rir também, ele só disse:
- Se tivesse estourado a comporta o lago estaria secando e você veria um vórtice sendo formado aqui. Aquele chafariz que você está vendo é um vazamento da vedação superior da comporta e que se for menor que 300 litros por metro por minuto está dentro das normas e acho que não chega a 20. Nossa parte está em ordem.
O chefe da usina, que foi o causador da confusão toda, ainda quis discutir quando o Lino pediu ao Choulian que os ajudasse a resolver o problema. Fomos até o escritório da engenharia da obra e o Choulian pediu que verificassem qual era o nível da água dentro da usina e se ela estava estabilizada e se as bombas de esgotamento estavam funcionando normal. Verificaram que era o nível de jusante e todas as bombas estavam a toda potência. Choulian mandou desligar todas e observar se o nível ia aumentar. Feito isso e como o mesmo não mudou nada depois de uma hora ele fechou o diagnóstico:
-Chamem mergulhadores que a borracha da comporta do tubo de sucção estourou. A água que está na sua usina é de jusante e não de montante e esse equipamento não é de nossa fabricação.

Não deu outra e fechamos o diagnóstico. Pediram que projetássemos nova vedação com os equipamentos que tínhamos na obra. Ficamos três dias e trabalhamos como loucos, mais de 16 horas por dia. Recebemos cuecas e camisetas com o desenho da usina estampado no peito e ficamos todos uniformizados. Quando voltamos para Taubaté, com tudo atrasado, tivemos que continuar no mesmo batente por mais dez dias para colocar tudo em ordem. Foi um susto e tanto, mas que deixou muitas saudades.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Nova avanhandava

Ano de 1978 e estávamos voltando de uma missão na usina de Emborcação. O Neiler chefe da montagem, o Miguel Vouraski do Comercial e eu da engenharia. Nosso avião pousou em São Paulo às 18 horas e ainda íamos para Taubaté. Era hora do rush e estava começando a chover. De bom só tinha que era sexta feira e teríamos o fim de semana para descansar, pois a viagem tinha sido exaustiva. O motorista da Mecânica estava nos esperando e embarcamos no carro com destino a Taubaté. Parados no trânsito, uma garoa fina caindo quando uma velhinha aborda o Neiler que estava na frente e oferece um bilhete da loteria federal. Ele ficou com pena da velha e fez uma cota para comprar todos os bilhetes dela. Concordamos em participar, mas coloquei a condição de que ele ficasse como responsável de acompanhar e de me avisar se tivéssemos ganhado, pois eu não ia lembrar e nem sabia como conferir. Foi quando ele falou:
- Deixa comigo. Corre no sábado a noite, no domingo no primeiro horário eu já te ligo para avisar que você está milionário. Combinado?

No sábado fomos a São José dos Campos visitar Mena e esqueci daquilo. Domingo, não devia ser 7 horas da manhã quando toca o telefone. Bea levanta para atender e me acorda dizendo que um tal de Neiler estava no telefone e tinha que falar urgente comigo. Levantei num pulo e com a imagem da velhinha na cabeça, já me sentindo milionário. Fomos recompensados por aquele ato de caridade. Não tinha levado isso em consideração nos cálculos de probabilidade. Estava provado que nem tudo na vida era matemática. Que lição estava tomando com essa demonstração do além. Mas... e se fosse sacanagem do Neiler? Não podia ser brincadeira, pois eu tinha um cargo mais alto que o dele, acho que ele não teria coragem de fazer uma merda dessas comigo. Tudo isso me passou pela cabeça no percurso da minha cama até a sala onde estava o telefone. Me controlei ao atender para não ir perguntando quanto tínhamos ganhado.

Quando ele começou a falar eu tive a maior mudança de humor da minha vida. Passei de engenheiro bem sucedido e milionário para presidiário que tinha, com a sua burrice, causado prejuízos imensos a sua empresa e, quiça, a seu país. Não podiam ser notícias piores para um calculista e depois do meu alô, ele já foi falando:
- Tadeu, acabei de receber um telefonema do pessoal da Cesp sobre a Usina de Nova Avanhandava. A usina está inundada. Parece que estourou as comportas da tomada d'água.

Como papai já disse a história se repete e mais uma vez comigo mesmo. Lembrei do japonês da manutenção quando disse que meu pórtico ia cair e derrubar o prédio. Agora o engenheiro de montagem estava me falando que inundei uma usina. Mais uma vez, se tivesse bosta pronta eu me cagava todo. O pesadelo de todo calculista é sua estrutura vir abaixo e estava acontecendo comigo. Lembrei do Choulian e do Japonês burro e quando consegui falar, depois daqueles gemidos característicos, falei:
- E aí, quem passou as notícias e quais as providências?
Acho que impressionei o Neiler com tanto sangue frio, isso por telefone, pois pessoalmente ele não ia ver sangue nenhum, devia estar branquinho que nem uma cera.
- O Pessoal da Cesp (era a dona da usina) e estão mandando um avião chavante de 8 lugares para o aeroporto de São Jose dos Campos, e tem 3 lugares disponíveis para nosso pessoal ir para lá. Se precisar levar mais gente teremos que fretar um. Na hora eu achei que tinha que levar o departamento de engenharia inteiro, mas com três lugares iria eu, com certeza, o Choulian e o Antonio Benedito Pereira que era o responsável por esse projeto. Eu tinha um engenheiro coordenando cada projeto.

O Choulian estava em Ubatuba, ele sempre passava os fins de semana em sua casa de praia. Liguei primeiro para o Antonio e pedi que ele fosse a Mecânica e pegasse o projeto completo do equipamento, trouxesse para minha casa e se preparasse para embarcar para Nova Avanhandava. Ele ainda quis questionar se não poderia ir de ônibus, que desse negócio de aviãozinho ele não gostava muito. Desliguei sem responder e já toquei para o Choulian e falei com D. Virginia. Apesar de ser cedo ele já esta correndo na praia, mas ela me tranqüilizou que iria encontrá-lo e ele me ligava. Fui me aprontar para a viagem, já pensando em como minha promissora carreira acabara tão cedo.

Em menos de 10 minutos o Choulian me retornou e relatei a conversa a ele e as providências que já tinha tomado. Ele me tranqüilizou dizendo:
- Deve ser mais uma burrice desse pessoal da montagem, ou o nosso ou o deles.
Vou subir daqui direto para São Jose dos Campos. Encontramo-nos lá em duas horas. Segure o avião se você chegar primeiro. Saí com o Antonio, o projeto e sem nenhuma mala. Achava que até o fim do dia estaria de volta, mas quá.

A viagem eu conto no capítulo Nova Avanhandava II.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Paulo Afonso IV

Estava em minha sala na Mecânica Pesada, quando fui chamado pelo meu gerente Choulian que estava em uma reunião de diretoria. Fiquei meio apreensivo pois não era uma coisa usual e quando cheguei o assunto eram as Pontes Rolantes de Paulo Affonso IV. Tínhamos que reduzir alguns custos, pois estávamos em segundo lugar. Como o primeiro não tinha preenchido todos os quesitos do edital, ia ser feito um confronto entre os dois primeiros, e a Chesf ia aceitar algumas diferenças na especificação. 
Com isso teríamos oportunidade de baixar os preços. Quando falei que, provavelmente ficaria mais caro se fizéssemos como eles, o diretor propôs cortarmos o que pagaríamos a França para eles mandarem alguém para acompanhar os cálculos e projetos mas para isso precisava da opinião da Engenharia. Ficamos naquela posição de concordar ou confessar nossa burrice. O Choulian falou para mim que "achava" que eu tinha capacidade de fazer sozinho mas que a última palavra seria minha. Como todo rapaz de 25 anos é louco, topei. Ia construir as maiores pontes do mundo e não teria assistência nenhuma do pessoal da matriz e eu me lembrava que eles estavam com medo da responsabilidade, apesar de toda experiência.
O cálculo foi feito da maneira mais detalhada possível. Não tinha um parafusos que não tivesse sido verificado. O cliente era a Chesf, Companhia Hidroelétrica do São Francisco, e o engenheiro responsável pela compra e verificação do equipamento chamava-se Fernando Samico. Acabamos por ficar muito amigos pois éramos da mesma idade e tínhamos esse equipamento como nosso grande desafio. Eu fazia e ele verificava todos os cálculos e projetos e era quem aprovava os mesmos antes do início da fabricação. Isso durou 6 meses quando, com o projeto aprovado, iniciamos a construção. As pontes ficaram prontas e era algo assustador. As vigas, que normalmente tinham 70 cm de altura, em Paulo Affonso tinham 2,80 m. Todos os equipamentos elétricos ficavam dentro delas. Tinha um sistema de pressurização que não deixava poeira entrar dentro e era um grande armário elétrico. Era a coisa mais linda. No dia do teste de carga, iam colocar 650 ton em teste dinâmico e 810 ton em teste estático. Não pude acompanhar, se bem que não fiz muita questão. Nunca tive coragem de entrar na sala de parto para ver meus filhos nascerem e também estava meio acovardado no dia do teste. Mas me lembro do telefonema do Fernando. Estava na minha sala quando a secretária falou:
- Dr. Fernando na linha. Vai atender?
Com o telefone em uma mão, o cú na outra e o coração na boca, falei:
- Passa.
Ele todo eufórico me falou:
- Cara, vivi a maior emoção da minha vida. O pessoal estava todo preocupado e para demonstrar confiança no equipamento eu fui junto com o operador. Estava preocupado com os comandos e quando perguntei pro operador se já tinham liberado os macacos hidráulicos para o carregamento estático, ele mandou eu olhar para baixo. Aí eu vi aquela carga de blocos de concreto de 810 toneladas balançando. Fiquei com os olhos marejados de lágrimas. O teste dinâmico foi um espetáculo também. Todo mundo batia palmas para o equipamento e nessa hora eu lembrei muito de você. Quando desliguei o telefone, senti aquela sensação de sucesso pela primeira vez na vida, além daquele alívio de quase surpresa do: "Não deu merda?".
Depois me acostumei e construímos os equipamentos das maiores hidroelétricas desse país, como Porto Primavera, Nova Avanhandava, Rosana, Taquarucu, São Simão e a maior delas, Itaipu. Foram comportas, pontes rolantes, pórticos em um sem número. Tínhamos uma equipe espetacular, acho que não existiu outra igual nunca mais. Participávamos de concorrências internacionais e ganhávamos até de nossa licenciadora. As pontes de Paulo Affonso VI serviram não só para adquirirmos auto confiança, mas confiança dos demais departamentos da empresa.
Juntos, cálculo e projeto mecânico, onde eu comandava e projeto elétrico onde o chefe era o Eng. William, tudo coordenado pelo nosso gerente, o Eng. Choulian, éramos imbatíveis. Bons tempos!

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Gui Arnould

Quando começamos a fazer o orçamento das pontes de Paulo Affonso IV, o Choulian, como Gerente de Engenharia resolveu pedir apoio a Delatre Levivier, uma empresa francesa do mesmo grupo da Mecânica Pesada. Ela enviou um francês ao Brasil para nos ajudar na execução do orçamento das pontes, o Sr. Guy Arnould, projetista de uns 50 anos e muito prático nesses equipamentos, mas que também nunca tinha feito nada desse tamanho, já que essas pontes seriam as maiores do mundo. Iríamos trabalhar juntos por aproximadamente um mês, que era o prazo para apresentação da proposta. Ele não falava uma palavra de português, e eu não falava nem uma em francês. Fizemos o ante projeto e no final do mesmo estávamos nos entendendo, mas houve um lance muito engraçado. Não sei como mas discutíamos muito. Certa vez, não chegando a um acordo, ele me disse:
- “Fait comme vous voulez”.
Não falo francês até hoje mas significava algo como "faça como você quiser e não me encha o saco". Pelo tom de voz dava para ver que era algo meio grosseiro. Como não sabia mandar tomar no rabo em francês, eu fiz do jeito que achava certo. Quando terminei a minha parte, tínhamos dividido os serviços, ele veio, meio brabo, querendo saber porque eu tinha feito daquele jeito. Mandei no meu francês:
- “Vous dit, fait comme vous voulez, je fait comme vous vouli”.
Achei que estava falando, “já que você me falou faça como quiser eu fiz como eu quis”, mas estava totalmente errado e quando olhei, todos que sabiam falar francês estavam morrendo de rir e o Guy me olhando querendo entender em qual língua eu estava falando, uma vez que misturávamos inglês com espanhol, mas nunca francês ou português.
Mas chegamos no fim dentro do prazo e fomos a Salvador apresentar a proposta. Os orçamentos de todos os fabricantes eram dividos em duas partes totalmente separadas. Uma técnica com a descrição do equipamento, sua performance, os desenhos de conjunto e todas as questões levantadas no edital de concorrência. Nessa parte não poderia conter nada de preço. E outra, só de preços, que era aberta depois que todos vissem a parte técnica uns dos outros. Eu estava tão por dentro de cada detalhe que só de assinar todas as páginas das parte técnica dos concorrentes, chegava no fim com uma boa idéia do que cada um tinha proposto e como tinham resolvido os problemas que tínhamos encontrado no decorrer do orçamento.
Quando abrimos os preços, tínhamos ficado em segundo lugar e perdido para uma empresa alemã. Mas eu me lembrava da proposta técnica deles. Fiz um relatório para a diretoria explicando que nossa ponte era mais cara mas necessitava de menos investimentos na parte civil pois a carga era melhor distribuída e outros argumentos mais. No fim o primeiro lugar foi desclassificado e ganhamos a concorrência.
Ia fazer a maior ponte rolante do mundo e fiz um grande amigo na França.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Meu primeiro cálculo

Quando entrei na Mecânica Pesada, em 1974, toda minha experiência como engenheiro, era na área de orçamentos da Bardella, onde trabalhei por um ano. Na Mecânica fui para a área de cálculos, que era o coração e início de todos os projetos. Era meu sonho. O primeiro equipamento que calculei foi um semi-pórtico de 10 toneladas para a própria Mecânica. Estava super ansioso no dia do teste de carga e com medo. Tinha pesadelos sonhando que ia tudo pro chão. Para completar, fizeram o teste sem a presença de ninguém da engenharia e vieram com a noticia que ia cair mesmo. Na hora, quase me caguei todo, mas o Choulian, macaco velho e conhecendo o portador da notícia, respondeu na hora que era alguma burrice que eles estavam fazendo e que ele já estava descendo. Me tranqüilizou e descemos para ver o que estava acontecendo.
O equipamento era para o departamento de manutenção da Mecânica e seu chefe era um japonês fora da curva, só que pra baixo, "burro" era elogio para ele. O semi pórtico é uma mistura de pórtico com ponte, ou seja, de um lado ele tem pernas e o trilho fica no chão e de outro o trilho é elevado e fica apoiado em uma viga de concreto quase no teto do prédio. Ele tem dois conjuntos de acionamento, motores e freios, um para as rodas de cima e outro para as debaixo. Na parada os freio de baixo, por problemas de montagem, não acionavam, só os de cima e o equipamento se torcia e balançava todo o prédio. O Choulian, na primeira freada do equipamento já viu o problema.
Chamou o japonês e disse:
- Quero saber em que você vai fazer manutenção, se o que é seu esta desse jeito. Você é muito ruim. Você só não derrubou tudo porque está muito bem projetado.
Quase dei um beijo nele, pois já estava pensando em mudar de ramo e ir vender bananas na feira. No dia seguinte, sanado o problema do japonês ruim, passei umas duas horas vendo o bichão operando e fiquei muito orgulhoso.
Estava me sentindo o máximo quando chegou o edital de concorrência para fabricar as pontes rolantes da casa de máquina de Paulo Affonso IV, da CHESF. Teriam capacidade de 450 toneladas e seriam as maiores do mundo. Iríamos participar da concorrência e, ganhando, eu, com minha vasta experiência nos cálculos de um pórtico de 10 toneladas, seria o calculista. Estava super ansioso para ganhar. Já tinha esquecido o susto do japa burro.